sábado, 30 de maio de 2009

Em nome do Zé*


(Desde que me conheço por gente, me chamam Zé Banguela – nasci desdentado, e depois perdi os dentes pro nunca mais. Sou analfabeto de pai e mãe, como milhões de brasileiros trabalhadores. Por isso, essa jornalista maluca vai escrever por mim.)
Sinceramente, fiquei emocionado, quando soube que o meu salário passará de 415 para 465 reais. Falei pra ‘patroa’, lá em casa, que vamos precisar pensar direitinho sobre o que fazer com o dinheiro que vai chegar. Falta tanta coisa, que vai ser difícil investir esses ‘cinquentões’, na família.
A situação está difícil pra todo mundo. Lá em casa, se tem almoço, não tem jantar, e se a gente janta, não almoça no outro dia. Se um dos barrigudinhos adoece, a coisa piora, por que não tem remédio no SUS, e os preços estão pela hora da morte. Eu trabalho, mais de doze horas por dia (domingos e feriados também), como auxiliar de pedreiro, e a ‘patroa’ lava e passa roupa pra gente rica, que tem máquina de lavar, mas parece que não sabe apertar os botões. Falam numa tal de hora extra, mas eu não sei o que é isso, e também não entendo nada de uma tal de “carteira profissional” – não sou profissional, sou peão.
Todo patrão que me contrata diz a mesma coisa: se a gente assina carteira, recebe menos, no final do mês. O salário é sempre mínimo, e o esforço no trabalho é máximo. Se a gente não mostra serviço, eles contratam a fila que fica lá fora, disposta a trabalhar por menos que a gente. Não tem jeito.
Fiquei sabendo do aumento do salário, lá na construção. O “Zé Tijolo” é que disse que a gente vai ganhar cinqüenta reais a mais. Ele falou outras coisas que eu não entendi. Falou de uns tais “economistas”, que fazem os “cálculos” pro bolso do trabalhador brasileiro. De cálculo, só conheço renal – tive duas vezes, e como dói!...
Eu nem sabia que um tal “governo”, que fica longe, numa “Brasília” que nunca vi, é que manda o patrão dar mais dinheiro pra gente. O “Zé Tijolo” quem falou. Parece que tem um grupo que estuda o jeito que a gente vive, conta tudinho pra esse tal “governo”, que manda o patrão da gente pagar mais. Lá em casa, ninguém foi saber como a gente vive, a ‘patroa’ confirma.
Fico imaginando se esse tal “governo” fosse visitar o nosso barraco. A gente não teria o que oferecer, mas, lá em casa, tudo é limpinho, limpo até demais, por que não tem nem comida nas panelas de latão. Sem luz, nem água, a gente saberia agradecer a visita. A ‘patroa’ ficaria preocupada se o tal “governo” iria querer ficar por alguns dias. Claro que não, por que a “Brasília” que eles conhecem deve ser mais interessante, deve servir almoço e jantar, e, se vacilar, deve ter café da manhã, e até lanche fresquinho.
O “Zé Tijolo” disse que o tal “governo” não sabe como a gente vive, nunca passou um dia inteirinho na favela. Se não sabe, como é que vai ‘chutar’ o valor do nosso salário? Andaram dizendo por aí que tem outra gente inteligente (de um tal “Dieese”) fazendo pesquisas e estudos, pra mostrar a nossa realidade, a vida da maioria dos brasileiros. Essa gente é que diz que “o salário mínimo necessário para o trabalhador brasileiro suprir as despesas com moradia, educação, saúde, vestuário, transporte, higiene, previdência e lazer (casal e dois filhos) deveria ser de R$ 2.005,57”. Mas não são eles que “comandam” o Brasil e o meu patrão. Ah, mas aí seria muito dinheiro! A gente nem saberia o que fazer com tanto!
Dizem que o pessoal dessa tal “Brasília” ganha muito mais que isso, e ainda rouba do povo brasileiro. Já fui assaltado, tinha só duas moedas no bolso, e um passe de ônibus. Nunca recuperei os vinte centavos e o passe (será que foram pra “Brasília”?), nem vi mais o moleque que me roubou. Acho maldade dizerem que os “comandantes” do Brasil roubam do povo, por que o povo é igual a mim – não tem aonde cair morto.
Não quero enrolar a conversa. Estou aqui para agradecer os cinqüenta reais que eu, a ‘patroa’ e os barriguinhos vamos receber a mais. O patrão fez cara feia, quando eu agradeci a ele. Já falei lá em casa: não vamos gastar esse dinheirão que vem com besteiras. Vamos continuar trabalhando, e fazendo tudo pra não morrermos antes do tempo, por que, um dia, todo mundo vai morrer, de um jeito, ou de outro...

*Essa é minha homenagem aos trabalhadores que já entrevistei, nas favelas da minha vida.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O humano ‘deus’ e a desumana humanidade


Que fique bem claro que não tenciono escrever, aqui, sobre religiões. Até por que não sou teóloga, nem pretendo ser. Também, não quero questionar a fé, por que precisamos acreditar – sempre -, senão no Papai Noel, pelo menos em alguma coisa semelhante à vida. Pra mim, religião é a necessidade de o ser humano transcender o que lhe parece ‘vida’, criar, sem comprovação racional, a eternidade, para que vida/morte tenham algum (mesmo vago) sentido.
Interessante observar que todas as religiões – das mais ‘humanas’ (que idolatram os prazeres da vida física) às mais ‘transcendentais’ (que negam a vida corpórea) – mantêm alguns parâmetros de fé. E também se referem às conseqüências dos atos humanos, com tal coerência, que não nos deixa outra saída, senão assumirmos o que fazemos e/ou deixamos de fazer.
Milênios antes da existência de Jesus Cristo, as religiões já eram criadas e alimentadas, para manter uma certa ordem, na desorganizada humanidade. No que li de história daquela época (zilhões A.C.), o sacro e o profano eram cultuados com tamanho fervor, que todo mundo acabava sendo seguidor de algum dos ‘deuses’. Hoje, a situação até não mudou muito.
Temos religiões muito rígidas, inflexíveis, como a própria igreja católica, que tem um Papa tão conservador, que foi dizer para o povo africano que o preservativo (“camisinha”) não é “coisa de Deus” – a velha historinha de “toda semente não deve ser jogada fora”, etc e tal. Também, acabou comprometendo o trabalho de conscientização da Organização Mundial da Saúde, que previne DST/AIDS, em todo o continente africano. Depois da visita do Papa, muitos africanos (do ‘rebanho católico’) deixaram de adotar e defender o uso de preservativos. E não adianta ninguém ir lá, para contestar as palavras do Papa. E ainda tem a prática comum da pedofilia, com a participação dos “emissários divinos”, por todo o mundo. Um absurdo!
Na lista das religiões inflexíveis, está o islamismo, que já faz parte da cultura de diversos países orientais. As mulheres, naquelas “bandas”, só servem mesmo pra reprodução e prestação de serviços domésticos. Nesse caso, a religião tomou conta, extrapolou os muros das ‘mesquitas’, entranhou-se na cultura local. Mulher não tem vez mesmo, nem voz. No Afeganistão, o radicalismo impera fortemente. Por lá, as mulheres usam um ‘vestido’ (por que vestem, mas mais parece um lençol GG de casal), que cobre todo o corpo, o rosto, até os olhos. Imagine.
Pra nós, mulheres ocidentais, à primeira vista, pode parecer “excêntrico” andar de ‘hijab’ (o véu negro). Mas o veuzinho, que parece tão inofensivo, feito com tecido pretinho básico, representa castração, cerceamento, a morte de qualquer direito feminino. Como se não bastasse aquela ‘merda’ toda, fiquei sabendo que assinaram decreto saudita que ordena as mulheres a taparem um olho. Acho que o número de mulheres que estão enxergando a própria condição, e, por isso, se rebelando, tem aumentado. Os sauditas (homens, claro) não deixaram por menos, resolveram reduzir a visão ocular das suas mulheres, na ingênua idéia de que, com um olho só, elas enxergarão menos. Nós, mulheres sem ‘hijab’, sabemos que cerceamento só nos causa uma ação: a revolta. Que “Allāh” não seja machista, como os seus seguidores.
Aqui no ocidente, temos religiões flexíveis, adaptadas, e cada vez mais adaptáveis ao ‘modus vivendi’ dos “fiéis”. No Brasil, especificamente, algumas religiões e seitas atendem à “necessidade do freguês”. Claro, não vou “dar nomes aos bois”, por ser até desnecessário (todo mundo já ouviu falar, ou até mesmo freqüenta, um templo desses). Pecou (todo mundo peca), basta pagar um “dízimo” extra, e tudo bem. Quanta discriminação! Se o cara é pobre pecador, não tem direito à isenção dos pecados. Talvez, por isso mesmo, muita gente comete pecados inimagináveis, pra ganhar dinheiro, garantindo uns trocados, após o pagamento do dízimo. No final da história, todo mundo fica bem, obrigado, e não se fala mais nisso.
Independente do nome na fachada, toda igreja, ou seita, tem o grande objetivo de apoderar-se do “rebanho de fiéis”, que eu costumo chamar ‘manada’. Quanto mais ignorantes os pobres coitados, maior a prosperidade dos religiosos, que impõem, goela abaixo, um ‘deus’, às vezes, bonzinho, benevolente, outras, nem tanto, mas sempre um ‘deus’ poderoso, “que tudo vê, tudo sabe” (o ‘deus-medo’).
Penso – jamais concluo – que cada ser humano não é “imagem e semelhança” de ninguém mais, senão dele próprio. ‘Deus’, sim, é “imagem e semelhança” da desumana humanidade, que, a cada passo, vai lá, na pintura do ‘deus ideal’, e dá mais uma pincelada de ‘perfeição’.
Fé, pra mim, é acreditar, e agir de acordo com a crença que tem (um pouco de coerência ajuda a manter o rumo). Mas, antes de tudo, é preciso consciência dessa fé. Eu não posso pegar emprestada uma fé que nunca foi minha, nem comprá-la. Acreditar, seja no que for, pressupõe saber intimamente, e isso é intransferível. Se tenho fé em seguir uma religião é por que (ainda) não estou preparada para descobrir, por mim mesma, a minha própria fé, o meu ‘deus’.
Falando em ‘deus’, que fique aqui o registro: Admiro os ‘deuses’ interpretados por Antônio Fagundes (“Deus é Brasileiro”), Alanis Morrissette (“Dogma”) e Maurício Gonçalves (“O Auto da Compadecida”). “Deuses” tão humanos, que, se quisermos, nos ensinam um pouco de humanidade...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Zé Rodrix imortal


Poderia continuar sendo uma sexta-feira qualquer. Não. Repentinamente, de passagem pela televisão da sala, ouço: “O maior sucesso, na carreira de compositor, de Zé Rodrix foi Casa no Campo”. Falei, sozinha, sem pensar: pra Globo abrir espaço, no Jornal Hoje, ao Zé Rodrix, só pode ter morrido. E morreu mesmo. Zé Rodrix, agora, é imortal.
Pouca gente sabia, mas Zé Rodrix tinha formação musical, tendo estudado no Conservatório Brasileiro de Música e na Escola Nacional de Música, tocava piano, flauta, acordeão, bateria, trompete e saxofone. Carioca, 61 anos, seis filhos, vivia em Belo Horizonte, junto com a família. Sentiu-se mal em casa, e, em menos de meia hora, estava morto. Velório e enterro, em São Paulo.
Sagitariano de 25 de novembro, Zé Rodrix só sabia fazer arte. E como fazia tudo bem feito! Não digo isso, por que morreu, mas o admirei sempre vivo. Durante mais de vinte anos, foi publicitário, dono do estúdio A Voz do Brasil, produzindo jingles e músicas comerciais de sucesso.
A música embriagava a alma de Zé Rodrix. De 1968 até o início deste ano, gravou quinze discos (entre vinil e cd), e mais um compacto. Tenho certeza que não gravou mais, por falta de espaço no mercado. Mas agora deve começar a vender como nunca (quanta ironia!). No início do novo milênio, revelou-se maçom, lançando a "trilogia do templo" sobre a Maçonaria, com os títulos: Johaben: Diário de um Construtor do Templo; Zorobabel: Reconstruindo o Templo; e Esquin de Floyrac: O fim do Templo. O cara viveu intensamente.
De jeito simples, bem-humorado, Zé Rodrix compôs músicas belíssimas, inesquecíveis. A maioria dos fãs destaca sempre “Casa no Campo”, parceria com Tavito. Mas eu sou mais "Soy Latino Americano" – música, pra mim, que diz tudo, no tom perfeito do bom humor.
Mais uma vez, morre o artista, e fica a arte. A arte que o imortaliza. A arte que nos embriaga a alma. A arte que faz de conta que a vida tem algum sentido. A arte que sensibiliza, emociona, nos torna humanos. A arte – pura e simples – que faz a gente alimentar sonhos. A arte sem sinônimo, com tantas palavras, tantas melodias, tantas memórias, tantas vidas, tantos cantos – claros, obscuros, silenciosos, gritantes...

Olha, gente, tem Zé Rodrix no horário nobre: imortal!! (Talvez, se ele visse a “manchete” do dia, até risse, ou chorasse...)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A ‘merda’ da indiferença


Francês: indifférence;

Alemão: Gleichgültigkeit;

Espanhol: indiferencia;

Russo: равнодушие;

Japonês: 無関心;

Italiano: indifferenza;

Inglês: indifference;

Chinês: 冷漠;

Grego: αδιαφορία;

Português: indiferença.

Não importa o idioma, indiferença é sempre a mesma ‘merda’, por que distancia, mais ainda, as pessoas. O ‘status quo’ do nosso tempo perpassa pela indiferença. E não há quem não cometa um ato de indiferença, e/ou não seja vítima da mesma ‘merda’.
Indiferença é você não ouvir, não responder, seja lá quem for. É não dar atenção. É não se importar com o outro. É passar pelo cotidiano, como quem flutua num jardim de nuvens, e desconhece o chão firme. É não querer envolver-se. É negar-se a compartilhar sentimentos, sejam quais forem – vitória, dor, alegria, luto, revolta, etc.
Querem um exemplo mais recente de indiferença? É o que ficou evidente no amontoado de repórteres em torno da ministra Dilma Roussef, quando ela saía do hospital, após tratamento de quimioterapia. Os ‘ávidos repórteres’ não pareciam estar diante de um ser humano, mas sim, uma mera imagem política de destaque. A ministra aparentava desgaste físico, esforçando-se em atender até as perguntas mais idiotas: “Quando a senhora retorna a Brasília?” “Quando será a próxima sessão de quimioterapia?” “Vai mudar alguma coisa, na sua rotina de trabalho?” Será que é isso que importa aos leitores/espectadores/radiouvintes? Sei lá, mas eu, que também sou leitora, espectadora e pouco radiouvinte, sem ser indiferente à doença da ministra, não vejo necessidade, nesse caso, de os meus ‘colegas’ ficarem “enchendo linguiça” (ocupando tempo/espaço), como costumamos dizer, invadindo a privacidade de uma personalidade em tratamento.
Mas a maior indiferença não é cometida, a meu ver, através das janelas da televisão, do rádio, do jornal. Não. Ainda tem coisa pior, gente, e todo mundo sabe disso, por que sofre cotidianamente, de um jeito, ou de outro.
Uma cena comum, em via pública. Alguém tropeça, cai. Pode observar, nem sempre todas as pessoas próximas socorrem a vítima da queda. Alguns saem de ‘fininho’, outros atravessam a rua, para ‘admirar’ a cena de longe, e quase sempre há aqueles que nem tomam conhecimento do que aconteceu, diante do próprio nariz. Por sorte (da vítima), sempre existe algum “bom coração”, que, num ímpeto de abandono da indiferença, ajuda a criatura levantar-se, se coloca à disposição para encaminhá-la ao P.S., quando necessário, enfim, torna-se humano, correspondendo ao que todos nós imaginamos “ser humano”.
Lembro agora que, há muito tempo atrás, uma amiga terapeuta começou a atender uma criança vítima de maus tratos causados pela mãe. Sensibilizada, minha amiga buscou saber quem era a mãe, onde morava, para atenuar aquela situação terrível. “A mãe da criança espancada era a babá dos meus filhos”, contou-me aos prantos. Até então, minha amiga era indiferente à criatura que cuidava dos filhos dela. Ela mesma reconheceu, depois, que “nunca quis me meter na vida dela, saber como vivia”. Aliás, “respeito à privacidade” é a justificativa mais cabível à indiferença, o ‘cartão vip’. Sempre funciona.
A indiferença tem ditado mais leis que qualquer governante. O que é pior: não há “jeitinho brasileiro” que nos tire dessa bola de ‘merda’. Entre pensar em mim e pensar no outro, claro que eu penso em mim, só em mim. Ah, sempre justifico que minha atitude não é de indiferença; a indiferença existe, sim – sempre no outro em relação a mim. É comportamento comum. Por isso, aceitável na “sociedade”.
Outro exemplo? Duvido que você nunca tenha assistido (ou protagonizado) esta cena:
- Meu amigo, preciso da tua ajuda...
- Quanto?...
(E se não for dinheiro? E se for pra desabafar, chorar no ombro, ou simplesmente jogar conversa fora? Será que a indiferença do “amigo” vai se render a um abraço?)

Acredite se puder, levei tempo (da minha vida) concatenando essa ‘merda’ toda na cabeça, pra livrar-me dela aqui. Se possível, não seja indiferente ao que você acabou de ler, que pode até não ser o que escrevi. Mas você leu alguma coisa.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Hora marcada com sangue


Se existe uma hora que é marcada com sangue é justamente na televisão, um dos produtos mais consumidos, em todo o Brasil. Afora o gasto com energia elétrica, tudo mais é ‘digrátis’. Cá entre nós, com exceção das novelas (brasileiras, mexicanas, venezuelanas, todas com “mocinhos”, “bandidos” e “pobres garotas indefesas”), o que mais prende o brasileiro, na frente de um aparelho de televisão? O futebol - está certo, mas só nas quartas-feiras e nos finais de semana, com algumas restrições ainda, pois o “time do coração” precisa estar em campo.
Diariamente, o que ‘pega’ a atenção dos telespectadores brasileiros é o sangue que jorra das tragédias mundiais (que planeta pra causar e sofrer violência, meu Deus!). Os ‘profissionais de televisão’, obviamente, servem o que chamam “filé”, em apresentações especiais. De um lado, é o Datena que grita, esbraveja, enquanto, de outro, o Ratinho (ele voltou!) chuta mesas e cadeiras, no palco. Sem falar nos “seguidores” deles, que não são poucos.
Dificilmente, eu fico diante da televisão, nesta hora marcada pelo sangue. Quando posso, observo os comentários a respeito, no dia seguinte. O que percebo é que a tragédia maior é o efeito que ‘programas de desgraça’ surtem em todos nós, cidadãos comuns. Principalmente, as mulheres relatam, emocionadas, as “notícias do dia”. Algumas se emocionam tanto, que chegam a chorar (chorar mesmo), enquanto outras roem as unhas. (O ‘sr. Ibope se agiganta.)
Fico imaginando uma família comum, brasileira – poucos recursos financeiros, culturais, nem um sonho. Início de noite, o ‘pai de família’ retorna, cansado, do trabalho. A mulher já encaminhou os filhos para o banho, depois da escola, e as duas crianças estudam, no chão da sala. No centro da estante, está a ‘poderosa’, a ‘imbatível’, a ‘sempre surpreendente’ televisão ligada – claro.
O homem chega à sala, e a mulher já avisa: “Você perdeu dois estupros e um acidente de carro com três mortes”. Ele lamenta, e silencia diante de mais tragédias. Os olhos do casal brilham, com tanto sangue. Quando o apresentador grita, as crianças correm para assistir. Pai e mãe estão ‘concentrados’ na desgraça alheia. A opinião emitida pelo apresentador é completamente absorvida pela família telespectadora, tanto, que os quatro chegam a repetir, sem se aperceberem disso.
Quando o programa acaba (finalmente!), a morte paira na família. Os quatro ficam, no primeiro momento, sem saber o que fazer. A mãe é que toma a iniciativa: troca de canal, obviamente, na tentativa de encontrar mais e mais desgraça. Às vezes, o pai é que tenta um ‘outro canal com noticiário’, sabendo que o que quer mesmo é mais sangue na ‘tela’. Os filhos permanecem na ‘torcida’, e sabem que, depois, podem guardar o material escolar, até o dia seguinte. Todos os dias é a mesma coisa.
Após algum tempo de insistência na troca dos (poucos) canais, num muxoxo, a mulher diz que “daqui a pouco, tem aquela novela da bonitona, que está grávida do bonitão casado, e depois tem um filme policial”. Os quatro saem da sala, mas retornam, pouco tempo depois, com seus pratos de comida. Agora, quatro bocas abertas, cheias de comida, se extasiam com a tragédia “inventada, que poderia ser real” – uma realidade que não é a deles, nem nossa.
O que cada telespectador vai pensar (ou não) a respeito do que assiste, as consequências disso tudo são inimagináveis. Nem quero me meter nisso, pois resultaria numa quilometragem filosófica, sem faixa de chegada.
O que teimo em pensar é que ‘profissionais sérios’ cuidam de tudo o que é exibido, em cada canal de televisão, no mundo inteiro. Parece que eles têm um alvo, que é justamente a família personagem da minha ‘estória’ ali de cima - a maioria das famílias brasileiras, infelizmente. Até os programas que não são sérios – também esses – são produzidos por ‘caras sérios’. Acredite. Sei que, às vezes, fica difícil crer, mas é sério.
O destino de cada “telespectador padrão” é mapeado, às vezes até com dias, semanas de antecedência. Os ‘caras sérios’ sabem quando o trabalhador assalariado volta para casa, a que horas a mulher chama as vizinhas para uma (ou várias) fofoca (s), na frente da televisão ligada, e o que mais atrai as crianças, os adolescentes. Os ‘caras sérios’ sabem tudo. Sabe por quê? Por que somos previsíveis e limitados, dentro de uma vidinha medíocre, e mais repetitiva do que imaginamos. Nem pensamos sobre isso.
A partir daí, qualquer lance é gol na certa. Os ‘caras sérios’ enchem a televisão de imagens que chocam profundamente (talvez, no intuito de mostrar que a vida dele (telespectador) é uma beleza, diante da desgraça alheia). E tem gente que até se detém, na frente da TV, em pesar e medir essas informações com a própria vida, senão consciente, inconscientemente. Ora bolas, não há miséria, ou desgraça, ou até felicidade que possa ser comparada. Cada um de nós sente e age diferentemente, diante de quaisquer circunstâncias.
E ainda tem apresentador, ao vivo (ainda vivo), que pergunta à pobre vítima: “Como você está se sentindo?” Se fosse eu a responder, diria: “Estou me sentindo uma fraude, como se estivesse mentindo sobre a minha própria desgraça, e vocês nem vão me pagar pelos pontos com o Sr. Ibope”.
Provavelmente, os ‘caras sérios da televisão’ apelariam ao “comercial, por favor”.

domingo, 17 de maio de 2009

“Encarar de frente”?!!


Sendo profissional de jornalismo (ótima justificativa!), sou extremamente crítica com a forma com que escrevo as matérias. Por conta disso, chego a me apavorar com o que vejo ‘colegas’ fazendo com a nossa desnutrida língua portuguesa, seja nos jornais, nos canais de TV, ou nas rádios. “Encarar de frente” é um termo bastante usado, principalmente por comentaristas esportivos. Pior ainda eu vi, dia desses, num informe publicitário da Petrobras, que também usava, com ‘altivez’, o termo "encarar de frente".
Sei lá se tem gente que já aprendeu a encarar de costas, ou de ladinho (quem sabe?). O que sei mesmo é que os meus intestinos ardem, cada vez que ouço/leio o ‘tradicional’ termo (parece passar de pai pra filho). Isso eu não encaro mesmo – em nenhuma posição.
Até admito ouvir professores falando ‘erado’, ‘enganjar’, etc. Também, placas semelhantes a “concerto de relógios” hoje até me fazem rir. Nesse caso, fico imaginando Beethoven, ou Liszt, ou Chopin, ou Mozart manipulando partituras a serem apresentadas num “concerto de relógios”, com tique-taque e tudo o que tem direito. (Que nem um deles saiba disso, se houver a possibilidade de)
Ainda não adotei a reforma ortográfica, depois que arrisquei tentar, e ouvi sérias chamadas de atenção de ‘colegas’: “você esqueceu de colocar o acento, mas eu corrigi”. Por achar que não levo o menor jeito para ensinar (nem a mim mesma), prefiro eximir-me da árdua tarefa. Se já estava difícil antes, imagina com a reforma agora. “Deixa quieto” – como dizem meus filhos.
O que sei é que tenho uma grande preocupação com os destinos da nossa língua portuguesa, que, há muito tempo, foi ‘abrasileirada’ deliberadamente. O Brasil é tão grande, e cada região adotou uma linguagem própria de comunicação, que deveria ter base na língua portuguesa. Com o avanço da internet, que, sem pedir licença, ocupa hoje o pedestal da televisão, num número crescente de residências brasileiras, ‘língua portuguesa’ já está fazendo parte (ou à beira) de um museu.
Num bate-papo informal, pela internet, não vejo nada demais: “vc tc d ond?”, ou “vlw blz bj ae”. Até eu escrevo isso, às vezes, nem sempre, enquanto teclo. Por manter algumas ‘amizades’ pela internet, já recebi cartas escritas do mesmo jeito (com direito a “vlw blz bj ae” e muito mais). Confesso que me choquei, e não foi por emoção da surpresa. Fiquei estarrecida com a dificuldade de alguns brasileiros se expressarem, por carta mesmo, fazendo uso da nossa (única) língua, que é a portuguesa. Talvez, economize papel de carta (senão uma árvore, pelo menos, um galho foi salvo).
Claro, não exijo de ninguém (nem de mim) que utilize a palavra ‘peremptoriamente’, ou ‘inextrincavelmente’, no cotidiano. (Como não levo jeito para o ensino, sugiro que o leitor busque socorro – socorro mesmo – no dicionário mais próximo, ou mais simples de ser aberto na internet.) Não é só chatice minha, gente, tenha certeza disso. É preocupação. Em que idioma o Brasil estará se expressando, no tempo de vida dos netos dos nossos tataranetos?...
Se seguirmos o ‘idioma’ que tenho ouvido em CDs gravados por “artistas da favela” (orgulhosos, querem ser conhecidos assim), nós, brasileiros, chegaremos ao ponto de somente falarmos e/ou escrevermos monossilabicamente. E, olha, conheço muita gente de favela que ainda adota a sempre ‘saudosa’ língua portuguesa, falando ‘problema’, por exemplo, e não ‘pobrema’, ou ‘poblema’.
Agora, diga-me se você consegue ‘traduzir’ este diálogo que presenciei, há algum tempo:
Um: - E aê?
Outro: - Sóóóóó!
Um: - Pá daqui, pá dali?
Outro? E pá, mano...
Um: - Sóóóóó!
Outro: E pow!
Um: Aê!
(Depois de um ‘soco’ leve no ombro de cada um, despedem-se, e vão embora.)
Você consegue ‘traduzir’ isso pra mim? Porque não há dicionário (nem para surdos/cegos) que me conte o que ambos conversaram.
“Pá daqui, pá dali”, fui – não por ali.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sábado de folga (ou Desafio à Polyanna)


Sabe aquele sábado tão esperado – finalmente, folga? Mas você não previu (nem podia adivinhar) que fosse chover tanto. Chuva e frio causam mau humor nas pessoas, principalmente em vias públicas. Onde li isso? Provavelmente, em uma dessas pesquisas absurdas, tanto quanto eu, que (ainda) as leio. Pois bem, o caos resolveu se soltar nas ruas. Por todo o trânsito, a luz não se fez.
Então, finalmente, você chega ao centro da cidade. Você, que planejou tanto (chegou até a rezar) que passearia no shopping, sem preocupações a tiracolo. A entrada do prédio está cheia de gente de cara amarrada, guarda-chuva encharcado, soltando palavrões, com a passagem próxima dos veículos nas poças d’água. Mas nada disso te irrita, por que você sonhou tanto com esse sábado de folga. Pelo contrário, por um momento, você até esboça uma carranca, e solta um ‘merda’, meio murcho, é verdade, fazendo-se solidária aos demais.
Quando, aos trancos e barrancos, você, finalmente, se sente arremessada para dentro do shopping, percebe que muitas pessoas – centenas – tiveram a mesma idéia “sabadal”. A única diferença é que elas – as pessoas – ainda carregam seus guarda-chuvas, enquanto você teve o teu pisoteado, logo na entrada, ao salvar a alça da bolsa, agora mais amassada que pão adormecido.
Meio tonta, no corredor, você já não sabe mais por onde seguir. A tua indecisão te joga pra lá e pra cá. Aos empurrões, você se vê, novamente, na escadaria principal do shopping. Mas não perde a pose: reergue o pescoço altivo, desentorta o aro dos óculos (mais uma vez, amassado), alisa a bolsa (literalmente) surrada, e sai em passos decididos.
A imagem se desfaz, minutos depois, logo ali, no meio da rua, quando você sente os pés afundarem numa poça de lama. Corre dali, sem olhar para os lados, tentando se convencer de que ninguém viu. Só a chuva parece rir, em trovejadas.
Mas tudo isso não abala teu humor, que ainda tenta curtir o sábado de folga. Claro, por que não pensou nisso antes? A praça, lógico. Mesmo com chuva, ficam aquelas barracas de bugigangas. Até por que praça é aberta, mais ampla. Quem vai querer passear na praça, numa chuvarada dessas? Pouca gente, certamente.
O que você esqueceu foi dos (incontáveis) pombos que moram na praça. Esclarecendo: você esqueceu que os pombos, como as demais aves, por viverem no alto, não se importam muito (nem pouco) com os seres aqui embaixo. Resumindo, quando querem fazer suas necessidades fisiológicas (‘merda’ mesmo), desabafam lá de cima das árvores, despreocupadamente.
Ah, mas este é um sábado especial, teu sábado de folga, apesar da chuva, da lama. Ignorando isso, e qualquer outra coisa, os pombinhos da praça resolveram te homenagear, e organizaram um verdadeiro coral, numa árvore enorme, antes que você passasse por ali. Coral?!... Mas pombo não canta!... É isso: te presenteiam com a homenagem mais espontânea da natureza - um autêntico ‘banho de merda’ (uníssono, inesquecível), nos teus cabelos, roupas, bolsa. Nem a ponta do sapato foi poupada. Se tivessem treinado a mira, os pombos não seriam tão certeiros. Sabe-se lá o que comem, nessa praça, onde você nunca viu um só alguém “dando milho aos pombos”...
Mas a tua saga continua, minha amiga (já sou tua cúmplice), seguindo o exemplo da chuva, agora fina, que pinga na ‘merda’ toda que você carrega. Você se sente agora Joanna D’Arc, empunhando sua lança (bolsa amassada com lama e ‘merda’?). Nariz empinado, atravessa a rua, sem, por um instante só, pensar naquela palavrinha mágica: desistência. Afinal, é teu sábado de folga... E dizer que você leu até horóscopo, antes de sair de casa hoje...
Um tanto (e que tanto!) exausta, pára na calçada, tentando recapitular o que havia planejado para esse dia de folga tão sonhado. Isso. Você precisa dar uma passadinha rápida no caixa eletrônico, sacar dinheiro, para almoçar naquele restaurante vegetariano, inaugurado semana passada. Nada – chuva, lama, ou ‘merda’ (ou tudo isso junto) – te fará desistir, candidata à Polyanna.
Chegando ao prédio do Banco, o vigia faz sinal negativo, lá de dentro. Você insiste, até que ele abre a porta de vidro, e diz que, por causa do mau tempo, deu pane nas máquinas. Não há previsão de retorno do atendimento pelo sistema. Sem agradecer, você se retira, percebendo um “peso” (morno) a mais no pé esquerdo, onde um cachorro acaba de fazer xixi, se afastando todo pomposo e satisfeito. Você ainda vê “lulu” (parece um) continuar andando com o dono. Ambos seguem a caminhada, num rebolado cadenciado, pela calçada. Em outra circunstância, você estaria rindo, mas, agora, o que procura é uma poça d’água, para pelo menos aliviar o cheiro de urina do pé.
Determinada, você segue o que havia planejado tanto. O restaurante vegetariano fica a menos de dois quarteirões. Ora, eles devem aceitar pagamento pelo cartão. O teu dia de folga não pode ser só ‘merda’ de pombo distraído, ‘mijo’ de cachorro esnobe. Enquanto caminha, você até agradece à chuva, que lava um pouco a sujeira toda.
Na frente do restaurante, você ainda ajeita os cabelos, minha amiga (já sou tua admiradora), respira fundo (nem tanto, por causa do mau cheiro em volta), e entra. Um dos garçons, ao atendê-la, pede o número da mesa reservada, e qualquer documento de identificação. Mas você não sabia que tinha de ligar reservando mesa. Antes de sequer pensar em argumentar, você desiste, percebendo que o garçom, discretamente, tapa o nariz, enquanto se desculpa, encaminhando-a à saída.
Ah, mas quem disse que isso é o fim do teu sábado de folga? Absolutamente. Você é obstinada (faria inveja à Polyanna). Não vai ser uma ‘merdinha’ de nada, seguida por uma ‘mijadinha’ qualquer, que vai detonar a tua folga, neste sábado frio e chuvoso, cinzento, chafurdado. Não, e não mesmo.
Foi Drummond quem previu: “Tinha uma pedra no meio do caminho”. E foi justamente nessa pedra que você acabou de tropeçar. Caiu sentada na lama da calçada. É Drummond que volta: “E agora, José?”... Você não levanta. A alma heróica parece perder as forças. Quando tenta concatenar alguma – mísera – idéia, é chamada pelo nome, por uma voz que lhe é bastante conhecida. É teu chefe (lá do escritório), indignado, que, acompanhado pela esposa, te indaga se foi para isso que você insistiu tanto tempo por um sábado de folga.
Lentamente, sem olhar para o (limpo) casal, você levanta, silenciosa, retira os sapatos, desenterra a bolsa da lama, e caminha, sem virar para trás. Decide deixar o carro estacionado aonde ficou, na avenida mesmo. Afinal, é teu sábado de folga, e você havia se preparado (lembra?) até para uma caminhada, no fim do dia.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Liberdade! Liberdade!


"... Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda..."
(Romanceiro da Inconfidência – Cecília Meireles)

Quando nascemos, damos nosso (único) grito de liberdade – genuíno, por isso, dolorido. Por que liberdade é dor. Dor solitária. Dor liberta.
Na infância, queremos ir, ir sem sabermos aonde. Na adolescência, queremos ir aonde nos é proibido. Na fase adulta, queremos ir até onde nos parece seguro. Entramos na velhice, feito crianças – débeis, pueris até. Depois, a rebeldia adolescente retorna com toda a fúria daqueles tempos em que supúnhamos mudar o mundo (pelo menos, o nosso mundo). Mas tudo isso é “fogo de palha”. Por fim, se deixamos de querer, saímos do palco da vida, antes das cortinas baixarem.
Acabo de estereotipar aqui um ser humano que, se não existe, apresenta um traço qualquer semelhante a cada um de nós. Lá, no íntimo do nosso inconsciente, guardamos todas essas vivências, como exercícios de liberdade. Mas não quero me deter nesses pormenores, nem nos “pormaiores” (como brinca um amigo).
Quando a gente fala em 13 de maio, obviamente, a primeira coisa que pensamos é na abolição da escravatura – na imagem sofrida daqueles africanos moribundos, que foram ‘libertados’. Arrebentaram as correntes da senzala, queimaram os troncos, mas não reconheceram os negros sobreviventes como cidadãos, não lhes deram condições de escolha de vida. A história vem sendo mal contada, desde 1888. Não serei eu a mudar os rumos dessa lenda. Vamos ‘pular’ este episódio.
Em pleno terceiro milênio cristão, temos a escravidão moderna – bem vestida, maquiada, e – o principal – não reclama de coisa alguma. Juridicamente, é denominada “força de trabalho explorada compulsoriamente”. É homem ou mulher que trabalha sem as mínimas condições, à mercê da vontade do “patrão”. Não são chamados de escravos, por que os tempos são outros, mas revivem uma história passada, que não aprenderam na escola da vida. Talvez, ignorância, comodismo. Não importa. Escravidão.
Em todos os tempos da humanidade, predomina a única escravidão absoluta, poderosa, quase sempre, dissimulada, escamoteada, em todos os lugares. Estou denunciando aqui a escravidão que cada ser humano impõe a si mesmo. Pode cortar os grilhões umbilicais, as cordas do trabalho compulsório, derrubar a última grade, mas, ainda assim, lhe restará a pior escravidão: si mesmo. Libertar-se de si mesmo – desaprender de ser – não depende de uma assinatura, seja de uma princesa, de uma plebéia, ou de um analfabeto.
Diante do exposto, penso eu que, por isso, parecemos (todos nós, seres humanos) baratas tontas: ontem caminhando, hoje correndo em espirais particulares. A todo instante, estufamos o peito e falamos ‘liberdade’, como quem decifrou a esfinge, e, por isso, não foi devorado. Mas passamos a vida inteira devorando momentos que não são nossos, desfilando pesadas máscaras, vomitando sonhos no escuro, sem sequer sabermos, de verdade e simplesmente, quem somos, para, então, desaprendermos tudo - desde o fim, até o começo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Goela abaixo? Nem remédio!


Diariamente (mais ainda noturnamente, pela televisão), somos vítimas de uma imensurável avalanche de ofertas e promoções, que nos enchem os olhos, e nos esvaziam a carteira. Não me refiro aqui à oneomania, doença moderna que causa consumismo desenfreado. Logicamente, os oneomaníacos são as maiores vítimas dessa massificação publicitária, e, por isso mesmo, devem ser tratados por médico especialista. (aqui, onde não há um fio condutor para o que escrevo, nada tem – nem intenção – de consultório médico)
Pessoalmente, não aceito, goela abaixo, nem remédio (por maior que seja o poder curativo prometido). Quando me deixo levar por uma propaganda, é minha vontade que se permite, e lá vou eu à compra do que nunca havia imaginado adquirir. Às vezes, ‘quebro a cara’, e o que parecia brilhar é fosco, sem a menor utilidade. Mas percebo que a maioria das pessoas não pensa tanto, antes de comprar, principalmente, quando o valor do objeto publicitário não chega desestabilizar o orçamento doméstico do mês. É sobre esses consumidores suscetíveis que quero escrever.
Hoje, o consumidor se deixa levar pela “grande promoção”, e acaba adquirindo várias unidades de um produto que nem conhece, mas compra pelo preço. O grande empresário negocia com as indústrias, e, obviamente, ganha muito mais no desconto e nas vantagens de pagamento do que propriamente nas vendas do tal produto. O pequeno empresário, que, às vezes, nem tem “cacife” para negociar com a indústria, não quer perder para os grandes concorrentes. Com isso, mesmo sem barganhar grandes espaços publicitários, o pequeno empresário vai ao depósito, confere o produto que tem mais em estoque (com data de validade mínima), e coloca a oferta no tosco cartaz que mantém na frente do estabelecimento. E vende. Acredite. Ambos lucram – grandes e pequenos empresários faturam quantias inimagináveis, nessas ofertas ocasionais e tantas vezes fúteis.
Sendo jornalista, já ouvi algumas histórias de vida – a maioria, se não tivesse testemunhado, ou confirmado, até eu duvidaria. Uma delas foi justamente de uma senhora que se dirigiu ao mercado, para comprar frango para o almoço, que faria, como sempre, em hora e meia, antes da família chegar faminta. O dinheiro que levou não dava mais que um frango médio, segundo contou, timidamente.
Nem bem adentrou ao estabelecimento, a senhora foi surpreendida por mais uma “promoção imperdível”: na compra de duas caixas de sabão em pó (de marca desconhecida), a consumidora levava um “belíssimo balde de oito litros, com tinta fosforescente”. Mas havia uma fila à compra do “ofertaço”. Afinal, o tempo promocional era “limitadíssimo”, confidenciou-lhe a funcionária do mercado. Pra resumir o relato, aquela senhora permaneceu naquele mercado, por mais de duas horas e meia. “Já tinha gente sentada no chão do mercado, quando consegui aproximar-me do único vendedor do produto”, me contou depois.
Agora, imagine o final dessa história.
Talvez, eu tenha, propositadamente, omitido o detalhe de que a referida senhora não havia levado relógio para o mercado. Quando conseguiu voltar pra casa, com um grande balde roxo fosforescente (já não havia opção de cores), e as duas caixas de sabão em pó, não tinha uma viva alma para ouvir-lhe sobre a “grande façanha”. A família ficou sem almoço (marido e filhos improvisaram sanduíches, provavelmente), enquanto a senhora esqueceu a cozinha, e foi imediatamente “inaugurar” o novo sabão em pó, o qual despejou generosamente no balde fosforescente. “O sabão não diluiu na água (acabei jogando as duas caixas no lixo), e o balde teve o plástico rachado pelo calor, na primeira semana”, lamentou a mãe de família.
E isso é tudo. Nada mais a declarar.

Ser bom é ruim



Ser bom é ruim, mas pode ser bom também. Como ser mau é ruim, mas pode ser bom. Passamos a vida inteira adjetivando nós mesmos e os outros (nossos espelhos), desde o momento que nos olham no berço, e dizem: que bebê lindo!... (a partir daí, mais e mais adjetivos)
Talvez, necessitemos desses adjetivos todos, contrapontos que nos desafiam a cada momento. Não importa. Eu poderia ‘filosofar’ sobre ser tanta coisa, para não chegar a conclusão alguma. Aliás, não sou de conclusões. Talvez, eu ainda volte a escrever sobre ser mau, ou belo, ou feio, ou sei lá mais o que. Mas não é sobre isso que quero escrever agora. Até por que não acredito que alguém seja só bom, só ruim, só antipático, só cativante, etc e tal. Acho (ou escrevo achamos?) que todo ser humano é essa mescla de cores provindas da mesma aquarela, melodia de notas musicais reconhecidas em qualquer idioma. Quando me adjetivam, eu digo sempre que sou mais do que tentam me limitar em palavras. Talvez, esta seja a única gota de verdade absoluta existente em mim.
Mas ser bom é ruim mesmo. Aliás, toda tentativa de bondade é solitária, pode observar. Os maus agrupam-se em “gangues”, para, a partir daí, cometerem delitos. Os bons estão sempre sozinhos. Perceba. Por isso, quem sabe, os “maus do momento” tornam-se rapidamente maioria – são admirados, e seguidos pela idolatria. E os (poucos) bons acabam se recolhendo na pequenez de uma ação acabrunhada, ínfima.
Há os bons teimosos, que persistem na “água mole em pedra dura”. Para esses, é reservado um futuro ainda mais doloroso, recursivo, às vezes. Talvez, por não saberem ser de outra forma, ou não admitirem o aliciamento dos maus, seguem a sina fatal. Mas também morrerão, como os maus, os belos, os feios, os inteligentes, os ignorantes, os doutores, os analfabetos...
Ali em cima, escrevi que não acredito que somos bons, nem maus – vejo que estamos bons, estamos maus. Talvez, este instante de bondade, ou maldade, nos marque tão profundamente, que multiplicamos em vários momentos. Vou adiante, arriscando em dizer que (quem sabe?) o prazer de Madre Teresa de Calcutá fosse semelhante ao prazer de Gregor Strasser, rival de Hitler, que criou um movimento nazista, no norte da Alemanha.
O que prepondera, com certeza, é a influência externa, e o quanto somos (estamos) suscetíveis a ela. Se ouço um padre, ou um pastor, um guru, um guia espiritual, posso ‘obedecê-lo’, mas isso será apenas por algum tempo (limitado). Mesmo se eu obedeço somente minha cabeça (minha sentença), mesmo assim, mudarei de idéia, tanto quanto eu some vivências. “Nada é; tudo está”.
Ser bom é ruim, por que também sofre com os olhares alheios. O que lhe parecia apenas ajudar uma velhinha atravessar a avenida movimentada pode tornar-se um pesadelo, de um momento para o outro. A velhinha pode gritar por socorro, supondo estar sendo assaltada (é o cotidiano de qualquer grande cidade); ou, então, alguém agir em defesa da “pobre velhinha desprotegida”, que, com o braço no seu braço, lhe agradece a bondade, enquanto você recebe uma “chave de braço” inimaginável.
Há os “especialistas” em reconhecer a bondade humana. São esses, inclusive, que chamam os “bonzinhos” do escritório, da fazenda, da loja, para que “trabalhem um pouco mais, pelo bem da empresa”, sem horas extras. E – o pior – a maioria dos bons deixa-se levar, cumpre o pedido, com tamanho zelo, mais até do que se recebesse salário para isso.
Muito mais eu teria a escrever sobre os coitados dos “bons do momento”, mas deixo a seta no caminho – se você quiser continuar pensando. É por ali. Ou não.

sábado, 9 de maio de 2009

Não espirre, seu porco!...


Há menos de um mês, o ato de espirrar recebia apenas um “saúde” (até desapercebido) de quem estivesse por perto. Se fosse um espirro mais forte, com coriza, alguém sempre se manifestava: “Não espirre, seu porco!...” (Não sei se essa frase teve alguma influência, ou poder “sobrenatural”, no surgimento da influenza A (H1 N1), inicialmente chamada “gripe suína”.)
A verdade é que foi a partir da coriza de suínos contaminados, lá no pobre esquecido México (hoje, manchete da tragédia mundial), que a tal influenza nasceu, cresceu, e, sem pedir licença, começou a proliferar. Fazia tempo que a gente não assistia, na televisão, imagens diretamente do México, com aquele povo todo caminhando com máscaras. Tragédia sempre é sinônimo de Ibope. Fiquei sabendo até que aumentaram as vendas de espaços publicitários, que estão sendo intercalados com as “reportagens especiais” sobre as pobres vítimas da influenza A (H1 N1).
Fico até imaginando as redações de televisão:
- Chefe, está faltando matéria para o noticiário da hora.
- Pega “calhau” da gripe suína...
(Enquanto isso, as matérias que poderiam suscitar pensamentos e idéias ‘acerca de’ ficam mofando nos arquivos, por que não são denominadas “tragédias” – não matam, mas também não morrem, sobrevivem.)
Já se foi o tempo em que “três porquinhos” era estória pra fazer criança dormir. A contaminação suína está tomando conta do mundo. São 3.440 casos de influenza A (H1 N1) confirmados em 29 países, conforme a Organização Mundial de Saúde. O relatório inclui os seis casos da doença registrados no Brasil, até o caso de uma criança de Santa Catarina. Como não poderia deixar de ser, os Estados Unidos lideram até a lista dos países mais afetados pela doença (1.639 casos, com duas mortes).
Diante disso tudo, fico observando o ‘abalroamento’ de informações - encontradas e desencontradas - que chegam a nós, ‘pobres mortais’, que não estamos na lista das vítimas da gripe do momento. Temporão, o nosso ministro da Saúde, faz questão de afirmar que, mesmo com casos confirmados, o vírus da influenza A (H1 N1) não circula no Brasil. Alguns infectologistas renomados insistem que as máscaras não impedem o contágio, e que o vírus, que se alastra mais que a moda mundial, é o somatório das gripes humana, aviária e suína. Pra mim, que não sou ministra, nem infectologista, resta concluir que o que está havendo é a verdadeira “revolução dos bichos”. A diferença (da fábula à realidade atual) é que George Orwell não previa, em 1945 (quando o livro foi escrito), que ainda haveria uma humanidade que dissociaria a saúde da higiene. Penso mesmo que é por isso que a versão da nova gripe está chegando via porcos.
Mas há que se pensar mais a respeito. Alguém já parou pra pensar como devem estar vivendo hoje os hipocondríacos de todo o planeta? Se passam a vida inteira sofrendo ameaças de doenças existentes, e por isso imagináveis, como estão agindo (as vítimas da hipocondria) em relação à influenza A (H1 N1)? Arrisco supor que o número de hipocondríacos, atualmente, seja maior que os casos da gripe que domina as manchetes nacionais e internacionais. Alguém consegue visualizar a vida dessas pobres vítimas da imaginação doentia? Pois é, as conseqüências da influenza A (H1 N1), como já era de se esperar, são maiores que a OMS pode registrar. Persigo a minha imaginação, que estaciona diante de um açougue, onde vejo um casal hipocondríaco correr à rua, gritando: - Porco, não! Porco, não!... (Os gritos se confundem com buzinas, freadas bruscas, espirros... Espirros?!!)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Clarice... sempre Lispector...


Há poucos dias, por acaso mesmo, assisti uma entrevista com a biógrafa Teresa (não guardei o sobrenome) e a cineasta Suzana Amaral - aquela que fez o filme 'Macabéa', do livro 'A Hora da Estrela'. Parei, como sempre faço, diante do nome Clarice Lispector, e ali fiquei a assistir, com a esperança inicial que sempre tenho: finalmente, vão desmitificar Clarice.
(Quando leio ou assisto entrevista com a professora de literatura Nádia Gotlib, sinto o fascínio que ela tem por Clarice Lispector - os olhos brilham, o riso torna-se natural, enquanto ela fala, com intimidade, sobre Clarice. Nádia fala sobre a alma - angustiada e angustiante - de Clarice Lispector, com a miscelânea das facetas que Clarice construiu e mostrou na vida. Mas Nádia, às vezes, vai além, e chega desmitificar Clarice, não por que 'desvenda o mistério de Clarice'. É tamanha a naturalidade com que fala a respeito, que Nádia consegue materializar, em palavras, o que sente, ainda hoje, em Clarice Lispector. Ela fala sobre a Clarice menina, a Clarice mulher, a Clarice mãe, a Clarice dona-de-casa, a Clarice jornalista, a Clarice advogada formada, a Clarice amiga, a Clarice escritora - e, mais ainda, sobre a alma de Clarice, que sentia fome de escrever, mas recebia tão pouco pelos escritos, que o corpo sentia o frio da discriminação, da crítica negativa, da comparação, do distanciamento, da solidão de outras solidões que compreendessem o que ela mesma não entendia dentro de si. Por isso, na minha opinião, ninguém mais aproximou-se tanto de Clarice Lispector, sem querer rotulá-la, ou limitá-la, senão Nádia Gotlib. Explicado isso, fecho parênteses, e prossigo.)
Para início de conversa, quem entrevistou Teresa e Suzana foi um repórter (também, não guardei o nome - seria proposital?) que não conhecia sequer a biografia e a obra de Clarice Lispector. Ele quis saber de ambas em que ano nasceu Clarice, em que lugar "especificamente" (e o tempo, na televisão, voando). Acho que, diante das respostas controversas e confusas ("talvez, tenha sido em 1920, não tenho certeza", "naquele tempo, era só criar a data que quisesse"), o repórter ficou sabendo menos ainda. O "mistério de Clarice" prevaleceu. Dali pra frente, não houve evolução, na entrevista. A biógrafa perdia-se visivelmente, não tendo certeza de coisa alguma, enquanto a cineasta dizia que gosta de fazer filme com livro de Clarice, por que Clarice deixa muitos espaços de "não-comunicação", aonde ela, Suzana, pode ser ela mesma, e criar estória. Diante disso, minha esperança já havia adormecido, e eu não pensava mais na angústia de Clarice Lispector, pois tinha a minha angústia presente.
Com tudo isso na cabeça, ainda consigo pensar mais a respeito: O que diria Clarice disso tudo? Não faço a menor idéia, por que Clarice sempre foi imprevisível (ainda bem). Uma mosca podia perturbar-lhe a cabeça, num momento, enquanto, logo depois, ela se via comendo uma barata. Clarice, me parece, vivia nos extremos - mas não deixava de percorrer, conhecer tateando, todo o trajeto (de um extremo ao outro). Se, às vezes, nem ela sabia em que caminho estava, não serei eu a dizer que Clarice diria/faria isso ou aquilo.
Não sabendo dela, digo eu.
Ironicamente, lembro agora de uma reportagem de um grande Jornal brasileiro, sobre o velório e o enterro de Clarice. De acordo com a reportagem, sendo ela de origem judaica, o corpo recebeu tratamento especial, com lavagem interna, inclusive. Dissecaram-na fisicamente. Mas fazia parte do ritual, e o corpo já não tinha mais a alma de Clarice.
Hoje, não havendo mais corpo, continuam tentando dissecar a alma de Clarice, como se, de repente, surpreendentemente, numa ocasião dessas, começasse jorrar sangue de Clarice pelas paredes, ou, então, se materializassem vísceras (de Clarice Lispector, obviamente). Ainda assim, acredito, fariam exames de DNA e o escambau, para comprovarem a marca registrada: Clarice Lispector.
Tento imaginar, daqui a séculos, alguém descobrindo que, no 2º milênio cristão, existiu uma escritora "hermética" chamada Clarice Lispector, e ler algumas obras dela. Será que também vai querer dissecá-la, com a mesma voracidade que tentam meus contemporâneos, analisando, através das próprias palavras escritas por Clarice, esquecendo que Clarice era também silêncio? ("Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras."). Quem garante que, se Clarice estivesse viva (num outro tempo, ou em todos os tempos), ela sentiria/pensaria/escreveria o que ela sentiu/pensou/escreveu, muitas vezes sem saber por quê?...

Não vou adiante. Ponto final.

De olho