quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Desmitificando Clarice Lispector – As cartas “no meio do caminho”


“(...) Não me passe carão: mas na segunda-feira de carnaval fomos a uma festa na casa do cônsul americano e eu tomei um bom pileque. Eu digo que não me passe carão porque o dia seguinte já me passou. Puxa! Que enjôo. Uma dessas ressacas de filme de cinema. Foi bom que eu tivesse bebido pra tirar o que existe de tentador na idéia, tão divulgada e cantada pelos poetas... Foi a primeira vez e a última, não há dúvida. (...)” (Belém, 23/02/44)

“(...) Imagine que uma elegante senhora da sociedade paraense, ou melhor, carioca morando aqui, deu a Eugenia, como grande e segura novidade que eu tinha ido para o Rio para não voltar... O engraçado é que eu tinha encontrado essa deliciosa vaquinha carioca um dia antes de eu viajar, na manicure, e tinha lhe dito a razão de minha viagem e quanto eu demoraria... Ela pouco ligou a minha informação... (...)” (Belém, 06/05/44)

“(...) Diante de um começo de cena que eu fiz, horrivelmente magoada, ouvi de novo o que eu sabia desde sempre – sempre fui um pouco cínica: a de que os homens são assim mesmo, que possivelmente a monogamia não seja o estado ideal, que naturalmente ele (provavelmente Maury, o marido) sente atração pela mulheres; que a sensação é de deslumbramento e timidez; disse-me que não interpretasse demais, mas que era uma vaga sensação de vaidade de alguém poder gostar dele; perguntei: então você se sente na sociedade (vínhamos de estar com pessoas) como um rapaz que vai à festa? Ele respondeu que sim. Mas que eu seria sempre a melhor de todas e outras coisas no gênero. Que certamente sempre ele se controlara. Em suma, é isso que você sabe. Naturalmente até agora nunca houve nada. Eu sei que sou bem ordinária, sei que sou a pior; nunca pensei que uma pessoa, um homem, fosse diferente; mas como me sinto mal, como estou calcinada, como me parece estranho tudo o que me parecia familiar. Estou tão enojada de mim e dos outros. O pior é que estou me sentindo a mais miserável das mulheres... Não tenho a menor confiança em mim, basta uma carinha bonita, um braço de fora, um andar mais gracioso, para eu, por assim dizer, cair em mim. Me sinto como uma pessoa que se não fizer alguma coisa que a reabilite, se afoga. Para não ser tão humilhada e pisada eu procuro me interessar por homens e isso até me cansa, me desvia do meu trabalho que é a coisa mais verdadeira e possível que eu tenho. O resto é sensibilidade ferida, é insatisfação, é absoluta insegurança quanto ao futuro, é incompreensão do presente, é indecisão quanto aos próprios sentimentos. Estou ficando cínica e sem pudor. Que me interessa que isso suceda a outras mulheres? O que para umas é condição da própria feminilidade, noutras é a morte desta e de tudo o que é mais delicado. Sei que eu mesma não presto. Mas eu te digo: eu nasci para não me submeter; e se houver essa palavra, para submeter os outros. Não sei porque nasceu em mim desde sempre a idéia profunda de que sem ser a única nada é possível. Talvez minha forma de amor seja nunca amar senão as pessoas de quem eu nada queira esperar e ser amada. Sei que isso é egoísmo e falta de humanidade. Mas se eu fosse me modificar não me transformaria numa mulher normal e comum, mas em alguma coisa tão apática e miserável como uma mendiga. Você bem me conhece, toda a vida você procurou fazer de mim uma pessoa mais equilibrada e de bom senso, mas não conseguiu. Eu gosto de M. (“M” de Maury, certamente) e poderia viver bem com ele se afinal eu soubesse da liberdade dele com cinismo e profunda falta de pudor e sentimento de ironia. Desejo mesmo chegar a esse estado de calcinação. E então eu procuraria me refugiar em outras idéias e outros sentimentos e o resto viveria bem. Não sei o que fazer. Só me ocorre ir para o Rio, passar aí um mês ou dois, dar a ele a liberdade de não se controlar, de ter uma vida como ele não teve tempo de ter porque se prendeu cedo demais, e depois voltar cicatrizada e serena. A ele mesmo isso não repugna, só dar a separação; mas ele nada responde a ter plena liberdade enquanto eu estiver fora. E a eu mesma tê-la, contato que lhe conte depois. É evidente que ele preferiria que eu, enquanto isso ficasse sossegada, trabalhandinho. Mas ele me conhece bem e porque me conhece e tem medo de represálias é que ele se controla. Deus meu, eu sei que ele não tem culpa nenhuma. Mas eu também não tenho. Que é que você acha sinceramente de eu ir passar um tempo no Rio? A sensação de que ele nada fez porque eu estou presente é terrível e eu naturalmente me esgoto. (...)” (Belém, 08/07/44)
“(...) Fui para o Vitória Hotel, um hotel mais ou menos granfino, mas muito caro. O Ribeiro Couto me passou para o Parque Hotel, muito bom, a 80 escudos a diária, com quarto de banho. Imaginem que o garçom me insinuou que eu devia ir com ele ao Estoril (praia), que sozinha não tinha graça. E a dona do hotel tem a dentadura trêmula, é horrível. Vou todos os dias ao cinema, para fazer o tempo passar, e leio livros policiais, um atrás do outro. Comprei uma fazenda azul clara, de seda, uma bolsa de camurça azul-marinho tipo sacola, muito bonita. (...)” (Lisboa, 07/08/44)

“(...) Estou lhe escrevendo a mão porque tem aí uma pessoa a quem eu mandei dizer que não estava, e então não quero bater a máquina para não me trair. E como a pessoa demorará... (...)” (Nápoles, 24/07/45)

“(...) Embaixo de um casaco de peles esconde-se cada tipo... Parece que o calor do casaco faz com que alguma coisa prolifere com mais liberdade, é uma fecundação doida e cansativa. Em Roma é um tal de um convidar o outro e o outro responder convidando e esse agradecer convidando e o outro se surpreender porque não respondeu convidando... Muita coisa está precisando de bomba atômica nesse mundo. (...)” (Nápoles, 22/08/45)

“(...) Minhas queridas, esta noite sonhei que ia ao Brasil. E que as pessoas diziam, inclusive vocês: já de volta? E eu ficava tão triste, com aquele horrível sentimento de arrependimento que se tem quando se faz uma coisa que ninguém aprova. Foi um verdadeiro pesadelo... Acordei de mau humor. Mas Maury diz que eu estou de mau humor de manhã, de tarde, de noite... Não é verdade. Naturalmente eu sou irritável, naturalmente meu humor não é brilhante, mas de um modo geral sou alegre. (...)” (Berna, 12/05/46)

“(...) Quanto ao mais, tudo igual. A primeira secretária é simpática o marido burríssimo, uma das pessoas mais burras que conheço. Mas ele nos parecia bom sujeito. Mas tivemos informações de que é uma pessoa perigosa, altamente intrigante. De modo que a pequena intimidade que eu já estava tendo com ela, vai ser um pouco cortada, ou completamente. Isso tudo é muito desagradável. (...)” (Berna, 30/06/46)

“(...) Gostei da idéia de mudar de penteado para estar no 'tempos modernos', e fiquei mesmo com vontade de mudar de cara. Acho que, quando eu precisar de novo de permanente, vou cortar os cabelos curtos e fazer 'coroinha' com permanente. Acha bom? Pelo menos, vou experimentar. Aqui posso me dar ao luxo de experimentar o que eu quiser porque conheço tão pouca gente... (...)” (Berna, 26/11/46)

“(...) Pedro nasceu ontem, dia 10, às 7h30 da manhã. Estou escrevendo na madrugada de 11, porque não posso dormir direito. Estamos muito contentes, Maury e eu: a criança é sadia, fortona, pesa uns 3 quilos, 600 – por enquanto é a cara do Maury... Eu sofri muito. O médico achou que o bebê estava tardando e eu me internei no hospital no dia 9 de manhã. Eles começaram a provocar as dores por intermédio de injeções. Às 2 horas da tarde comecei a perder as águas e às 2 e meia as dores se instalaram. Sofri de 2 e meia do dia 9 até 7 e pouco do dia 10. Mas apesar das dores fortes e frequentes a dilatação, não se sabe ainda porque, não se fazia. Então o médico resolveu fazer cesariana. Não se assustem, correu tudo bem. Só que na hora o médico e as enfermeiras não estavam com boa cara, estavam meio impressionados. Eu disse que se fosse questão de esperar e sofrer ainda, eu esperaria, contanto que a criança não corresse perigo. Mas o médico disse que a criança estava correndo perigo se não nascesse logo, porque ele não conseguia adivinhar os motivos da demora; que minha bacia era bastante larga e que a criança estava em boa posição. Maury e eu assinamos um papel dizendo que estávamos de acordo e éramos responsáveis. Toda essa encenação necessária nos custou muitos nervos. (...)” (Berna, 11/09/48)

“(...) Pedrinho é tão engraçado, não acho ele muito bonito, mas é uma bola. Tem cabelos (enormes) negros, olhos escursos, um nariz por enquanto meio batatudo, umas bochechas enormes e uma boca de bico de passarinho, e os dedos compridos. O ar todo é de Maury. É uma criança muito gostosa. (...)” (Berna, 13/09/48)

“(...) Tentarei, por todos os meios – e que Deus me ajude nisso porque preciso – tentarei por todos os meios exigir menos amor e atenção dos outros, e também exigir menos que as pessoas se deixem amar... Mas é melhor deixar de mais considerações senão também esta carta será rasgada... (...)” (Berna, 07/10/48)

“(...) O pessimismo passou, mas o bom propósito não: farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz... Também é bom porque em geral se pode ajudar muito mais as pessoas quando não se está cega pelo amor. Espero com Pedrinho não exagerar – serei mais útil a ele assim. Por falar nele, está engraçadíssimo, rindo à toa. Não há na carinha dele nenhum traço que lembre sequer algum meu. Ele é totalmente Maury, ou melhor, a família de Maury. Até os traços de d. Zuza (mãe de Maury) ele tem. Acho que me impressionei demais com ela... Às vezes fico com pena, porque passei por todo esse trabalho sem deixar um sinalzinho meu ao menos... (...)” (Berna, 19/10/48)

“(...) Entrei no hospital no dia 9, segunda-feira, às 2 horas da tarde, para me prepararem para o dia seguinte, de manhã, quando Paulinho nasceu. Juro por Deus que estou tão bem que nem sei como explicar a você – o corte cicatrizou com enorme rapidez, desde o quinto dia não tinha sequer um esparadrapo. (...)” (Washington, 12/02/53)

“(...) Maury foi de um carinho que ultrapassa as palavras que eu possa usar. Ele se repartiu infatigavelmente entre mim e Pedrinho, de modo que nós dois (Pedrinho e eu) não nos sentíssemos sós. Pedrinho estando no colégio, ele (Maury) almoçava no restaurante do hospital. Ele queria menina enormemente, eu estava com medo de que ele ficasse muito decepcionado. Mas ele está tão feliz agora com Paulinho. 'Este' está um amor. Eu estou continuando a amamentá-lo (para me garantir, pedi ao médico que receitasse um pouco de mamadeira complementar) – estou tão espantada de estar amamentando. Nunca esperei. Paulinho é muito bonitinho, eu tinha me enganado! (...)” (Washington, 21/02/53)

Isso tudo é um pouco do que que escrevia Clarice Lispector, em cartas, às irmãs Elisa e Tânia. O trabalho de organização das correspondências, para o livro “Minhas Queridas”, foi de Teresa Montero.

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