sábado, 30 de maio de 2009

Em nome do Zé*


(Desde que me conheço por gente, me chamam Zé Banguela – nasci desdentado, e depois perdi os dentes pro nunca mais. Sou analfabeto de pai e mãe, como milhões de brasileiros trabalhadores. Por isso, essa jornalista maluca vai escrever por mim.)
Sinceramente, fiquei emocionado, quando soube que o meu salário passará de 415 para 465 reais. Falei pra ‘patroa’, lá em casa, que vamos precisar pensar direitinho sobre o que fazer com o dinheiro que vai chegar. Falta tanta coisa, que vai ser difícil investir esses ‘cinquentões’, na família.
A situação está difícil pra todo mundo. Lá em casa, se tem almoço, não tem jantar, e se a gente janta, não almoça no outro dia. Se um dos barrigudinhos adoece, a coisa piora, por que não tem remédio no SUS, e os preços estão pela hora da morte. Eu trabalho, mais de doze horas por dia (domingos e feriados também), como auxiliar de pedreiro, e a ‘patroa’ lava e passa roupa pra gente rica, que tem máquina de lavar, mas parece que não sabe apertar os botões. Falam numa tal de hora extra, mas eu não sei o que é isso, e também não entendo nada de uma tal de “carteira profissional” – não sou profissional, sou peão.
Todo patrão que me contrata diz a mesma coisa: se a gente assina carteira, recebe menos, no final do mês. O salário é sempre mínimo, e o esforço no trabalho é máximo. Se a gente não mostra serviço, eles contratam a fila que fica lá fora, disposta a trabalhar por menos que a gente. Não tem jeito.
Fiquei sabendo do aumento do salário, lá na construção. O “Zé Tijolo” é que disse que a gente vai ganhar cinqüenta reais a mais. Ele falou outras coisas que eu não entendi. Falou de uns tais “economistas”, que fazem os “cálculos” pro bolso do trabalhador brasileiro. De cálculo, só conheço renal – tive duas vezes, e como dói!...
Eu nem sabia que um tal “governo”, que fica longe, numa “Brasília” que nunca vi, é que manda o patrão dar mais dinheiro pra gente. O “Zé Tijolo” quem falou. Parece que tem um grupo que estuda o jeito que a gente vive, conta tudinho pra esse tal “governo”, que manda o patrão da gente pagar mais. Lá em casa, ninguém foi saber como a gente vive, a ‘patroa’ confirma.
Fico imaginando se esse tal “governo” fosse visitar o nosso barraco. A gente não teria o que oferecer, mas, lá em casa, tudo é limpinho, limpo até demais, por que não tem nem comida nas panelas de latão. Sem luz, nem água, a gente saberia agradecer a visita. A ‘patroa’ ficaria preocupada se o tal “governo” iria querer ficar por alguns dias. Claro que não, por que a “Brasília” que eles conhecem deve ser mais interessante, deve servir almoço e jantar, e, se vacilar, deve ter café da manhã, e até lanche fresquinho.
O “Zé Tijolo” disse que o tal “governo” não sabe como a gente vive, nunca passou um dia inteirinho na favela. Se não sabe, como é que vai ‘chutar’ o valor do nosso salário? Andaram dizendo por aí que tem outra gente inteligente (de um tal “Dieese”) fazendo pesquisas e estudos, pra mostrar a nossa realidade, a vida da maioria dos brasileiros. Essa gente é que diz que “o salário mínimo necessário para o trabalhador brasileiro suprir as despesas com moradia, educação, saúde, vestuário, transporte, higiene, previdência e lazer (casal e dois filhos) deveria ser de R$ 2.005,57”. Mas não são eles que “comandam” o Brasil e o meu patrão. Ah, mas aí seria muito dinheiro! A gente nem saberia o que fazer com tanto!
Dizem que o pessoal dessa tal “Brasília” ganha muito mais que isso, e ainda rouba do povo brasileiro. Já fui assaltado, tinha só duas moedas no bolso, e um passe de ônibus. Nunca recuperei os vinte centavos e o passe (será que foram pra “Brasília”?), nem vi mais o moleque que me roubou. Acho maldade dizerem que os “comandantes” do Brasil roubam do povo, por que o povo é igual a mim – não tem aonde cair morto.
Não quero enrolar a conversa. Estou aqui para agradecer os cinqüenta reais que eu, a ‘patroa’ e os barriguinhos vamos receber a mais. O patrão fez cara feia, quando eu agradeci a ele. Já falei lá em casa: não vamos gastar esse dinheirão que vem com besteiras. Vamos continuar trabalhando, e fazendo tudo pra não morrermos antes do tempo, por que, um dia, todo mundo vai morrer, de um jeito, ou de outro...

*Essa é minha homenagem aos trabalhadores que já entrevistei, nas favelas da minha vida.

Um comentário:

  1. Belíssima homenagem, Nara!
    Delicada visão(e descrição) de tudo, como sempre.

    Agora ta escrito aqui, pra quem quiser(ou puder) ler.

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