sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Coisas de ser humano


Você está nascendo, nascendo para uma vida que acaba sempre em morte... e não há mais o que fazer (fatal!), senão “ir vivendo”...
Nos primeiros momentos de vida, você conhecerá gente que falará dialetos intraduzíveis: “gu-gu-dá-dá”, “bilu-bilu", e outros grunhidos que não terão tradução alguma, a vida inteira. Você não sabe o que é isso, mas, se a criatura sorrir, te pegar no colo, te beijar, pode sorrir também - pelo menos, faz algum bem. Quando te deixarem sozinho, num lugarzinho aconchegante, ao qual chamam “berço”, não adianta espernear, nem chorar. O destino é sempre o mesmo: berço. A hora é de dormir, e você nem sabe disso, mas acaba dormindo, do mesmo jeito. Só bem mais tarde, você conhecerá insônia, e haverá momentos em que você perderá todos os sonhos. É coisa de ser humano mesmo.
No começo da vida que acaba, você sentirá ‘coisas’ incômodas, desagradáveis mesmo, no teu corpo frágil e desconhecido, ‘coisas’ que você nunca sentiu, e vai chorar por isso, você, que ainda nem sabe o que é choro, ou lágrima. Ser humano denomina tudo, e chamam essas coisas por variados nomes – colite, otite, alergia, etc e tal. Não importa. Tudo isso causa dor. Mas passa, por que sempre alguém vai te dar remédio, chá – tudo com gostinho adocicado. Uma delícia. Só de sentir o gosto, você esquecerá a dor, que você nem sabe o nome. Até para o choro sem dor, os adultos já acharam nome (acredita?): dengo, manha – que nem sempre é correspondido. Muito tempo depois, a dor da tua alma se mostrará – pungente -, e não haverá remédio, ou chá, para sequer amenizá-la. E todas as lágrimas do mundo não expressariam a tua dor, que é só tua, e será tua companheira inseparável, nesta viagem com tantos caminhos, desvios, e um único fim. Ser humano é isso, e um cadinho mais.
Depois de alguns meses, já vai ter gente te colocando em pé no chão, tentando te fazer andar, e aí vale tudo – orações, simpatias. Aos poucos, sem saber exatamente o que está fazendo, você vai dar alguns passos titubeantes, e cair, e chorar, e vão te fazer levantar, muitas vezes, até você caminhar com as próprias e inseguras pernas. E você continuará caindo e levantando, a vida a inteira – nem sempre terá alguém por perto.
O tempo vai passar longe do teu saber, e você já estará brincando no gramado, jogando bola, com cicatrizes nos joelhos, nos cotovelos, extasiado diante de uma formiga, ou de um formigueiro. E você vai chorar numa queda, mas vai descobrir que também se pode chorar, de tanto rir. E você não compreenderá por que não pode falar palavrão em público, se todo mundo acha engraçado.
Na adolescência, você ouvirá muitos 'nãos', à tua sede de experimentar todos os sabores do mundo que te chama. Ah, e não vai mais receber visita no “bercinho”, não, com um monte de gente em volta dizendo o quanto você é “uma gracinha”. Pelo contrário. Todos dirão que você é grande pra (ainda) fazer algumas coisas, e pequeno pra fazer outras tantas. E você não saberá mais qual o teu espaço, neste mundo humano. Não importa, por que, um tempo depois, a cena se repetirá: você será novo demais pra ser velho, e velho demais pra ser novo. Para muitos, você estará errado, e para outros, na mesma circunstância, você estará certo. E você (ainda) não saberá, mas continuará agindo certo e errado, a vida inteira. É coisa de ser humano mesmo.
Cedo ou tarde, você conhecerá a morte, e odiará o significado desta palavra, a vida inteira, por que será ela a levar embora, pra nunca mais, justamente as criaturas que você mais ama. Cedo ou tarde, você saberá, sem saber, que a morte não tem lógica, nem faz o menor sentido – como a própria vida.
Na escola, te ensinarão um monte de coisa que não vai prestar pra coisa alguma, na tua vida inteira. Mas, mesmo assim, você terá de mostrar que aprendeu. Ah, será nos primeiros anos de escola, também, que você conhecerá uma palavra que terá de enfrentar, a vida inteira: competitividade. Palavrão, né?... Ser humano é assim mesmo.
Das fraldas à escola, a diferença será gritante mesmo (pode gritar!), e você sentirá abandono, desamparo, solidão até. Prepare-se – tudo isso é apenas o começo de (mais) uma vida que acaba, a cada dia...
Não importa em que tempo, tua alma se encherá de candura, através do amor que você sentirá por outra criatura, que pode, ou não, corresponder ao teu sentimento único. Há quem diga que essa relação de amor sempre tem fim (eu não acredito que acaba). E você sentirá, na pele, o desejo sexual. E passará a vida inteira buscando sexo com amor. Você conhecerá (e saberá denominar) sentimentos, além do amor, de ódio, saudade, raiva, inveja, melancolia, hostilidade, ciúme, vingança, nostalgia, e tantos outros... E sentirá medo de tudo, de todos, até de você mesmo. Mas você pode escolher, e viver a vida do jeito que acreditar nela. Não esqueça: você pode mudar – sempre – de idéia, se contradizer, desistir, retomar, fazer e refazer a tua própria história de vida, que é só tua mesmo. Pode até se suicidar, se quiser. Sobre isso, eu penso: e adianta se matar, se, desde que a gente nasce, o único destino imutável é justamente a morte?... ‘Sacanagem’, né?... Não dá pra fazer a vida da gente tão previsível. Afinal, um dia, pelo menos uma pessoa vai falar assim da gente: morreu!...
Um dos momentos de maior indecisão será quando você pensar sobre que rumo tomar profissionalmente. Você pode tornar-se “o médico”, “o engenheiro”, ou “o advogado” que a família sempre sonhou, ou, como costumo dizer, ‘lamber selo’, a vida inteira (traduzindo: assumir um trabalho contínuo, sem novidade alguma, todo dia, a mesma coisa). O ‘leque’ de profissões é cada vez maior. Se, de repente, você não se der bem como contabilista, pode trabalhar numa loja de confecções, e tudo bem. Vender bananas na praça, suco na praia, ou pamonha, acarajé e sorvete por aí também parece ser bom demais. Poucos irão se importar mesmo se você se sente realizado no trabalho – a maioria vai querer saber se “o salário compensa”. Agora, aposto que até você já sabe: é coisa de ser humano mesmo.
Chegará o momento de você deixar o “ninho” dos pais. Não importa se você terá 20, 30, 40 anos. Se demorar muito, os pais é que se mudarão pra eternidade, enquanto você permanece na hesitação. Você pode casar, ou simplesmente morar com a pessoa que você ama, ter filhos. Aí, será você a emitir grunhidos de felicidade, diante de um berço iluminado. Sem pai, nem mãe, você estará construindo uma nova família. Você pode também querer viver sozinho, solteirão. Não pense que a solidão o deixará, dependendo da tua escolha. É coisa de ser humano mesmo. Muitas vezes, com a casa cheia, ou vazia, você sentirá vontade de chorar, sem porquê, como quando ficava no berço, e você nem sabia o que era abandono, desamparo, solidão. Chore, por que este é você: ser humano.
A tua velhice chegará num repente. De um dia para outro, você perceberá cada ruga na face oculta, todos os cabelos brancos, o cansaço e as dores no corpo, dores que você tratará pelos nomes mais complicados, cheios de “ites” e “oses”. E não há mais volta. Mas há mais vida. E você pode continuar escolhendo o que e como viver. Talvez, você ainda tenha tempo de voltar a ser criança, não só pra usar fraldas, mas pra brincar mais, pensar menos, fazer besteiras, rir de si mesmo, e sonhar, sonhar... Coisas de ser humano.

Ah, já ia quase esquecendo (imagine!): depois disso tudo, e mais um pouco, você morre...

3 comentários:

  1. o verdadeiro resumo do ser humano. a apesar dos pesares, é uma histora linda, pq é compartilhada, com tantas outras pessoas, tocada de emoçoes até o fim (que não é fim)


    AMEIIII..


    beijo

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  2. Bonitíssimo tudo o que disse....e como disse, querida!!!!
    Menina danada!!!!!
    Muitos beijos e toda inspiração por esta vida afora.
    Já já tem CD novo. Só Edu Lobo. Tá ficando bonito.
    Mais beijos.

    Vânia Bastos

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  3. PÕ Nara!!
    Beleza mesmo
    Boa reflexão sobre a vida e os momentos que passamos.

    beijos

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