terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pare Olhe Escute

(Acho mesmo que foi essa placa aí de cima - Pare Olhe Escute - que me sinalizou o universo das palavras.)


Há tempos (particulares) que ficam em nós, desobedecendo a lógica do próprio tempo, à mercê do nosso desejo, que dá sempre um jeito de os reter. E são desses tempos todos que somos feitos. E, assim, nos tornamos atemporais, pelo menos, na nossa imaginação de vida. Afinal, precisamos, de algum jeito, sobrepor, ou simplesmente ignorar o tempo, este velho tempo que nos consome, que se alimenta das nossas horas, e acaba sempre nos matando – a todos.
Também em mim, ficam tempos que não querem ir – talvez, por não saberem o caminho de volta (o passado não existe mais), ou a trilha (sem luz) do futuro. Eu os liberto, e os acolho, pois permanecem em mim, tão habituados a esse convívio vivo.
Uma das presenças mais marcantes, na minha vidinha, sempre foi meu pai, que me apresentou o mundo, por incontáveis janelas de trens (ele era maquinista). Quando eu tinha cinco anos, passei a ter, em meu pai, a disponibilidade de um avô – foi quando ele aposentou-se. Entre tantas caminhadas que fazíamos juntos, ele começou a ensinar-me a magia encantada e encantadora das palavras. Como morávamos à beira dos trilhos da velha estação de trens, a lição que meu pai mais me repetia era: “Nunca esqueça o valor dessas três palavras mágicas: Pare Olhe Escute”. Eu fiquei extasiada com os três segredos desvendados, que, quando a família viajava de trem (eram tantas as viagens), eu ia lendo, em voz alta, pelo caminho: “Pare Olhe Escute”, “Pare Olhe Escute”, “Pare Olhe Escute”, “Pare Olhe Escute”...
A partir daí, as palavras me libertaram para o mundo que me é desconhecido até hoje. Depois daquela infância rica de fantasias e imaginação, nunca mais viajei de trem. Mas continuo viajando na lição do meu velho pai: “Nunca esqueça, Nara, que você precisa sempre parar, olhar, e, principalmente, saber escutar. Se conseguir fazer isso, você compreenderá mais, e sofrerá menos”. Ouvi isso, muitas vezes, e guardei as palavras de meu pai, sem saber a tradução do que ele me repetia. Acho que ainda estou aprendendo a lição – e já faz tanto tempo!...
Meu pai era um ser humano bem humorado, de bem com a vida mesmo, brincalhão – a minha ironia é toda dele. Quando saía, cumprimentava todo mundo, sempre sorridente, tirando a sisudez de muitas aparências hostis.
Acho que até cabe uma historinha, pra te apresentar meu pai:
Durante um tempo, meus pais ajudaram na construção de um Hospital Espírita, atendendo numa lojinha improvisada, que vendia todo tipo de objetos arrecadados, desde roupas, calçados, até móveis e outros tantos “trecos” (inimagináveis). Numa dessas tardes, eu estava passando pela lojinha, quando vi meu pai atender um velho desconhecido. Meu pai, todo animado, mostrou-lhe um pequeno ventilador, e o senhor respondeu: “Não posso com isso, tenho doença nos pulmões”. Num só ímpeto, meu pai interrompeu, dizendo: “Então, este aparelhinho foi feito para o senhor, pois ventila fraquinho, fraquinho”. E ligou o 'pobre' do ventilador, que mal conseguia girar, len-ta-men-te... Esse era Seu França, meu pai. (Acredite, vendeu o “ventiladorzinho aposentado” - como o chamou.) hehehehehehehe


Meu pai completaria, nesses dias de outubro, 92 anos, mas, há algum tempo, dormiu, e esqueceu de acordar – talvez, estivesse sonhando. Eu não sei. O que sei é que continuamos caminhando – meu pai e eu, juntos -, ou viajando de trem, olhando a paisagem, e a placa insistente:


Pare
Olhe
Escute


… como dizia meu velho pai: “Ainda que não parem. Ainda que sequer te olhem. Ainda que não te escutem”...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Par ou ímpar?



Dia desses, enquanto assistia uma entrevista com Madonna, ouvi isso:
Entrevistador: - Você pretende casar de novo?
Madonna: - Prefiro ser atropelada por um trem.
Achei engraçada, não só a resposta, como também a forma (de sopetão) que respondeu a cantora, e, claro, anotei no papel mais próximo. Hoje, encontrei o pedacinho de papel, e cá estou escrevendo o que não caberia no papelzinho.

Madonna foi taxativa. Trágica até.
Quanto a mim, que nada tenho da (poderosa) Madonna, gosto de trens – minha infância teve a paisagem de uma janela de trem. Quanto à pergunta que foi feita à Madonna, acho que eu responderia com aquela outra (antiga) opção: compraria uma bicicleta – também gosto de andar de bicicleta.
Não pense você que vou escrever sobre casório, por que, sinceramente, não tenho experiência suficiente que me sustente numa empreitada dessas. Nem arriscaria. Vivi em condição de “senhora casada”, uma única vez na vida. O que posso dizer a respeito é que aprendi pra caramba, e acho que não volto àquela sala de aula.
Brincadeiras à parte, o importante é ser, fazer-se feliz – sempre!... Não importa mesmo se é par, ou ímpar. Ainda bem que a “época do pecado” parece que passou, e ninguém mais precisa casar, por que engravidou, ou por que não é mais virgem, ou mesmo por que a família decidiu. Ainda bem, hoje, não há mais necessidade de casar, morar junto, pra se ter uma relação legal com alguém – na cama, e fora dela. Acabaram os 'trovões' assustadores, e ninguém mais precisa casar, só por que não quer ser chamado de solteirão, ou solteirona. O estigma foi derrubado pelo desejo da maioria, que simplesmente quer viver bem. E pronto.
Pelamordedeus, não dá mais pra escamotear o sentimento de solidão, com alguém do lado. Ser humano precisa – e merece! - mais que isso. Lembro agora de uma amiga, em processo de separação conjugal, que disse: “Eu estava tão ansiosa, à espera do príncipe encantado, que acabei casando com o cavalo dele”. Sem baixar livrinho de auto-ajuda, acho que a gente precisa, antes de tudo e de mais nada, aprender a conviver, na boa, com a gente mesma. Por que as outras pessoas – todas, todas – podem se livrar da gente, da chatice da gente, quando bem entender, sem olhar pra trás, menos nós mesmos. Por isso, é bom que a gente seja uma boa companhia pra gente mesma.
Mas a pergunta volta com tudo: Par ou ímpar?...
Sei lá. Pode ser que a tua felicidade esteja no par, na vidinha a dois. Acho mais saudável, quando não existe a dependência da “tampa da panela”, ou a “outra metade da laranja”, e coisas assim. Legal é uma relação de dois inteiros que se amem, se respeitem – mesmo sem as bençãos da igreja (nada contra a tradição), ou o registro 'casamental', oficial.
A vida ímpar também pode ser a melhor coisa do mundo, desde que você esteja em paz contigo, e curta com satisfação a tua própria companhia. Inclusive, o mercado mundial está reconhecendo que a maioria das pessoas está planejando e vivendo sozinha mesmo. Por isso, cada vez mais, as prateleiras estão lotadas de produtos em pequenas porções, ou embalagens minúsculas, justamente pra atender os ímpares.
Madonna, por exemplo, parece estar convencida de “casamento, nunca mais”. Mas nem por isso ela deixa de optar pelo par – agora, informam os 'fofoqueiros de plantão', a grande 'popstar' está de namoro com Jesus (brasileiro!), mas bem loooooooooooonge dos religiosos fiéis... hehehehehehehehe

E então: par ou ímpar?... (talvez, este seja um dos poucos jogos que não pressupõe perdedor, ou perdedores)

domingo, 18 de outubro de 2009

Monólogo íntimo

Ainda que haja controvérsias, estou aqui pra garantir a você que, primeiro, eu surgi, e, a partir de mim, tudo foi se formando à minha volta. Antes de existir coração, ou cérebro (talvez, nem alma havia ainda), eu já estava em você, eu era inteiro você - e ainda sou. Tudo o que você fez, faz e fará sempre foi, é e será por mim - em meu nome -, tendo você consciência disso, ou não. Eu sou o teu segredo mais íntimo, inconfessável até a você mesmo. E não existe o que me substitua, ou me supere, por que eu sou inteiro você - tua essência, teu princípio, quiçá, o teu fim.
Às vezes, alguém me reconhece em você, mas é por pouco tempo, pois você não me admite em público, me esconde até de você mesmo. A tua dor sou eu me condoendo, por causa do que fazem contigo - meu fruto, meu produto, minha arte final. Não adianta você dizer que não vive em minha função, por que sou eu inteiro em você. (Por que o motorista sempre dirige o veículo em sua própria defesa, num acidente?... Ora, por que também ele me tem em semelhança - não sou eu, mas, igual a mim, existe outro em cada ser humano.)
Compreendo quando você tenta convencer os outros que pensa na humanidade, que quer trabalhar em equipe, que quer somar, que não perde a confiança nas pessoas. Entendo que, pra viver neste mundo, é preciso “ser parceiro”. No fundo, compreendo tudo isso que você demonstra, por que sei que, no fundo, bem no fundo (que é onde eu estou), você prioriza você (eu), o tempo inteiro. Tenho certeza de que, no meio de tantas vidas humanas, se tivesse de escolher, você optaria, em primeiro lugar, sem pestanejar, salvar a tua própria vida, salvar a mim. Sei tanto de você, por que sou eu – inteiro – em você.
Até entendo por que você está sempre tentando agradar os outros. É o caminho que você conhece, pra ser aceito, pra que me aceitem, me aplaudam, pra que eu seja o centro, enfim, de tudo e de todos. Sei de tudo isso – sei até do que você nem imagina. O que você quer mesmo é me proteger, e me manter no pedestal inalcançável, o tempo todo. Eu sei que você quer (sou eu que quero) que o mundo gire em torno de mim, mas o mundo desobedece, e segue o próprio caminho. Por isso, tua frustração é minha frustração, tua decepção é minha decepção, tua desilusão é minha desilusão, e também tua raiva é minha raiva. Você é parte de mim – eu sou inteiro você. E mais: Quando você se sai bem em alguma situação, é a mim que você infla. Quando se sai mal, sou eu que te reergo, com todo orgulho. Sou eu, teu único abrigo, que jamais te abandona.
Sou eu que te acompanho, a cada passo, em tudo, a cada lapso de instante da tua vida. Sou eu na tua família. Sou eu na tua escola. Sou eu no teu trabalho. Sou eu nos concursos, nas competições. Sou eu na tua roda de amigos. Em tudo, sou eu, através de você. Isso é indiscutível. Fisicamente, poucos se importam comigo - mas permaneço aqui, como signo da origem de tudo em você. No instante em que você está triste, se sentindo humilhado, ofendido, injustiçado, vítima de, é em mim que você se recolhe, e chora todas as tuas mágoas. Eu te acolho sempre, e digo (ainda que você não queira ouvir coisa alguma), que você é “o melhor”, “o maior”, “o bom”. Sou mais que teu “ego”, teu “self”, teu “ying”, teu “yang”, teu “Id”, teu “superego”, teu “alter ego”, tua “alma”. Sou mais que teu “consciente”, teu “inconsciente”, teu “subconsciente”. Sou inteiro você – você que se sabe tão pequeno, apenas uma parte do que sou.

Assinado: teu umbigo.

P.S.: Deixa que os “grandes estudiosos” continuem afirmando que “umbigo é (tão-somente) a cicatriz resultante da queda fisiológica do cordão umbilical, e costuma manifestar-se como uma depressão na pele. A palavra umbigo tem sua origem no latim 'umbilicus', diminutivo de umbo, com o sentido de saliência arredondada em uma superfície”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

No meu lugar



Definitivamente, a vida não nos dá condições de troca de lugar com ninguém, a não ser em algum cargo, ou encargo, em atividade de trabalho, ou estudo, e nas filas, nas poltronas, ou em qualquer outro espaço físico. Claro, tem muita gente que ocupa mais que um lugar, seja na escola, no trabalho, na praça, ou em qualquer espaço notório, por que notório também é o seu tamanho, sua circunferência (brincadeirinha... hehehehehehehe). De resto, cada criatura humana é única, como também é único o seu lugar, tanto nas escolhas que faz, ou até mesmo quando escolhe não escolher. E, claro, assume, sozinha, isso tudo, mesmo quando escuta frases semelhantes a “vai firme”. Vai, nem sempre firme, e, na maioria das vezes, sem saber pra onde. Mas vai.
Até parece que já nascemos com uma identidade personalizada (talvez, na alma) – imperdível, intransferível. Se ousamos dizer “me coloco no teu lugar”, estamos ousando mesmo, pois jamais estaremos em outro lugar, senão no nosso, mesmo que neguemos, por toda vida, esse lugar.
É característica humana, e desumana também, suponho, querer sempre estar no “lugar do outro”. Assim acontece com o fã que quer estar no lugar do ídolo, o empregado no lugar do patrão, o aluno no lugar do professor, quando não a esposa dona-de-casa no lugar do marido, que trabalha fora - e por aí segue a cantilena. Talvez, por que estamos sempre insatisfeitos conosco mesmos. Na nossa visão estrábica, imaginamos que o “lugar do outro” é mais confortável, seguro. Doce ilusão.
Mas nem adianta tentarmos nos colocar em outro lugar, senão no nosso, pois não encaixaríamos lá (no outro lugar). Sempre iria sobrar/faltar alguma coisa, ou seja, justamente a vida da gente, a personalidade da gente (força e fraqueza), com tudo o que a gente tem direito, com o que a gente fez e deixou de fazer da própria vida.
Vida aparente não denuncia a vida de alma. Como agimos, reagimos, até mesmo as opiniões que emitimos, seja a respeito do que for, tudo o que manifestamos, enfim, não significa mais que um instante de vida breve, que pode ser completamente desfeito no outro instante, a partir de uma manifestação contrária, e muito nossa. É assim que ‘funciona’ a imagem de cada um de nós: somos adorados por quem concorda conosco, e quer que permaneçamos como aparentamos ser. Tanto é verdade, que, quando mudamos nossas atitudes, nossas idéias manifestas, somos ignorados, repudiados, odiados até.
Sempre repito que pouco ou nada sei de humanidade. Mas penso. E o que penso agora é que, se cada qual se colocasse no próprio lugar, haveria mais espaço pra todo mundo caminhar, aprender, evoluir, viver enfim. O lugar da gente pode ser, sim, confortável, seguro, se a gente trabalhar pra isso. Pra mim, “murro em ponta de faca” até parece ser legal, em filmes. Na real, não há ensaios, nem regravações, muito menos efeitos especiais.
Eu faria melhor que você, no teu lugar?... Você faria melhor que eu, no meu lugar?... Não sei. Se eu fosse você, e se você, consequentemente, fosse eu, você faria a tua caminhada (que seria a minha, por que você seria eu, em tudo), e eu faria a minha caminhada (que seria a tua, por que eu seria você, em tudo), e acabaríamos cada qual no mesmo lugar: no meu lugar, no teu lugar. Melhor ou pior, este é o meu lugar, este é o teu lugar – e nada muda. Tudo é feito como parece que pode ser feito – do meu, ou do teu jeito, é feito. E parece que assim é pra ser. Talvez, se você estivesse no meu lugar, e eu no teu lugar, apesar dessa mudança toda (mais aparente), cada lugar continuaria o mesmo: intransferível. E acabaria sendo do jeito que já é, ou está. Você, no meu lugar, seria tão idiota como já é; eu, no teu lugar, seria tão babaca quanto já sou...
Em tempo: Não pense que “o lugar no mundo” do teu vizinho tem uma paisagem maravilhosa, mesmo que ele aparente isso (é momentâneo). O trem segue os trilhos, e as paisagens mudam, pois a viagem é longa, e não se sabe qual será a última estação de cada um. Teu lugar, ou meu lugar – é apenas um lugar (a mais, a menos). O que você faz, o que eu faço, neste lugar, é que faz a diferença. O resto é joguinho de palavras.
Exatamente no meu lugar (ocupo espaço mínimo, sou pequenininha), eu fico por aqui.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

No mundo das intenções

Embarque comigo, nesta (longa) viagem, para o mundo das intenções. É expressamente proibida, por questão de segurança, qualquer bagagem – não há lugar pra nem uma interpretação sequer, ou descrença, por menor que seja... Não sei ao certo, nem ao incerto, se aterrissaremos em algum qualquer lugar – depende de mim, depende de você...
Aviso prévio único: Não há cinto de segurança, nem qualquer seguro individual, ou kit salva-vida. A viagem inteirinha é por sua conta e risco. E boa viagem – pra nós!...
Se “de boas intenções, o inferno tá cheio” – não sei. O que sei (um pouco) é de mim, que (ainda e sempre) acredito nas intenções – boas, ou ruins. Eu mesma não preparo qualquer prato, na cozinha (um arrozinho sequer), sem que eu esteja imbuída de boas intenções. Pode parecer besteira - e é! -, mas acredito que, se eu não fizer bem intencionada alguma coisa, essa coisa vai resultar em ‘merda’. Por isso, quando não estou em paz com alguém com quem convivo, de uma forma ou de outra, antes de fazermos qualquer trabalho juntos, sempre procuro esclarecer o desentendimento, ou seja lá o que for que nos causou estranheza um com o outro. É meu jeito de ser, ou de não ser. Sei lá.
Tanto quanto em mim, também considero as intenções das pessoas. Se for alguém mais próximo, claro que a intenção tem um valor ainda maior. Lembro agora de uma senhora, que já faleceu. Ela criava muitos netos, e, por isso, a alimentação era escassa, mas contava com a ajuda de pessoas bem intencionadas. Eu a visitava quase sempre, mais pra ouvi-la, aprender com ela – figura simples, analfabeta, e sábia. Um dia, ao me receber em casa, essa senhora me disse, num abraço: “Guardei um prato de canjica de trigo, por que sei que você gosta tanto, mas não tenho leite pra colocar junto”. Quando ela me fez sentar à mesa, servindo-me o prato da canjica que tanto gosto, eu engasguei de emoção, e não havia jeito de engolir sequer o caldinho da pequena porção de canjica. Só pude degustá-la, depois de chorar, e, claro, tentar verbalizar o que senti, àquela criatura maravilhosa que conheci, com quem não posso mais conviver. Encontrei algumas (raras) criaturas encantadoras, que também me serviram canjiquinha de trigo (sonhos), alimentando a minha alma. O que contei aqui é pra você saber o que significa, pra mim, a intenção de alguém.
O mais legal é que guardo sempre as boas intenções das pessoas – as ruins, eu naturalmente esqueço (ou será que devolvo ao portador, que porta aquela dor?). É verdade – pode acreditar. E como valorizo cada uma das boas intenções que identifico! Nos sonhos das boas intenções das criaturas que conheci, já viajei quase o mundo inteiro, já trabalhei num gueto africano, já tive uma vida em paz no meio do mato, já fiz parte da criação de uma ONG de crianças, adolescentes e jovens esquecidos pela sociedade, já editei livros, e ganhei dinheiro com isso... hehehehehehehehehehe
Sonhei junto com gente bem intencionada. Sou uma privilegiada – isso sim.
As boas intenções – minhas ou alheias – sustentam a minha alma torta. Sou tão “ligada” nessas coisas intencionais, que acredito até na força do pensamento humano. Pra mim, tudo parte da intenção, e retorna à ela. Até mesmo quando eu quebro, ou alguém quebra, sem a intenção de, um copo, um prato, não fico me culpando por isso, nem culpo a outra pessoa, por ter quebrado a louça (é uma ‘merda’, quando a gente quebra, sem querer). Mas, quando existe a intenção – boa ou ruim -, aí sim, ajo de acordo com, mesmo quando sou eu, a criatura mal intencionada que protagoniza a cena terrível.
Acho mesmo que intenção é tudo. Por que – é o que vejo -, antes mesmo da concretização (materialização), houve um desejo, uma vontade, uma intenção. Nem sempre se alcança o objetivo, é verdade, mas, mesmo assim, a intenção sobrevive – liberta, ou escondida nos porões mais escuros da alma da gente...
A viagem pode continuar, se você (ainda) pensar sobre isso - ou não...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A embriaguez do saudosismo


Há pouco, reencontrei um amigo, colega de profissão, uma ‘espécie rara’ de ser humano, em extinção nos dias de hoje. Como sempre acontece, quando nos encontramos, ficamos conversando sobre tudo, mais ‘viajando’ mesmo. Ao longo do papo longo, fui percebendo que o saudosismo é uma embriaguez da alma. Mas o saudosismo embriaga a alma no ponto exato, por que, depois de uma certa dose, o bêbado fica chato, insuportável, começa a babar, vomitar, cair em cima dos outros. O saudosismo não chega a tanto – é um bêbado elegante, delicado, comedido, que se permite até chorar, sem qualquer exagero.
Eu e meu amigo ficamos recordando os “tempos dinossáuricos da imprensa” (como ele mesmo denominou). Pra quem não sabe, primeiro foi a escrita na pedra. Tô de brincadeira... Primeiro, foi a máquina de escrever mesmo (manual, depois elétrica). Depois, veio o telex, pra ajudar. Mas não bastou, e aí chegou o fax modem. O computador veio pra arrasar com tudo, fazer os profissionais do jornalismo até esquecerem do passado trabalhoso. “Fala a verdade, Nara, há quanto tempo você não visita as redações? Lembra que, antes dos emails, a gente tinha de visitar, diariamente, jornais, rádios e o pessoal de televisão, pra deixarmos nossas matérias, e atualizarmos o convívio?”... (silenciei)
Meu amigo continuou: “Primeiro, a gente ‘batia à máquina’, fazia cópias, e entregava junto com as fotos, reveladas em diversas cópias. Depois, com o telex e o fax, ainda nos restava levar, em mãos, aos colegas, as fotos copiadas em revelação. Agora, vai tudo por email: textos, fotos, e já não se tem mais o aperto de mão, o abraço, o bate-papo informal, o contato humano”... (silenciei novamente)
“Ah, lembra dos laboratórios improvisados, pra revelação de fotografias?” – perguntou-me. Claro, quantas vezes exagerei no fixador! – lembrei na hora. E rimos juntos – eu e meu amigo -, mas rimos com o riso saudosista. “As máquinas digitais trouxeram junto as revelações digitais, e muita gente perdeu emprego” – falou meu amigo. A ordem, agora, meu amigo, é estar ‘antenado’, disse-lhe sem ânimo. De imediato, meu amigo completou: “Antenado sempre, por que senão perde o lançamento de mais alguma coisa que revoluciona o mundo”.
Mas fomos mais longe, na nossa ‘viagem’. Eu lembrei ao meu amigo que, não faz tanto tempo assim, gostávamos de uma música, e precisávamos ficar esperando, com ansiedade, obviamente, a chegada do disco de vinil, na cidade. E isso demorava muito, mas não desístiamos. Até que, finalmente, a tão esperada música chegava no “bolachão” de vinil, e corríamos pra ouvi-la. Pura emoção!...
Hoje, as coisas mudaram – tanto, tanto! “Perdeu-se a nostalgia” – disse meu amigo. E eu completei: perdeu-se o encanto da poesia; tudo é descartável. E meu amigo seguiu: “A turma de hoje baixa tudo pela internet, fica ouvindo em ‘ipods’, logo enjoa, joga tudo fora, e ‘baixa’ outras músicas. No nosso tempo, como cuidávamos dos vinis, que não podiam ser ‘arranhados’. Acabavam tornando-se parte da família da gente, de geração pra geração”.
Embriagados de alma, eu e meu amigo rimos. Depois, ainda falamos sobre os filhos – crescidos, cada um construindo o próprio caminho. E meu amigo gargalhou, falando: “Daqui a pouco, serão eles, os nossos filhos, Nara, a se sentirem dinossauros, em meio a tanta modernidade”. Dinossauros? Não. Dinossauros somos nós, meu amigo. Eles já fazem parte do futuro – respondi.
Depois, nos abraçamos, eu e meu amigo, e prometemos ainda reunir a “turminha da velha guarda, nem que seja num clube dinossáurico” (brincou ele). “A gente precisa se reunir mais, não só no velório dos colegas mais antigos” – ainda disse meu amigo, tentando esboçar um sorriso, contido por uma lágrima (ou, melhor, duas lágrimas)...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Coisas de ser humano


Você está nascendo, nascendo para uma vida que acaba sempre em morte... e não há mais o que fazer (fatal!), senão “ir vivendo”...
Nos primeiros momentos de vida, você conhecerá gente que falará dialetos intraduzíveis: “gu-gu-dá-dá”, “bilu-bilu", e outros grunhidos que não terão tradução alguma, a vida inteira. Você não sabe o que é isso, mas, se a criatura sorrir, te pegar no colo, te beijar, pode sorrir também - pelo menos, faz algum bem. Quando te deixarem sozinho, num lugarzinho aconchegante, ao qual chamam “berço”, não adianta espernear, nem chorar. O destino é sempre o mesmo: berço. A hora é de dormir, e você nem sabe disso, mas acaba dormindo, do mesmo jeito. Só bem mais tarde, você conhecerá insônia, e haverá momentos em que você perderá todos os sonhos. É coisa de ser humano mesmo.
No começo da vida que acaba, você sentirá ‘coisas’ incômodas, desagradáveis mesmo, no teu corpo frágil e desconhecido, ‘coisas’ que você nunca sentiu, e vai chorar por isso, você, que ainda nem sabe o que é choro, ou lágrima. Ser humano denomina tudo, e chamam essas coisas por variados nomes – colite, otite, alergia, etc e tal. Não importa. Tudo isso causa dor. Mas passa, por que sempre alguém vai te dar remédio, chá – tudo com gostinho adocicado. Uma delícia. Só de sentir o gosto, você esquecerá a dor, que você nem sabe o nome. Até para o choro sem dor, os adultos já acharam nome (acredita?): dengo, manha – que nem sempre é correspondido. Muito tempo depois, a dor da tua alma se mostrará – pungente -, e não haverá remédio, ou chá, para sequer amenizá-la. E todas as lágrimas do mundo não expressariam a tua dor, que é só tua, e será tua companheira inseparável, nesta viagem com tantos caminhos, desvios, e um único fim. Ser humano é isso, e um cadinho mais.
Depois de alguns meses, já vai ter gente te colocando em pé no chão, tentando te fazer andar, e aí vale tudo – orações, simpatias. Aos poucos, sem saber exatamente o que está fazendo, você vai dar alguns passos titubeantes, e cair, e chorar, e vão te fazer levantar, muitas vezes, até você caminhar com as próprias e inseguras pernas. E você continuará caindo e levantando, a vida a inteira – nem sempre terá alguém por perto.
O tempo vai passar longe do teu saber, e você já estará brincando no gramado, jogando bola, com cicatrizes nos joelhos, nos cotovelos, extasiado diante de uma formiga, ou de um formigueiro. E você vai chorar numa queda, mas vai descobrir que também se pode chorar, de tanto rir. E você não compreenderá por que não pode falar palavrão em público, se todo mundo acha engraçado.
Na adolescência, você ouvirá muitos 'nãos', à tua sede de experimentar todos os sabores do mundo que te chama. Ah, e não vai mais receber visita no “bercinho”, não, com um monte de gente em volta dizendo o quanto você é “uma gracinha”. Pelo contrário. Todos dirão que você é grande pra (ainda) fazer algumas coisas, e pequeno pra fazer outras tantas. E você não saberá mais qual o teu espaço, neste mundo humano. Não importa, por que, um tempo depois, a cena se repetirá: você será novo demais pra ser velho, e velho demais pra ser novo. Para muitos, você estará errado, e para outros, na mesma circunstância, você estará certo. E você (ainda) não saberá, mas continuará agindo certo e errado, a vida inteira. É coisa de ser humano mesmo.
Cedo ou tarde, você conhecerá a morte, e odiará o significado desta palavra, a vida inteira, por que será ela a levar embora, pra nunca mais, justamente as criaturas que você mais ama. Cedo ou tarde, você saberá, sem saber, que a morte não tem lógica, nem faz o menor sentido – como a própria vida.
Na escola, te ensinarão um monte de coisa que não vai prestar pra coisa alguma, na tua vida inteira. Mas, mesmo assim, você terá de mostrar que aprendeu. Ah, será nos primeiros anos de escola, também, que você conhecerá uma palavra que terá de enfrentar, a vida inteira: competitividade. Palavrão, né?... Ser humano é assim mesmo.
Das fraldas à escola, a diferença será gritante mesmo (pode gritar!), e você sentirá abandono, desamparo, solidão até. Prepare-se – tudo isso é apenas o começo de (mais) uma vida que acaba, a cada dia...
Não importa em que tempo, tua alma se encherá de candura, através do amor que você sentirá por outra criatura, que pode, ou não, corresponder ao teu sentimento único. Há quem diga que essa relação de amor sempre tem fim (eu não acredito que acaba). E você sentirá, na pele, o desejo sexual. E passará a vida inteira buscando sexo com amor. Você conhecerá (e saberá denominar) sentimentos, além do amor, de ódio, saudade, raiva, inveja, melancolia, hostilidade, ciúme, vingança, nostalgia, e tantos outros... E sentirá medo de tudo, de todos, até de você mesmo. Mas você pode escolher, e viver a vida do jeito que acreditar nela. Não esqueça: você pode mudar – sempre – de idéia, se contradizer, desistir, retomar, fazer e refazer a tua própria história de vida, que é só tua mesmo. Pode até se suicidar, se quiser. Sobre isso, eu penso: e adianta se matar, se, desde que a gente nasce, o único destino imutável é justamente a morte?... ‘Sacanagem’, né?... Não dá pra fazer a vida da gente tão previsível. Afinal, um dia, pelo menos uma pessoa vai falar assim da gente: morreu!...
Um dos momentos de maior indecisão será quando você pensar sobre que rumo tomar profissionalmente. Você pode tornar-se “o médico”, “o engenheiro”, ou “o advogado” que a família sempre sonhou, ou, como costumo dizer, ‘lamber selo’, a vida inteira (traduzindo: assumir um trabalho contínuo, sem novidade alguma, todo dia, a mesma coisa). O ‘leque’ de profissões é cada vez maior. Se, de repente, você não se der bem como contabilista, pode trabalhar numa loja de confecções, e tudo bem. Vender bananas na praça, suco na praia, ou pamonha, acarajé e sorvete por aí também parece ser bom demais. Poucos irão se importar mesmo se você se sente realizado no trabalho – a maioria vai querer saber se “o salário compensa”. Agora, aposto que até você já sabe: é coisa de ser humano mesmo.
Chegará o momento de você deixar o “ninho” dos pais. Não importa se você terá 20, 30, 40 anos. Se demorar muito, os pais é que se mudarão pra eternidade, enquanto você permanece na hesitação. Você pode casar, ou simplesmente morar com a pessoa que você ama, ter filhos. Aí, será você a emitir grunhidos de felicidade, diante de um berço iluminado. Sem pai, nem mãe, você estará construindo uma nova família. Você pode também querer viver sozinho, solteirão. Não pense que a solidão o deixará, dependendo da tua escolha. É coisa de ser humano mesmo. Muitas vezes, com a casa cheia, ou vazia, você sentirá vontade de chorar, sem porquê, como quando ficava no berço, e você nem sabia o que era abandono, desamparo, solidão. Chore, por que este é você: ser humano.
A tua velhice chegará num repente. De um dia para outro, você perceberá cada ruga na face oculta, todos os cabelos brancos, o cansaço e as dores no corpo, dores que você tratará pelos nomes mais complicados, cheios de “ites” e “oses”. E não há mais volta. Mas há mais vida. E você pode continuar escolhendo o que e como viver. Talvez, você ainda tenha tempo de voltar a ser criança, não só pra usar fraldas, mas pra brincar mais, pensar menos, fazer besteiras, rir de si mesmo, e sonhar, sonhar... Coisas de ser humano.

Ah, já ia quase esquecendo (imagine!): depois disso tudo, e mais um pouco, você morre...

De olho