quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Prometo não cumprir o que prometo


Todo final de ano, a gente dá uma sacudidela na historinha, que é sempre a mesma: prometo não cumprir o que prometo. E lá vamos nós prometendo coisas para realizarmos (?) no ano novinho em folha, que está por chegar. Não há limites.
Os mais econômicos e práticos tratam logo de buscar a agenda do final do ano passado, reforçar a promessa, soprando a poeira do tempo que passou. Promessa pra si mesmo é sempre uma coisa boa, saudável, acho eu. Penso que prometer aos outros, seja quem for, é comprometer-se demais com o que a gente nem imagina. Sei lá. Não costumo prometer coisa alguma – nem a mim mesma.
A verdade é que a maioria aproveita o finalzinho do ano, pra prometer que “ano que vem, sim, vou fazer aquela dieta”, ou “vou parar de beber”, “vou parar de fumar”, “vou abrir uma caderneta de poupança”, “vou procurar um trabalho que me dê mais dinheiro”, “vou escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho” (nem sempre nesta mesma ordem), etc, etc, etc e tal. Acho mesmo que promessas assim são feitas pra renovar as esperanças, ou a esperança de uma “vida nova”. Mas promessa é só promessa – cumpri-la é outra história. Continuamos agindo assim, até a morte, que chega, antes ou depois de qualquer final de ano...
Se eu prometo, nesta época, alguma coisa a mim mesma, lá no fundinho (da alma), sei que estou prometendo o que não vou cumprir. Mas preciso prometer alguma coisa a mim mesma, pra eu (quem sabe?) continuar acreditando em mim, e até depositando maior auto-confiança. Renovando esperanças (“ano que vem será diferente, bem melhor do que este”), eu crio o 'clima', junto com a euforia, de alguma coisa nova, especial. Assim, acho que a promessa 'funciona'.
Afinal, não podemos, a cada “virada de ano”, jogar todos os sonhos fora, e simplesmente direcionarmos nossas mãos vazias aos céus. Precisamos de alguma perspectiva concreta, certamente, mas, mais que isso, precisamos de sonhos - novos e antigos sonhos - vivos. Pra isso, na minha opinião, servem as promessas de final de ano. Por mais utópicas que pareçam, nossas promessas traduzem nossa vontade de viver, e continuar vivendo.
Há criaturas, como eu, que não fazem promessas a si mesmas, muito menos aos outros. Mas continuam (continuamos) alimentando sonhos, por mais “impossíveis” que sejam aos outros. Às vezes, fazer uma dieta pode ser mais fácil a alguém que nunca pensou nisso, do que a quem prometeu vencer a “façanha”.
Independente das promessas, ou dos sonhos, o tempo continua a ludibriar os relógios - voa, imperceptível, mais “impossível” que nossos sonhos, mais persistente que nossas promessas, mais ávido que nossas esperanças...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Procura-se

Procura-se gente que saiba:
- Limpar banheiros, com sorriso estampado de felicidade;
- Cozinhar pratos dos diversos países famosos do planeta, e esquecer a receita do angu que prepara em casa;
- Lavar roupa à mão, para “poupar a lavadora”;
- Trabalhar sem parar, sem cansar, sem reclamar;
- Obedecer a “patroa”, sem questionar;
- Não trabalhar maltrapilha, e fazer 'milagres' com a “merreca” que recebe, pra sempre agradecer, agradecer aos “bondosos patrões”;
- Criar os filhos e os gatos e os cachorros dos outros, sem pensar nos próprios filhos abandonados à fome, em casa;
- Ler e escrever, exclusivamente pra ler e anotar as ordens da “patroa”, sem ler e escrever mais nada, nem raciocinar;
- Nas refeições, esperar os patrões saírem da mesa, e comer os restos;
- Não ter problemas em casa, pra “não perder tempo de serviço, com choratéu”;
- Não assistir televisão, nem ouvir radinho de pilha (mesmo trazido de casa);
- Testemunhar tudo, “na casa dos patrões”, sem fofocar em lugar algum;
- Constantemente, “puxar saco” dos “patrões” - o dono da casa, a dona da casa, os filhos, os gatos, os cachorros, os periquitos;
- Não reclamar de dores no corpo, por causa do serviço pesado;
- Olhar, sempre, para o chão, e deixar tudo brilhando, ofuscando;
- Nunca ficar doente;
- Calar, sem que a “patroa” mande, e só responder: “sim, senhora”;
- Assumir toda culpa que lhe imputem – roubo de algum 'tesouro' na mansão, ou por “comer demais” durante o trabalho.
Ah, que tenha, também:
- Auto-estima 'no pé';
- Pouco estudo e pouca visão da vida;
- Alma escrava, sempre pronta ao servilismo cego;
- Boca fechada, pra comer pouco, e falar menos ainda;
- Disponibilidade de trabalhar 25 horas por dia, todos os finais de semana e feriados, sem exigir qualquer moedinha, ou agradecimento por isso;
- Somente o gosto dos patrões, pra aplaudi-los sempre;
- Vergonha na cara, pra não pedir aumento salarial, nem folga nos feriados e fins de semana.
Procura-se um robô (última geração de perfeição), com cara e jeito de gente, de preferência reprogramável, e com controle remoto, à função de todos os serviços domésticos – muito trabalho, pouca remuneração. Motivo: Princesa Isabel morreu, sem prever que a escravidão resistiria à própria história da humanidade.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A “coisinha” da internet


Há pouco, eu estava batendo papo sobre a “coisinha” da internet, com um casal de amigos hippies, mas hippies mesmo. Não estou falando de internet, aonde todo mundo pode ser maluco, sem nunca ter sido. Às vezes, há gente que é “metida à besta” pra dedéu, pessoalmente, no cotidiano além (ou aquém) da internet, e, virtualmente, cria a imagem de ser gente boa, sem frescuras, etc e tal. Nada contra, desde que eu não tenha de subir junto no picadeiro. Quanto a mim, acredite se quiser, gosto de andar descalça mesmo, comer sem talheres – mesmo -, sou muuuuuuito chata, chata mesmo. Não sou assim por que estou, ou não, na internet. Sou só isso, ou nem isso – como costumo dizer.
Aliás (quer saber?), essa 'coisinha' da internet é mesmo 'uma faca de dois legumes': um é abobrinha, e o outro, jiló (brincadeirinha! hehehehehehehehe). A maioria das pessoas costuma dizer que se sente à vontade, na internet, pra ser quem realmente é, enquanto os outros reclamam, dizendo que essa mesma maioria mente tanto, e por isso se refugia na internet, por que, no “vamos ver de verdade”, não consegue manter suas mentiras por muito tempo. Acho que todo mundo tem razão – pronto! E a internet 'taí' pra atender “gregos e troianos” - gente que prefere 'viver' a mentira, e gente que prefere falar sobre a vida desses outros que preferem 'viver' a mentira. E não se fala mais nisso.
Por “transitar” em alguns chats, ouso comparar o ambiente com um programa de jurados. Sempre tem o “ranzinza Pedro de Lara” em ação, e também não podem faltar o “justiceiro José Messias”, a “chorona Marly Marley”, e a “excêntrica Elke Maravilha”, na companhia de outros “tipos convidados”. Quem esquece essas 'figuras' que marcaram e ainda marcam a televisão brasileira?... Acho que eu seria, num cantinho qualquer desse picadeiro, o bobo da corte, a sempre idiota que acredita e leva a sério Papai Noel até sem barba. Fico observando (aprendendo), atentamente, e lendo coisas assim (uma das mais recentes): "kem mandou nao por camisinha no mouse?"
Em outras “salas virtuais”, não aleatórias - escolhidas por mim -, participo, interajo, por me sentir à vontade pra continuar sendo a maluca que sou, nesta minha vidinha cotidiana, nada cotidiana. Até brinco com aqueles que querem criar, ou manter, uma imagem – brinco, por que somos amigos, e sei que não levam adiante a brincadeira, não desrespeitam, nem zombam de sentimentos.
Até que os relacionamentos virtuais fazem bem. Tenho uma amiga que está “namorando” um indiano que vive na Rússia, e – pasme! - fala português fluentemente, por que sonhou um dia conhecer Portugal, e pretende casar com ela no Brasil (ignorando, certamente, que minha amiga mora com os dois filhos e o marido). Poxa, todo mundo precisa acreditar em alguma coisa, pelo menos no Papai Noel (principalmente nesta época do ano). Não acha?...
Ah, mas o mais importante é ser feliz – não importa como, nem por quanto tempo!... E ainda dizem por aí que todos nós podemos ser felizes, sem fazer a infelicidade do outro. E eu pergunto: Será?... Mas a festa tem de continuar, não é mesmo?... Quem mais entra na 'dança' dessas máscaras tão descartáveis, nem sempre indolores?...

domingo, 6 de dezembro de 2009

O mês de ser “bonzinho”

Acho que dezembro é mesmo o mês de ser “bonzinho”. A maioria das pessoas passa o ano inteirinho, sem pensar na maioria das pessoas que faz parte da vida dela. Chega dezembro, sente vontade até de “beijar o português da padaria”, como canta Zeca Baleiro.
Dezembro é (quase) mês da riqueza dos pobres, que recebem doações inesperadas. Chega às favelas, todo lixo dos bairros de gente rica, ou 'ascendente ao posto'. São roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos, e até alguns eletrônicos – tudo o que foi substituído por outros produtos de melhor qualidade. Ah, muitas cestas básicas são distribuídas aos famintos, em dezembro. Até parece que os pobres coitados só se alimentam, um mês a cada ano. Nos outros onze meses, eles sobrevivem, reviram lixeiras de restaurantes, onde a gerência manda os funcionários jogarem os restos de comida fora, por que é proibido fazer doação de alimentos perecíveis (perigo de contaminação – quanta ironia!).
Alguém pode até dizer: “Que bom que existe dezembro!” Nada contra, sinceramente. Mas não consigo deixar de pensar, vivenciando dezembro, nos outros meses de cada ano que passa. Tá certo que nem um outro mês encerra o ano, nem faz lembrar mais a história cristã. Sobre isso, sem me meter em religião, ou crença, imagino que Jesus Cristo não praticava bondade, caridade, solidariedade, amor ao próximo, um mês a cada ano. Confesso que não conheço tão bem a bíblia, mas também nunca ouvi alguém (que tenha lido toda a bíblia) contar que Jesus e os apóstolos ficavam 'de férias', onze meses por ano, da missão cristã.
Agora, me vem uma idéia maluca: Será que introjetamos tanto a imagem do Papai Noel, que aparece e reaparece somente no mês de dezembro?... Conheci um velhinho que vestia-se de Papai Noel, todos os anos, e chorava miséria, nos outros onze meses. Um dia, perguntei-lhe por que eu não o via durante o ano, senão só em dezembro. E ele me respondeu, cabisbaixo: “Só em dezembro, eu tenho trabalho e salário. Nos outros meses, eu quase nem vivo”. Fiquei sabendo que o velhinho morreu, sozinho e abandonado num barraco – não era dezembro, nem ele estava vestido de Papai Noel...
Até é imaginariamente compreensível o que chamo de 'febre de bondade', que 'acomete' a humanidade, neste mês tão especial. Acho mesmo que é somente em dezembro que a maioria das criaturas humanas se permite viver a própria humanidade, talvez, justamente por que a maioria também está mais receptiva. O que começa numa iniciativa pessoal torna-se, em pouco tempo, uma troca, e depois em moto-contínuo. É assim que surgem as grandes epidemias – neste caso, 'epidemia do bem', com “tempo de vida” previamente conhecido (até 31 dias).
Em janeiro, me parece, a maioria das pessoas desperta (do 'entorpecimento de bondade', ficam as lembranças), com as cobranças para pagamento das contas feitas a crédito, no final do ano. Fevereiro é mês de carnaval, e poucos ainda falam no “natal passado”, ou na “festa da virada de ano”. Com o carnaval, vem o movimento, e tudo volta, senão ao 'normal', ao ritmo habitual: trabalho, escola, mil e uma correrias.
Em um dia qualquer, num desses meses que não são dezembro, você (ou alguém) encontra um maltrapilho (irreconhecível à tua memória) que te cumprimenta, com todo sorriso que pode te dar, com os poucos dentes que resistem bravamente à cárie. Você, sem saber quem ele é, julga apressadamente (não há tempo) tratar-se de algum assaltante, e atravessa a avenida às pressas. Você jamais lembrará (nem no próximo dezembro) que foi você mesmo quem foi ao barraco do maltrapilho desconhecido, e presenteou-lhe com a cesta básica que recebeu de um fornecedor, mais algumas “tralhas” que a tua família tirou dos armários, para dar lugar aos novos produtos comprados, recém lançados na Capital.
Não demora muito (“o tempo voa” - cada vez mais pesado), e outro dezembro chega. Como agora. E você se permite, mais uma vez, olhar para o lado, enxergar a criança que brinca na calçada, o doente arrastado por um par de muletas emprestadas, o velho que olha para o nada, sozinho, no banco da praça. E tudo isso, mais uma vez, faz brotar a sensibilidade do teu coração humano, que só tem uma fresta aberta, no mês de dezembro. Se você for mais longe no pensamento, saberá que nada muda, neste mês tão especial. Dezembro só é especial, por que você, por que eu, por que a maioria de toda gente resolvemos, juntos, torná-lo especial. Se você pensou até aqui, deixa dezembro ser dezembro, bem do jeitinho que é, mas vá adiante: se permita à humanidade, também, em janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, e outro dezembro, e mais um janeiro, e outro fevereiro, e março, e abril, e maio, e junho, e julho, e agosto, e setembro...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Carta ao Papai Noel

Querido Papai Noel,

Na ânsia de ter meu pedido atendido, espero, nesta data, ser uma das primeiras cartas a chegar aí, seja aonde for. Velhinho, do jeito que te “pintam” por aqui, você deve ter “memória curta”, curtíssima – melhor garantir logo um lugarzinho pra mim, na tua inimaginável lista.
Papai Noel, o que lhe peço não é um saco cheio – de brinquedos. O que quero (preciso), de presente, neste Natal, é um saco vazio – bem assim, como o seu, mas não cheio. Eu até entendo por que você vive de saco cheio (isso ajuda, pra que você atenda meu pedido?).
Tô precisando demais, demais mesmo, de um saco beeeeeeeem grande, e vazio, e de preferência sem fundo, Papai Noel. Não tenho sequer um saquinho, pra suportar:
- gente mal-humorada,
- gente estressada, que só reclama, e nada faz,
- gente que não tem o que fazer (será?), e fica me “observando”, me “catalogando” (sou pequena demais pra catálogo),
- gente que me procura pra alimentar fofocas,
- gente que quer me envolver em situações que sequer entendo,
- gente que acha que é “inteligente” o bastante, pra continuar sendo ignorante e orgulhoso,
- gente que quer me convencer que o melhor é viver o que chama “possível”,
- gente que (ainda) quer me moldar a algum padrão previsível,
- gente que acha que o mundo gira em torno do próprio umbigo, e que toda gente deve segui-lo,
- gente que me confunde com lixeira, ou privada,
- gente que me trata como “cobaia”, e fica me “testando”,
- gente que quer “brincar” de joguinhos comigo, dizendo: “eu faço isso; você, aquilo” (script tão previsível de dança de marionetes).

Se puder, Papai Noel, me presenteia também com um outro saco grande, vazio, sem fundo, pra eu dar a alguém que conviva com as minhas chatices cotidianas. Aos que perturbam a vidinha dos outros, dá-lhes logo um espelho, Papai Noel, como aquele que o senhor me deu, há tanto tempo, e ainda utilizo.

Por favor, querido Papai Noel, atenda meu pedido, que eu prometo continuar me descomportando sempre, como fiz até aqui. Já ganhei, de presente, do senhor, roupas, brinquedos, até material escolar. O tempo passou, Papai Noel. O que peço hoje é só o que preciso: um cadinho de paz...

Ah, se não for pedir demais, Papai Noel, gostaria muito que o senhor me devolvesse um sonho – só um pedacinho de um daqueles sonhos que eu tinha, quando criança. Há muito tempo, não durmo o sono dos sonhadores... A sirene da vida que passa pela minha visão estrábica já não me permite sonhar... é só o que peço.

domingo, 29 de novembro de 2009

Filhos da mãe


Eu soube, há pouco tempo, por uma pesquisa divulgada no País, que 20% da população brasileira está nascendo sem pai. Milagre?... Nada disso. Se alguma seita religiosa, ou igreja, afirmar que é “obra do senhor”, não acredite – nem na “obra”, muito menos no “senhor”, que, no final do 'espetáculo', passa sempre a “sacolinha do dízimo”.
É que o nome do pai já não aparece com tanta frequência, nos registros de nascimento. Obviamente, a pesquisa não inclui os brasileirinhos que não têm certidão de nascimento – sem pai, nem mãe, literalmente, ou, melhor, judicialmente. Diante disso, eu fico – ou vou – pensando: O que pode causar a ausência de reconhecimento paterno? Tanta coisa, tanta coisa – tanta coisa eu imagino, sozinha (imagine se eu imaginasse com mais gente imaginando).
Cá entre nós, sabemos que muitas adolescentes engravidam – e ainda são expulsas de casa pelos pais, ou obrigadas a casar, quando o 'adolescente pai' é de família conhecida (e com alguma grana, obviamente). Nossa! (tradução de “uau”, em filme norte-americano) Como repetimos a história dos tataravós de nossos bisavós!... A verdade é que essas “mães impetuosas” têm filhos sem pais, na maioria das vezes.
Não vou 'baixar' aqui o moralismo que eu condeno, na prática cotidiana da minha vidinha insignificante. Acho mesmo que o velho discurso de “moça de família” etc e tal envelheceu tanto, ficou “gagá”, e um dia morreu espirrando, ou engasgado com uma casquinha de pão francês (ou era noite?).
A instituição familiar começou a mudar (se bem lembro), quando surgiu o famoso e inesquecível “desquite”. Mulher desquitada era mal-vista, mal-falada – acabava mal mesmo, em tudo, por causa da discriminação. Nunca conheci um homem mal-falado. Você conhece algum?... Apresente-me. Com o tempo, a mulher desquitada passou a ser vista como “pobre vítima da natureza” (“Vingança maligna!” hehehehehehehehehe)
Ah, mas depois evoluímos – fomos parar no “divórcio”. Aí, a 'coisa' da separação de casais virou moda. Lembro que eu tinha colegas de aula que se vangloriavam, e mantinham uma empáfia especial (e inesquecível), para dizerem: “Meus pais são desquitados”. Mas, no olhar sarcástico, elas diziam mais: “Meus pais são desquitados; os teus, não”. “De cara”, eu nunca entendi como a separação dos pais podia ser razão de troféu de orgulho, ou medalhinha de vaidade, àquelas filhas. Como meus pais morreram sem desquite, ou divórcio, acabei por não saber o que orgulhava tanto aquelas garotas.
Mas - moda vem, moda vai - agora já nem se casa mais, pra separar depois. E o Brasil, como o resto do mundo, vai somando altos percentuais de filhos da mãe. Do pai, a presença (essencial = 'espermatozoidal') de participação – e não precisa mais se falar sobre o assunto. Se muitos nascem sem pais, em condições de miséria, há outros filhos de mulheres que levaram a sério a “revolução feminina”, e resolveram colocar em prática os discursos feministas.
No meio desse “samba do crioulo doido”, a família, como instituição, tem hoje diversas versões, que multiplicam-se a cada instante, para todos os gostos, ou desgostos. Há “casamento de fachada”, pra manter a imagem de família. Há filhos da mãe, que nem sonham com o nome do próprio pai. Há filhos criados pelo pai, por que a mãe fugiu de casa. Há filhos com duas mães, sem pai. Há filhos com dois pais, sem mãe. Há pai sem mãe. Há mãe sem pai. Há filhos sem pai, nem mãe. Há “pães” também. O que sei é que há, e há muita gente, em todo lugar – e, onde há gente, a gente sabe que foi feita em nome do pai, e da mãe. Um dos dois pode até negar, mas isso (ainda) não mudou: a gente continua nascendo de duas gentes, e a gente, com outra gente, vai fazendo mais gentes, neste universo de gentes – gentes tão diferentes, e tão gente. No meio desse mundaréu de gente, alguém (ainda) grita: “Tem gente!!!”

… Sobre o que mesmo eu comecei escrevendo?... Putzzzzzzzzzzzzzzz

Ah, sim! (Oh! Não!) Eu escrevia que eu soube, há pouco tempo, por uma pesquisa divulgada, que 20% da população brasileira está nascendo sem pai. Milagre?... Nada disso. Se alguma seita religiosa, ou igreja, afirmar que é “obra do senhor”, não acredite – nem na “obra”, muito menos no “senhor”, que, no final do 'espetáculo', passa sempre a “sacolinha do dízimo”... (Você não vai querer reler esta 'merda', né? - ou vai???)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desmitificando Clarice Lispector – O começo do fim


Nos meus dez anos de idade, a escrita de Clarice Lispector me foi apresentada por uma professora, que, analisando as minhas “composições” (segundo ela, na época, “nunca narram fatos”), me levou à biblioteca da escola, dizendo: “Eis aqui alguém que escreve como você”. Com o livro nas mãos (“Perto do Coração Selvagem”), agradeci em silêncio, pois não sabia do que exatamente a professora falava. A partir dali, me identifiquei com Clarice Lispector, minha companhia constante até hoje.
Naquela época – e faz tanto tempo! -, eu não tinha acesso à informação, no máximo, à edição de domingo do Correio do Povo (ainda tamanho standard, grandão), aonde eu me deliciava com Mário Quintana, no Caderno H, título, inclusive, de um livro dele, posteriormente lançado. Mas não é sobre Quintaninha que quero escrever – qualquer dia desses, conto pra você uma entrevista que tive com o escritor.
Pra você ter uma idéia da minha desinformação, só lá pelo final de 1978, soube que Clarice Lispector tinha morrido, em dezembro de 1977. Confesso que me doeu saber que não poderia alimentar sequer a possibilidade (esperança?) de conhecê-la, olhar profundamente nos olhos profundos dela.
Sem vaidade alguma, acho que já li e reli (tantas e tantas vezes) todas as obras editadas de Clarice Lispector, junto com livros de autores que falam sobre a “veia literária” dela, e mais matérias a respeito da escritora, incluindo até aquelas notinhas pequenas, em “pé de página”. Aliás, este ano, a atriz Beth Goulart escreveu, produziu, lançou e encenou a peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, no Rio de Janeiro. Escrevo isso, pra que você saiba do meu interesse por toda obra literária da ucraniana que tornou-se nordestina brasileira, e morreu carioca.
Talvez, por identificar-me com a escrita de Clarice, busquei 'conhecê-la', do jeito que me era, e ainda me é, possível: muita pesquisa. Pouco me interessei sobre o que escreveram ou depuseram sobre ela, por que o “mito Clarice” foi tornando-se, a cada leitura minha, gigante, e, por fim, um “monstro”. Diante do “monstro sagrado”, resolvi fazer o caminho de volta, e reler todas as cartas dela a tanta gente – cartas pessoais, íntimas mesmo (publicadas em livros, obviamente). Percebo que, de tempos em tempos, outras correspondências de Clarice Lispector são reveladas, com a edição (e todo lucro) de mais uma obra, justamente da escritora que morreu de câncer, em condição de indigente, num hospital público do Rio de Janeiro. (Ah, Clarice, se um dia você sonhasse que daria “mais lucro” morta do que viva!... - a quem: ao filho Paulo, ainda vivo?)
…Afinal, quem foi, quem é essa mulher até hoje chamada “hermética”?... Que alma é essa que deixou escrito: “Cuido dos meus filhos. Cuido da casa. O resto é mito”?... Que sonhos tinha?... Alimentou vaidades?... O que lhe fazia mal?... O que lhe fazia bem?... Como o ato de escrever se processava nela, que tentava traduzir isso, buscando compreensão?... Perguntas... Perguntas... Gosto mais das perguntas do que das respostas, que limitam e acomodam. Foi a própria Clarice quem escreveu “eu sou uma pergunta”. E eu respondo à ela: Também quero que você continue sendo uma pergunta, Clarice – sem mitificação.
Minha intenção, aqui, é uma das mais ousadas, pois pretendo percorrer a contramão de tudo o que já li e reli sobre a escritora, partindo da própria Clarice Lispector. Como qualquer ser humano, também ela escrevia cartas, sem imaginar que estivesse se revelando tanto, pois mantinha correspondência com pessoas com quem, provavelmente, buscasse, se ainda não tinha, intimidade humana. Foi Clarice quem deixou escrito que “nasci com o desejo de pertencer”. Parece que era mesmo o que ela mais queria.
Pretendo desmitificar a 'idéia' sobre Clarice, ou, senão, pelo menos, fazer pensar a respeito – não macular imagem, ou destruí-la (quem sou eu pra isso?) -, com a mais profunda intenção de, depois de tanto tempo, alguém acolher Clarice Lispector, quem ela realmente foi (é), longe da mitificação toda, que a fez silenciar. Nas minhas leituras e releituras, percebi que, aos poucos, Clarice foi se desintegrando. Estilhaçada, viveu sem rumo, correspondendo (ou, pelo menos, tentando isso) à imagem mitificada que deram-lhe – talvez, a única coisa que tenha recebido, depois de querer e esperar tanto.
Não pretendo, nem quero definir Clarice Lispector (ser humano algum é catalogável). Seria reduzi-la. A intenção é desmitificar a imagem que permanece dela entre nós. Se quiser acreditar no que escrevo, pesquise, e você também terá a revelação: a vida de Clarice não foi feita só de sombras, escuridão aterradora. Não. Clarice Lispector, longe da catalogação de “monstro sagrado”, foi ser humano – como você, como eu -, numa vida de luzes e sombras, risos e lágrimas, sonhos e desenganos. Ela ousou viver. E viveu tudo intensamente, me parece – tão intensamente, que bebeu até a última gota de sensibilidade. Conheceu a fragilidade mais recôndita, e não soube mais o que fazer com a vida a que se permitiu. Longe dos próprios sonhos de menina, deixou-se levar (pra onde, Clarice?) por uma realidade que se lhe apresentava cada vez mais estranha.
Deixarei meu texto na contramão, aqui, em quatro postagens, previamente escritas, após intenso e intensivo trabalho de organização, que demandou tempo, distanciamento e racionalidade. Não digo imparcialidade, por que tenho um só objetivo, neste trabalho que pretendo continuar, além do blog. Em uma semana, pretendo 'fechar' o ciclo da (tentativa de) desmitificação. Mas continuarei tentando ouvir (não interpretar) o silêncio de Clarice Lispector... (“Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras.”)

Desmitificando Clarice Lispector – O “meio do caminho”


Dos estudiosos todos da escrita clariceana, ninguém escreveu, e ainda escreve, até hoje, tão apaixonadamente como a professora de literatura brasileira Nádia Battella Gotlib, da Universidade de São Paulo (USP). Nádia, inclusive, foi a primeira a ousar ir atrás das correspondências de Clarice Lispector, guardadas pela família e por amigos da escritora. Tenho de registrar aqui minha observação, quanto ao método de pesquisa da professora Nádia. Também ela alimentou o “monstro sagrado”, usando de parcialidade, inclusive, na divulgação do teor das referidas cartas. Se o fez, para preservar a imagem da “hermética” Clarice, ou para manter viva a própria imagem que construiu da escritora, não importa. Nádia Gotlib foi e continua sendo parcial – em nome da sensatez, ou da emoção, ou por ambos os motivos, ou por outro motivo qualquer de foro íntimo.
Convivo com algumas (raras) pessoas que já leram Clarice, e outras que começaram a ler, depois de me ouvirem falar a respeito dela. O que percebo, em todos os comentários, é que, até hoje, a imagem da escritora, a partir da obra dela, paira entre a melancolia e a desesperança, beirando à loucura.
Acredite se quiser, Clarice era impaciente, e, também por isso, costumava “furar filas”, na maior “cara-de-pau” mesmo, em cinemas, agências bancárias, ou aonde quer que fosse. Quando retornou definitivamente ao Brasil, ela mesma tomava a iniciativa de recorrer a hospitais, pedindo para ser internada. Vivia à base de tranquilizantes, os quais, certamente, não lhe tranquilizavam a alma. Relendo, tantas vezes, a obra dela, percebo que não é simplesmente a escrita de Clarice Lispector, confusa. A própria visão dela (cada ser humano tem a sua, particular) aparentava uma certa confusão (mental?), no momento em que ela narrava, longe das anotações 'descosturadas', para, talvez, um outro livro. Tanto, que era hábito dela manifestar frases, repetidamente, como: “não entendo”, “não sei”, “não tenho certeza, mas acho”, “não observei”. O mundo, a vida aconteciam dentro e fora de Clarice, mas ela parecia não tomar conhecimento, ou, então, chocava-se com o que não lhe fazia bem, e refugiava-se no universo que só ela conheceu: a própria alma, 'embriagada' de sonhos. Por outro lado, não demonstrava irresponsabilidade com os compromissos de casa: primeiro, a organização de almoços e jantares diplomáticos, ao lado do marido. Com o nascimento dos filhos, sentiu-se insegura para cuidar deles sozinha, já que o marido (diplomata) viajava bastante. Apesar do “aperto” financeiro, o casal pagava “nurse” (enfermeira) para cuidar de Pedro e Paulo, inclusive educando-os.
Clarice nunca aprendeu a cozinhar, e, por isso, passou a vida inteira procurando uma “cozinheira de mão cheia”, como contava às irmãs, nas correspondências. Também, pouco envolveu-se na “criação” (educação) dos dois filhos. De alguma forma, tudo lhe parecia (ela quem demonstrava) estranho. O mundo diplomático pesava-lhe nos ombros da alma, e ela queixava-se, nas cartas: “tenho falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil”. E ainda justificava às irmãs que precisava sorrir, mentir, “para não estragar o programa de Maury”.
Mais tarde, em meio a tantas dificuldades, principalmente financeiras, as quais teve de enfrentar sozinha (separada de Maury), com os filhos, no Rio de Janeiro, Clarice Lispector vivia em contradições, e cobrava dela mesma, atitudes mais energéticas e decisivas, como relatam suas cartas às irmãs confidentes. Sozinha com os filhos, provavelmente, sentiu-se mais ela mesma, anotando, inclusive, diálogos entre eles, e escrevendo estórias infantis, o que, depois, acabou virando livro, e livros.
Pedro, o filho mais velho da escritora, morreu com esquizofrenia, tendo sido internado, diversas vezes, em sanatórios. Paulo, o outro filho, mais novo, está vivo, com 56 anos, e, pelo visto, como economista que é, tem faturado bastante em cima do nome da mãe dele.
Em 2004, Paulo Gurgel Valente recebeu 40 mil dólares de uma empresa que veiculou, num comercial muito bem produzido, o poema “Mude”, que, para os empresários, era de autoria de Clarice Lispector. Paulo, o filho, não negou a autoria, e embolsou os dólares. A verdade é que “Mude” foi escrito por Edson Marques, e não por Clarice. Diante do contrato comercial, para o qual não foi convidado, o autor recorreu à justiça, com provas incontestáveis quanto à verdadeira autoria de “Mude” (registro na Biblioteca Nacional, depoimentos fidedignos, etc e tal – confirme no blog: http://desafiat.blogspot.com/). Só que o processo continua “rolando” na justiça, enquanto Paulo Gurgel Valente parece nem pensar em devolver os 40 mil dólares. Por aí, se pode ter uma idéia do que Clarice Lispector continua rendendo ao único filho vivo. Filho, aliás, que, de tempos em tempos, quando menos se espera, parece remexer nas gavetas da mãe dele, e lançar mais uma obra de Clarice Lispector. Ele sabe que, um dia, não haverá mais sequer um pedaço de papel que já não tenha sido publicado. Talvez, depois desse dia, haverá pedaços de tecido à venda, pelas livrarias, numa embalagem com a devida “bula”: “aqui jaz um pedaço de tecido que pertenceu às roupas de Clarice Lispector” (como se Paulo ainda precisasse de idéias de marketing!).
Sobre isso ainda, acredite se quiser, na década de 70, numa das cartas à “amiguinha” Andréa Azulay, de nove anos, Clarice escreveu:
“Querida Andréa,
você quer me explicar o que quer dizer um sonho que tive hoje de noite? Ontem fui dormir tão cansada, mas tão cansada, que fiquei com medo de cair na rua. Dormi de oito e meia da noite até quatro e meia da manhã. Acordei com um pesadelo terrível: sonhei que ia para fora do Brasil (vou mesmo em agosto) e quando voltava ficava sabendo que muita gente tinha escrito coisas e assinava embaixo o meu nome. Eu reclamava, dizia que não era eu, e ninguém acreditava, e riam de mim. Aí não aguentei e acordei. Eu estava tão nervosa e elétrica e cansada que quebrei um copo.” - do livro “Correspondências” - Organização de Teresa Montero.

… Premonição, Clarice?...

Desmitificando Clarice Lispector – As cartas “no meio do caminho”


“(...) Não me passe carão: mas na segunda-feira de carnaval fomos a uma festa na casa do cônsul americano e eu tomei um bom pileque. Eu digo que não me passe carão porque o dia seguinte já me passou. Puxa! Que enjôo. Uma dessas ressacas de filme de cinema. Foi bom que eu tivesse bebido pra tirar o que existe de tentador na idéia, tão divulgada e cantada pelos poetas... Foi a primeira vez e a última, não há dúvida. (...)” (Belém, 23/02/44)

“(...) Imagine que uma elegante senhora da sociedade paraense, ou melhor, carioca morando aqui, deu a Eugenia, como grande e segura novidade que eu tinha ido para o Rio para não voltar... O engraçado é que eu tinha encontrado essa deliciosa vaquinha carioca um dia antes de eu viajar, na manicure, e tinha lhe dito a razão de minha viagem e quanto eu demoraria... Ela pouco ligou a minha informação... (...)” (Belém, 06/05/44)

“(...) Diante de um começo de cena que eu fiz, horrivelmente magoada, ouvi de novo o que eu sabia desde sempre – sempre fui um pouco cínica: a de que os homens são assim mesmo, que possivelmente a monogamia não seja o estado ideal, que naturalmente ele (provavelmente Maury, o marido) sente atração pela mulheres; que a sensação é de deslumbramento e timidez; disse-me que não interpretasse demais, mas que era uma vaga sensação de vaidade de alguém poder gostar dele; perguntei: então você se sente na sociedade (vínhamos de estar com pessoas) como um rapaz que vai à festa? Ele respondeu que sim. Mas que eu seria sempre a melhor de todas e outras coisas no gênero. Que certamente sempre ele se controlara. Em suma, é isso que você sabe. Naturalmente até agora nunca houve nada. Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior; nunca pensei que uma pessoa, um homem, fosse diferente; mas como me sinto mal, como estou calcinada, como me parece estranho tudo o que me parecia familiar. Estou tão enojada de mim e dos outros. O pior é que estou me sentindo a mais miserável das mulheres... Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair em mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga. Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens e isso até me cansa, me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança quanto ao futuro, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos. Estou ficando cínica e sem pudor. Que me interessa que isso suceda a outras mulheres? O que para umas é condição da própria feminilidade, noutras é a morte desta e de tudo o que é mais delicado. Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei porque nasceu em mim desde sempre a idéia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada. Sei que isso é egoísmo e falta de humanidade. Mas se eu fosse me modificar não me transformaria numa mulher normal e comum, mas em alguma coisa tão apática e miserável como uma mendiga. Você bem me conhece, toda a vida você procurou fazer de mim uma pessoa mais equilibrada e de bom senso, mas não conseguiu. Eu gosto de M. (“M” de Maury, certamente) e poderia viver bem com ele se afinal eu soubesse da liberdade dele com cinismo e profunda falta de pudor e sentimento de ironia. Desejo mesmo chegar a esse estado de calcinação. E então eu procuraria me refugiar em outras idéias e outros sentimentos e o resto viveria bem. Não sei o que fazer. Só me ocorre ir para o Rio, passar aí um mês ou dois, dar a ele a liberdade de não se controlar, de ter uma vida como ele não teve tempo de ter porque se prendeu cedo demais, e depois voltar cicatrizada e serena. A ele mesmo isso não repugna, só dar a separação; mas ele nada responde a ter plena liberdade enquanto eu estiver fora. E a eu mesma tê-la, contato que lhe conte depois. É evidente que ele preferiria que eu, enquanto isso ficasse sossegada, trabalhandinho. Mas ele me conhece bem e porque me conhece e tem medo de represálias é que ele se controla. Deus meu, eu sei que ele não tem culpa nenhuma. Mas eu também não tenho. Que é que você acha sinceramente de eu ir passar um tempo no Rio? A sensação de que ele nada fez porque eu estou presente é terrível e eu naturalmente me esgoto. (...)” (Belém, 08/07/44)
“(...) Fui para o Vitória Hotel, um hotel mais ou menos granfino, mas muito caro. O Ribeiro Couto me passou para o Parque Hotel, muito bom, a 80 escudos a diária, com quarto de banho. Imaginem que o garçom me insinuou que eu devia ir com ele ao Estoril (praia), que sozinha não tinha graça. E a dona do hotel tem a dentadura trêmula, é horrível. Vou todos os dias ao cinema, para fazer o tempo passar, e leio livros policiais, um atrás do outro. Comprei uma fazenda azul clara, de seda, uma bolsa de camurça azul-marinho tipo sacola, muito bonita. (...)” (Lisboa, 07/08/44)

“(...) Estou lhe escrevendo a mão porque tem aí uma pessoa a quem eu mandei dizer que não estava, e então não quero bater a máquina para não me trair. E como a pessoa demorará... (...)” (Nápoles, 24/07/45)

“(...) Embaixo de um casaco de peles esconde-se cada tipo... Parece que o calor do casaco faz com que alguma coisa prolifere com mais liberdade, é uma fecundação doida e cansativa. Em Roma é um tal de um convidar o outro e o outro responder convidando e esse agradecer convidando e o outro se surpreender porque não respondeu convidando... Muita coisa está precisando de bomba atômica nesse mundo. (...)” (Nápoles, 22/08/45)

“(...) Minhas queridas, esta noite sonhei que ia ao Brasil. E que as pessoas diziam, inclusive vocês: já de volta? E eu ficava tão triste, com aquele horrível sentimento de arrependimento que se tem quando se faz uma coisa que ninguém aprova. Foi um verdadeiro pesadelo... Acordei de mau humor. Mas Maury diz que eu estou de mau humor de manhã, de tarde, de noite... Não é verdade. Naturalmente eu sou irritável, naturalmente meu humor não é brilhante, mas de um modo geral sou alegre. (...)” (Berna, 12/05/46)

“(...) Quanto ao mais, tudo igual. A primeira secretária é simpática o marido burríssimo, uma das pessoas mais burras que conheço. Mas ele nos parecia bom sujeito. Mas tivemos informações de que é uma pessoa perigosa, altamente intrigante. De modo que a pequena intimidade que eu já estava tendo com ela, vai ser um pouco cortada, ou completamente. Isso tudo é muito desagradável. (...)” (Berna, 30/06/46)

“(...) Gostei da idéia de mudar de penteado para estar no 'tempos modernos', e fiquei mesmo com vontade de mudar de cara. Acho que, quando eu precisar de novo de permanente, vou cortar os cabelos curtos e fazer 'coroinha' com permanente. Acha bom? Pelo menos, vou experimentar. Aqui posso me dar ao luxo de experimentar o que eu quiser porque conheço tão pouca gente... (...)” (Berna, 26/11/46)

“(...) Pedro nasceu ontem, dia 10, às 7h30 da manhã. Estou escrevendo na madrugada de 11, porque não posso dormir direito. Estamos muito contentes, Maury e eu: a criança é sadia, fortona, pesa uns 3 quilos, 600 – por enquanto é a cara do Maury... Eu sofri muito. O médico achou que o bebê estava tardando e eu me internei no hospital no dia 9 de manhã. Eles começaram a provocar as dores por intermédio de injeções. Às 2 horas da tarde comecei a perder as águas e às 2 e meia as dores se instalaram. Sofri de 2 e meia do dia 9 até 7 e pouco do dia 10. Mas apesar das dores fortes e frequentes a dilatação, não se sabe ainda porque, não se fazia. Então o médico resolveu fazer cesariana. Não se assustem, correu tudo bem. Só que na hora o médico e as enfermeiras não estavam com boa cara, estavam meio impressionados. Eu disse que se fosse questão de esperar e sofrer ainda, eu esperaria, contanto que a criança não corresse perigo. Mas o médico disse que a criança estava correndo perigo se não nascesse logo, porque ele não conseguia adivinhar os motivos da demora; que minha bacia era bastante larga e que a criança estava em boa posição. Maury e eu assinamos um papel dizendo que estávamos de acordo e éramos responsáveis. Toda essa encenação necessária nos custou muitos nervos. (...)” (Berna, 11/09/48)

“(...) Pedrinho é tão engraçado, não acho ele muito bonito, mas é uma bola. Tem cabelos (enormes) negros, olhos escursos, um nariz por enquanto meio batatudo, umas bochechas enormes e uma boca de bico de passarinho, e os dedos compridos. O ar todo é de Maury. É uma criança muito gostosa. (...)” (Berna, 13/09/48)

“(...) Tentarei, por todos os meios – e que Deus me ajude nisso porque preciso – tentarei por todos os meios exigir menos amor e atenção dos outros, e também exigir menos que as pessoas se deixem amar... Mas é melhor deixar de mais considerações senão também esta carta será rasgada... (...)” (Berna, 07/10/48)

“(...) O pessimismo passou, mas o bom propósito não: farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz... Também é bom porque em geral se pode ajudar muito mais as pessoas quando não se está cega pelo amor. Espero com Pedrinho não exagerar – serei mais útil a ele assim. Por falar nele, está engraçadíssimo, rindo à toa. Não há na carinha dele nenhum traço que lembre sequer algum meu. Ele é totalmente Maury, ou melhor, a família de Maury. Até os traços de d. Zuza (mãe de Maury) ele tem. Acho que me impressionei demais com ela... Às vezes fico com pena, porque passei por todo esse trabalho sem deixar um sinalzinho meu ao menos... (...)” (Berna, 19/10/48)

“(...) Entrei no hospital no dia 9, segunda-feira, às 2 horas da tarde, para me prepararem para o dia seguinte, de manhã, quando Paulinho nasceu. Juro por Deus que estou tão bem que nem sei como explicar a você – o corte cicatrizou com enorme rapidez, desde o quinto dia não tinha sequer um esparadrapo. (...)” (Washington, 12/02/53)

“(...) Maury foi de um carinho que ultrapassa as palavras que eu possa usar. Ele se repartiu infatigavelmente entre mim e Pedrinho, de modo que nós dois (Pedrinho e eu) não nos sentíssemos sós. Pedrinho estando no colégio, ele (Maury) almoçava no restaurante do hospital. Ele queria menina enormemente, eu estava com medo de que ele ficasse muito decepcionado. Mas ele está tão feliz agora com Paulinho. 'Este' está um amor. Eu estou continuando a amamentá-lo (para me garantir, pedi ao médico que receitasse um pouco de mamadeira complementar) – estou tão espantada de estar amamentando. Nunca esperei. Paulinho é muito bonitinho, eu tinha me enganado! (...)” (Washington, 21/02/53)

Isso tudo é um pouco do que que escrevia Clarice Lispector, em cartas, às irmãs Elisa e Tânia. O trabalho de organização das correspondências, para o livro “Minhas Queridas”, foi de Teresa Montero.

Desmitificando Clarice Lispector – O fim do começo


Haia Lispector era o nome de Clarice, antes de chegar, da Ucrânia, com dois meses de vida, junto com a família (pai, mãe e duas irmãs mais velhas), ao Brasil. Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, e morreu em nove de dezembro de 1977 – parece ter fechado um ciclo (?).
Muita gente já se debruçou sobre a obra de Clarice (eu faço parte desta gente), e algumas pessoas (críticos literários, professores e acadêmicos) analisaram, e ainda analisam, a literatura clariceana, enchendo as prateleiras com releituras, obras comentadas, teses e ensaios publicados. Clarice nunca se deu bem com essas 'coisas' de interpretação. Ela própria fazia questão de repetir que não gostava de rótulos, “por que o rótulo de escritora me isola das pessoas”.
O que escrevo aqui provém do meu trabalho de pesquisa sobre Clarice, a partir da própria escritora. O texto segue na contramão, como me comprometi no “primeiro da série”. Li e reli, tantas vezes, incontáveis cartas de Clarice Lispector ao então “namorado” Maury, às irmãs Tânia e Elisa, à Olga Borelli, companheira inseparável, nos últimos anos de vida da escritora, aos amigos escritores Fernando Sabino, Érico Veríssimo, Otto Lara Rezende, Lúcio Cardoso, e tantos outros. A partir daí, fui elaborando todo este trabalho, o qual encerro, nesta postagem. Pelo menos, o que me comprometi em postar no blog – o mergulho continua...
Aos nove anos de idade, Clarice perdeu a mãe, que morreu, após doença grave. De algum jeito, a filha menor da família Lispector sobreviveu (cada ser humano carrega o próprio mistério do viver). Anos mais tarde, familiarizando-se com a escrita literária, Clarice Lispector vai, aos poucos, trazendo à tona, todo o sentimento de perda e abandono. Não acredito que ela tenha resolvido isso, mas, de alguma forma, escrever sobre deve ter-lhe feito algum bem, ou menos mal.
Clarice nasceu pobre, tão pobre, que não tinha nem pátria. A infância toda dela foi no nordeste brasileiro. Só depois de alguns anos, sem a mãe, a família muda-se para o Rio de Janeiro, onde as dificuldades continuam. Em 1940, Clarice começa a cursar Direito, no mesmo ano em que o pai dela morre. Em 1943, casa-se com Maury Gurgel Valente, diplomata novato, com mais título (status mesmo) que salário. O casal começa a “via sacra” pelo mundo em guerra, e Clarice continua a conviver de perto com a miséria. Por causa da guerra, os produtos alimentícios são racionados, as roupas são caríssimas, há pouca energia elétrica disponível, os aluguéis são absurdos, etc. Quando conseguia, através de amigos, que alguma editora lançasse algum livro dela, a escritora recebia um único mísero pagamento, sem mais direitos autorais. Clarice nasceu e morreu pobre, pobre, vítima de câncer, internada como indigente num hospital público carioca.
Pelas fotografias registradas em livro, com pesquisa e organização da professora de literatura brasileira Nádia Battella Gotlib, Clarice Lispector foi uma mulher de beleza exótica, atraente e encantadora, e, por isso mesmo, ou também por isso, extremamente vaidosa. Ela mesma disse que preferia ver estampada uma foto sua em jornal que um elogio a algum livro que escreveu. Na carta de maio de 1969, ao filho Paulo, que fazia intercâmbio nos Estados Unidos, Clarice conta: “Estou fazendo regime para emagrecer: em sete dias perdi cinco quilos, e no oitava estava fraca, comi de tudo, e resultado ganhei dois quilos. Eu mesma não entendo”.
“...Havia, porém, períodos de grande dinamismo: Clarice punha-se a fazer ginástica, exercitava-se numa bicileta ergométrica, passava cremes no rosto, perfumava-se muito. Tomava suco de laranja, de melão ou de morango, dispensando os refrigerantes. Esses períodos vinham acompanhados do desejo de viajar. Examinava então cuidadosamente suas finanças, com a esperança de que houvesse folga para um passeio à Europa”. (O depoimento é de Olga Borelli, no livro “Clarice Lispector – Esboço para um possível retrato”)
Clarice Lispector era vaidosa, sim, e dava atenção a futilidades, sim, o que pode ser percebido, notoriamente, também, nas incontáveis cartas que escreveu às irmãs. Por isso, não dá para reduzir a mulher Clarice à condição de escritora. Até um certo tempo da vida dela, Clarice foi, senão feliz, alegre, animada, que alegrava e animava as pessoas do convívio dela. Houve um tempo, inclusive, em que ela manteve uma coluna feminina, assinada pelo pseudônimo de Tereza Quadros. Ela escrevia sobre tudo e mais um pouco, dando conselhos, falando sobre moda, maquiagem, sempre em tom alegre, ou irônico, e até sarcástico. Abrindo aleatoriamente o livro “Clarice Lispector – Correio Feminino” (organização de Aparecida Maria Nunes), leio: “Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. Ou, pelo menos, ao homem que amamos, não é verdade?” - Esta é Clarice Lispector, longe da escritora soturna. Afinal, quem era Clarice: a mulher que escrevia sobre vaidades e frivolidades, na coluna social, ou a “hermética” escritora que ainda tonteia, com seus textos, a maioria dos leitores?... Não sei – respondo eu (talvez, fosse a resposta de Clarice também). Mas ela pode ter sido uma delas, ou ambas, ou nem uma, ou muito mais – ou menos - que essas duas manifestações públicas. Vale lembrar que somente a “escritora” assinava “Clarice Lispector”. A “colunista social” assinava “Tereza Quadros”.
Mas deve ter havido, no “meio do caminho”, alguma mudança drástica, para Clarice chegar à desintegração, que ainda hoje eu percebo nela... A menina Clarice cresceu cheia de sonhos, fantasias e imaginação. A jovem Clarice apaixonou-se pelo colega de faculdade, casou-se com ele, e com ele seguiu viagem pelo mundo diplomático, deixando para trás, as irmãs, os amigos, os referenciais de vida dela.
Parece que, no nascimento do primeiro filho (Pedro), Clarice sofreu depressão pós-parto. Não disponho de elementos (literários), para confirmar a dúvida que prevalece em mim. Também, ao que parece, o casal ansiava por ter uma menina (ou Maury desejava, e Clarice torcia por satisfazê-lo). Tanto é que, durante a gravidez, ambos fizeram até lista, escolhendo somente nomes femininos à “filha” que estava chegando (ela relata isso às irmãs, em diversas correspondências). Depois do nascimento do primeiro filho, ela passa a despedir-se, na maioria das cartas às irmãs, com “fiquem com Deus”, ou coisas assim, o que não era hábito de Clarice, até então.
Também nas cartas, Clarice confessa às irmãs que não achou Pedro bonito, e que lamentou ele não trazer nenhum “sinalzinho” dela, que sofreu tanto na cesariana. Quando Paulo, o segundo filho, nasceu, Clarice o achou “lindo, engraçadinho”, e relatava, com detalhes efusivos, as “gracinhas” do bebê, às irmãs. Agiu de forma diferente, também, talvez, por que sofreu menos no segundo parto (sem depressão?).
Com os dois filhos, a família passa a morar em casa de outra família – sai da pensão aonde estava. A guerra havia terminado, há pouco, e os tempos são outros, as dificuldades aumentam, e também Clarice aumenta a lista de reclamações às irmãs. Nas cartas escritas na época, relata algumas das dificuldades, principalmente a falta de dinheiro, o que, obviamente, não revela em outras correspondências, aos amigos escritores, por exemplo. Durante a estada no exterior, a família “Gurgel Valente” visita o Brasil, algumas poucas vezes, e Clarice já não se sente mais ambientada aqui, e reclama que não tem mais lugar no mundo.
Em todo este tempo, Clarice continuou escrevendo. Um dos romances foi “Maçã no Escuro”, só editado depois que o amigo escritor Fernando Sabino fez a revisão completa da obra, alterando todas as páginas, com as devidas observações, acatadas por Clarice. No livro “Cartas Perto do Coração”, onde Sabino fala a respeito, citando, inclusive, todas as “correções” que fez em “Maçã no Escuro”, dá para se observar que Clarice não tinha “fòlego” para escrever romance. Ela própria admitiu, diversas vezes, que era relapsa, em relação à escrita: rabiscava frases (em guardanapos, talões de cheques, etc), e, depois, tinha muito trabalho, para catar todo o material, e elaborar algum conto, ou crônica, ou então, como o fez em “Água Viva”, que não chega ser romance, nem conto, com frases e pensamentos soltos, e tão próximos (vertentes da mesma fonte). As anotações de Clarice foram confirmadas pela fiel companheira dela, Olga Borelli, que conviveu com a escritora, quase dez anos, até sua morte.
Depois da separação de Maury, Clarice Lispector voltou a morar no Brasil. A vaidade foi ferida, profundamente, quando a escritora dormiu com um cigarro aceso (tomava muitos tranquilizantes), e acordou com o quarto em chamas. Na tentativa de apagar o fogo que se alastrava, queimou profundamente a mão e o braço direitos, que tiveram de receber enxerto da perna direita (que guardou cicatrizes), numa cirurgia entre a vida e a morte. Depois disso, o filho Pedro começou a ser internado em sanatórios, vítima de esquizofrenia, enquanto o outro filho, Paulo, fazia intercâmbio nos Estados Unidos, ou ficava com o pai dele, em Montevidéu.
No final da década de 60, Clarice conhece Olga Borelli, que aceita ser sua amiga, após ler a carta de “pedido de amizade”, escrita por ela. Lendo “Clarice Lispector - Esboço para um possível retrato”, percebo que Olga Borelli (a autora) realiza dois movimentos, contraditórios à primeira vista, mas compreensíveis. O primeiro movimento é tentar mostrar a simplicidade da dona-de-casa e mãe Clarice Lispector. Mas, em seguida, parecendo ato inconsciente, é a mesma Olga quem relata que observar Clarice parada, perdida em seus pensamentos, era ficar à espera da materialização de alguma coisa.
Como a professora Nádia Gotlib, que ainda pesquisa os 'rastros' de Clarice Lispector, Olga Borelli também alimenta o “mito sagrado”. Talvez, ambas, apaixonadas por Clarice, queiram manter a imagem da escritora “hermética”, até inconsciente e inocentemente, para que Clarice Lispector não seja abandonada ao esquecimento, e continue instigando mais leitores, no mundo inteiro.
Na minha opinião, Clarice desintegrou-se, e, a partir disso, passou a corresponder à “persona” que criaram, à revelia da personalidade (desconhecida) dela. Até por que – é preciso reconhecer – Clarice Lispector passou a ser “aceita” no meio literário, depois que começou a escrever “coisas estranhas”, questionando-se a si mesma, e, com isso, questionando quem a lesse. Isso ela faz até hoje, com os milhares de leitores.
Penso que Clarice escreveu o que escreveu, por ter se perdido de si mesma – perdeu os sonhos, e a noção da própria realidade dela, que ocupava um espaço no mundo, ao qual recusava-se, pois não era o que desejava. Mas continuava viva. Precisava fazer alguma coisa, para não viver só. Por isso, a meu ver, toda a escrita dela era fragmentada – em pedacinhos de papéis catados por Olga Borelli, nos últimos anos - a mesma Olga, aliás, que motivava a escritora, e não lhe deixava ao abandono de si mesma. A presença de Olga foi fundamental à sobrevivência de Clarice, que lhe ditava frases, instantes únicos de lucidez, até os últimos minutos de vida.
Além da solidão, Clarice Lispector temia o isolamento, e pedia tanto que Olga mantivesse a mão dela junto à sua, até a morte. Assim aconteceu. Foi Olga Borelli, inclusive, que ajudou Clarice a organizar o último livro: “A Hora da Estrela”. Eu não tenho dúvida de que o livro mais realista (de “cunho social”, como dizem alguns críticos), assinado por Clarice Lispector, contém um pouco de Olga Borelli, na própria “feitura escrita” dele. Amizade – leal e terna amizade.
A professora Nádia Battella Gotlib, “expert” da escrita clariceana, afirma sempre que Clarice Lispector se ficcionalizou. Discordo. Acho que Clarice foi ficcionalizada, e, aos poucos, foi se moldando à “imagem”, já que estava recebendo atenção por isso, e o que ela mais desejava era a aproximação das pessoas. Penso que, para não viver tão só, Clarice aceitou vestir o 'traje' da mitificação. Tanto é verdade, que ela não vivia alienada, como imaginavam alguns que a analisavam, na época. Pelo contrário. No início da vida, teve sonhos, que poderiam ser realizados, mas não foram. Para sobreviver (?), se recolhia na fantasia, mas voltava à realidade, e assumia posições, decisões na própria vida. De repente, se via “golpeada”, mais uma vez, como quando criavam novas edições de sua obra, sem sequer comunicá-la, e voltava ao universo imaginário. Pra mim, Clarice não suportava a realidade em que se via inserida. Quiseram tanto que ela fosse quem ela não era, que ela acabou não sendo mais criatura alguma, ainda que continuasse agindo como uma pessoa. Foi ela própria quem escreveu que “com o tempo, estou desaprendendo de ser gente”. Acredito que ela tenha escrito pouquíssimo, se comparado à vida imaginária que alimentou em refúgio, além do que se pode supor ser o “poço fundo de Clarice Lispector”.
Como se não bastasse todo o conflito íntimo (de não poder ser quem era, pois só recebia atenção, quando correspondia à imagem hermética que fizeram dela), Clarice tinha plena consciência das dificuldades financeiras que sofria, o que lhe causava raiva, não maior que a raiva que sentiu, ao saber do câncer que a consumia. Quando soube confirmada a doença, pediu à Olga Borelli que escrevesse: “(...) Dentro do mais interior de minha casa morro eu neste fim-de-ano exausta. Até fim-de-ano eu tive. Mas como se verá – não correu sangue. Bem que eu queria que correse, e do mais brilhoso e da mais espalhafatosa faísca de fogo só para que fique provado em veia grossa minha foi tão de súbito lancetada. Chorei de raiva, raiva contra mim mesma. Me detestei por ser tão ingênua. Minha desordem criadora: do caos nascem as estrelas. Mas esta estrela, a do fim-de-ano, era de carne, pensava, e, a cada talho, doía. (...)"

Diversas vezes, Clarice Lispector escreveu ser uma estátua – tão fria. Logo depois, se contradizia (nas atitudes), pois o que mais buscava era amor (calor) humano. Quem sabe, até hoje, sua obra inteira continue a busca insistente. Enquanto a maioria dos leitores busca a obscuridade da escritora, que continua a ofuscar cada livro seu, a estátua de Clarice permanece lá, na praça de Recife – uma esfinge de pedra, talvez, a nos dizer, em seu instigante mutismo: “Nem tente me decifrar, por que, há muito, tive a alma devorada”...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

“Senhora” moralidade de pernas de fora


A “senhora” moralidade resolveu botar as pernas de fora, expulsando uma universitária que estava usando vestido curto. Acredite, um vestido curto causou a expulsão de uma acadêmica de Turismo – isso, em nome da “senhora” moralidade. Se a universitária chocou “poderosos”, com seu vestido curto, pelos corredores da Universidade Bandeirante de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, a “senhora” moralidade chocou, mais ainda, desfilando de braços dados com a 'merda' da ditadura, que, volta e meia, reaparece, em defesa dos “princípios éticos” e dos “bons costumes”.
Na verdade, não foi a estudante Geysi Villa Nova Arruda, 20 anos, aluna do primeiro ano do curso de Turismo, na Uniban, que mostrou mais do que devia. A partir da atitude da acadêmica, a direção da Universidade é que mostrou a cara nua, sem maquiagem de “exemplo de educação”. A ação repressora aconteceu, depois que Geysi foi estudar, usando um vestido curto.
Antes mesmo de ser expulsa, Geysi denunciou o fato à imprensa. Com a expulsão, anunciada pela direção moralista da Uniban, a 'merda' toda foi parar no ventilador, e até a imprensa internacional está divulgando essa vergonha.
Sabe o que mais me apavora, nisso tudo?... É que a estudante foi, primeiramente, hostilizada pelos próprios 'colegas', e, por isso, teve de sair escoltada por PMs da Universidade. Pelo visto, a Uniban está cheia mesmo de 'insetos moralistas”. A 'dedetização' é urgente!...
Imoralidade???? Imoral é o valor da mensalidade de uma universidade particular, isso sim. Imoral é o assassinato dos princípios educacionais.

Não quero acreditar que o Ministério da Educação vai se calar, diante disso. Se fizer de conta que nada viu, nada sabe, com essa, os talibãs se instalam definitivamente no Brasil.

A direção da Uniban (rima mesmo com taliban) resolveu dar marcha-à-ré, e “puxou o carro”, readmitindo a estudante... dá licença, tenho mais o que fazer!...

sábado, 7 de novembro de 2009

Direitos tortos


Há muuuuuuuuuuuito tempo mesmo, reconheço que, como todos os habitantes deste planeta, também eu tenho direitos – alguns meus (adquiridos), outros coletivos. Nem consigo lembrar há quanto tempo sei disso, pois foi bem antes de 'inventarem' Procon, “ongs” de direitos humanos, e o escambau que existe por aí.
Dia desses, quando eu 'tava' “de papo pro ar” (momento raro), fiquei pensando em usar e abusar dos meus direitos tortos - senão os adquiridos, pelo menos os coletivos. Afinal, todo mundo tem direitos, né?...
De imaginação em imaginação, fiquei pensando em desenrolar o papel higiênico do banheiro. Será que “contém” mesmo 60 metros? - oh, dúvida cruel!... E o sabonete, que não é da 'marca' Vale Quanto Pesa – será que pesa tanto quanto vale?... (melhor sair do banheiro)
Você acha que minha imaginação parou no banheiro?... Que nada!... Nem sequer sentou no “trono”... Logo, 'viajei' à cozinha, e os grãos pareciam gritar, implorando: “Pesamos quanto estava na embalagem?... De repente, os produtos da área de serviço juntaram-se ao coro, que, uníssono, exigia uma resposta minha. Eu não sei, nunca soube, por que sempre abri todas embalagens, sem pesá-las – quase gritei. Falar sozinha até que sempre foi o meu 'forte', mas parei naquele instante, quando percebi estar querendo responder a grãos, pós e líquidos. Aí, já é demais, né não?... Que Glória Perez não me leia, senão vocês, “noveleiros de plantão”, vão ter de 'guentar' minhas 'viagens' metafísicas e 'tirafísicas', meses na televisão. hehehehehehehe
Deixando as brincadeirinhas de lado, você, por acaso, conhece alguém que, depois de voltar das compras, chega em casa, e, tranquilamente, vai pesar produto por produto, e conferir o peso na referida embalagem?... Já viu alguém despejar um litro de óleo, ou coca-cola (bom demais!), ou suco industrializado, ou leite, pra confirmar se tem mesmo um litro?... Será que alguém já mediu, além do 'dr.' Inmetro, quantos metros tem o papel higiênico que usa há anos? (Usa há anos é maneira de dizer, pois usa, suja tudo, joga fora, pega outro rolo, mas sempre da mesma marca, com a mesma 'quilometragem'.)

Lembro que, há algum tempo atrás, numa cidade próxima, um cara 'tava' animado pra comer cachorro-quente. Foi ao mercado, comprou o que precisava, foi pra casa e – pasme! - ele mesmo preparou o cachorro-quente, com tudo o que tinha direito (voltei ao assunto – eu sempre volto -, demoro, mas volto). Pois bem. A historinha podia ter acabado por aí, com o desejo de comer cachorro-quente saciado. Nada! Pelo contrário. A história (macabra) começou aí, justamente depois que o cara comeu os cachorros-quentes que teve vontade. Quando foi limpar a cozinha (caprichoso, o rapaz!), resolveu despejar o restante do milho verde da lata num pote, pra guardar na geladeira...
O que tinha na lata?... Claro que você vai responder: milho verde. Eu também responderia. Havia milho verde, sim, ainda na lata, que, bem no fundo, no fundo mesmo, “acalentava” – surpresa! - uma rãzinha. Morta, obviamente – que espécie sobreviveria ao 'enlatamento', pra contar a grande façanha aos netos?...
Agora me diz, muito cá entre nós, que direitos indenizatórios o cara podia pedir: cachorro-quente de graça, curso de culinária (pratos sem milho verde), pagamento de terapia, caixas e caixas de latas e latas de milho verde da fabricante 'sacana'?... Não há indenização que pague e apague a imagem da rã encolhidinha, no fundo da lata cheinha de milho verde... E o cara, então, deliciando-se com os cachorros-quentes, que, provavelmente, naquela noite, tinham um “sabor especial”!...
Sabe o que é pior, nesta história toda (sempre tem o pior – é só sobreviver, pra ver e saber)?... A fábrica do dito milho verde, lá de Goiás, continua com suas incontáveis latas, aparentemente “inofensivas”, pelas prateleiras do Brasil...
Cá (mais ainda) entre nós: Você costuma retirar todo o produto da lata, antes de consumi-lo?... Se isso não faz parte dos teus hábitos, sugiro que você utilize o produto, e jogue a 'pobre' latinha fora - sem olhar... Melhor não tomar conhecimento se foi “sorteado” com algum “prêmio-surpresa” – se toma, engasga, ou vomita!...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Na “festa do estica e puxa”


Na “festa do estica e puxa”, como ainda 'xanta' a Xuxa, tudo é válido, mesmo quando a criatura fica parecendo “nikkei”, com a cara tão esticada, que até os olhos se alargam, e quase fecham, e a boca vive aberta, aparentando sorriso gratuito, mesmo em velório.
Acho que já escrevi aqui que não gosto de excessos – mesmo se for de coca-cola, ou chocolate (hummmmmmm delícia!!!). Sei lá. Acho que tudo que excede, excede em tudo... Entende?...
Dia desses, encontrei uma amiga que eu não via há algum tempo. Acredite. A última vez que tinha visto ela, parecia mesmo ter seus quarenta e uns. Agora, quando a vi novamente, parecia mais nova, de cara, do que a filha dela, de quinze anos. Ela olhou pra mim, e disse: “Você não muda nada, Narinha”. E eu respondi: “E você, cada vez mais nova, hein?” Rimos juntas. “Temos de nos encontrar mais” - acrescentou minha amiga. E eu só pude pensar: Temos, sim, antes que você volte a ser feto, e desaprenda de falar. hehehehehehehehe

Brincadeirinhas à parte, considero exagero o que tenho visto, no que diz respeito, ou desrespeito, à utilização das cirurgias plásticas, junto com muito botox, e mais silicone. Claro que não sou parâmetro pra coisa alguma. Quanto à vaidade, acho mesmo que sou “zero à esquerda”. Por isso, não leve a sério o que tô escrevendo aqui. Só pra você ter uma idéia (ou duas), ainda sonho ter cabelos grisalhos (os cabelos de Adélia Prado são tão brancos, tão lindos), mas, pelo visto, na minha cabeça (não é imaginação!), vai demorar, ou nem vai dar tempo, por que os branquinhos que surgem vão caindo, distraídos. Por aí, tente imaginar – ou não...
Há alguns dias, a atriz Fernanda Montenegro completou oitenta anos. Linda, Maravilhosa. Plena. Numa das tantas entrevistas que assisti com ela, Fernanda Montenegro disse que não pretende fazer plástica, remoçar “na marra”. Ela falou algo parecido com “prefiro que a minha imagem seja coerente à minha alma, resultado das experiências que vivi e vivo”. E, pra arrematar, chamou a atenção sobre o “perigo de todo processo cirúrgico, a partir da anestesia”. Foi fundo na avaliação.
Como nunca tenho certeza de 'porra' alguma, acho que vou despencar ao lugar-comum, afirmando que, se a criatura busca a cirurgia plástica, pra correção de alguma deformidade, ou então pra 'consertar' o que ela imagina estar “fora de ordem”, ainda tem um motivo, a meu ver, considerável. Afora isso, pelo simples hábito de “festa do estica e puxa”, acho que a criatura tá precisando mesmo é de algum “conserto” na alma. Nem exemplifico, por que quem pode saber de alguém, é só esse alguém mesmo. Ah, mas tem muita gente indo pro bisturi, como quem vai ao cabeleireiro – aí, já é demais!... Acaba ficando com a pele mais lisa do que quando nasceu (acredite, meu comentário não é deliberado, ou “criativo”).

Fiquei sabendo, dia desses, que “quem gosta de beleza interior é decorador, ou arquiteto”. Como não sou “nem isso, nem aquilo” (e nada disso), não vou encarar a possibilidade de debate sobre. Mesmo assim, e apesar disso, e por isso também, fico pensando que já são tantas as 'máscaras' que a gente usa – será que precisamos ainda mais?...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pare Olhe Escute

(Acho mesmo que foi essa placa aí de cima - Pare Olhe Escute - que me sinalizou o universo das palavras.)


Há tempos (particulares) que ficam em nós, desobedecendo a lógica do próprio tempo, à mercê do nosso desejo, que dá sempre um jeito de os reter. E são desses tempos todos que somos feitos. E, assim, nos tornamos atemporais, pelo menos, na nossa imaginação de vida. Afinal, precisamos, de algum jeito, sobrepor, ou simplesmente ignorar o tempo, este velho tempo que nos consome, que se alimenta das nossas horas, e acaba sempre nos matando – a todos.
Também em mim, ficam tempos que não querem ir – talvez, por não saberem o caminho de volta (o passado não existe mais), ou a trilha (sem luz) do futuro. Eu os liberto, e os acolho, pois permanecem em mim, tão habituados a esse convívio vivo.
Uma das presenças mais marcantes, na minha vidinha, sempre foi meu pai, que me apresentou o mundo, por incontáveis janelas de trens (ele era maquinista). Quando eu tinha cinco anos, passei a ter, em meu pai, a disponibilidade de um avô – foi quando ele aposentou-se. Entre tantas caminhadas que fazíamos juntos, ele começou a ensinar-me a magia encantada e encantadora das palavras. Como morávamos à beira dos trilhos da velha estação de trens, a lição que meu pai mais me repetia era: “Nunca esqueça o valor dessas três palavras mágicas: Pare Olhe Escute”. Eu fiquei extasiada com os três segredos desvendados, que, quando a família viajava de trem (eram tantas as viagens), eu ia lendo, em voz alta, pelo caminho: “Pare Olhe Escute”, “Pare Olhe Escute”, “Pare Olhe Escute”, “Pare Olhe Escute”...
A partir daí, as palavras me libertaram para o mundo que me é desconhecido até hoje. Depois daquela infância rica de fantasias e imaginação, nunca mais viajei de trem. Mas continuo viajando na lição do meu velho pai: “Nunca esqueça, Nara, que você precisa sempre parar, olhar, e, principalmente, saber escutar. Se conseguir fazer isso, você compreenderá mais, e sofrerá menos”. Ouvi isso, muitas vezes, e guardei as palavras de meu pai, sem saber a tradução do que ele me repetia. Acho que ainda estou aprendendo a lição – e já faz tanto tempo!...
Meu pai era um ser humano bem humorado, de bem com a vida mesmo, brincalhão – a minha ironia é toda dele. Quando saía, cumprimentava todo mundo, sempre sorridente, tirando a sisudez de muitas aparências hostis.
Acho que até cabe uma historinha, pra te apresentar meu pai:
Durante um tempo, meus pais ajudaram na construção de um Hospital Espírita, atendendo numa lojinha improvisada, que vendia todo tipo de objetos arrecadados, desde roupas, calçados, até móveis e outros tantos “trecos” (inimagináveis). Numa dessas tardes, eu estava passando pela lojinha, quando vi meu pai atender um velho desconhecido. Meu pai, todo animado, mostrou-lhe um pequeno ventilador, e o senhor respondeu: “Não posso com isso, tenho doença nos pulmões”. Num só ímpeto, meu pai interrompeu, dizendo: “Então, este aparelhinho foi feito para o senhor, pois ventila fraquinho, fraquinho”. E ligou o 'pobre' do ventilador, que mal conseguia girar, len-ta-men-te... Esse era Seu França, meu pai. (Acredite, vendeu o “ventiladorzinho aposentado” - como o chamou.) hehehehehehehe


Meu pai completaria, nesses dias de outubro, 92 anos, mas, há algum tempo, dormiu, e esqueceu de acordar – talvez, estivesse sonhando. Eu não sei. O que sei é que continuamos caminhando – meu pai e eu, juntos -, ou viajando de trem, olhando a paisagem, e a placa insistente:


Pare
Olhe
Escute


… como dizia meu velho pai: “Ainda que não parem. Ainda que sequer te olhem. Ainda que não te escutem”...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Par ou ímpar?



Dia desses, enquanto assistia uma entrevista com Madonna, ouvi isso:
Entrevistador: - Você pretende casar de novo?
Madonna: - Prefiro ser atropelada por um trem.
Achei engraçada, não só a resposta, como também a forma (de sopetão) que respondeu a cantora, e, claro, anotei no papel mais próximo. Hoje, encontrei o pedacinho de papel, e cá estou escrevendo o que não caberia no papelzinho.

Madonna foi taxativa. Trágica até.
Quanto a mim, que nada tenho da (poderosa) Madonna, gosto de trens – minha infância teve a paisagem de uma janela de trem. Quanto à pergunta que foi feita à Madonna, acho que eu responderia com aquela outra (antiga) opção: compraria uma bicicleta – também gosto de andar de bicicleta.
Não pense você que vou escrever sobre casório, por que, sinceramente, não tenho experiência suficiente que me sustente numa empreitada dessas. Nem arriscaria. Vivi em condição de “senhora casada”, uma única vez na vida. O que posso dizer a respeito é que aprendi pra caramba, e acho que não volto àquela sala de aula.
Brincadeiras à parte, o importante é ser, fazer-se feliz – sempre!... Não importa mesmo se é par, ou ímpar. Ainda bem que a “época do pecado” parece que passou, e ninguém mais precisa casar, por que engravidou, ou por que não é mais virgem, ou mesmo por que a família decidiu. Ainda bem, hoje, não há mais necessidade de casar, morar junto, pra se ter uma relação legal com alguém – na cama, e fora dela. Acabaram os 'trovões' assustadores, e ninguém mais precisa casar, só por que não quer ser chamado de solteirão, ou solteirona. O estigma foi derrubado pelo desejo da maioria, que simplesmente quer viver bem. E pronto.
Pelamordedeus, não dá mais pra escamotear o sentimento de solidão, com alguém do lado. Ser humano precisa – e merece! - mais que isso. Lembro agora de uma amiga, em processo de separação conjugal, que disse: “Eu estava tão ansiosa, à espera do príncipe encantado, que acabei casando com o cavalo dele”. Sem baixar livrinho de auto-ajuda, acho que a gente precisa, antes de tudo e de mais nada, aprender a conviver, na boa, com a gente mesma. Por que as outras pessoas – todas, todas – podem se livrar da gente, da chatice da gente, quando bem entender, sem olhar pra trás, menos nós mesmos. Por isso, é bom que a gente seja uma boa companhia pra gente mesma.
Mas a pergunta volta com tudo: Par ou ímpar?...
Sei lá. Pode ser que a tua felicidade esteja no par, na vidinha a dois. Acho mais saudável, quando não existe a dependência da “tampa da panela”, ou a “outra metade da laranja”, e coisas assim. Legal é uma relação de dois inteiros que se amem, se respeitem – mesmo sem as bençãos da igreja (nada contra a tradição), ou o registro 'casamental', oficial.
A vida ímpar também pode ser a melhor coisa do mundo, desde que você esteja em paz contigo, e curta com satisfação a tua própria companhia. Inclusive, o mercado mundial está reconhecendo que a maioria das pessoas está planejando e vivendo sozinha mesmo. Por isso, cada vez mais, as prateleiras estão lotadas de produtos em pequenas porções, ou embalagens minúsculas, justamente pra atender os ímpares.
Madonna, por exemplo, parece estar convencida de “casamento, nunca mais”. Mas nem por isso ela deixa de optar pelo par – agora, informam os 'fofoqueiros de plantão', a grande 'popstar' está de namoro com Jesus (brasileiro!), mas bem loooooooooooonge dos religiosos fiéis... hehehehehehehehe

E então: par ou ímpar?... (talvez, este seja um dos poucos jogos que não pressupõe perdedor, ou perdedores)

domingo, 18 de outubro de 2009

Monólogo íntimo

Ainda que haja controvérsias, estou aqui pra garantir a você que, primeiro, eu surgi, e, a partir de mim, tudo foi se formando à minha volta. Antes de existir coração, ou cérebro (talvez, nem alma havia ainda), eu já estava em você, eu era inteiro você - e ainda sou. Tudo o que você fez, faz e fará sempre foi, é e será por mim - em meu nome -, tendo você consciência disso, ou não. Eu sou o teu segredo mais íntimo, inconfessável até a você mesmo. E não existe o que me substitua, ou me supere, por que eu sou inteiro você - tua essência, teu princípio, quiçá, o teu fim.
Às vezes, alguém me reconhece em você, mas é por pouco tempo, pois você não me admite em público, me esconde até de você mesmo. A tua dor sou eu me condoendo, por causa do que fazem contigo - meu fruto, meu produto, minha arte final. Não adianta você dizer que não vive em minha função, por que sou eu inteiro em você. (Por que o motorista sempre dirige o veículo em sua própria defesa, num acidente?... Ora, por que também ele me tem em semelhança - não sou eu, mas, igual a mim, existe outro em cada ser humano.)
Compreendo quando você tenta convencer os outros que pensa na humanidade, que quer trabalhar em equipe, que quer somar, que não perde a confiança nas pessoas. Entendo que, pra viver neste mundo, é preciso “ser parceiro”. No fundo, compreendo tudo isso que você demonstra, por que sei que, no fundo, bem no fundo (que é onde eu estou), você prioriza você (eu), o tempo inteiro. Tenho certeza de que, no meio de tantas vidas humanas, se tivesse de escolher, você optaria, em primeiro lugar, sem pestanejar, salvar a tua própria vida, salvar a mim. Sei tanto de você, por que sou eu – inteiro – em você.
Até entendo por que você está sempre tentando agradar os outros. É o caminho que você conhece, pra ser aceito, pra que me aceitem, me aplaudam, pra que eu seja o centro, enfim, de tudo e de todos. Sei de tudo isso – sei até do que você nem imagina. O que você quer mesmo é me proteger, e me manter no pedestal inalcançável, o tempo todo. Eu sei que você quer (sou eu que quero) que o mundo gire em torno de mim, mas o mundo desobedece, e segue o próprio caminho. Por isso, tua frustração é minha frustração, tua decepção é minha decepção, tua desilusão é minha desilusão, e também tua raiva é minha raiva. Você é parte de mim – eu sou inteiro você. E mais: Quando você se sai bem em alguma situação, é a mim que você infla. Quando se sai mal, sou eu que te reergo, com todo orgulho. Sou eu, teu único abrigo, que jamais te abandona.
Sou eu que te acompanho, a cada passo, em tudo, a cada lapso de instante da tua vida. Sou eu na tua família. Sou eu na tua escola. Sou eu no teu trabalho. Sou eu nos concursos, nas competições. Sou eu na tua roda de amigos. Em tudo, sou eu, através de você. Isso é indiscutível. Fisicamente, poucos se importam comigo - mas permaneço aqui, como signo da origem de tudo em você. No instante em que você está triste, se sentindo humilhado, ofendido, injustiçado, vítima de, é em mim que você se recolhe, e chora todas as tuas mágoas. Eu te acolho sempre, e digo (ainda que você não queira ouvir coisa alguma), que você é “o melhor”, “o maior”, “o bom”. Sou mais que teu “ego”, teu “self”, teu “ying”, teu “yang”, teu “Id”, teu “superego”, teu “alter ego”, tua “alma”. Sou mais que teu “consciente”, teu “inconsciente”, teu “subconsciente”. Sou inteiro você – você que se sabe tão pequeno, apenas uma parte do que sou.

Assinado: teu umbigo.

P.S.: Deixa que os “grandes estudiosos” continuem afirmando que “umbigo é (tão-somente) a cicatriz resultante da queda fisiológica do cordão umbilical, e costuma manifestar-se como uma depressão na pele. A palavra umbigo tem sua origem no latim 'umbilicus', diminutivo de umbo, com o sentido de saliência arredondada em uma superfície”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

No meu lugar



Definitivamente, a vida não nos dá condições de troca de lugar com ninguém, a não ser em algum cargo, ou encargo, em atividade de trabalho, ou estudo, e nas filas, nas poltronas, ou em qualquer outro espaço físico. Claro, tem muita gente que ocupa mais que um lugar, seja na escola, no trabalho, na praça, ou em qualquer espaço notório, por que notório também é o seu tamanho, sua circunferência (brincadeirinha... hehehehehehehe). De resto, cada criatura humana é única, como também é único o seu lugar, tanto nas escolhas que faz, ou até mesmo quando escolhe não escolher. E, claro, assume, sozinha, isso tudo, mesmo quando escuta frases semelhantes a “vai firme”. Vai, nem sempre firme, e, na maioria das vezes, sem saber pra onde. Mas vai.
Até parece que já nascemos com uma identidade personalizada (talvez, na alma) – imperdível, intransferível. Se ousamos dizer “me coloco no teu lugar”, estamos ousando mesmo, pois jamais estaremos em outro lugar, senão no nosso, mesmo que neguemos, por toda vida, esse lugar.
É característica humana, e desumana também, suponho, querer sempre estar no “lugar do outro”. Assim acontece com o fã que quer estar no lugar do ídolo, o empregado no lugar do patrão, o aluno no lugar do professor, quando não a esposa dona-de-casa no lugar do marido, que trabalha fora - e por aí segue a cantilena. Talvez, por que estamos sempre insatisfeitos conosco mesmos. Na nossa visão estrábica, imaginamos que o “lugar do outro” é mais confortável, seguro. Doce ilusão.
Mas nem adianta tentarmos nos colocar em outro lugar, senão no nosso, pois não encaixaríamos lá (no outro lugar). Sempre iria sobrar/faltar alguma coisa, ou seja, justamente a vida da gente, a personalidade da gente (força e fraqueza), com tudo o que a gente tem direito, com o que a gente fez e deixou de fazer da própria vida.
Vida aparente não denuncia a vida de alma. Como agimos, reagimos, até mesmo as opiniões que emitimos, seja a respeito do que for, tudo o que manifestamos, enfim, não significa mais que um instante de vida breve, que pode ser completamente desfeito no outro instante, a partir de uma manifestação contrária, e muito nossa. É assim que ‘funciona’ a imagem de cada um de nós: somos adorados por quem concorda conosco, e quer que permaneçamos como aparentamos ser. Tanto é verdade, que, quando mudamos nossas atitudes, nossas idéias manifestas, somos ignorados, repudiados, odiados até.
Sempre repito que pouco ou nada sei de humanidade. Mas penso. E o que penso agora é que, se cada qual se colocasse no próprio lugar, haveria mais espaço pra todo mundo caminhar, aprender, evoluir, viver enfim. O lugar da gente pode ser, sim, confortável, seguro, se a gente trabalhar pra isso. Pra mim, “murro em ponta de faca” até parece ser legal, em filmes. Na real, não há ensaios, nem regravações, muito menos efeitos especiais.
Eu faria melhor que você, no teu lugar?... Você faria melhor que eu, no meu lugar?... Não sei. Se eu fosse você, e se você, consequentemente, fosse eu, você faria a tua caminhada (que seria a minha, por que você seria eu, em tudo), e eu faria a minha caminhada (que seria a tua, por que eu seria você, em tudo), e acabaríamos cada qual no mesmo lugar: no meu lugar, no teu lugar. Melhor ou pior, este é o meu lugar, este é o teu lugar – e nada muda. Tudo é feito como parece que pode ser feito – do meu, ou do teu jeito, é feito. E parece que assim é pra ser. Talvez, se você estivesse no meu lugar, e eu no teu lugar, apesar dessa mudança toda (mais aparente), cada lugar continuaria o mesmo: intransferível. E acabaria sendo do jeito que já é, ou está. Você, no meu lugar, seria tão idiota como já é; eu, no teu lugar, seria tão babaca quanto já sou...
Em tempo: Não pense que “o lugar no mundo” do teu vizinho tem uma paisagem maravilhosa, mesmo que ele aparente isso (é momentâneo). O trem segue os trilhos, e as paisagens mudam, pois a viagem é longa, e não se sabe qual será a última estação de cada um. Teu lugar, ou meu lugar – é apenas um lugar (a mais, a menos). O que você faz, o que eu faço, neste lugar, é que faz a diferença. O resto é joguinho de palavras.
Exatamente no meu lugar (ocupo espaço mínimo, sou pequenininha), eu fico por aqui.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

No mundo das intenções

Embarque comigo, nesta (longa) viagem, para o mundo das intenções. É expressamente proibida, por questão de segurança, qualquer bagagem – não há lugar pra nem uma interpretação sequer, ou descrença, por menor que seja... Não sei ao certo, nem ao incerto, se aterrissaremos em algum qualquer lugar – depende de mim, depende de você...
Aviso prévio único: Não há cinto de segurança, nem qualquer seguro individual, ou kit salva-vida. A viagem inteirinha é por sua conta e risco. E boa viagem – pra nós!...
Se “de boas intenções, o inferno tá cheio” – não sei. O que sei (um pouco) é de mim, que (ainda e sempre) acredito nas intenções – boas, ou ruins. Eu mesma não preparo qualquer prato, na cozinha (um arrozinho sequer), sem que eu esteja imbuída de boas intenções. Pode parecer besteira - e é! -, mas acredito que, se eu não fizer bem intencionada alguma coisa, essa coisa vai resultar em ‘merda’. Por isso, quando não estou em paz com alguém com quem convivo, de uma forma ou de outra, antes de fazermos qualquer trabalho juntos, sempre procuro esclarecer o desentendimento, ou seja lá o que for que nos causou estranheza um com o outro. É meu jeito de ser, ou de não ser. Sei lá.
Tanto quanto em mim, também considero as intenções das pessoas. Se for alguém mais próximo, claro que a intenção tem um valor ainda maior. Lembro agora de uma senhora, que já faleceu. Ela criava muitos netos, e, por isso, a alimentação era escassa, mas contava com a ajuda de pessoas bem intencionadas. Eu a visitava quase sempre, mais pra ouvi-la, aprender com ela – figura simples, analfabeta, e sábia. Um dia, ao me receber em casa, essa senhora me disse, num abraço: “Guardei um prato de canjica de trigo, por que sei que você gosta tanto, mas não tenho leite pra colocar junto”. Quando ela me fez sentar à mesa, servindo-me o prato da canjica que tanto gosto, eu engasguei de emoção, e não havia jeito de engolir sequer o caldinho da pequena porção de canjica. Só pude degustá-la, depois de chorar, e, claro, tentar verbalizar o que senti, àquela criatura maravilhosa que conheci, com quem não posso mais conviver. Encontrei algumas (raras) criaturas encantadoras, que também me serviram canjiquinha de trigo (sonhos), alimentando a minha alma. O que contei aqui é pra você saber o que significa, pra mim, a intenção de alguém.
O mais legal é que guardo sempre as boas intenções das pessoas – as ruins, eu naturalmente esqueço (ou será que devolvo ao portador, que porta aquela dor?). É verdade – pode acreditar. E como valorizo cada uma das boas intenções que identifico! Nos sonhos das boas intenções das criaturas que conheci, já viajei quase o mundo inteiro, já trabalhei num gueto africano, já tive uma vida em paz no meio do mato, já fiz parte da criação de uma ONG de crianças, adolescentes e jovens esquecidos pela sociedade, já editei livros, e ganhei dinheiro com isso... hehehehehehehehehehe
Sonhei junto com gente bem intencionada. Sou uma privilegiada – isso sim.
As boas intenções – minhas ou alheias – sustentam a minha alma torta. Sou tão “ligada” nessas coisas intencionais, que acredito até na força do pensamento humano. Pra mim, tudo parte da intenção, e retorna à ela. Até mesmo quando eu quebro, ou alguém quebra, sem a intenção de, um copo, um prato, não fico me culpando por isso, nem culpo a outra pessoa, por ter quebrado a louça (é uma ‘merda’, quando a gente quebra, sem querer). Mas, quando existe a intenção – boa ou ruim -, aí sim, ajo de acordo com, mesmo quando sou eu, a criatura mal intencionada que protagoniza a cena terrível.
Acho mesmo que intenção é tudo. Por que – é o que vejo -, antes mesmo da concretização (materialização), houve um desejo, uma vontade, uma intenção. Nem sempre se alcança o objetivo, é verdade, mas, mesmo assim, a intenção sobrevive – liberta, ou escondida nos porões mais escuros da alma da gente...
A viagem pode continuar, se você (ainda) pensar sobre isso - ou não...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A embriaguez do saudosismo


Há pouco, reencontrei um amigo, colega de profissão, uma ‘espécie rara’ de ser humano, em extinção nos dias de hoje. Como sempre acontece, quando nos encontramos, ficamos conversando sobre tudo, mais ‘viajando’ mesmo. Ao longo do papo longo, fui percebendo que o saudosismo é uma embriaguez da alma. Mas o saudosismo embriaga a alma no ponto exato, por que, depois de uma certa dose, o bêbado fica chato, insuportável, começa a babar, vomitar, cair em cima dos outros. O saudosismo não chega a tanto – é um bêbado elegante, delicado, comedido, que se permite até chorar, sem qualquer exagero.
Eu e meu amigo ficamos recordando os “tempos dinossáuricos da imprensa” (como ele mesmo denominou). Pra quem não sabe, primeiro foi a escrita na pedra. Tô de brincadeira... Primeiro, foi a máquina de escrever mesmo (manual, depois elétrica). Depois, veio o telex, pra ajudar. Mas não bastou, e aí chegou o fax modem. O computador veio pra arrasar com tudo, fazer os profissionais do jornalismo até esquecerem do passado trabalhoso. “Fala a verdade, Nara, há quanto tempo você não visita as redações? Lembra que, antes dos emails, a gente tinha de visitar, diariamente, jornais, rádios e o pessoal de televisão, pra deixarmos nossas matérias, e atualizarmos o convívio?”... (silenciei)
Meu amigo continuou: “Primeiro, a gente ‘batia à máquina’, fazia cópias, e entregava junto com as fotos, reveladas em diversas cópias. Depois, com o telex e o fax, ainda nos restava levar, em mãos, aos colegas, as fotos copiadas em revelação. Agora, vai tudo por email: textos, fotos, e já não se tem mais o aperto de mão, o abraço, o bate-papo informal, o contato humano”... (silenciei novamente)
“Ah, lembra dos laboratórios improvisados, pra revelação de fotografias?” – perguntou-me. Claro, quantas vezes exagerei no fixador! – lembrei na hora. E rimos juntos – eu e meu amigo -, mas rimos com o riso saudosista. “As máquinas digitais trouxeram junto as revelações digitais, e muita gente perdeu emprego” – falou meu amigo. A ordem, agora, meu amigo, é estar ‘antenado’, disse-lhe sem ânimo. De imediato, meu amigo completou: “Antenado sempre, por que senão perde o lançamento de mais alguma coisa que revoluciona o mundo”.
Mas fomos mais longe, na nossa ‘viagem’. Eu lembrei ao meu amigo que, não faz tanto tempo assim, gostávamos de uma música, e precisávamos ficar esperando, com ansiedade, obviamente, a chegada do disco de vinil, na cidade. E isso demorava muito, mas não desístiamos. Até que, finalmente, a tão esperada música chegava no “bolachão” de vinil, e corríamos pra ouvi-la. Pura emoção!...
Hoje, as coisas mudaram – tanto, tanto! “Perdeu-se a nostalgia” – disse meu amigo. E eu completei: perdeu-se o encanto da poesia; tudo é descartável. E meu amigo seguiu: “A turma de hoje baixa tudo pela internet, fica ouvindo em ‘ipods’, logo enjoa, joga tudo fora, e ‘baixa’ outras músicas. No nosso tempo, como cuidávamos dos vinis, que não podiam ser ‘arranhados’. Acabavam tornando-se parte da família da gente, de geração pra geração”.
Embriagados de alma, eu e meu amigo rimos. Depois, ainda falamos sobre os filhos – crescidos, cada um construindo o próprio caminho. E meu amigo gargalhou, falando: “Daqui a pouco, serão eles, os nossos filhos, Nara, a se sentirem dinossauros, em meio a tanta modernidade”. Dinossauros? Não. Dinossauros somos nós, meu amigo. Eles já fazem parte do futuro – respondi.
Depois, nos abraçamos, eu e meu amigo, e prometemos ainda reunir a “turminha da velha guarda, nem que seja num clube dinossáurico” (brincou ele). “A gente precisa se reunir mais, não só no velório dos colegas mais antigos” – ainda disse meu amigo, tentando esboçar um sorriso, contido por uma lágrima (ou, melhor, duas lágrimas)...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Coisas de ser humano


Você está nascendo, nascendo para uma vida que acaba sempre em morte... e não há mais o que fazer (fatal!), senão “ir vivendo”...
Nos primeiros momentos de vida, você conhecerá gente que falará dialetos intraduzíveis: “gu-gu-dá-dá”, “bilu-bilu", e outros grunhidos que não terão tradução alguma, a vida inteira. Você não sabe o que é isso, mas, se a criatura sorrir, te pegar no colo, te beijar, pode sorrir também - pelo menos, faz algum bem. Quando te deixarem sozinho, num lugarzinho aconchegante, ao qual chamam “berço”, não adianta espernear, nem chorar. O destino é sempre o mesmo: berço. A hora é de dormir, e você nem sabe disso, mas acaba dormindo, do mesmo jeito. Só bem mais tarde, você conhecerá insônia, e haverá momentos em que você perderá todos os sonhos. É coisa de ser humano mesmo.
No começo da vida que acaba, você sentirá ‘coisas’ incômodas, desagradáveis mesmo, no teu corpo frágil e desconhecido, ‘coisas’ que você nunca sentiu, e vai chorar por isso, você, que ainda nem sabe o que é choro, ou lágrima. Ser humano denomina tudo, e chamam essas coisas por variados nomes – colite, otite, alergia, etc e tal. Não importa. Tudo isso causa dor. Mas passa, por que sempre alguém vai te dar remédio, chá – tudo com gostinho adocicado. Uma delícia. Só de sentir o gosto, você esquecerá a dor, que você nem sabe o nome. Até para o choro sem dor, os adultos já acharam nome (acredita?): dengo, manha – que nem sempre é correspondido. Muito tempo depois, a dor da tua alma se mostrará – pungente -, e não haverá remédio, ou chá, para sequer amenizá-la. E todas as lágrimas do mundo não expressariam a tua dor, que é só tua, e será tua companheira inseparável, nesta viagem com tantos caminhos, desvios, e um único fim. Ser humano é isso, e um cadinho mais.
Depois de alguns meses, já vai ter gente te colocando em pé no chão, tentando te fazer andar, e aí vale tudo – orações, simpatias. Aos poucos, sem saber exatamente o que está fazendo, você vai dar alguns passos titubeantes, e cair, e chorar, e vão te fazer levantar, muitas vezes, até você caminhar com as próprias e inseguras pernas. E você continuará caindo e levantando, a vida a inteira – nem sempre terá alguém por perto.
O tempo vai passar longe do teu saber, e você já estará brincando no gramado, jogando bola, com cicatrizes nos joelhos, nos cotovelos, extasiado diante de uma formiga, ou de um formigueiro. E você vai chorar numa queda, mas vai descobrir que também se pode chorar, de tanto rir. E você não compreenderá por que não pode falar palavrão em público, se todo mundo acha engraçado.
Na adolescência, você ouvirá muitos 'nãos', à tua sede de experimentar todos os sabores do mundo que te chama. Ah, e não vai mais receber visita no “bercinho”, não, com um monte de gente em volta dizendo o quanto você é “uma gracinha”. Pelo contrário. Todos dirão que você é grande pra (ainda) fazer algumas coisas, e pequeno pra fazer outras tantas. E você não saberá mais qual o teu espaço, neste mundo humano. Não importa, por que, um tempo depois, a cena se repetirá: você será novo demais pra ser velho, e velho demais pra ser novo. Para muitos, você estará errado, e para outros, na mesma circunstância, você estará certo. E você (ainda) não saberá, mas continuará agindo certo e errado, a vida inteira. É coisa de ser humano mesmo.
Cedo ou tarde, você conhecerá a morte, e odiará o significado desta palavra, a vida inteira, por que será ela a levar embora, pra nunca mais, justamente as criaturas que você mais ama. Cedo ou tarde, você saberá, sem saber, que a morte não tem lógica, nem faz o menor sentido – como a própria vida.
Na escola, te ensinarão um monte de coisa que não vai prestar pra coisa alguma, na tua vida inteira. Mas, mesmo assim, você terá de mostrar que aprendeu. Ah, será nos primeiros anos de escola, também, que você conhecerá uma palavra que terá de enfrentar, a vida inteira: competitividade. Palavrão, né?... Ser humano é assim mesmo.
Das fraldas à escola, a diferença será gritante mesmo (pode gritar!), e você sentirá abandono, desamparo, solidão até. Prepare-se – tudo isso é apenas o começo de (mais) uma vida que acaba, a cada dia...
Não importa em que tempo, tua alma se encherá de candura, através do amor que você sentirá por outra criatura, que pode, ou não, corresponder ao teu sentimento único. Há quem diga que essa relação de amor sempre tem fim (eu não acredito que acaba). E você sentirá, na pele, o desejo sexual. E passará a vida inteira buscando sexo com amor. Você conhecerá (e saberá denominar) sentimentos, além do amor, de ódio, saudade, raiva, inveja, melancolia, hostilidade, ciúme, vingança, nostalgia, e tantos outros... E sentirá medo de tudo, de todos, até de você mesmo. Mas você pode escolher, e viver a vida do jeito que acreditar nela. Não esqueça: você pode mudar – sempre – de idéia, se contradizer, desistir, retomar, fazer e refazer a tua própria história de vida, que é só tua mesmo. Pode até se suicidar, se quiser. Sobre isso, eu penso: e adianta se matar, se, desde que a gente nasce, o único destino imutável é justamente a morte?... ‘Sacanagem’, né?... Não dá pra fazer a vida da gente tão previsível. Afinal, um dia, pelo menos uma pessoa vai falar assim da gente: morreu!...
Um dos momentos de maior indecisão será quando você pensar sobre que rumo tomar profissionalmente. Você pode tornar-se “o médico”, “o engenheiro”, ou “o advogado” que a família sempre sonhou, ou, como costumo dizer, ‘lamber selo’, a vida inteira (traduzindo: assumir um trabalho contínuo, sem novidade alguma, todo dia, a mesma coisa). O ‘leque’ de profissões é cada vez maior. Se, de repente, você não se der bem como contabilista, pode trabalhar numa loja de confecções, e tudo bem. Vender bananas na praça, suco na praia, ou pamonha, acarajé e sorvete por aí também parece ser bom demais. Poucos irão se importar mesmo se você se sente realizado no trabalho – a maioria vai querer saber se “o salário compensa”. Agora, aposto que até você já sabe: é coisa de ser humano mesmo.
Chegará o momento de você deixar o “ninho” dos pais. Não importa se você terá 20, 30, 40 anos. Se demorar muito, os pais é que se mudarão pra eternidade, enquanto você permanece na hesitação. Você pode casar, ou simplesmente morar com a pessoa que você ama, ter filhos. Aí, será você a emitir grunhidos de felicidade, diante de um berço iluminado. Sem pai, nem mãe, você estará construindo uma nova família. Você pode também querer viver sozinho, solteirão. Não pense que a solidão o deixará, dependendo da tua escolha. É coisa de ser humano mesmo. Muitas vezes, com a casa cheia, ou vazia, você sentirá vontade de chorar, sem porquê, como quando ficava no berço, e você nem sabia o que era abandono, desamparo, solidão. Chore, por que este é você: ser humano.
A tua velhice chegará num repente. De um dia para outro, você perceberá cada ruga na face oculta, todos os cabelos brancos, o cansaço e as dores no corpo, dores que você tratará pelos nomes mais complicados, cheios de “ites” e “oses”. E não há mais volta. Mas há mais vida. E você pode continuar escolhendo o que e como viver. Talvez, você ainda tenha tempo de voltar a ser criança, não só pra usar fraldas, mas pra brincar mais, pensar menos, fazer besteiras, rir de si mesmo, e sonhar, sonhar... Coisas de ser humano.

Ah, já ia quase esquecendo (imagine!): depois disso tudo, e mais um pouco, você morre...

De olho