sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Procura-se

Procura-se gente que saiba:
- Limpar banheiros, com sorriso estampado de felicidade;
- Cozinhar pratos dos diversos países famosos do planeta, e esquecer a receita do angu que prepara em casa;
- Lavar roupa à mão, para “poupar a lavadora”;
- Trabalhar sem parar, sem cansar, sem reclamar;
- Obedecer a “patroa”, sem questionar;
- Não trabalhar maltrapilha, e fazer 'milagres' com a “merreca” que recebe, pra sempre agradecer, agradecer aos “bondosos patrões”;
- Criar os filhos e os gatos e os cachorros dos outros, sem pensar nos próprios filhos abandonados à fome, em casa;
- Ler e escrever, exclusivamente pra ler e anotar as ordens da “patroa”, sem ler e escrever mais nada, nem raciocinar;
- Nas refeições, esperar os patrões saírem da mesa, e comer os restos;
- Não ter problemas em casa, pra “não perder tempo de serviço, com choratéu”;
- Não assistir televisão, nem ouvir radinho de pilha (mesmo trazido de casa);
- Testemunhar tudo, “na casa dos patrões”, sem fofocar em lugar algum;
- Constantemente, “puxar saco” dos “patrões” - o dono da casa, a dona da casa, os filhos, os gatos, os cachorros, os periquitos;
- Não reclamar de dores no corpo, por causa do serviço pesado;
- Olhar, sempre, para o chão, e deixar tudo brilhando, ofuscando;
- Nunca ficar doente;
- Calar, sem que a “patroa” mande, e só responder: “sim, senhora”;
- Assumir toda culpa que lhe imputem – roubo de algum 'tesouro' na mansão, ou por “comer demais” durante o trabalho.
Ah, que tenha, também:
- Auto-estima 'no pé';
- Pouco estudo e pouca visão da vida;
- Alma escrava, sempre pronta ao servilismo cego;
- Boca fechada, pra comer pouco, e falar menos ainda;
- Disponibilidade de trabalhar 25 horas por dia, todos os finais de semana e feriados, sem exigir qualquer moedinha, ou agradecimento por isso;
- Somente o gosto dos patrões, pra aplaudi-los sempre;
- Vergonha na cara, pra não pedir aumento salarial, nem folga nos feriados e fins de semana.
Procura-se um robô (última geração de perfeição), com cara e jeito de gente, de preferência reprogramável, e com controle remoto, à função de todos os serviços domésticos – muito trabalho, pouca remuneração. Motivo: Princesa Isabel morreu, sem prever que a escravidão resistiria à própria história da humanidade.

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