quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A ‘droga’ da interpretação


Tudo o que supomos enxergar é interpretação nossa. Aliás, ato solitário esse, pois não há interpretação igualzinha entre duas, ou mais, pessoas. Grande novidade, né?... Estou até me sentindo Pedro Álvares Cabral, depois dessa – as terras e os povos, por aqui, sempre existiram, e ele achando, na maior empáfia, que havia descoberto alguma coisa. Os índios devem ter rido muito da cara de espanto do “portuga”. hehehehehehehehe

Agora, falando sério, toda interpretação (boa ou ruim) é uma ‘droga’. E tudo o que fazemos, ou deixamos de fazer, tá justamente embasado no que interpretamos, por que nada é – tudo está, de acordo com a visão de cada um. Gente, é uma experiência e tanto, quando podemos ouvir comentários de visitantes, numa galeria, durante exposição de quadros (vernissage é coisa chique). É um tal de cada um enxergar um ‘bicho diferente’ nas pinturas, que, na maioria das vezes, o autor (réu), ou autora (ré), se ainda vive, e está “na área”, sai correndo. Lembro de uma ocasião dessas, quando assisti um garoto (não mais que dez anos) fazer um breve comentário de uma reprodução de Picasso: “Eu já fiz desenho melhor que este, tá lá em casa”.

Eu interpreto
Tu interpretas
Ele interpreta
Nós interpretamos
Vós interpretais
Eles interpretam

E não adianta. Não fugimos disso. Por que faz parte da humanidade, tanto quanto nós, os atores desta grande ‘peça’.

A verdade é que o mesmo fato, ou pessoa, está ali, diante de nós, e cada um interpreta de um jeito diferente. Mas, talvez, a interpretação mais difícil, por que intrínseca, seja justamente aquela em relação a nós mesmos. Se a auto-crítica for ‘pesada’, pior ainda. Interpretamos nossos gestos, nossas atitudes, nossas palavras e nossos silêncios, com a lâmina da guilhotina mais afiada, e nem uma outra interpretação será pior que essa que carregamos n’alma.

Às vezes, somos generosos conosco mesmos, e nos interpretamos com condescendência (palavrão horrível!). Somos, neste caso, réus, juízes, e, ao mesmo tempo, nossos advogados de defesa ganhando uma causa – talvez, a maior das nossas vidas. O que precisamos buscar sempre, acho, é fazermos cada vez mais gols a nosso favor do que contra. Afinal, é a partir das nossas interpretações que conduzimos a vida. Não me refiro a defendermos, “com unhas e dentes”, o nosso pior – aquelas atitudes que machucam nós mesmos e os outros. Se erramos, não podemos nos condenar por isso, nos enxergando, a partir daí, como “da pior espécie” – deixemos que os outros nos interpretem assim. Até por que, se erramos, também podemos acertar. Se não dá pra consertarmos, fiquemos mais atentos, pra não cometermos os mesmos erros. Eu sempre repito que há uma diversidade inimaginável de erros a serem cometidos. Por isso, não precisamos repeti-los.

Brincadeiras à parte, o que vale mesmo é buscarmos sempre o “terceiro olho” da interpretação. Não tem nada filosófico nisso. A coisa funciona na prática. Pra mim, o primeiro olho é o que você enxerga sem pensar a respeito (a cena - “nua e crua”). O segundo olho é o que você ouve dos outros a respeito, e o que pensa, a partir disso. O “terceiro olho” é a tua consciência (vivência), depois de todo processo consumado – contabilizados os prós e os contras (ou “os pós e as contas”, como diz um amigo meu).
Sei que, se você me leu até aqui, está, senão interpretando a “minha pessoa” (persona = máscara), interpretando o que escrevi. Não importa. Eu me interpretei antes, e também interpretei o que escrevi. E se mais de uma criatura ler essa ‘merda’ toda aqui registrada, serão ‘N’ interpretações, cada uma com enfoque diferente. Eu ainda prefiro ficar com a minha interpretação, que não é sequer indício de verdade absoluta alguma, por que preciso seguir adiante, tanto quanto você...

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