segunda-feira, 25 de maio de 2009

O humano ‘deus’ e a desumana humanidade


Que fique bem claro que não tenciono escrever, aqui, sobre religiões. Até por que não sou teóloga, nem pretendo ser. Também, não quero questionar a fé, por que precisamos acreditar – sempre -, senão no Papai Noel, pelo menos em alguma coisa semelhante à vida. Pra mim, religião é a necessidade de o ser humano transcender o que lhe parece ‘vida’, criar, sem comprovação racional, a eternidade, para que vida/morte tenham algum (mesmo vago) sentido.
Interessante observar que todas as religiões – das mais ‘humanas’ (que idolatram os prazeres da vida física) às mais ‘transcendentais’ (que negam a vida corpórea) – mantêm alguns parâmetros de fé. E também se referem às conseqüências dos atos humanos, com tal coerência, que não nos deixa outra saída, senão assumirmos o que fazemos e/ou deixamos de fazer.
Milênios antes da existência de Jesus Cristo, as religiões já eram criadas e alimentadas, para manter uma certa ordem, na desorganizada humanidade. No que li de história daquela época (zilhões A.C.), o sacro e o profano eram cultuados com tamanho fervor, que todo mundo acabava sendo seguidor de algum dos ‘deuses’. Hoje, a situação até não mudou muito.
Temos religiões muito rígidas, inflexíveis, como a própria igreja católica, que tem um Papa tão conservador, que foi dizer para o povo africano que o preservativo (“camisinha”) não é “coisa de Deus” – a velha historinha de “toda semente não deve ser jogada fora”, etc e tal. Também, acabou comprometendo o trabalho de conscientização da Organização Mundial da Saúde, que previne DST/AIDS, em todo o continente africano. Depois da visita do Papa, muitos africanos (do ‘rebanho católico’) deixaram de adotar e defender o uso de preservativos. E não adianta ninguém ir lá, para contestar as palavras do Papa. E ainda tem a prática comum da pedofilia, com a participação dos “emissários divinos”, por todo o mundo. Um absurdo!
Na lista das religiões inflexíveis, está o islamismo, que já faz parte da cultura de diversos países orientais. As mulheres, naquelas “bandas”, só servem mesmo pra reprodução e prestação de serviços domésticos. Nesse caso, a religião tomou conta, extrapolou os muros das ‘mesquitas’, entranhou-se na cultura local. Mulher não tem vez mesmo, nem voz. No Afeganistão, o radicalismo impera fortemente. Por lá, as mulheres usam um ‘vestido’ (por que vestem, mas mais parece um lençol GG de casal), que cobre todo o corpo, o rosto, até os olhos. Imagine.
Pra nós, mulheres ocidentais, à primeira vista, pode parecer “excêntrico” andar de ‘hijab’ (o véu negro). Mas o veuzinho, que parece tão inofensivo, feito com tecido pretinho básico, representa castração, cerceamento, a morte de qualquer direito feminino. Como se não bastasse aquela ‘merda’ toda, fiquei sabendo que assinaram decreto saudita que ordena as mulheres a taparem um olho. Acho que o número de mulheres que estão enxergando a própria condição, e, por isso, se rebelando, tem aumentado. Os sauditas (homens, claro) não deixaram por menos, resolveram reduzir a visão ocular das suas mulheres, na ingênua idéia de que, com um olho só, elas enxergarão menos. Nós, mulheres sem ‘hijab’, sabemos que cerceamento só nos causa uma ação: a revolta. Que “Allāh” não seja machista, como os seus seguidores.
Aqui no ocidente, temos religiões flexíveis, adaptadas, e cada vez mais adaptáveis ao ‘modus vivendi’ dos “fiéis”. No Brasil, especificamente, algumas religiões e seitas atendem à “necessidade do freguês”. Claro, não vou “dar nomes aos bois”, por ser até desnecessário (todo mundo já ouviu falar, ou até mesmo freqüenta, um templo desses). Pecou (todo mundo peca), basta pagar um “dízimo” extra, e tudo bem. Quanta discriminação! Se o cara é pobre pecador, não tem direito à isenção dos pecados. Talvez, por isso mesmo, muita gente comete pecados inimagináveis, pra ganhar dinheiro, garantindo uns trocados, após o pagamento do dízimo. No final da história, todo mundo fica bem, obrigado, e não se fala mais nisso.
Independente do nome na fachada, toda igreja, ou seita, tem o grande objetivo de apoderar-se do “rebanho de fiéis”, que eu costumo chamar ‘manada’. Quanto mais ignorantes os pobres coitados, maior a prosperidade dos religiosos, que impõem, goela abaixo, um ‘deus’, às vezes, bonzinho, benevolente, outras, nem tanto, mas sempre um ‘deus’ poderoso, “que tudo vê, tudo sabe” (o ‘deus-medo’).
Penso – jamais concluo – que cada ser humano não é “imagem e semelhança” de ninguém mais, senão dele próprio. ‘Deus’, sim, é “imagem e semelhança” da desumana humanidade, que, a cada passo, vai lá, na pintura do ‘deus ideal’, e dá mais uma pincelada de ‘perfeição’.
Fé, pra mim, é acreditar, e agir de acordo com a crença que tem (um pouco de coerência ajuda a manter o rumo). Mas, antes de tudo, é preciso consciência dessa fé. Eu não posso pegar emprestada uma fé que nunca foi minha, nem comprá-la. Acreditar, seja no que for, pressupõe saber intimamente, e isso é intransferível. Se tenho fé em seguir uma religião é por que (ainda) não estou preparada para descobrir, por mim mesma, a minha própria fé, o meu ‘deus’.
Falando em ‘deus’, que fique aqui o registro: Admiro os ‘deuses’ interpretados por Antônio Fagundes (“Deus é Brasileiro”), Alanis Morrissette (“Dogma”) e Maurício Gonçalves (“O Auto da Compadecida”). “Deuses” tão humanos, que, se quisermos, nos ensinam um pouco de humanidade...

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