domingo, 29 de novembro de 2009

Filhos da mãe


Eu soube, há pouco tempo, por uma pesquisa divulgada no País, que 20% da população brasileira está nascendo sem pai. Milagre?... Nada disso. Se alguma seita religiosa, ou igreja, afirmar que é “obra do senhor”, não acredite – nem na “obra”, muito menos no “senhor”, que, no final do 'espetáculo', passa sempre a “sacolinha do dízimo”.
É que o nome do pai já não aparece com tanta frequência, nos registros de nascimento. Obviamente, a pesquisa não inclui os brasileirinhos que não têm certidão de nascimento – sem pai, nem mãe, literalmente, ou, melhor, judicialmente. Diante disso, eu fico – ou vou – pensando: O que pode causar a ausência de reconhecimento paterno? Tanta coisa, tanta coisa – tanta coisa eu imagino, sozinha (imagine se eu imaginasse com mais gente imaginando).
Cá entre nós, sabemos que muitas adolescentes engravidam – e ainda são expulsas de casa pelos pais, ou obrigadas a casar, quando o 'adolescente pai' é de família conhecida (e com alguma grana, obviamente). Nossa! (tradução de “uau”, em filme norte-americano) Como repetimos a história dos tataravós de nossos bisavós!... A verdade é que essas “mães impetuosas” têm filhos sem pais, na maioria das vezes.
Não vou 'baixar' aqui o moralismo que eu condeno, na prática cotidiana da minha vidinha insignificante. Acho mesmo que o velho discurso de “moça de família” etc e tal envelheceu tanto, ficou “gagá”, e um dia morreu espirrando, ou engasgado com uma casquinha de pão francês (ou era noite?).
A instituição familiar começou a mudar (se bem lembro), quando surgiu o famoso e inesquecível “desquite”. Mulher desquitada era mal-vista, mal-falada – acabava mal mesmo, em tudo, por causa da discriminação. Nunca conheci um homem mal-falado. Você conhece algum?... Apresente-me. Com o tempo, a mulher desquitada passou a ser vista como “pobre vítima da natureza” (“Vingança maligna!” hehehehehehehehehe)
Ah, mas depois evoluímos – fomos parar no “divórcio”. Aí, a 'coisa' da separação de casais virou moda. Lembro que eu tinha colegas de aula que se vangloriavam, e mantinham uma empáfia especial (e inesquecível), para dizerem: “Meus pais são desquitados”. Mas, no olhar sarcástico, elas diziam mais: “Meus pais são desquitados; os teus, não”. “De cara”, eu nunca entendi como a separação dos pais podia ser razão de troféu de orgulho, ou medalhinha de vaidade, àquelas filhas. Como meus pais morreram sem desquite, ou divórcio, acabei por não saber o que orgulhava tanto aquelas garotas.
Mas - moda vem, moda vai - agora já nem se casa mais, pra separar depois. E o Brasil, como o resto do mundo, vai somando altos percentuais de filhos da mãe. Do pai, a presença (essencial = 'espermatozoidal') de participação – e não precisa mais se falar sobre o assunto. Se muitos nascem sem pais, em condições de miséria, há outros filhos de mulheres que levaram a sério a “revolução feminina”, e resolveram colocar em prática os discursos feministas.
No meio desse “samba do crioulo doido”, a família, como instituição, tem hoje diversas versões, que multiplicam-se a cada instante, para todos os gostos, ou desgostos. Há “casamento de fachada”, pra manter a imagem de família. Há filhos da mãe, que nem sonham com o nome do próprio pai. Há filhos criados pelo pai, por que a mãe fugiu de casa. Há filhos com duas mães, sem pai. Há filhos com dois pais, sem mãe. Há pai sem mãe. Há mãe sem pai. Há filhos sem pai, nem mãe. Há “pães” também. O que sei é que há, e há muita gente, em todo lugar – e, onde há gente, a gente sabe que foi feita em nome do pai, e da mãe. Um dos dois pode até negar, mas isso (ainda) não mudou: a gente continua nascendo de duas gentes, e a gente, com outra gente, vai fazendo mais gentes, neste universo de gentes – gentes tão diferentes, e tão gente. No meio desse mundaréu de gente, alguém (ainda) grita: “Tem gente!!!”

… Sobre o que mesmo eu comecei escrevendo?... Putzzzzzzzzzzzzzzz

Ah, sim! (Oh! Não!) Eu escrevia que eu soube, há pouco tempo, por uma pesquisa divulgada, que 20% da população brasileira está nascendo sem pai. Milagre?... Nada disso. Se alguma seita religiosa, ou igreja, afirmar que é “obra do senhor”, não acredite – nem na “obra”, muito menos no “senhor”, que, no final do 'espetáculo', passa sempre a “sacolinha do dízimo”... (Você não vai querer reler esta 'merda', né? - ou vai???)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desmitificando Clarice Lispector – O começo do fim


Nos meus dez anos de idade, a escrita de Clarice Lispector me foi apresentada por uma professora, que, analisando as minhas “composições” (segundo ela, na época, “nunca narram fatos”), me levou à biblioteca da escola, dizendo: “Eis aqui alguém que escreve como você”. Com o livro nas mãos (“Perto do Coração Selvagem”), agradeci em silêncio, pois não sabia do que exatamente a professora falava. A partir dali, me identifiquei com Clarice Lispector, minha companhia constante até hoje.
Naquela época – e faz tanto tempo! -, eu não tinha acesso à informação, no máximo, à edição de domingo do Correio do Povo (ainda tamanho standard, grandão), aonde eu me deliciava com Mário Quintana, no Caderno H, título, inclusive, de um livro dele, posteriormente lançado. Mas não é sobre Quintaninha que quero escrever – qualquer dia desses, conto pra você uma entrevista que tive com o escritor.
Pra você ter uma idéia da minha desinformação, só lá pelo final de 1978, soube que Clarice Lispector tinha morrido, em dezembro de 1977. Confesso que me doeu saber que não poderia alimentar sequer a possibilidade (esperança?) de conhecê-la, olhar profundamente nos olhos profundos dela.
Sem vaidade alguma, acho que já li e reli (tantas e tantas vezes) todas as obras editadas de Clarice Lispector, junto com livros de autores que falam sobre a “veia literária” dela, e mais matérias a respeito da escritora, incluindo até aquelas notinhas pequenas, em “pé de página”. Aliás, este ano, a atriz Beth Goulart escreveu, produziu, lançou e encenou a peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, no Rio de Janeiro. Escrevo isso, pra que você saiba do meu interesse por toda obra literária da ucraniana que tornou-se nordestina brasileira, e morreu carioca.
Talvez, por identificar-me com a escrita de Clarice, busquei 'conhecê-la', do jeito que me era, e ainda me é, possível: muita pesquisa. Pouco me interessei sobre o que escreveram ou depuseram sobre ela, por que o “mito Clarice” foi tornando-se, a cada leitura minha, gigante, e, por fim, um “monstro”. Diante do “monstro sagrado”, resolvi fazer o caminho de volta, e reler todas as cartas dela a tanta gente – cartas pessoais, íntimas mesmo (publicadas em livros, obviamente). Percebo que, de tempos em tempos, outras correspondências de Clarice Lispector são reveladas, com a edição (e todo lucro) de mais uma obra, justamente da escritora que morreu de câncer, em condição de indigente, num hospital público do Rio de Janeiro. (Ah, Clarice, se um dia você sonhasse que daria “mais lucro” morta do que viva!... - a quem: ao filho Paulo, ainda vivo?)
…Afinal, quem foi, quem é essa mulher até hoje chamada “hermética”?... Que alma é essa que deixou escrito: “Cuido dos meus filhos. Cuido da casa. O resto é mito”?... Que sonhos tinha?... Alimentou vaidades?... O que lhe fazia mal?... O que lhe fazia bem?... Como o ato de escrever se processava nela, que tentava traduzir isso, buscando compreensão?... Perguntas... Perguntas... Gosto mais das perguntas do que das respostas, que limitam e acomodam. Foi a própria Clarice quem escreveu “eu sou uma pergunta”. E eu respondo à ela: Também quero que você continue sendo uma pergunta, Clarice – sem mitificação.
Minha intenção, aqui, é uma das mais ousadas, pois pretendo percorrer a contramão de tudo o que já li e reli sobre a escritora, partindo da própria Clarice Lispector. Como qualquer ser humano, também ela escrevia cartas, sem imaginar que estivesse se revelando tanto, pois mantinha correspondência com pessoas com quem, provavelmente, buscasse, se ainda não tinha, intimidade humana. Foi Clarice quem deixou escrito que “nasci com o desejo de pertencer”. Parece que era mesmo o que ela mais queria.
Pretendo desmitificar a 'idéia' sobre Clarice, ou, senão, pelo menos, fazer pensar a respeito – não macular imagem, ou destruí-la (quem sou eu pra isso?) -, com a mais profunda intenção de, depois de tanto tempo, alguém acolher Clarice Lispector, quem ela realmente foi (é), longe da mitificação toda, que a fez silenciar. Nas minhas leituras e releituras, percebi que, aos poucos, Clarice foi se desintegrando. Estilhaçada, viveu sem rumo, correspondendo (ou, pelo menos, tentando isso) à imagem mitificada que deram-lhe – talvez, a única coisa que tenha recebido, depois de querer e esperar tanto.
Não pretendo, nem quero definir Clarice Lispector (ser humano algum é catalogável). Seria reduzi-la. A intenção é desmitificar a imagem que permanece dela entre nós. Se quiser acreditar no que escrevo, pesquise, e você também terá a revelação: a vida de Clarice não foi feita só de sombras, escuridão aterradora. Não. Clarice Lispector, longe da catalogação de “monstro sagrado”, foi ser humano – como você, como eu -, numa vida de luzes e sombras, risos e lágrimas, sonhos e desenganos. Ela ousou viver. E viveu tudo intensamente, me parece – tão intensamente, que bebeu até a última gota de sensibilidade. Conheceu a fragilidade mais recôndita, e não soube mais o que fazer com a vida a que se permitiu. Longe dos próprios sonhos de menina, deixou-se levar (pra onde, Clarice?) por uma realidade que se lhe apresentava cada vez mais estranha.
Deixarei meu texto na contramão, aqui, em quatro postagens, previamente escritas, após intenso e intensivo trabalho de organização, que demandou tempo, distanciamento e racionalidade. Não digo imparcialidade, por que tenho um só objetivo, neste trabalho que pretendo continuar, além do blog. Em uma semana, pretendo 'fechar' o ciclo da (tentativa de) desmitificação. Mas continuarei tentando ouvir (não interpretar) o silêncio de Clarice Lispector... (“Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras.”)

Desmitificando Clarice Lispector – O “meio do caminho”


Dos estudiosos todos da escrita clariceana, ninguém escreveu, e ainda escreve, até hoje, tão apaixonadamente como a professora de literatura brasileira Nádia Battella Gotlib, da Universidade de São Paulo (USP). Nádia, inclusive, foi a primeira a ousar ir atrás das correspondências de Clarice Lispector, guardadas pela família e por amigos da escritora. Tenho de registrar aqui minha observação, quanto ao método de pesquisa da professora Nádia. Também ela alimentou o “monstro sagrado”, usando de parcialidade, inclusive, na divulgação do teor das referidas cartas. Se o fez, para preservar a imagem da “hermética” Clarice, ou para manter viva a própria imagem que construiu da escritora, não importa. Nádia Gotlib foi e continua sendo parcial – em nome da sensatez, ou da emoção, ou por ambos os motivos, ou por outro motivo qualquer de foro íntimo.
Convivo com algumas (raras) pessoas que já leram Clarice, e outras que começaram a ler, depois de me ouvirem falar a respeito dela. O que percebo, em todos os comentários, é que, até hoje, a imagem da escritora, a partir da obra dela, paira entre a melancolia e a desesperança, beirando à loucura.
Acredite se quiser, Clarice era impaciente, e, também por isso, costumava “furar filas”, na maior “cara-de-pau” mesmo, em cinemas, agências bancárias, ou aonde quer que fosse. Quando retornou definitivamente ao Brasil, ela mesma tomava a iniciativa de recorrer a hospitais, pedindo para ser internada. Vivia à base de tranquilizantes, os quais, certamente, não lhe tranquilizavam a alma. Relendo, tantas vezes, a obra dela, percebo que não é simplesmente a escrita de Clarice Lispector, confusa. A própria visão dela (cada ser humano tem a sua, particular) aparentava uma certa confusão (mental?), no momento em que ela narrava, longe das anotações 'descosturadas', para, talvez, um outro livro. Tanto, que era hábito dela manifestar frases, repetidamente, como: “não entendo”, “não sei”, “não tenho certeza, mas acho”, “não observei”. O mundo, a vida aconteciam dentro e fora de Clarice, mas ela parecia não tomar conhecimento, ou, então, chocava-se com o que não lhe fazia bem, e refugiava-se no universo que só ela conheceu: a própria alma, 'embriagada' de sonhos. Por outro lado, não demonstrava irresponsabilidade com os compromissos de casa: primeiro, a organização de almoços e jantares diplomáticos, ao lado do marido. Com o nascimento dos filhos, sentiu-se insegura para cuidar deles sozinha, já que o marido (diplomata) viajava bastante. Apesar do “aperto” financeiro, o casal pagava “nurse” (enfermeira) para cuidar de Pedro e Paulo, inclusive educando-os.
Clarice nunca aprendeu a cozinhar, e, por isso, passou a vida inteira procurando uma “cozinheira de mão cheia”, como contava às irmãs, nas correspondências. Também, pouco envolveu-se na “criação” (educação) dos dois filhos. De alguma forma, tudo lhe parecia (ela quem demonstrava) estranho. O mundo diplomático pesava-lhe nos ombros da alma, e ela queixava-se, nas cartas: “tenho falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil”. E ainda justificava às irmãs que precisava sorrir, mentir, “para não estragar o programa de Maury”.
Mais tarde, em meio a tantas dificuldades, principalmente financeiras, as quais teve de enfrentar sozinha (separada de Maury), com os filhos, no Rio de Janeiro, Clarice Lispector vivia em contradições, e cobrava dela mesma, atitudes mais energéticas e decisivas, como relatam suas cartas às irmãs confidentes. Sozinha com os filhos, provavelmente, sentiu-se mais ela mesma, anotando, inclusive, diálogos entre eles, e escrevendo estórias infantis, o que, depois, acabou virando livro, e livros.
Pedro, o filho mais velho da escritora, morreu com esquizofrenia, tendo sido internado, diversas vezes, em sanatórios. Paulo, o outro filho, mais novo, está vivo, com 56 anos, e, pelo visto, como economista que é, tem faturado bastante em cima do nome da mãe dele.
Em 2004, Paulo Gurgel Valente recebeu 40 mil dólares de uma empresa que veiculou, num comercial muito bem produzido, o poema “Mude”, que, para os empresários, era de autoria de Clarice Lispector. Paulo, o filho, não negou a autoria, e embolsou os dólares. A verdade é que “Mude” foi escrito por Edson Marques, e não por Clarice. Diante do contrato comercial, para o qual não foi convidado, o autor recorreu à justiça, com provas incontestáveis quanto à verdadeira autoria de “Mude” (registro na Biblioteca Nacional, depoimentos fidedignos, etc e tal – confirme no blog: http://desafiat.blogspot.com/). Só que o processo continua “rolando” na justiça, enquanto Paulo Gurgel Valente parece nem pensar em devolver os 40 mil dólares. Por aí, se pode ter uma idéia do que Clarice Lispector continua rendendo ao único filho vivo. Filho, aliás, que, de tempos em tempos, quando menos se espera, parece remexer nas gavetas da mãe dele, e lançar mais uma obra de Clarice Lispector. Ele sabe que, um dia, não haverá mais sequer um pedaço de papel que já não tenha sido publicado. Talvez, depois desse dia, haverá pedaços de tecido à venda, pelas livrarias, numa embalagem com a devida “bula”: “aqui jaz um pedaço de tecido que pertenceu às roupas de Clarice Lispector” (como se Paulo ainda precisasse de idéias de marketing!).
Sobre isso ainda, acredite se quiser, na década de 70, numa das cartas à “amiguinha” Andréa Azulay, de nove anos, Clarice escreveu:
“Querida Andréa,
você quer me explicar o que quer dizer um sonho que tive hoje de noite? Ontem fui dormir tão cansada, mas tão cansada, que fiquei com medo de cair na rua. Dormi de oito e meia da noite até quatro e meia da manhã. Acordei com um pesadelo terrível: sonhei que ia para fora do Brasil (vou mesmo em agosto) e quando voltava ficava sabendo que muita gente tinha escrito coisas e assinava embaixo o meu nome. Eu reclamava, dizia que não era eu, e ninguém acreditava, e riam de mim. Aí não aguentei e acordei. Eu estava tão nervosa e elétrica e cansada que quebrei um copo.” - do livro “Correspondências” - Organização de Teresa Montero.

… Premonição, Clarice?...

Desmitificando Clarice Lispector – As cartas “no meio do caminho”


“(...) Não me passe carão: mas na segunda-feira de carnaval fomos a uma festa na casa do cônsul americano e eu tomei um bom pileque. Eu digo que não me passe carão porque o dia seguinte já me passou. Puxa! Que enjôo. Uma dessas ressacas de filme de cinema. Foi bom que eu tivesse bebido pra tirar o que existe de tentador na idéia, tão divulgada e cantada pelos poetas... Foi a primeira vez e a última, não há dúvida. (...)” (Belém, 23/02/44)

“(...) Imagine que uma elegante senhora da sociedade paraense, ou melhor, carioca morando aqui, deu a Eugenia, como grande e segura novidade que eu tinha ido para o Rio para não voltar... O engraçado é que eu tinha encontrado essa deliciosa vaquinha carioca um dia antes de eu viajar, na manicure, e tinha lhe dito a razão de minha viagem e quanto eu demoraria... Ela pouco ligou a minha informação... (...)” (Belém, 06/05/44)

“(...) Diante de um começo de cena que eu fiz, horrivelmente magoada, ouvi de novo o que eu sabia desde sempre – sempre fui um pouco cínica: a de que os homens são assim mesmo, que possivelmente a monogamia não seja o estado ideal, que naturalmente ele (provavelmente Maury, o marido) sente atração pela mulheres; que a sensação é de deslumbramento e timidez; disse-me que não interpretasse demais, mas que era uma vaga sensação de vaidade de alguém poder gostar dele; perguntei: então você se sente na sociedade (vínhamos de estar com pessoas) como um rapaz que vai à festa? Ele respondeu que sim. Mas que eu seria sempre a melhor de todas e outras coisas no gênero. Que certamente sempre ele se controlara. Em suma, é isso que você sabe. Naturalmente até agora nunca houve nada. Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior; nunca pensei que uma pessoa, um homem, fosse diferente; mas como me sinto mal, como estou calcinada, como me parece estranho tudo o que me parecia familiar. Estou tão enojada de mim e dos outros. O pior é que estou me sentindo a mais miserável das mulheres... Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair em mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga. Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens e isso até me cansa, me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança quanto ao futuro, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos. Estou ficando cínica e sem pudor. Que me interessa que isso suceda a outras mulheres? O que para umas é condição da própria feminilidade, noutras é a morte desta e de tudo o que é mais delicado. Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei porque nasceu em mim desde sempre a idéia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada. Sei que isso é egoísmo e falta de humanidade. Mas se eu fosse me modificar não me transformaria numa mulher normal e comum, mas em alguma coisa tão apática e miserável como uma mendiga. Você bem me conhece, toda a vida você procurou fazer de mim uma pessoa mais equilibrada e de bom senso, mas não conseguiu. Eu gosto de M. (“M” de Maury, certamente) e poderia viver bem com ele se afinal eu soubesse da liberdade dele com cinismo e profunda falta de pudor e sentimento de ironia. Desejo mesmo chegar a esse estado de calcinação. E então eu procuraria me refugiar em outras idéias e outros sentimentos e o resto viveria bem. Não sei o que fazer. Só me ocorre ir para o Rio, passar aí um mês ou dois, dar a ele a liberdade de não se controlar, de ter uma vida como ele não teve tempo de ter porque se prendeu cedo demais, e depois voltar cicatrizada e serena. A ele mesmo isso não repugna, só dar a separação; mas ele nada responde a ter plena liberdade enquanto eu estiver fora. E a eu mesma tê-la, contato que lhe conte depois. É evidente que ele preferiria que eu, enquanto isso ficasse sossegada, trabalhandinho. Mas ele me conhece bem e porque me conhece e tem medo de represálias é que ele se controla. Deus meu, eu sei que ele não tem culpa nenhuma. Mas eu também não tenho. Que é que você acha sinceramente de eu ir passar um tempo no Rio? A sensação de que ele nada fez porque eu estou presente é terrível e eu naturalmente me esgoto. (...)” (Belém, 08/07/44)
“(...) Fui para o Vitória Hotel, um hotel mais ou menos granfino, mas muito caro. O Ribeiro Couto me passou para o Parque Hotel, muito bom, a 80 escudos a diária, com quarto de banho. Imaginem que o garçom me insinuou que eu devia ir com ele ao Estoril (praia), que sozinha não tinha graça. E a dona do hotel tem a dentadura trêmula, é horrível. Vou todos os dias ao cinema, para fazer o tempo passar, e leio livros policiais, um atrás do outro. Comprei uma fazenda azul clara, de seda, uma bolsa de camurça azul-marinho tipo sacola, muito bonita. (...)” (Lisboa, 07/08/44)

“(...) Estou lhe escrevendo a mão porque tem aí uma pessoa a quem eu mandei dizer que não estava, e então não quero bater a máquina para não me trair. E como a pessoa demorará... (...)” (Nápoles, 24/07/45)

“(...) Embaixo de um casaco de peles esconde-se cada tipo... Parece que o calor do casaco faz com que alguma coisa prolifere com mais liberdade, é uma fecundação doida e cansativa. Em Roma é um tal de um convidar o outro e o outro responder convidando e esse agradecer convidando e o outro se surpreender porque não respondeu convidando... Muita coisa está precisando de bomba atômica nesse mundo. (...)” (Nápoles, 22/08/45)

“(...) Minhas queridas, esta noite sonhei que ia ao Brasil. E que as pessoas diziam, inclusive vocês: já de volta? E eu ficava tão triste, com aquele horrível sentimento de arrependimento que se tem quando se faz uma coisa que ninguém aprova. Foi um verdadeiro pesadelo... Acordei de mau humor. Mas Maury diz que eu estou de mau humor de manhã, de tarde, de noite... Não é verdade. Naturalmente eu sou irritável, naturalmente meu humor não é brilhante, mas de um modo geral sou alegre. (...)” (Berna, 12/05/46)

“(...) Quanto ao mais, tudo igual. A primeira secretária é simpática o marido burríssimo, uma das pessoas mais burras que conheço. Mas ele nos parecia bom sujeito. Mas tivemos informações de que é uma pessoa perigosa, altamente intrigante. De modo que a pequena intimidade que eu já estava tendo com ela, vai ser um pouco cortada, ou completamente. Isso tudo é muito desagradável. (...)” (Berna, 30/06/46)

“(...) Gostei da idéia de mudar de penteado para estar no 'tempos modernos', e fiquei mesmo com vontade de mudar de cara. Acho que, quando eu precisar de novo de permanente, vou cortar os cabelos curtos e fazer 'coroinha' com permanente. Acha bom? Pelo menos, vou experimentar. Aqui posso me dar ao luxo de experimentar o que eu quiser porque conheço tão pouca gente... (...)” (Berna, 26/11/46)

“(...) Pedro nasceu ontem, dia 10, às 7h30 da manhã. Estou escrevendo na madrugada de 11, porque não posso dormir direito. Estamos muito contentes, Maury e eu: a criança é sadia, fortona, pesa uns 3 quilos, 600 – por enquanto é a cara do Maury... Eu sofri muito. O médico achou que o bebê estava tardando e eu me internei no hospital no dia 9 de manhã. Eles começaram a provocar as dores por intermédio de injeções. Às 2 horas da tarde comecei a perder as águas e às 2 e meia as dores se instalaram. Sofri de 2 e meia do dia 9 até 7 e pouco do dia 10. Mas apesar das dores fortes e frequentes a dilatação, não se sabe ainda porque, não se fazia. Então o médico resolveu fazer cesariana. Não se assustem, correu tudo bem. Só que na hora o médico e as enfermeiras não estavam com boa cara, estavam meio impressionados. Eu disse que se fosse questão de esperar e sofrer ainda, eu esperaria, contanto que a criança não corresse perigo. Mas o médico disse que a criança estava correndo perigo se não nascesse logo, porque ele não conseguia adivinhar os motivos da demora; que minha bacia era bastante larga e que a criança estava em boa posição. Maury e eu assinamos um papel dizendo que estávamos de acordo e éramos responsáveis. Toda essa encenação necessária nos custou muitos nervos. (...)” (Berna, 11/09/48)

“(...) Pedrinho é tão engraçado, não acho ele muito bonito, mas é uma bola. Tem cabelos (enormes) negros, olhos escursos, um nariz por enquanto meio batatudo, umas bochechas enormes e uma boca de bico de passarinho, e os dedos compridos. O ar todo é de Maury. É uma criança muito gostosa. (...)” (Berna, 13/09/48)

“(...) Tentarei, por todos os meios – e que Deus me ajude nisso porque preciso – tentarei por todos os meios exigir menos amor e atenção dos outros, e também exigir menos que as pessoas se deixem amar... Mas é melhor deixar de mais considerações senão também esta carta será rasgada... (...)” (Berna, 07/10/48)

“(...) O pessimismo passou, mas o bom propósito não: farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz... Também é bom porque em geral se pode ajudar muito mais as pessoas quando não se está cega pelo amor. Espero com Pedrinho não exagerar – serei mais útil a ele assim. Por falar nele, está engraçadíssimo, rindo à toa. Não há na carinha dele nenhum traço que lembre sequer algum meu. Ele é totalmente Maury, ou melhor, a família de Maury. Até os traços de d. Zuza (mãe de Maury) ele tem. Acho que me impressionei demais com ela... Às vezes fico com pena, porque passei por todo esse trabalho sem deixar um sinalzinho meu ao menos... (...)” (Berna, 19/10/48)

“(...) Entrei no hospital no dia 9, segunda-feira, às 2 horas da tarde, para me prepararem para o dia seguinte, de manhã, quando Paulinho nasceu. Juro por Deus que estou tão bem que nem sei como explicar a você – o corte cicatrizou com enorme rapidez, desde o quinto dia não tinha sequer um esparadrapo. (...)” (Washington, 12/02/53)

“(...) Maury foi de um carinho que ultrapassa as palavras que eu possa usar. Ele se repartiu infatigavelmente entre mim e Pedrinho, de modo que nós dois (Pedrinho e eu) não nos sentíssemos sós. Pedrinho estando no colégio, ele (Maury) almoçava no restaurante do hospital. Ele queria menina enormemente, eu estava com medo de que ele ficasse muito decepcionado. Mas ele está tão feliz agora com Paulinho. 'Este' está um amor. Eu estou continuando a amamentá-lo (para me garantir, pedi ao médico que receitasse um pouco de mamadeira complementar) – estou tão espantada de estar amamentando. Nunca esperei. Paulinho é muito bonitinho, eu tinha me enganado! (...)” (Washington, 21/02/53)

Isso tudo é um pouco do que que escrevia Clarice Lispector, em cartas, às irmãs Elisa e Tânia. O trabalho de organização das correspondências, para o livro “Minhas Queridas”, foi de Teresa Montero.

Desmitificando Clarice Lispector – O fim do começo


Haia Lispector era o nome de Clarice, antes de chegar, da Ucrânia, com dois meses de vida, junto com a família (pai, mãe e duas irmãs mais velhas), ao Brasil. Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, e morreu em nove de dezembro de 1977 – parece ter fechado um ciclo (?).
Muita gente já se debruçou sobre a obra de Clarice (eu faço parte desta gente), e algumas pessoas (críticos literários, professores e acadêmicos) analisaram, e ainda analisam, a literatura clariceana, enchendo as prateleiras com releituras, obras comentadas, teses e ensaios publicados. Clarice nunca se deu bem com essas 'coisas' de interpretação. Ela própria fazia questão de repetir que não gostava de rótulos, “por que o rótulo de escritora me isola das pessoas”.
O que escrevo aqui provém do meu trabalho de pesquisa sobre Clarice, a partir da própria escritora. O texto segue na contramão, como me comprometi no “primeiro da série”. Li e reli, tantas vezes, incontáveis cartas de Clarice Lispector ao então “namorado” Maury, às irmãs Tânia e Elisa, à Olga Borelli, companheira inseparável, nos últimos anos de vida da escritora, aos amigos escritores Fernando Sabino, Érico Veríssimo, Otto Lara Rezende, Lúcio Cardoso, e tantos outros. A partir daí, fui elaborando todo este trabalho, o qual encerro, nesta postagem. Pelo menos, o que me comprometi em postar no blog – o mergulho continua...
Aos nove anos de idade, Clarice perdeu a mãe, que morreu, após doença grave. De algum jeito, a filha menor da família Lispector sobreviveu (cada ser humano carrega o próprio mistério do viver). Anos mais tarde, familiarizando-se com a escrita literária, Clarice Lispector vai, aos poucos, trazendo à tona, todo o sentimento de perda e abandono. Não acredito que ela tenha resolvido isso, mas, de alguma forma, escrever sobre deve ter-lhe feito algum bem, ou menos mal.
Clarice nasceu pobre, tão pobre, que não tinha nem pátria. A infância toda dela foi no nordeste brasileiro. Só depois de alguns anos, sem a mãe, a família muda-se para o Rio de Janeiro, onde as dificuldades continuam. Em 1940, Clarice começa a cursar Direito, no mesmo ano em que o pai dela morre. Em 1943, casa-se com Maury Gurgel Valente, diplomata novato, com mais título (status mesmo) que salário. O casal começa a “via sacra” pelo mundo em guerra, e Clarice continua a conviver de perto com a miséria. Por causa da guerra, os produtos alimentícios são racionados, as roupas são caríssimas, há pouca energia elétrica disponível, os aluguéis são absurdos, etc. Quando conseguia, através de amigos, que alguma editora lançasse algum livro dela, a escritora recebia um único mísero pagamento, sem mais direitos autorais. Clarice nasceu e morreu pobre, pobre, vítima de câncer, internada como indigente num hospital público carioca.
Pelas fotografias registradas em livro, com pesquisa e organização da professora de literatura brasileira Nádia Battella Gotlib, Clarice Lispector foi uma mulher de beleza exótica, atraente e encantadora, e, por isso mesmo, ou também por isso, extremamente vaidosa. Ela mesma disse que preferia ver estampada uma foto sua em jornal que um elogio a algum livro que escreveu. Na carta de maio de 1969, ao filho Paulo, que fazia intercâmbio nos Estados Unidos, Clarice conta: “Estou fazendo regime para emagrecer: em sete dias perdi cinco quilos, e no oitava estava fraca, comi de tudo, e resultado ganhei dois quilos. Eu mesma não entendo”.
“...Havia, porém, períodos de grande dinamismo: Clarice punha-se a fazer ginástica, exercitava-se numa bicileta ergométrica, passava cremes no rosto, perfumava-se muito. Tomava suco de laranja, de melão ou de morango, dispensando os refrigerantes. Esses períodos vinham acompanhados do desejo de viajar. Examinava então cuidadosamente suas finanças, com a esperança de que houvesse folga para um passeio à Europa”. (O depoimento é de Olga Borelli, no livro “Clarice Lispector – Esboço para um possível retrato”)
Clarice Lispector era vaidosa, sim, e dava atenção a futilidades, sim, o que pode ser percebido, notoriamente, também, nas incontáveis cartas que escreveu às irmãs. Por isso, não dá para reduzir a mulher Clarice à condição de escritora. Até um certo tempo da vida dela, Clarice foi, senão feliz, alegre, animada, que alegrava e animava as pessoas do convívio dela. Houve um tempo, inclusive, em que ela manteve uma coluna feminina, assinada pelo pseudônimo de Tereza Quadros. Ela escrevia sobre tudo e mais um pouco, dando conselhos, falando sobre moda, maquiagem, sempre em tom alegre, ou irônico, e até sarcástico. Abrindo aleatoriamente o livro “Clarice Lispector – Correio Feminino” (organização de Aparecida Maria Nunes), leio: “Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. Ou, pelo menos, ao homem que amamos, não é verdade?” - Esta é Clarice Lispector, longe da escritora soturna. Afinal, quem era Clarice: a mulher que escrevia sobre vaidades e frivolidades, na coluna social, ou a “hermética” escritora que ainda tonteia, com seus textos, a maioria dos leitores?... Não sei – respondo eu (talvez, fosse a resposta de Clarice também). Mas ela pode ter sido uma delas, ou ambas, ou nem uma, ou muito mais – ou menos - que essas duas manifestações públicas. Vale lembrar que somente a “escritora” assinava “Clarice Lispector”. A “colunista social” assinava “Tereza Quadros”.
Mas deve ter havido, no “meio do caminho”, alguma mudança drástica, para Clarice chegar à desintegração, que ainda hoje eu percebo nela... A menina Clarice cresceu cheia de sonhos, fantasias e imaginação. A jovem Clarice apaixonou-se pelo colega de faculdade, casou-se com ele, e com ele seguiu viagem pelo mundo diplomático, deixando para trás, as irmãs, os amigos, os referenciais de vida dela.
Parece que, no nascimento do primeiro filho (Pedro), Clarice sofreu depressão pós-parto. Não disponho de elementos (literários), para confirmar a dúvida que prevalece em mim. Também, ao que parece, o casal ansiava por ter uma menina (ou Maury desejava, e Clarice torcia por satisfazê-lo). Tanto é que, durante a gravidez, ambos fizeram até lista, escolhendo somente nomes femininos à “filha” que estava chegando (ela relata isso às irmãs, em diversas correspondências). Depois do nascimento do primeiro filho, ela passa a despedir-se, na maioria das cartas às irmãs, com “fiquem com Deus”, ou coisas assim, o que não era hábito de Clarice, até então.
Também nas cartas, Clarice confessa às irmãs que não achou Pedro bonito, e que lamentou ele não trazer nenhum “sinalzinho” dela, que sofreu tanto na cesariana. Quando Paulo, o segundo filho, nasceu, Clarice o achou “lindo, engraçadinho”, e relatava, com detalhes efusivos, as “gracinhas” do bebê, às irmãs. Agiu de forma diferente, também, talvez, por que sofreu menos no segundo parto (sem depressão?).
Com os dois filhos, a família passa a morar em casa de outra família – sai da pensão aonde estava. A guerra havia terminado, há pouco, e os tempos são outros, as dificuldades aumentam, e também Clarice aumenta a lista de reclamações às irmãs. Nas cartas escritas na época, relata algumas das dificuldades, principalmente a falta de dinheiro, o que, obviamente, não revela em outras correspondências, aos amigos escritores, por exemplo. Durante a estada no exterior, a família “Gurgel Valente” visita o Brasil, algumas poucas vezes, e Clarice já não se sente mais ambientada aqui, e reclama que não tem mais lugar no mundo.
Em todo este tempo, Clarice continuou escrevendo. Um dos romances foi “Maçã no Escuro”, só editado depois que o amigo escritor Fernando Sabino fez a revisão completa da obra, alterando todas as páginas, com as devidas observações, acatadas por Clarice. No livro “Cartas Perto do Coração”, onde Sabino fala a respeito, citando, inclusive, todas as “correções” que fez em “Maçã no Escuro”, dá para se observar que Clarice não tinha “fòlego” para escrever romance. Ela própria admitiu, diversas vezes, que era relapsa, em relação à escrita: rabiscava frases (em guardanapos, talões de cheques, etc), e, depois, tinha muito trabalho, para catar todo o material, e elaborar algum conto, ou crônica, ou então, como o fez em “Água Viva”, que não chega ser romance, nem conto, com frases e pensamentos soltos, e tão próximos (vertentes da mesma fonte). As anotações de Clarice foram confirmadas pela fiel companheira dela, Olga Borelli, que conviveu com a escritora, quase dez anos, até sua morte.
Depois da separação de Maury, Clarice Lispector voltou a morar no Brasil. A vaidade foi ferida, profundamente, quando a escritora dormiu com um cigarro aceso (tomava muitos tranquilizantes), e acordou com o quarto em chamas. Na tentativa de apagar o fogo que se alastrava, queimou profundamente a mão e o braço direitos, que tiveram de receber enxerto da perna direita (que guardou cicatrizes), numa cirurgia entre a vida e a morte. Depois disso, o filho Pedro começou a ser internado em sanatórios, vítima de esquizofrenia, enquanto o outro filho, Paulo, fazia intercâmbio nos Estados Unidos, ou ficava com o pai dele, em Montevidéu.
No final da década de 60, Clarice conhece Olga Borelli, que aceita ser sua amiga, após ler a carta de “pedido de amizade”, escrita por ela. Lendo “Clarice Lispector - Esboço para um possível retrato”, percebo que Olga Borelli (a autora) realiza dois movimentos, contraditórios à primeira vista, mas compreensíveis. O primeiro movimento é tentar mostrar a simplicidade da dona-de-casa e mãe Clarice Lispector. Mas, em seguida, parecendo ato inconsciente, é a mesma Olga quem relata que observar Clarice parada, perdida em seus pensamentos, era ficar à espera da materialização de alguma coisa.
Como a professora Nádia Gotlib, que ainda pesquisa os 'rastros' de Clarice Lispector, Olga Borelli também alimenta o “mito sagrado”. Talvez, ambas, apaixonadas por Clarice, queiram manter a imagem da escritora “hermética”, até inconsciente e inocentemente, para que Clarice Lispector não seja abandonada ao esquecimento, e continue instigando mais leitores, no mundo inteiro.
Na minha opinião, Clarice desintegrou-se, e, a partir disso, passou a corresponder à “persona” que criaram, à revelia da personalidade (desconhecida) dela. Até por que – é preciso reconhecer – Clarice Lispector passou a ser “aceita” no meio literário, depois que começou a escrever “coisas estranhas”, questionando-se a si mesma, e, com isso, questionando quem a lesse. Isso ela faz até hoje, com os milhares de leitores.
Penso que Clarice escreveu o que escreveu, por ter se perdido de si mesma – perdeu os sonhos, e a noção da própria realidade dela, que ocupava um espaço no mundo, ao qual recusava-se, pois não era o que desejava. Mas continuava viva. Precisava fazer alguma coisa, para não viver só. Por isso, a meu ver, toda a escrita dela era fragmentada – em pedacinhos de papéis catados por Olga Borelli, nos últimos anos - a mesma Olga, aliás, que motivava a escritora, e não lhe deixava ao abandono de si mesma. A presença de Olga foi fundamental à sobrevivência de Clarice, que lhe ditava frases, instantes únicos de lucidez, até os últimos minutos de vida.
Além da solidão, Clarice Lispector temia o isolamento, e pedia tanto que Olga mantivesse a mão dela junto à sua, até a morte. Assim aconteceu. Foi Olga Borelli, inclusive, que ajudou Clarice a organizar o último livro: “A Hora da Estrela”. Eu não tenho dúvida de que o livro mais realista (de “cunho social”, como dizem alguns críticos), assinado por Clarice Lispector, contém um pouco de Olga Borelli, na própria “feitura escrita” dele. Amizade – leal e terna amizade.
A professora Nádia Battella Gotlib, “expert” da escrita clariceana, afirma sempre que Clarice Lispector se ficcionalizou. Discordo. Acho que Clarice foi ficcionalizada, e, aos poucos, foi se moldando à “imagem”, já que estava recebendo atenção por isso, e o que ela mais desejava era a aproximação das pessoas. Penso que, para não viver tão só, Clarice aceitou vestir o 'traje' da mitificação. Tanto é verdade, que ela não vivia alienada, como imaginavam alguns que a analisavam, na época. Pelo contrário. No início da vida, teve sonhos, que poderiam ser realizados, mas não foram. Para sobreviver (?), se recolhia na fantasia, mas voltava à realidade, e assumia posições, decisões na própria vida. De repente, se via “golpeada”, mais uma vez, como quando criavam novas edições de sua obra, sem sequer comunicá-la, e voltava ao universo imaginário. Pra mim, Clarice não suportava a realidade em que se via inserida. Quiseram tanto que ela fosse quem ela não era, que ela acabou não sendo mais criatura alguma, ainda que continuasse agindo como uma pessoa. Foi ela própria quem escreveu que “com o tempo, estou desaprendendo de ser gente”. Acredito que ela tenha escrito pouquíssimo, se comparado à vida imaginária que alimentou em refúgio, além do que se pode supor ser o “poço fundo de Clarice Lispector”.
Como se não bastasse todo o conflito íntimo (de não poder ser quem era, pois só recebia atenção, quando correspondia à imagem hermética que fizeram dela), Clarice tinha plena consciência das dificuldades financeiras que sofria, o que lhe causava raiva, não maior que a raiva que sentiu, ao saber do câncer que a consumia. Quando soube confirmada a doença, pediu à Olga Borelli que escrevesse: “(...) Dentro do mais interior de minha casa morro eu neste fim-de-ano exausta. Até fim-de-ano eu tive. Mas como se verá – não correu sangue. Bem que eu queria que correse, e do mais brilhoso e da mais espalhafatosa faísca de fogo só para que fique provado em veia grossa minha foi tão de súbito lancetada. Chorei de raiva, raiva contra mim mesma. Me detestei por ser tão ingênua. Minha desordem criadora: do caos nascem as estrelas. Mas esta estrela, a do fim-de-ano, era de carne, pensava, e, a cada talho, doía. (...)"

Diversas vezes, Clarice Lispector escreveu ser uma estátua – tão fria. Logo depois, se contradizia (nas atitudes), pois o que mais buscava era amor (calor) humano. Quem sabe, até hoje, sua obra inteira continue a busca insistente. Enquanto a maioria dos leitores busca a obscuridade da escritora, que continua a ofuscar cada livro seu, a estátua de Clarice permanece lá, na praça de Recife – uma esfinge de pedra, talvez, a nos dizer, em seu instigante mutismo: “Nem tente me decifrar, por que, há muito, tive a alma devorada”...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

“Senhora” moralidade de pernas de fora


A “senhora” moralidade resolveu botar as pernas de fora, expulsando uma universitária que estava usando vestido curto. Acredite, um vestido curto causou a expulsão de uma acadêmica de Turismo – isso, em nome da “senhora” moralidade. Se a universitária chocou “poderosos”, com seu vestido curto, pelos corredores da Universidade Bandeirante de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, a “senhora” moralidade chocou, mais ainda, desfilando de braços dados com a 'merda' da ditadura, que, volta e meia, reaparece, em defesa dos “princípios éticos” e dos “bons costumes”.
Na verdade, não foi a estudante Geysi Villa Nova Arruda, 20 anos, aluna do primeiro ano do curso de Turismo, na Uniban, que mostrou mais do que devia. A partir da atitude da acadêmica, a direção da Universidade é que mostrou a cara nua, sem maquiagem de “exemplo de educação”. A ação repressora aconteceu, depois que Geysi foi estudar, usando um vestido curto.
Antes mesmo de ser expulsa, Geysi denunciou o fato à imprensa. Com a expulsão, anunciada pela direção moralista da Uniban, a 'merda' toda foi parar no ventilador, e até a imprensa internacional está divulgando essa vergonha.
Sabe o que mais me apavora, nisso tudo?... É que a estudante foi, primeiramente, hostilizada pelos próprios 'colegas', e, por isso, teve de sair escoltada por PMs da Universidade. Pelo visto, a Uniban está cheia mesmo de 'insetos moralistas”. A 'dedetização' é urgente!...
Imoralidade???? Imoral é o valor da mensalidade de uma universidade particular, isso sim. Imoral é o assassinato dos princípios educacionais.

Não quero acreditar que o Ministério da Educação vai se calar, diante disso. Se fizer de conta que nada viu, nada sabe, com essa, os talibãs se instalam definitivamente no Brasil.

A direção da Uniban (rima mesmo com taliban) resolveu dar marcha-à-ré, e “puxou o carro”, readmitindo a estudante... dá licença, tenho mais o que fazer!...

sábado, 7 de novembro de 2009

Direitos tortos


Há muuuuuuuuuuuito tempo mesmo, reconheço que, como todos os habitantes deste planeta, também eu tenho direitos – alguns meus (adquiridos), outros coletivos. Nem consigo lembrar há quanto tempo sei disso, pois foi bem antes de 'inventarem' Procon, “ongs” de direitos humanos, e o escambau que existe por aí.
Dia desses, quando eu 'tava' “de papo pro ar” (momento raro), fiquei pensando em usar e abusar dos meus direitos tortos - senão os adquiridos, pelo menos os coletivos. Afinal, todo mundo tem direitos, né?...
De imaginação em imaginação, fiquei pensando em desenrolar o papel higiênico do banheiro. Será que “contém” mesmo 60 metros? - oh, dúvida cruel!... E o sabonete, que não é da 'marca' Vale Quanto Pesa – será que pesa tanto quanto vale?... (melhor sair do banheiro)
Você acha que minha imaginação parou no banheiro?... Que nada!... Nem sequer sentou no “trono”... Logo, 'viajei' à cozinha, e os grãos pareciam gritar, implorando: “Pesamos quanto estava na embalagem?... De repente, os produtos da área de serviço juntaram-se ao coro, que, uníssono, exigia uma resposta minha. Eu não sei, nunca soube, por que sempre abri todas embalagens, sem pesá-las – quase gritei. Falar sozinha até que sempre foi o meu 'forte', mas parei naquele instante, quando percebi estar querendo responder a grãos, pós e líquidos. Aí, já é demais, né não?... Que Glória Perez não me leia, senão vocês, “noveleiros de plantão”, vão ter de 'guentar' minhas 'viagens' metafísicas e 'tirafísicas', meses na televisão. hehehehehehehe
Deixando as brincadeirinhas de lado, você, por acaso, conhece alguém que, depois de voltar das compras, chega em casa, e, tranquilamente, vai pesar produto por produto, e conferir o peso na referida embalagem?... Já viu alguém despejar um litro de óleo, ou coca-cola (bom demais!), ou suco industrializado, ou leite, pra confirmar se tem mesmo um litro?... Será que alguém já mediu, além do 'dr.' Inmetro, quantos metros tem o papel higiênico que usa há anos? (Usa há anos é maneira de dizer, pois usa, suja tudo, joga fora, pega outro rolo, mas sempre da mesma marca, com a mesma 'quilometragem'.)

Lembro que, há algum tempo atrás, numa cidade próxima, um cara 'tava' animado pra comer cachorro-quente. Foi ao mercado, comprou o que precisava, foi pra casa e – pasme! - ele mesmo preparou o cachorro-quente, com tudo o que tinha direito (voltei ao assunto – eu sempre volto -, demoro, mas volto). Pois bem. A historinha podia ter acabado por aí, com o desejo de comer cachorro-quente saciado. Nada! Pelo contrário. A história (macabra) começou aí, justamente depois que o cara comeu os cachorros-quentes que teve vontade. Quando foi limpar a cozinha (caprichoso, o rapaz!), resolveu despejar o restante do milho verde da lata num pote, pra guardar na geladeira...
O que tinha na lata?... Claro que você vai responder: milho verde. Eu também responderia. Havia milho verde, sim, ainda na lata, que, bem no fundo, no fundo mesmo, “acalentava” – surpresa! - uma rãzinha. Morta, obviamente – que espécie sobreviveria ao 'enlatamento', pra contar a grande façanha aos netos?...
Agora me diz, muito cá entre nós, que direitos indenizatórios o cara podia pedir: cachorro-quente de graça, curso de culinária (pratos sem milho verde), pagamento de terapia, caixas e caixas de latas e latas de milho verde da fabricante 'sacana'?... Não há indenização que pague e apague a imagem da rã encolhidinha, no fundo da lata cheinha de milho verde... E o cara, então, deliciando-se com os cachorros-quentes, que, provavelmente, naquela noite, tinham um “sabor especial”!...
Sabe o que é pior, nesta história toda (sempre tem o pior – é só sobreviver, pra ver e saber)?... A fábrica do dito milho verde, lá de Goiás, continua com suas incontáveis latas, aparentemente “inofensivas”, pelas prateleiras do Brasil...
Cá (mais ainda) entre nós: Você costuma retirar todo o produto da lata, antes de consumi-lo?... Se isso não faz parte dos teus hábitos, sugiro que você utilize o produto, e jogue a 'pobre' latinha fora - sem olhar... Melhor não tomar conhecimento se foi “sorteado” com algum “prêmio-surpresa” – se toma, engasga, ou vomita!...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Na “festa do estica e puxa”


Na “festa do estica e puxa”, como ainda 'xanta' a Xuxa, tudo é válido, mesmo quando a criatura fica parecendo “nikkei”, com a cara tão esticada, que até os olhos se alargam, e quase fecham, e a boca vive aberta, aparentando sorriso gratuito, mesmo em velório.
Acho que já escrevi aqui que não gosto de excessos – mesmo se for de coca-cola, ou chocolate (hummmmmmm delícia!!!). Sei lá. Acho que tudo que excede, excede em tudo... Entende?...
Dia desses, encontrei uma amiga que eu não via há algum tempo. Acredite. A última vez que tinha visto ela, parecia mesmo ter seus quarenta e uns. Agora, quando a vi novamente, parecia mais nova, de cara, do que a filha dela, de quinze anos. Ela olhou pra mim, e disse: “Você não muda nada, Narinha”. E eu respondi: “E você, cada vez mais nova, hein?” Rimos juntas. “Temos de nos encontrar mais” - acrescentou minha amiga. E eu só pude pensar: Temos, sim, antes que você volte a ser feto, e desaprenda de falar. hehehehehehehehe

Brincadeirinhas à parte, considero exagero o que tenho visto, no que diz respeito, ou desrespeito, à utilização das cirurgias plásticas, junto com muito botox, e mais silicone. Claro que não sou parâmetro pra coisa alguma. Quanto à vaidade, acho mesmo que sou “zero à esquerda”. Por isso, não leve a sério o que tô escrevendo aqui. Só pra você ter uma idéia (ou duas), ainda sonho ter cabelos grisalhos (os cabelos de Adélia Prado são tão brancos, tão lindos), mas, pelo visto, na minha cabeça (não é imaginação!), vai demorar, ou nem vai dar tempo, por que os branquinhos que surgem vão caindo, distraídos. Por aí, tente imaginar – ou não...
Há alguns dias, a atriz Fernanda Montenegro completou oitenta anos. Linda, Maravilhosa. Plena. Numa das tantas entrevistas que assisti com ela, Fernanda Montenegro disse que não pretende fazer plástica, remoçar “na marra”. Ela falou algo parecido com “prefiro que a minha imagem seja coerente à minha alma, resultado das experiências que vivi e vivo”. E, pra arrematar, chamou a atenção sobre o “perigo de todo processo cirúrgico, a partir da anestesia”. Foi fundo na avaliação.
Como nunca tenho certeza de 'porra' alguma, acho que vou despencar ao lugar-comum, afirmando que, se a criatura busca a cirurgia plástica, pra correção de alguma deformidade, ou então pra 'consertar' o que ela imagina estar “fora de ordem”, ainda tem um motivo, a meu ver, considerável. Afora isso, pelo simples hábito de “festa do estica e puxa”, acho que a criatura tá precisando mesmo é de algum “conserto” na alma. Nem exemplifico, por que quem pode saber de alguém, é só esse alguém mesmo. Ah, mas tem muita gente indo pro bisturi, como quem vai ao cabeleireiro – aí, já é demais!... Acaba ficando com a pele mais lisa do que quando nasceu (acredite, meu comentário não é deliberado, ou “criativo”).

Fiquei sabendo, dia desses, que “quem gosta de beleza interior é decorador, ou arquiteto”. Como não sou “nem isso, nem aquilo” (e nada disso), não vou encarar a possibilidade de debate sobre. Mesmo assim, e apesar disso, e por isso também, fico pensando que já são tantas as 'máscaras' que a gente usa – será que precisamos ainda mais?...

De olho