sábado, 29 de agosto de 2009

A falta do tempo que não falta


Muito mais que a própria ‘marcação’ do tempo (que não existe), foi uma grande ‘sacada’ do cara que inventou a “falta de tempo”. Sempre justifica ausência, convencendo mesmo quem escuta, ou lê. Desde sempre, me falta tempo pra eu fazer o que não quero, não gosto, no caso de eu ser “convidada” por alguém, ou ‘alguéns’, e não “convocada” pelo meu senso de responsabilidade.
Temos – todos – de admitir que as duas palavrinhas mágicas (“falta tempo”) “quebram um galho” danado, quando a gente se vê em apuros. Falta tempo pra eu sair com algumas pessoas, e passar horas debatendo sobre quem apareceu primeiro: o ovo, ou a galinha (eu ainda acho que foi a galinha, e trazia um ovo empinado no bico). Faltou tempo pra eu participar daquela reunião que sempre reúne gente insuportável (a insuportável aqui justifica a ausência no ‘clube’). Falta tempo pra eu sentar no meio-fio com alguém que só quer falar mal de gente que eu conheço e de gente que eu nem imagino que exista. Ah, falta muuuuuuuuuuuuuuuito tempo pra eu perder com todas essas faltas de tempo, isso sim.
Brincadeiras à parte, quando necessitamos de um tempinho, pra fazer o que desejamos, este tempinho aparece, sem jamais os relógios serem alterados, ou tomarem conhecimento disso. Redobramos esforços, batendo nossos próprios recordes. Se professores e patrões, principalmente, um dia imaginassem o quanto somos capazes, no mínimo tempo cronometrado, não nos deixariam em paz, com toda certeza. Ia ser uma exploração só, maior, bem maior que todas as explorações que constam na história (mal contada) da humanidade. Melhor nem pensar.
Eu sempre digo que minha alma é vadia – uma alma vadia num corpo inquieto. Mas esse corpo cansa, e a minha alma aproveita a ocasião pra fazer nada, nada mesmo – pensamentos mais ‘esparsos’ que a garoa que nem chega molhar, enquanto o corpo curte a inércia de um repouso dolorido, na companhia de uma música de fundo, e nada mais. Este é o meu tempo. É o tempo que eu escolho pra mim. É o tempo que eu ‘faço acontecer’. É o tempo que não existiria, se eu me predispusesse (me obrigasse mesmo) a fazer tudo o que tenho de, tenho de – sempre. Por favor, não comece a imaginar que seja meu momento de meditação, ou outra coisa qualquer “transcendental”, por que não é – eu confesso. Pura vadiagem mesmo. É o meu tempo. Com ou sem licença alheia.
No fundo, bem no fundo mesmo, sabemos como administramos o nosso tempo – dormir, levantar, estudar, trabalhar, comer (no dúbio sentido), até tomar banho e fazer todas as necessidades mais privadas. Quando encontramos alguém que gostamos, no meio de um dia atribulado, não “esquecemos compromissos”, nem “perdemos a hora”: simplesmente, nossa alma quer ficar na companhia da outra alma. E fica. Nem que depois a gente saia tropeçando nos relógios da vida, se desculpando pra Deus e todo mundo, inventando mil justificativas (o trânsito, o cachorro no caminho, a impressora que não funcionava, o ônibus atrasado, etc etc). Aí sim, perdemos tempo – inventando justificativas de primeiros socorros.
Quando nos falta tempo, não nos falta tempo. Falta uma outra coisinha: vontade, desejo, motivação, ou algo semelhante (não vou recorrer a dicionário agora). Pelo menos, por enquanto, é assim, já que tem gente anunciando por aí que, depois da morte, os fantasminhas podem estar em diversos lugares ao mesmo tempo. Mas não acho que fantasminha algum ganhe esse poder de onipresença “no mole”, não. Acho que o fantasminha precisa receber alguma promoção, ou condecoração por serviços prestados, ‘honra ao mérito celestial’, ou algo assim. Sei lá. É o que consigo imaginar.
Enquanto não sou fantasminha - nem sei o que virá, depois que a minha vida dobrar a esquina -, acho legal parar um pouco, pra dar uma olhadinha no tempo que resta. É um resto de tempo que eu não sei quanto tempo é, nem o tempo sabe, por que também não acena, não sinaliza. Por favor, não me diga que isso é perda de tempo, por que estou aqui, há um tempão, tentando escrever alguma coisa que diga nada, pra você não perder tempo pensando nessas minhas besteiras sobre o que não existe...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Do vazio de que somos feitos


Dia desses, estava conversando com uma amiga sobre coisas da alma. Sem pensar, me veio a imagem de (como símbolo da alma) um queijo suíço, cheio de furinhos – mais furos do que queijo mesmo. A conversa não acabou (nunca acaba), mas minha amiga tinha de ir embora, e foi, e eu fiquei pensando, ainda pensando: a alma humana é tão cheia de vazios. O vazio pode ser ausência de presença que não há mais, ou ausência de sonho (vida), ou ‘ambas as duas’ coisas.
Talvez, na infância, pouco nos apercebemos, conscientemente, das perdas que (já) começamos a sofrer. Mas aí chega a pré-adolescência, seguida de uma adolescência confusa, questionadora, desafiadora. Mais perdas. Já compreendemos, então, e nos revoltamos, ou decidimos não nos manifestar, por que a revolta existe – imersa no que apreendemos, ou liberta no que ainda estamos nos tornando.
Mas “o tempo não pára”, como ainda canta o poeta, e a gente vai crescendo, senão mental e emocionalmente, pelo menos fisicamente. A idade madura chega num repente, junto com um punhado de responsabilidades, que, em nossas mãos, se multiplicam. E não há mais como nos revoltarmos deliberadamente, ou simplesmente cruzarmos os braços. Mesmo que a gente não decida ‘porra’ alguma, ainda assim, estamos tomando decisões. A todo instante.
Quem sabe, por isso tudo, a gente vai enchendo, mais e mais, a alma de vazios – primeiro, pequenos vazios (furinhos de queijo suíço mesmo); depois, aos poucos, grandes vazios, vazios oceânicos (imensos, profundos, mutiladores). Não há como fugir. A gente mergulha nesses vazios, ou é tragada por eles todos – um de cada vez, ou todos ao mesmo tempo (não importa a dosagem – homeopática, ou cavalar).
Vou mais adiante. Sofremos o estado de ‘queijo suíço’, ao mesmo tempo em que também vamos ‘contribuindo’ para que a alma alheia torne-se ‘queijo suíço’, no vazio da nossa ausência. “Isso tudo acontecendo, e eu aqui na praça, dando milho aos pombos” – canta outro poeta. Não sei se acabamos refletindo no outro, o que sentimos (sofremos), mas acho que esses vazios multiplicam-se no mundo, tomando conta de todas as almas humanas. Algumas criaturas ainda tentam preencher os ‘buraquinhos do queijo suíço’ com outro queijo qualquer, ou até com miolo de pão. Mas não é a mesma coisa, e não há quem não perceba a fraude, pois o que resta, na boca, é um gosto insípido, gosto de nada mesmo. Por que queijo suíço é ‘esburacado’ mesmo, e não há outro jeito. Também o é a cárie dentária – e como dói...
Há quem diga que o queijo suíço é feito de mais ‘buracos’ do que de queijo mesmo. Nunca examinei tão minuciosamente, pra comprovar isso. Sou uma ‘rata’, e não me dou tempo a esse tipo de observação. Quanto à alma humana, acho mesmo que, aos pouquinhos, imperceptivelmente até, vamos nos enchendo de vazios – tanto, tanto, que chegamos nos ‘habituar’ com isso. Dizem que o ser humano é quem mais se adapta às circunstâncias (por mais adversas que sejam) – eu discordo, por achar que não é questão de hábito, mas sim, o instinto de sobrevivência que prevalece (salvar o que ainda permanece vivo).
O queijo suíço não pode reclamar dos seus vazios, nem exigir que sejam preenchidos. Quanto a nós, humanos mortais, até podemos reclamar, mas os vazios permanecem lá: na alma. Queijo suíço é (também) identificado, justamente por causa dos ‘buraquinhos’. Será que a alma humana também?...
Não pretendo escrever objetivamente sobre perdas, por não saber lidar com isso. Os ‘cursos’ existentes não me convencem que “as perdas são necessárias à evolução humana”, que “é preciso haver desencontro, para haver encontro e reencontro”, e todas essas coisas que sempre leio, ou ouço. Mas gosto (e como!) sempre de um queijinho suíço – incluindo, principalmente, todos os seus ‘vazios’...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A razão é toda sua


Tem tanta gente querendo estar com e ter razão, que eu chego pensar que é por isso que tem outra tanta gente sem razão alguma por aí. Eu sou uma delas – sem qualquer razãozinha, por mais microscópica que seja, por que, desde sempre, perdi a razão pra tanta gente, só na “queda-de-braço”. Aliás, até hoje é assim: alguém gritou, eu já tô entregando, sem qualquer procuração, toda razão que possa existir, até mesmo a razão que nem existe. Eu me rendo aos “senhores da razão”.
Pode observar, quem (acha que) tem razão sempre fala (mais) alto, grita mesmo, como se os outros – os sem-razão, como eu – fôssemos todos surdos. E o que a gente ouve é sempre:

- EU QUE TENHO RAZÃO!

Por isso, parece, a palavra (razão) tem de ser manifesta de forma impositiva (às vezes, talvez, quem sabe, pra convencer, primeiro, quem a verbaliza), ríspida mesmo. Enquanto vejo essas manifestações ‘banhadas de razão’ (hehehehehehehehe), fico pensando, sem razão alguma, se, quando, de fato, alguém acredita que o que está dizendo é uma ‘verdade’, e que tem razão, precisa dessa encenação grotesca, repressora (?).

Vou tentar me colocar no lugar dessa gente necessitada de tantas (e todas) razões e verdades absolutas: Se a gente tenta fazer o outro calar, já existe aí, implicitamente, a opinião do outro – a visão do outro, o jeito do outro pensar/sentir sobre a vida, etc e tal -, a qual, a gente sabe, não é a opinião da gente. E a gente também sabe que, se gritar, impor o que considera ‘verdade absoluta’, vai precisar insistir, e gritar mais ainda. A gente pode até ganhar esse ‘jogo’, mas não vai saber a idéia do outro, a visão do outro. Amanhã, a ‘verdade absoluta’ da gente pode ser (será, mais cedo, ou mais tarde) substituída – por outra ‘verdade’, mais ‘absoluta’ ainda, obviamente. E, assim, a gente vai substituindo ‘muletas’ (verdades e razões), a vida inteira. Definitivamente, não presto para o papel dessa gente. Verdades e razões absolutas me pesam. Minha alma é torta, e tomba com sobrecarga.

Essa coisa de ter razão, só de imaginar, me limitaria, me cansaria mais ainda. Tem gente que não vive sem razão, sem pelo menos uma ‘verdade absoluta’. Eu quero morrer sem razão alguma (morreu de quê?... sei lá, ela tava viva, e morreu...). Eu, reconheço, sou uma ótima ‘desaprendiz’: não sei catalogar, limitar conceitos, princípios, conhecimentos, enfim, enfiar tudo o que penso num único saco, e rever isso tudo, com a clareza de quem enxerga o céu – azulzinho -, ao amanhecer. Eu questiono e penso demais, o tempo todo, todo o tempo. Eu não sei (e não quero) concluir. Talvez, por isso, eu não tenha qualquer mínima razão, e caminhe tão longe de qualquer ‘verdade absoluta’. O que percebo, nesses meus caminhos e descaminhos, é que eu não caminharia tanto, se me deparasse com uma única verdade, e me sentisse com alguma ‘senhora razão’, ou sendo a própria ('senhora razão'). Quando dizem que tenho razão, a minha resposta é sempre a mesma: Não quero ter razão alguma. Quero continuar pensando, sem qualquer razão.

Quem convive comigo, no dia-a-dia, sabe o quanto questiono, principalmente o que eu mesma falo a respeito do que estou conseguindo enxergar, na minha visão estrábica. E quase sempre ainda arremato (quando ninguém me repete): Diante do que falei, que não é nem a minha verdade absoluta, não sei o que concluir, por que não quero concluir, por não ter razão alguma. Muita gente considera um absurdo o que manifesto, e até quer exigir o que chama de “posição” da minha parte. A minha (única) posição é não defender qualquer coisa, seja o que for, como sendo ‘verdade absoluta’, nem querer ter razão diante de dezenas (que fossem zilhões) de pessoas. Eu quero mais que isso. Quero ter a liberdade de jogar no lixo, ali na esquina, o que acabei de falar, o que era visão minha, sem qualquer razão, nem verdade. "Fi-lo, por que qui-lo" - e é só. Continuo a caminhar, na companhia dos meus pontos de interrogação, das minhas reticências...

(Se você quiser, com a persistência que teve de me ler até aqui, pode concluir o que considera 'verdade' - a sua ‘verdade’-, pois, pra mim, você sempre terá razão, se precisa apoiar-se em alguma. A razão é toda sua. Eu nem saberia lidar com ela.)

sábado, 22 de agosto de 2009

Vai mais uma picaretagem aí?...


Foi-se o tempo em que picareta era uma simples ferramenta de trabalho, quase inofensiva, quando não usada criminosamente. Depois, picareta passou a ser símbolo de um partido metido a comunista - a picareta continua na bandeira, mas a ideologia há muito deu “adeus, tia Chica”.
Hoje, picareta é o cara (não “o cara” de Mr. Obama). Picareta é aquele cara bacana, bom falante, simpatia personificada, que está sempre a “quebrar galho”, seja pra quem for, desde que fature ‘algum’. Resumindo, picareta é o cara que te logra, sorrindo, e ainda te dá tapinhas nas costas, em lugar do troco, e, “de lambuja”, você ainda sai com um: “volte sempre”!
Sei que vou “chover no molhado”. Mas há frases ‘célebres’ dos ‘mestres da picaretagem’. Você deve conhecê-las e reconhecê-las por aí. Mas sempre é bom lembrar que, se você ‘cair’ numa dessas, é por livre e espontânea vontade de jogar dinheiro fora, que você diz sim a:

- O “pobrema” tá na “rebimboca da parafuseta”. O serviço vai custar mais caro, mas vale a pena!

- Este som é de quinta, mas tenho um aqui de primeira, importado, com preço de nacional.

- Agora, não trabalho mais para os outros. Sou importador de Taiwan.

- Se eu remendar essa roupa, vai custar mais caro do que se você levar essa novinha em folha.

- O pneu é usado, mas rodou pouco, por que era de carro de madame.

- Até conserto esse aparelho bastante usado, mas acho melhor você me pagar uma garantia, por que vou ter de consertar novamente, e isso não vai demorar muito.

- Se você encontrar mais barato, pode ligar para este número de celular aqui, que eu venho devolver o dinheiro.

- Não tenho nota fiscal, mas posso conseguir com um colega meu.

- Vou te cobrar um pouco mais, pra que você volte e ganhe desconto.

- Se você levar meia dúzia de pares de meias, ganha um pé de meia grátis, e assim vai juntando mais pares.

- Pode avisar às amigas: eu trabalho com cortes de cabelo, depilação, manicure, pedicure, e ainda vendo produtos de beleza e uns remedinhos pra emagrecer.

- Nossa loja não tem placa, e funciona aqui nos fundos, por que a clientela já é demais, e não temos tanto estoque.

- Depois de trabalhar na venda de tintura para cabelo, fabriquei um produto que vai enlouquecer as mulheres. Quer experimentar?...

- A Polícia Federal me persegue, sempre quando viajo pra Foz do Iguaçu.

- Não queira saber aonde escondi essas embalagens de Tamiflu, pra trazer de tão longe, e vender baratinho!...

- Não costumo assumir contrato por trabalho, mas sim, por hora de serviço. Demoro, mas faço bem feito.

- etc etc etc etc

Confessa, você deve ter outras tantas frases aí, e tá lembrando agora, né?... Isso tudo é picaretagem, uma palavrinha ‘em alta’, por todos os cantos deste Brasil de meu Deus. Tem um monte de gente aproveitando a ‘maré’, e saindo da informalidade, e assumindo, descarada e formalmente, a ‘picareta’, que já não é usada na terra, mas sim, na ‘lábia’. Dizem que dá trabalho, e que o lucro é maior que o da ferramenta. Eu fico imaginando quanta criatividade jogada na lixeira do imediatismo, sempre à beira do abismo prisional.
Por favor, só não me venha com a “lenga-lenga” de que temos exemplos de picaretagem, em Brasília, e por isso a ‘prática’ tem aumentado. Também lá, bem lá no Distrito Federal, há exemplos de cidadãos de bem. É certo que são raros, e alguns se manifestam no estilo “slow motion”, mas ainda vivem, ou, pelo menos, parece (que maldade!)...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Desculpa, tá?"


Na minha opinião, não há frase mais nojenta que essa:

“Desculpa, tá?”

Mesmo se eu ouvisse isso de Johnny Depp, com todo aquele charme, soaria feio, horrendo, e eu o mandaria à ‘merda’, de qualquer jeito. Quantas vezes o “desculpa, tá?” causa coisa pior do que a “culpa” em questão?...
Não sou de repetir essa frase (“Desculpa, tá?). Se já o fiz, foi em diálogos que percebi semelhança ao citado pela ministra Dilma Rousseff, referindo-se aos depoimentos à ditadura: “diálogo entre o meu pescoço e a forca”. “Desculpa, tá?”, na minha visão estrábica, não expressa ‘merda’ alguma. Pelo contrário. Às vezes até suspende a possibilidade de diálogo, de entendimento. Acredito que, se alguém é teu amigo mesmo, vai te desculpar, de algum jeito; se não é, não vai te desculpar, de jeito algum.
É certo que, muitas vezes, estamos tão voltados ao próprio umbigo, que cometemos faltas indesculpáveis, em relação ao outro. Algumas vezes, o outro interpreta, e, diante de uma interpretação, nem se deve relutar, pois a certeza será sempre do autor (da interpretação). Por isso, sempre digo que nada é, tudo está – dependendo da visão de cada um. Não tem o que dizer?... Sei lá. Cala a boca, por exemplo – já pensou nesta possibilidade?... Afinal, o antônimo de falar não é dizer (mais) asneiras – ou é?...
Mas “desculpa, tá?” é demais, né não?... Imagine você estar em um evento público importante, e alguém manchar sua roupa com vinho tinto (não importa a safra). Ah, mas a ‘desgraça’ não acaba aí. Tem mais. O causador da ‘embriaguez’ da sua roupa vira os olhos ao teu olhar atônito, e arremata: “Desculpa, tá?”. Desculpa, ‘porra’ nenhuma! Ou você vai sorrir, e dizer: ‘Tudo bem, minha roupa precisava de um bom vinho mesmo. Pode despejar mais um pouco perto da gola?”
Ah, mas há situações mais graves do que uma roupa nova embriagada. Há circunstâncias em que ultrapassamos o que conhecemos como limites de nós mesmos. E não há volta – quando falamos sem pensar, e ouvimos o que o outro também (com o mesmo direito) manifesta sem pensar. Não acredite se o outro encerrar a discussão, com a famosa frase “desculpa, tá?”. E também não creia na tua própria honestidade, se for você a dizer “desculpa, tá?”...
Ah, mas ainda tem de se levar em consideração a entonação de voz. Todos os bichos, e os bebês também, podem não compreender o que lhes dizemos, mas avaliam, atentamente, na maioria das vezes, como falamos com eles. A nossa entonação, o nosso gestual contam muito mais do que as ‘mais nobres’ palavras que podemos verbalizar. “Desculpa, tá?” pode ser dito em diversas entonações:

“Desculpa, tá?” – Entonação suplicante, de quem é um bom ator (ou pelo menos se acha), ou de alguém que pensa que será desculpado, pelo simples uso de oito letrinhas bem colocadas.

“Desculpa, tá?” – Entonação confiante, de quem nem espera a resposta, e dá às costas ao interlocutor (problema).

“Desculpa, tá?” – Entonação estilo “tô nem aí”, de quem demonstra que não se importa com a resposta (ou finge muito bem).

“Desculpa, tá?” – Entonação cansada, de quem não acredita nas próprias palavras que diz (talvez, o mais sincero).

É o que consigo pensar, agora, a respeito. Desculpa, tá?... hehehehehehehe

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Socorro! O meu peixe derreteu!...


Gelo é gelo. Peixe é peixe.

Não entendeu? Nem eu – ainda.

Imagine você comprar corvinas bem nutridas, para receber uma meia dúzia de amigos. Imaginou?... Agora, vá além da imaginação, e imagine que, quando você retira as travessas do forno, há míseras sardinhas no lugar. Imaginou?... Pois é, o que parece ser coisa de mágico, ou estória de pescador, pode tornar-se realidade, se as corvinas forem compradas beeeeeeem longe do litoral – traduzindo: congeladas várias vezes.
Por acreditar na saúde do peixe (mais ainda pelo sabor leve), sempre mantenho, no cardápio familiar, alguma espécie. A ‘merda’ é que não moro à beira-mar, nem à ‘beira-rio’. A opção é buscar, nos açougues de mercados, aqueles peixes congelados pelo tempo. Além de não serem frescos, são vendidos no meio de tanto gelo, que eu questiono qual pesa mais – o gelo, ou o peixe. Mas acabo comprando, do mesmo jeito, apesar de saber que, diante do mínimo calor, o ‘falecido’, pobre coitado, emerge, do gelo derretido, mais minguado do que nunca.
Sinceramente, acho uma aberração os consumidores terem de pagar pelo peso do gelo embutido no peixe. Pode observar, não há qualquer referência, nas embalagens ‘piscianas’, de: peso bruto, peso líquido. Aliás, se houvesse peso líquido, seria mais honesto, pois ficaria provado que a água (antes de ser congelada) teria sido pesada (mesmo leve) – ou não?...

É muita ‘enrolação’ pra minha cabeça, mas, teimosa que sou, não desisto...

Quem não mora no litoral, nem tem vizinho com rio, ou açude, sabe o que estou tentando manifestar aqui. Não adianta, gente, o peixe congelado, que a gente compra, custa bem mais caro do que vale, se “vale quanto pesa”. A impressão que eu tenho, quando levo um desses peixes congelados pra casa, é de que estou pagando pelo “pedigree” do peixe, ou seja, custos de nascimento, vida e morte, com direito a funeral de primeira. Por que não há ofertas e promoções de peixes, ou pelo menos o ‘divórcio’ do peixe com o gelo. O que o mercado oferece é cada vez mais gelo, e, de brinde, peixe como recheio, quase sempre desnutrido.
Não considero que o preço do peixe em si seja caro (quem ganha pouco é o pescador, e o peixe vale mais morto e congelado). Absolutamente. Só acho que deveriam cobrar, na pesagem, pelo peixe, não pelo gelo, que derrete algum tempo depois. Cá entre nós, depois de tanto tempo congelado, até o pobre peixe também derrete, e a moqueca acaba servida com pirão mesmo, por que não há outro jeito.
Nem perco mais tempo com os comerciantes, que, na tentativa recursiva de explicar “o que que acontece”, acabam sempre puxando o melhor peixe para o assado deles. Amigos do Procon me informam que algumas indústrias ‘piscianas’ já foram autuadas, para estipularem, visivelmente, na embalagem dos ‘bichinhos’, o peso real da carne, não do gelo acrescido. Só que nem sempre os peixinhos passam por uma “indústria legal”, e acabamos não resistindo ao congelado, sem verificarmos a procedência, nos mercados da vida.
Por fim, deixa te contar que, aqui no sul do nosso ‘Brasilzão’, muitas famílias se sustentam, com a criação de peixes (Carpa, na maioria das vezes), em açudes. Até aí, tudo bem, né?... Mas o que a maioria dos consumidores ignora é que os inocentes peixinhos são criados à base de uma alimentação, na minha opinião, ‘sui generis’: toda a ‘merda’ defecada por suínos, que vivem em chiqueiros, propositadamente instalados em cima dos açudes. Há rios brasileiros (a maioria) com sinônimo: “esgoto a céu aberto”. É tanta merda, que os peixes acabam se empaturrando, e depois morrem – satisfeitos. “Imagine se “essa moda pega”, e alguém mais resolve levar o ‘experimento’ adiante, com criação de outros animais de consumo humano (bois e galinhas, por exemplo), alimentados por fezes humanas (o singular de fezes será ‘fez’?)...
Vou parar por aqui, antes que você pense demais (ou de menos), e, comece a olhar com desconfiança (quem sabe?) pra carne suculenta (e indefesa) sobre a mesa, na hora da refeição... Bom apetite!...

sábado, 8 de agosto de 2009

Interstício




sem saber e sem ter por que quero escrever agora livremente aqui sem me preocupar com pontuação ou grafia e digito diretamente na postagem do blog coisa que nunca fiz o que escrevo é sempre atemporal feito carta que chega ao destinatário com dias ou semanas de atraso de esquecimento milhas de distância de uma realidade que nunca existiu perdida no tempo e no espaço criados por quem ocupa tempo e espaço não importa por que também eu chego atrasada e saio antes de cena é uma carta semelhante àquelas que eu trocava com meu pai cheias de não-notícias escritas com árvores folhas nuvens pedras que só brilhavam à noite protegidas por árvores gramados verduras verde verde verde escrevíamos sonhos nunca sonhados e ríamos e chorávamos e escrevíamos mais ainda e adoecíamos por causa da vida ah se essa rua se essa rua fosse minha eu não mandava ladrilhar eu plantava um tamarindeiro bem no meio dela e só permitiria a passagem das árvores que carregam suas pesadas e tortas raízes na infância sonhei uma vez só que era uma árvore pequena mas árvore acordei assustada imobilizada sentindo dores nos galhos mais verdes não dormi mais e fui olhar o céu de madrugada deitada na grama fria não havia estrela a me proteger céu escuro sem poesia e conheci o nada nada de nada mesmo o nada sem tudo o nada de uma vida deitada no gramado à espera do nada olhando o nada do céu e ouvindo o silêncio do nada nada me faz companhia até hoje e às vezes ainda deito com nada sobre o gramado e ainda hoje há nada no céu só o silêncio do nada e nada de estrela a me proteger nada no céu nada na terra nada na bolha de sabão do meu delírio febril vou te contar a minha pequena e única verdade não sei ser e por isso tropeço dificultando o trânsito dos transeuntes que transitam em transe e eu cheia tão cheia de vazios que carrego e eu vazia tão vazia que tropeço nos próprios pés quando começo a voar voar e não me atrapalho com as asas nem tomo conhecimento delas talvez por que não as tenho que eu seja uma bolha de sabão sem destino sem conhecimento algum da existência sem vento que me leve ou me traga apenas só uma bolha que se acaba na transparência do não-existir do não-ser bolha que se deixa ser trespassada por todos os olhares que não olham absortos perdidos bolha inútil bolha esquecida de se olhar bolha que nem respira bolha que passa só e vai para o nada bolha bolha bolha que não vale uma bolha bolha cheia bolha vazia que perpassa frações de segundos do não-ser e sem pensar sem sentir estoura sem estrondo si-len-ci-o-sa-men-te bolha de sabão barato soprada por um palhaço sem graça desempregado bolha que não pousa por não saber pousar nasci sem asas e me disseram quando criança que bicho com asas é assassinado degustado devorado tantas vezes eu quis ter asas para só voar e deixar de ser devorada mutilada sem saber e paro pra olhar pra trás e não enxergo mais do que uma densa neblina sinalizando que já não há mais tempo de resgatar a menina salvá-la dela mesma que guarda sementes que engoliu pra criar raízes galhos folhas flores frutos mas as árvores não nasceram menina que não sabe correr por que tropeça nos próprios pés e não tem asas não tem não tem não adianta querer o que não tem nem consolo nem colo frio nem imaginação nem sono sem sonhos sou só és só é só somos sós serdes sós são sós e tudo se configura solidão de nada solidão no existir solidão no escrever solidão no sentir solidão no pensar solidão no escamotear solidão no viver o que acaba por que sempre acaba e fim fim fim até o fim

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Pau de galinheiro


...Zé Sarney é denunciado, por beneficiar o neto do compadre do vizinho do namorado da filha do primo do sócio da tia do amigo do sobrinho do “laranja” da governadora que tem um filho que é neto do senador que “ajuda” a prima da vizinha do namorado da neta do “ex” da tia-avó do motorista da sobrinha do irmão da tia do assessor do “enteado” da sócia do primo do funcionário do avô do “envolvido” – tudo parente (ou quase), com alguma coisa ‘familiar’: a ‘putaria’ descarada.
Mas (ainda) o pior estava por vir: a defesa do ‘homi’. Zé Sarney “tremeu nas bases”, literalmente. Quase chorou. Vestiu-se de vítima, como se fosse ator novo, na estréia de palco. Não convenceu. Provavelmente, se ainda tem algum ‘desconfiômetro’, não convenceu nem a ele mesmo. Deve ter se olhado no espelho, escondido em casa, e dito, e repetido: “Você já foi melhor em cena”.
Mas (ainda) não era o pior. Tinha mais. Renan Calheiros “tomou as dores” de Zé Sarney, e “mandou bala” pra cima de Arthur Virgílio. Quem mandou se meter?... Arthur Virgílio desenterrou a fossa das ‘merdas’ do Renan Calheiros, e o mau cheiro não pôde mais ser contido. Aí, a festa foi reiniciada – muitos rojões, roupas enlameadas jogadas pra todo lado, muita “merda no ventilador”. Em vez de água, as bandejas serviam muito óleo de peroba, enquanto os caras-de-pau não paravam de fazer ‘abuso da palavra’ – tudo com muita “vossa excelência”. Do jeito que se acusaram, com e sem microfone, a tradução era só uma, no momento: “vossa excelência é um ‘filho da puta’, com todo respeito, claro”. Nomes, como o de ACM e Maluf, vieram à tona, no meio de toda ‘merda’, que espalhou-se pelo plenário, enquanto Collor sorria, manifestando apoio a Zé Sarney. Ah, mas não faltou também o 'quebra-pau' entre Jereissati X Renan Calheiros - o concurso de baixaria foi looooooooooooooonge...

Isso tudo é o Senado Brasileiro (“mais sujo que pau de galinheiro”), leitor eleitor!...

sábado, 1 de agosto de 2009

Exemplo de nada


Lembro agora que meu amigo radialista estava no auge do sucesso. Numa ocasião, estava ele em mais um evento social, e, como sempre, bebia sem parar. De repente, um grupo de mulheres eufóricas (que recém havia descoberto que meu amigo era o “grande radialista”) o interpelou: “É você o radialista?... Nossa!... Que bom te conhecer!... Além do programa na rádio, o que mais você faz?...” Meu amigo, que, aquelas horas, já estava bem pra lá de Bagdá, respondeu no ímpeto: “Além do programa, eu faço xixi, coco, e outras coisas do gênero!”... (O grupo afastou-se em silêncio.)
Pensando nisso, acho que meu amigo, em visível estado de embriaguez, estava – está – certo, por que ninguém deveria servir como exemplo de coisa alguma. Cada ser humano é exemplo de nada. Sei que não é fácil aceitar essa afirmação. Nem pretendo, aqui, convencer alguém que se acredita “exemplo”, seja do que for.
Já registrei, aqui mesmo, no blog, que gosto de um bom desafio. E um dos maiores desafios da minha vida é justamente desmitificar-me, diante das pessoas, mas, principalmente, diante de mim mesma. Sei que precisamos sempre usar uma ‘máscara’ – senão construída por nós mesmos, criada pelas pessoas que convivem conosco, a partir do que (“mal e porcamente”) conseguimos expressar, manifestar. É justamente esta “imagem” que eu me desafio sempre a quebrar, sem a intenção de ferir. Quero acreditar que, se, aos poucos, minhas máscaras todas forem caindo, ou sendo ‘caídas’, restará uma fresta, um naco de quem realmente sou - o fio de meada do “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates. Sou exemplo de nada, por que ainda não sei quem sou, e assim vou sendo (ou não), tateando meu próprio ser, como quem se cobre e se descobre, a cada instante único da vida. Não sou exemplo nem a mim mesma - nem bom, nem mau exemplo. O que errei já está errado (tenho de assumir, sofrer por isso, pois não acredito em ‘remendos’). Onde acertei, ou acho que foi um acerto, é sempre caminho pra seguir adiante.
Como todo ser humano, sou uma mescla de bondade e maldade. E sei agradecer às pessoas que sempre fazem brotar de mim, o meu melhor, a minha bondade genuína. Mas nem sempre sou “boazinha” (algumas pessoas já interpretaram isso como “falsidade” – não é). Existe em mim, como em todo ser humano, a maldade – o sarcasmo, a ironia cáustica -, e eu jamais a nego. Pelo contrário. Vivo em paz com os meus maus sentimentos, por que, acredito, um dia, poderão me ser úteis para o bem.
Por isso tudo, não me vejo exemplo de coisa alguma. Até por que o que mais eu sei fazer na vida – escrever – eu apreendi. Não nasci escrevendo, nem concatenando idéias, ordenando raciocínios lógicos, elaborando histórias a serem contadas – com começo, meio e fim. Em meio a isso, sempre repito que o que mais fiz na vida foi aprender a não ser. E isso me foi benéfico, mais até do que eu mesma imagino. Enquanto eu aprendia a escrever, aprendia muitas coisas que eu não deveria (por mim mesma) reproduzir. Por isso também denomino minha alma torta. Sem justificativas. Sem defesas. Sem argumentos.
Obviamente, as criaturas que convivem com a gente sempre têm e mantêm uma “imagem” em relação à nossa “persona”. Mas isso não serve de parâmetro para coisa alguma, já que a “imagem” é personificada, de acordo com a visão de cada um. Eu não tenho nem um parâmetro de beleza estética, por exemplo, por que minha visão é outra. Eu sempre busco conhecer o além-superfície do ser humano. Não me interessa a máscara mais usada, aquela que a própria criatura ajeita, retoca, maquia a todo momento. Sei lá. Acho que quero descobrir o outro, como o faço comigo mesma – na escuridão, na cegueira da interpretação dos sinais. É tão-somente a minha visão, e isso não altera coisa alguma. Ainda bem.
Recordo que, depois de uns vinte anos de distanciamento, reencontrei uma amiga de infância. Eu estava com minha filha, a quem essa amiga me definiu: “Tua mãe foi sempre assim: muito louca”. Rimos disso. Lembramos que, quando éramos crianças, eu sempre dizia à ela: Não existe ‘não pode’; existe algo ou alguém que impede. Era o impossível tomando conta de mim, da minha infância, da minha vida torta. E eu nem sabia o que vinha pela frente...

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