sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Intimidade = Desrespeito?


Uma das coisas (humanas) que eu não entendo há mais tempo é a tentativa prática de igualar intimidade com desrespeito. Não falo da forma como os homens (sexo masculino mesmo), desde a puberdade, se tratam verbalmente, ou ainda com gestos mais agressivos. O que quero escrever aqui é sobre a intimidade que descamba para o desrespeito mesmo.
Por que será que as pessoas confundem essas duas palavrinhas tão simples (intimidade – desrespeito), se analisadas superficialmente?... Sinceramente, não sei, e o meu não saber já tem décadas, tá ficando velhinho, caduco talvez...
Afinal, o que é intimidade?... Para alguns, intimidade é ir pra cama com alguém. Pra outros, intimidade é afinidade de almas, semelhança intelectual, e essa coisa toda intangível e indescritível. Mas há aquelas intimidades “por direito”, “por força das circunstâncias” – intimidade familiar, ou decorrente do tempo de convivência com alguém, seja no ambiente de trabalho, ou pela vizinhança. De algum jeito, alguém sempre se sente íntimo de outro alguém. Nem sempre há reciprocidade, mas isso não chega ‘derreter’ a visão de intimidade que alguém tem.
Pra mim, que pouco conheço e menos ainda sei de relações humanas, intimidade até pode ter cama, com a mais deliciosa sintonia sexual. Mas nem sempre intimidade pressupõe sexo. Na minha visão estrábica, intimidade tem várias vertentes, e é mantida pela vontade das pessoas envolvidas. Há quem não permita, nem se permita, a muita intimidade. Há outros que, sem se importarem com tempo, ou espaço, tornam-se íntimos e inesquecíveis, e reconhecem outras pessoas com tamanha intimidade, que não há limites, nem fins. Essa tamanha intimidade me fascina – tão longe mora do desrespeito.
Independente das variadas e inimagináveis opiniões acerca de intimidade, penso que nada tem a ver com desrespeito – nem vizinhos devem ser. Mas acho que a maioria das pessoas (as quais eu sei da existência delas, obviamente) não pensa, nem age assim. As pessoas confundem demais intimidade com desrespeito, um fato que eu nunca cheguei compreender. Sempre acabo na observação e no questionamento: Por que, quase sempre, as pessoas, sentindo-se íntimas, tratam as outras com desrespeito?
Não estou me referindo aqui a brincadeiras. Não e não. Absolutamente. Falo sobre situações sérias, momentos únicos, da necessidade (acho) do respeito básico. Sentindo-se íntima, e considerando o outro íntimo, se vê no direito de desrespeitá-lo. Não entendo isso, como não entendo a maior parte do que enxergo, percebo e vivo observando nos seres humanos. Talvez, quem sabe, por isso (também), ainda não sei ser humana.
Com a minha “veia jornalística”, sempre que tenho uma oportunidade, questiono as pessoas sobre isso. O que me dizem é que “é natural”, que, quanto mais amam, mais se sentem no direito de até humilhar o alvo do seu amor. Compreendo menos ainda.
O que vejo é gente tentando cativar outra gente, com mil manifestações de afeto, que, “depois do primeiro tempo, feito o gol”, deslancham para o desrespeito, por que (talvez) essa gente sente-se segura o suficiente, para ser quem é, ou simplesmente desabafar no primeiro “saco de lixo” que topar a ‘função’. O mais lamentável, na minha opinião, é quando intimidade = desrespeito torna-se um hábito, e depois um vício incorrigível. Azar de quem conviver com.
Se o que o outro faz, na intimidade, é desrespeitar, e justifica que age assim, em razão da vida que teve, como aprendeu associar a dor ao prazer, fazendo sempre amor rimar com dor, o problema (reconhecido) é dele, não do alvo dessa convivência íntima. É o que penso. Tem gente que diz que há pares que são feitos de um que bate e de outro que apanha, e ambos gostam de viver assim. Não consigo (nem quero) acreditar nisso.
Não sabe como tratar as raras pessoas que compartilham intimidade contigo?... Ah, sei lá, você deve ter tido papai, mamãe, ou alguém que fez um desses papéis na tua vida, e que te mostrou a chave mágica, que abre todas as portas: gentileza (que provém do respeito humano)... Já pensou nisso?... A vida pode não ser um ensaio, mas é um experimento, e a gente pode experimentar tudo, todo o tempo – ou não.
Não é julgamento meu, nem sequer pré-julgamento. Para se configurar julgamento, necessário é conhecimento de causa, o que não tenho farelo. Só expus o que (entre tantas coisas) não compreendo. Registrado.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Minha capacidade é tua




Às vezes sempre, olhamos o outro, como se estivéssemos diante de um espelho, o que raramente, aí sim, reconhecemos. Se o outro é amigo, julgamos conhecê-lo, e, também por isso, imaginamos o que ele (o outro) pensa, gosta, desgosta. Se o outro é inimigo, não agimos diferente, quando supomos a capacidade dele (o outro). Nesses instantes tão humanos, esquecemos de nós mesmos – o princípio e o fim de tudo e nada.
Capazes?... Capazes todos nós somos. Capazes de tudo, “a qualquer momento, em edição extraordinária”. Quando você imagina (julga) a minha capacidade, ela (a capacidade) não é minha – é tua. Não importa se você está enxergando a capacidade de amar, ou odiar, matar, construir. Não interessa mesmo o verbo que faz par com a ‘dona capacidade’ (tua, não minha). O mesmo faço eu, quando conjecturo sobre a tua capacidade, ou sei lá de quem.
Esse espelho diário – o outro -, que nos acompanha a vida inteira, e fica diante de nós (às vezes, a criatura mais adorável, outras, a mais odiável), é a gente mesma se olhando, e pressupondo que sabe do outro. E até vamos mais longe. Quando se está em “pé-de-guerra” com alguém, a gente observa o mínimo gesto desse alguém. Quando menos se espera, a gente é que ‘ataca’, por ter imaginado que o outro iria ‘atacar’ (com palavras, ou atitudes, ou ‘ambas as duas’ coisas). Tem gente que vai mais longe ainda, chegando usar, ou inverter, manifestações do outro contra ele (o outro).
Se o outro (nosso espelho) é amigo, tá de aniversário (exemplo aleatório), vamos em busca do que julgamos ser o melhor presente a ele. Com o que podemos gastar, procuramos dvds, por que o amigo gosta de filmes. Mas que filme dar (são tantos)?... Assim que entramos na loja, enxergamos o dvd daquele filme que o amigo riu a valer, naquela cidadezinha do interior, depois de tomarmos aquele porre juntos. Compramos o ‘belo presente’, imediatamente, e saímos da loja, satisfeitos, felizes até. Em casa, tudo o que o amigo aniversariante quer é esquecer aquela viagem, e tudo o que aconteceu – o carro enguiçado, a goteira no quarto da pensão, o ‘gosto de cabo de guarda-chuva’ da ressaca, incluindo o dito filme que serviu de presente nosso...
E quando alguém conta uma circunstância extrema que viveu?... Quase sempre, tem outro alguém pra dizer: “Ah, se fosse comigo, eu faria isso, aquilo, aquel’outro”... Será?... Sei não. Como a mãe do Forrest Gump (filme lindo) disse, a vida é uma caixinha de bombons... Vivenciar alguma coisa, penso eu, é sofrer (sentir) todo o ambiente (situação), fazer parte da cena inteira, ter como colegas, até os ácaros do tapete, das cortinas. Se chega de repente, pra sair em seguida, é ator amador, coadjuvante contratado na última hora, pra substituir aquele que quebrou a perna. Nada mais, nem menos.
“Fulano é capaz de matar”. “Beltrano é capaz de morrer, por causa disso”. “Cicrano é capaz de fazer muito mais, pra ter sucesso”. Fulano, beltrano, cicrano, ou o escambau, são capazes de tudo, o tempo todo. Se eu delimito, por medo, ou a ‘merda’ que for, a capacidade imputada é minha, não de beltrano, fulano, cicrano. Acabou.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ouvir


Eu não sei se eu sei ouvir. O que sei é que gosto de ouvir. Das minhas mais remotas memórias da infância, me chega a voz do meu pai soletrando pra mim as primeiras palavras, depois os versos, as prosas, enquanto me apresentava a alquimia da leitura e da escrita. Depois, outras vozes leram pra mim, e cantaram canções lindas, inesquecíveis.
Algumas pessoas com quem convivo dizem, generosamente, que tenho “voz suave, delicada”, que minha “voz acalma tanto, que chega causar sono”. Se for isso mesmo, preciso patentear ‘o produto sonífero natural’, antes que alguém o faça. hehehehehehehehehehe
Ouvir me faz bem, principalmente se for leitura de livros, ou canções. Durmo na companhia da música – sempre preparo uma listinha musical para fazer companhia ao meu sono, aos meus parcos sonhos (sonho mais acordada). Ah, sempre que leio, sou eu, mas a voz que ouço (no silêncio) não é minha – não é alucinação, nem delírio, por que a voz não me fala coisas ininteligíveis, mas só o que leio, o que lemos... Será isso loucura?... No meu caso, se for, é piada!... hehehehehehehe
Ouvir me acalma a alma sem calma... Falar já não me faz esse bem todo. Aliás, falar é sempre um dos meus maiores desafios, por que sei, de antemão, que vou dizer alguma coisa pra alguém, ou ‘alguéns’, que ouvirá, ou ouvirão, de forma diferente da que eu tentei dizer, por causa daquela historinha de que “cada qual carrega a própria vivência única de tudo”. Se isso não bastasse, ainda tenho dificuldades de expressão verbal – às vezes, falo demais, e digo nada. Só faço as pazes com a fala, quando o meu falar nada tem de pessoal.
Ah, mas ouvir me faz esquecer até as dificuldades que tenho em falar, e o quanto me esforço pra dizer alguma coisa, quando escrevo – agora, por exemplo...
Já me disseram que a minha memória auditiva é aguçada. Pode até ser. Mas, se for isso mesmo, quem a aguçou fui eu mesma, por tanto que gosto de ouvir. Não é um gostar de ouvir qualquer coisa, por não suportar o silêncio. Pelo contrário. Gosto também de ouvir o silêncio – silêncio mesmo, nenhum ruído, nada de televisão ligada, nem música, nenhuma palavra, e sequer um pensamento teimando em agarrar-se ao pobre “tico” (nessa hora, “teco” já vai longe no passeio). É assim que escuto o silêncio da minha alma...
O que tô tentando escrever aqui é que gosto mesmo de ouvir o que gosto de ouvir, e quem gosto de ouvir. Convivi e convivo com seres humanos especiais (por que minha alma os guarda assim: tão especiais) – poetas, loucos, sonhadores -, que cantam, lêem, interpretam como ninguém canções e leituras inimagináveis, únicas. Minha alma, que descansa, vadia, na rede da minha vida, continua ouvir essas vozes, mesmo no silêncio delas... E são tantas leituras, tantas canções, tanta vida que (ainda e sempre) pulsa, que o que posso falar é que gosto mesmo é de ouvir... Por isso, não insistam que eu fale – a minha fala só quer ouvir... até o silêncio... ouvir... e silenciar...
Em tempo: Não só gosto de ouvir, como também gosto de quem gosta de ouvir... Acho que saber ouvir é uma arte. Quando se gosta de ouvir, pode até não se saber ouvir, mas é caminho e meio ao aprendizado... Agora, chega de tentar falar alguma coisa... Dá licença, quero só ouvir... ouvir...

domingo, 17 de janeiro de 2010

Doce mistério amargo


Sempre ouço, leio, assisto – por aí, por aqui, por todo lugar - gente falando sobre o sentido da existência humana. As dissertações chegam ser estapafúrdias (consegui usar este palavrão! consegui!). Para os astrônomos, a vida terrena surgiu, a partir do “conluio” de elementos químicos, que se reuniram e combinaram: “Vamos fazer todos os experimentos impossíveis, neste planetinha”. Para os religiosos, a humanidade passou a existir, depois que um “todo-poderoso” entediou-se com a solidão em que vivia, e resolveu criar habitantes, no “pontinho azul” do universo. Para os poetas, a existência humana existe, pra não fazer qualquer sentido. Para os estilistas e costureiros, a humanidade foi criada, pra ser (bem) vestida. Cada qual pensa o que bem entende. Os otimistas pensaram tanto, e descobriram que “a vida existe, pra ser vivida” (e a morte - pra ser morrida?). Os pessimistas adiantam o relógio, e passam a vida inteira dizendo que “a única coisa certa na vida é a morte” (qual será a única coisa certa na morte – que não há mais vida?).
Nunca fui Pasteur, nem Papa. Talvez, por isso, ou não, prefiro questionar esse doce mistério amargo: Existir – pra quê?... Se eu fosse colecionadora de respostas, certezas, ou verdades absolutas, provavelmente teria ‘empacado’ lá atrás, há muuuuuuuuuuuuito tempo, quando comecei admirar as nuvens, ignorando o termo “sentido da vida”.
Alguns de nós até ‘maquiamos’ uma resposta – bem elaborada, é verdade, mas tão oca quanto a nossa credulidade sobre o que nós mesmos pensamos. Pior, quando tentamos convencer os outros. Não gosto que julguem que estou tentando convencer, nem que isso seja em relação a um animal qualquer. Não convenço nem a mim mesma.
Esse doce mistério amargo, o qual apelidamos vida, pode fazer algum sentido, acredito, particularmente. Se você observar, quase sempre colocamos o sentido da vida, onde não estamos. Talvez, através disso, buscamos motivação pra continuarmos vivendo (vivendo em busca de vida). Se temos como meta, a realização de sonhos, justamente são sonhos, por que não são realidade (ainda). Se concretizamos algum sonho, logo buscamos outro que ocupe o mesmo vazio, o qual cremos ser ocupável.
No meu caso, acho que o sentido da vida tá em perguntar qual o sentido da vida (?), sem querer resposta, ou respostas. Simplesmente questionar. Às vezes, penso que achei uma doce resposta; outras, o gosto da resposta é amargo. São respostas que passam, como as nuvens – aquelas que guardo na minha coleção de fotos de nuvens, e aquelas que foram e vão, sem que eu tome conhecimento delas.
Profissionalmente, escolhi perguntar, sem a expectativa de respostas. Talvez, eu tenha escolhido isso também à minha vida, mesmo quando as pessoas, ao abrirem a boca, confundem ignorância com resposta. Se me perco, isso acontece justamente nas perguntas, não nas respostas, que, pra mim, nada mais são que “instantâneos de vida”, não chegando revelar o que realmente é. Pra mim, o que realmente é permanece na pergunta. A resposta é a tentativa de fazer calar a pergunta persistente. Nada além disso. É o que penso, sei lá por quê.

Agora, chega... Como eu, vai você também sentir e viver esse doce mistério amargo, que, um dia, acaba, sem qualquer sentido – simplesmente acaba...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Meias-mentiras. Meias-verdades.


Ouço sempre as pessoas falarem que a mentira tem tantas faces, quanto necessário seja para sustentá-la. Discordo. E ainda faço mais: distorço, inverto. Acho que a verdade – que não existe (talvez, more mais distante da realidade, ainda, que a própria mentira) – é que tem incontáveis e desconhecidas faces.
Se quiser, siga minha loucura ‘pensamental’. Senão, vou continuar pensando, e escrevendo...
Invertendo o conceito, eu enxergo que a mentira, de repente, pode ser muito mais lógica, condizente com a realidade, para qual foi criada, muito mais que a própria “verdade do momento”. Observe que a mentira precisa (parece necessitar) de uma simetria, até chegar à linearidade absoluta: começo, meio, fim. A verdade não é assim. E você, como eu, sabe disso. E sabe mais. Sabe que a verdade não é; a verdade está.
Se a mentira surge maquiada, com o propósito de esconder (já que não pode negar, ou fazer desaparecer) a verdade, essa – a verdade – tem curtos tempo e espaço de validade. Por quê?... Ora, por que simplesmente outra verdade (ou mentira) chega, a qualquer momento, e sobrepõe as (pobres) certezas absolutas antigas.
Você pode até pensar: Ah, mas o passado (fato real) torna-se definitivo, imutável, e, por isso mesmo, verdade absoluta. Discordo novamente. O passado histórico ficou tão lá atrás, que a nossa memória (espertinha!) é muito seletiva, por que mais emocional, guarda e faz lembrar o passado, a seu “bel prazer”, cambaleando sempre na linha tênue dos fatos: acontecidos, vivenciados, sentidos.
Por diversas vezes, tive a oportunidade de reencontrar pessoas que fizeram parte do meu passado. E ainda acontece muito isso. O que percebi, escancaradamente, é que cada uma delas, incluindo eu mesma, guardava uma história diferente sobre o mesmo fato. É aqui que entra a historinha da “visão de cada um”, na prática. Profissionalmente, o que mais gosto de fazer é ouvir (muito mais que entrevistar) o maior número de pessoas, para que falem livremente sobre o mesmo fato. Às vezes, a situação (factual) está ali, diante de todos, e cada um, de olhos bem abertos, relata uma série interminável de histórias, em cima da cena. ‘Tá’ certo que alguns ‘viajam’ mesmo ‘na maionese’, extrapolando a visão de realidade. Mas nem um deles é considerado mentiroso, por que, antes de julgá-los como tais (mentirosos, no caso), os ouvintes olham a cena (real), ou lembram da situação passada, e reconhecem: “É verdade, eu não havia me apercebido disso, até você falar”.
Quanto à mentira, essa não pode sustentar tantas faces, como tem a verdade. A mentira exige coerência, e tantas coisas mais. Assisti um filme (não guardo nomes de filmes, livros, etc), onde um dos protagonistas lembrava que o pai dele havia dito que o maior trabalho da mentira era manter a memória (que não podia desmentir). Olha só a vantagem da verdade, que não tem qualquer compromisso com a memória. Podemos lembrar de todos os fatos, como bem entendemos, por que estivemos lá, naquele tempo, naquele espaço, ou ouvimos falar sobre. Se for justificar com “me contaram”, então, a verdade torna-se “red bull” – que “dá aaaaaasas”. hehehehehehehehehe
Vou mais longe, nesta minha ‘viagem’ sem bússola. Acho que amadurecimento é isso: amadurecer os fatos vivenciados, a partir da recordação deles, com a experiência que temos na bagagem (sempre sobra alguma). Poxa, dá muito trabalho (pelo menos, pra mim), vivenciar o agora, racionalizar sobre, e guardar com lacre todos os detalhes, para que as minhas lembranças não sejam modificadas, principalmente por mim mesma. É loucura demais pra minha cabeça, sinceramente.
Resumindo essa ‘merda’ toda, acho que cada ser humano é feito de meias-mentiras, meias-verdades. Na mentira, há um ‘quê’ de verdade, que é justamente o motivo, a intenção que fez criá-la. Na verdade, há outro ‘quê’, que é justamente o que ainda ignoramos – em nós mesmos, ou nos outros (daí, acho, depende a duração dessa verdade). Confesso que me interesso mais pela ‘utilidade’ da mentira, quanto da verdade do momento, que a própria mentira, ou a verdade em questão. Se não é preciso mentir, pra que então? (o motivo me instiga)... Se dizer a verdade, não mais omiti-la, pode causar danos, até a verdade é dispensável, por que o tempo (outra realidade) a revelará, e depois a substituirá... É tudo o que penso.

O mais fica por conta de Drummond:
“VERDADE
Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim, não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Lucubrações à deriva

Se a gente trata bem toda gente, a gente é falsa. Se a gente trata mal toda gente, a gente é ruim, cruel até. Não existe alternativa: “se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come”.
Afinal, alguém é, de fato, especial? (não era pra rimar, juro) O que torna alguém, especial pra gente?... Oras bolas e carambolas, a gente é que sente alguém especial. Não quero apelar pra livrinho de auto-ajuda, mas não posso deixar de registrar o que acabei de lembrar (tô ‘rimadora’ hoje). Disseram e dizem por aí que as pessoas todas têm o valor que lhes damos – incluindo aí você e eu e toda gente.
Pra mim, aprender relações humanas é mais difícil que javanês, e olha que, em Java, até as crianças falam javanês (e eu continuo criança, há tanto tempo, sem saber javanês). Eu só não falo javanês, por que não nasci em Java, nunca me interessei pelo idioma, nem tenho amigo que fala em javanês comigo. Contigo, acontece o mesmo?... Pois é. Até parece, às vezes, que falo javanês, mas não é não. Se falo de maneira incompreensível, é por que (ainda) tô pensando em voz alta, e aí me “enrolo” mesmo, parecendo javanês, ou, então, quero dizer alguma coisa que não se diz, e por isso não há palavras. Nem javanês me salvaria.
Mas eu escrevia (escrevo) que relações humanas, ou até desumanas, é o “bicho-de-sete-cabeças” da minha vidinha insignificante. Convivo com a humanidade, até (acho) faço parte dessa mesma humanidade, mas pouco sei lidar com ela. Aliás, eu não compreendo tanta coisa da humanidade, e, talvez, por isso (quem sabe?), sempre digo que não sei ser humana.
Independente da minha incompreensão incompreensível e incompreensiva, vamos vivendo e convivendo com essa mesma humanidade, que nos desnorteia, nos arremessa a incompreensões maiores de nós mesmos. Acredito que isso acontece com todo mundo, feito dor de dente, dor de barriga, e tantas outras coisas – humanas, obviamente.
Vou mais longe. Eu até penso que, pra gente chegar ao que chamo “sintonia humana”, necessário é desumanizar-se. Vou tentar não me manifestar em javanês, pra que você me compreenda. Desumanizar-se, pra mim, é soltar-se, desprender-se, desamarrar-se de tudo o que se tem de humano. Nem me venha com a conversinha de que você é um dos tantos que sabe se colocar no lugar do outro – o lugar do outro está sempre ocupado, por ele mesmo, e não há espaço microscópico vazio ali.
Se ficamos atrelados ao que apreendemos e aprendemos nesta vidinha (humana), complicado demais é sintonizar com o outro, seja quem for. O outro apreendeu e aprendeu tudo diferente de nós – o outro poderia ter vivido a tua vida, que seria diferente. Dois estranhos não se entendem mesmo – você fala javanês, e o outro te ouve no dialeto aborígene que conhece. Ambos poderiam arriscar desumanizar-se – aí, talvez, quem sabe...
Mas quem quer desumanizar-se?... Quem vai querer sair da sua “zona de conforto” (que é mais zona mesmo, que confortável), de braços abertos ao desconhecido?... Quem arriscaria jogar tudo fora – o que tem de certo, errado, bonito, feio, divino, profano, seguro -, e entregar-se, render-se à humanidade?... Quem quer deixar de ser quem acha que é, pra ser quem nunca imaginou ser, ou pra simplesmente não ser?...
Definitivamente, eu deveria morar em Java, e aprender javanês com o menor garoto de lá, que conta as estrelas no céu, enquanto os grandes dormem (e até sonham contar estrelas)...

sábado, 2 de janeiro de 2010

Ressaca de 2009


Mal 2009 sai de cena, a ressaca continua... Foram tantas emoções (positivas e negativas), que não dá simplesmente pra virarmos a página, fazermos de conta que ainda estamos na maternidade.
Mas 2010 dá um chega pra lá no ano passado, e pede espaço, chão limpo. E lá vamos nós fazer – novamente, outra vez, de novo e sempre – a costumeira faxina, que não passa de uma vassourada na poeira de 2009 pra debaixo do tapete (haja tapete!)...
Vou logo avisando que até tento, mas não me dou bem em fazer as costumeiras “simpatias de virada de ano”. Como sempre, engasguei, mais uma vez, com as uvas, as sementes de romã, e acabei perdendo as contas. E também sempre acabo me ‘enrolando’, na hora de vestir as roupas, com cores apropriadas, para receber o novo ano que chega (branco pra isso, amarelo ‘pra’quilo’, vermelho é bom pra, azul transmite sei lá o que, etc e tal).
2010 é o “ano do Tigre” (aiaiai é meu signo!), no horóscopo chinês. Na numerologia, 2010 é o ano da expansão, do crescimento, da criatividade. 2010 é regido pelo planeta Vênus, que representa o amor, a paz, a harmonia nas relações. Resumindo tudo isso, o teu, o meu, o nosso, o ano 2010 de todos os seres tem tudo pra dar certo. Agora, só falta a gente também se predispor a isso, e manter o bom humor, por que, sem bom humor, qualquer ano perde toda a graça.
Pensando nessa ‘coisa’ de ano novo, vida nova, acho que o que menos conta é o calendário. Se é preciso uma data específica, pra todo mundo reavaliar a própria vida, e se encher de sonhos e esperanças, que um ano novo seja sempre bem-vindo. Vou além, imaginando que cada dia poderia ser vida nova. Já pensou?... Seria demais – não haveria tanto desânimo, ou decepção, pois saberíamos que o outro dia seria realmente novo. Do jeito que é (cada ano com 12 meses, 365 dias, 8.760 horas, 525.600 minutos, 31.536.000 segundos), demora muito pra isso acontecer. Concorda comigo?...
Há muito tempo, eu vivo cada dia como se fosse o último – naturalmente, sem qualquer tragédia. Nem chego pensar em 24 horas. Busco fazer o que posso e quero, a cada instante que vivo, por que é o que tenho de real em mim. Obviamente, não sou exemplo de coisa alguma, mas viver assim tem me feito viver. O tempo que perco (será que fazer nada é mesmo perder tempo?) é consciente, quando prefiro ficar no meu canto, dando o mesmo valor que dou ao que faço, ajo, manifesto, em todo o meu tempo de vida. Reconheço que sou péssima aprendiz de ser humano, mas continuo vivendo do meu jeito desajeitado de ser – ou não ser.
Que venha 2010! Que venham as eleições!... Que venha a Copa do Mundo!... Que os grandes vencedores sejam mesmo os nossos sonhos – o sonho que cada um acalenta, em segredo, na alma!...

De olho