quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A embriaguez do saudosismo


Há pouco, reencontrei um amigo, colega de profissão, uma ‘espécie rara’ de ser humano, em extinção nos dias de hoje. Como sempre acontece, quando nos encontramos, ficamos conversando sobre tudo, mais ‘viajando’ mesmo. Ao longo do papo longo, fui percebendo que o saudosismo é uma embriaguez da alma. Mas o saudosismo embriaga a alma no ponto exato, por que, depois de uma certa dose, o bêbado fica chato, insuportável, começa a babar, vomitar, cair em cima dos outros. O saudosismo não chega a tanto – é um bêbado elegante, delicado, comedido, que se permite até chorar, sem qualquer exagero.
Eu e meu amigo ficamos recordando os “tempos dinossáuricos da imprensa” (como ele mesmo denominou). Pra quem não sabe, primeiro foi a escrita na pedra. Tô de brincadeira... Primeiro, foi a máquina de escrever mesmo (manual, depois elétrica). Depois, veio o telex, pra ajudar. Mas não bastou, e aí chegou o fax modem. O computador veio pra arrasar com tudo, fazer os profissionais do jornalismo até esquecerem do passado trabalhoso. “Fala a verdade, Nara, há quanto tempo você não visita as redações? Lembra que, antes dos emails, a gente tinha de visitar, diariamente, jornais, rádios e o pessoal de televisão, pra deixarmos nossas matérias, e atualizarmos o convívio?”... (silenciei)
Meu amigo continuou: “Primeiro, a gente ‘batia à máquina’, fazia cópias, e entregava junto com as fotos, reveladas em diversas cópias. Depois, com o telex e o fax, ainda nos restava levar, em mãos, aos colegas, as fotos copiadas em revelação. Agora, vai tudo por email: textos, fotos, e já não se tem mais o aperto de mão, o abraço, o bate-papo informal, o contato humano”... (silenciei novamente)
“Ah, lembra dos laboratórios improvisados, pra revelação de fotografias?” – perguntou-me. Claro, quantas vezes exagerei no fixador! – lembrei na hora. E rimos juntos – eu e meu amigo -, mas rimos com o riso saudosista. “As máquinas digitais trouxeram junto as revelações digitais, e muita gente perdeu emprego” – falou meu amigo. A ordem, agora, meu amigo, é estar ‘antenado’, disse-lhe sem ânimo. De imediato, meu amigo completou: “Antenado sempre, por que senão perde o lançamento de mais alguma coisa que revoluciona o mundo”.
Mas fomos mais longe, na nossa ‘viagem’. Eu lembrei ao meu amigo que, não faz tanto tempo assim, gostávamos de uma música, e precisávamos ficar esperando, com ansiedade, obviamente, a chegada do disco de vinil, na cidade. E isso demorava muito, mas não desístiamos. Até que, finalmente, a tão esperada música chegava no “bolachão” de vinil, e corríamos pra ouvi-la. Pura emoção!...
Hoje, as coisas mudaram – tanto, tanto! “Perdeu-se a nostalgia” – disse meu amigo. E eu completei: perdeu-se o encanto da poesia; tudo é descartável. E meu amigo seguiu: “A turma de hoje baixa tudo pela internet, fica ouvindo em ‘ipods’, logo enjoa, joga tudo fora, e ‘baixa’ outras músicas. No nosso tempo, como cuidávamos dos vinis, que não podiam ser ‘arranhados’. Acabavam tornando-se parte da família da gente, de geração pra geração”.
Embriagados de alma, eu e meu amigo rimos. Depois, ainda falamos sobre os filhos – crescidos, cada um construindo o próprio caminho. E meu amigo gargalhou, falando: “Daqui a pouco, serão eles, os nossos filhos, Nara, a se sentirem dinossauros, em meio a tanta modernidade”. Dinossauros? Não. Dinossauros somos nós, meu amigo. Eles já fazem parte do futuro – respondi.
Depois, nos abraçamos, eu e meu amigo, e prometemos ainda reunir a “turminha da velha guarda, nem que seja num clube dinossáurico” (brincou ele). “A gente precisa se reunir mais, não só no velório dos colegas mais antigos” – ainda disse meu amigo, tentando esboçar um sorriso, contido por uma lágrima (ou, melhor, duas lágrimas)...

Um comentário:

  1. Pô Nara.Estou emocionado com o que você diz.Também tenho grande admiração por você como cidadã ecomo profissional.Tenho o maior orgulho de privar de sua amizade e de saber que a reciproca é verdadeira.E jamais esqueça que terás em mim um eterno amigo.Grande abraço e que Deus permaneça com você e sua família.Linhares

    ResponderExcluir

De olho