terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Lucubrações à deriva

Se a gente trata bem toda gente, a gente é falsa. Se a gente trata mal toda gente, a gente é ruim, cruel até. Não existe alternativa: “se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come”.
Afinal, alguém é, de fato, especial? (não era pra rimar, juro) O que torna alguém, especial pra gente?... Oras bolas e carambolas, a gente é que sente alguém especial. Não quero apelar pra livrinho de auto-ajuda, mas não posso deixar de registrar o que acabei de lembrar (tô ‘rimadora’ hoje). Disseram e dizem por aí que as pessoas todas têm o valor que lhes damos – incluindo aí você e eu e toda gente.
Pra mim, aprender relações humanas é mais difícil que javanês, e olha que, em Java, até as crianças falam javanês (e eu continuo criança, há tanto tempo, sem saber javanês). Eu só não falo javanês, por que não nasci em Java, nunca me interessei pelo idioma, nem tenho amigo que fala em javanês comigo. Contigo, acontece o mesmo?... Pois é. Até parece, às vezes, que falo javanês, mas não é não. Se falo de maneira incompreensível, é por que (ainda) tô pensando em voz alta, e aí me “enrolo” mesmo, parecendo javanês, ou, então, quero dizer alguma coisa que não se diz, e por isso não há palavras. Nem javanês me salvaria.
Mas eu escrevia (escrevo) que relações humanas, ou até desumanas, é o “bicho-de-sete-cabeças” da minha vidinha insignificante. Convivo com a humanidade, até (acho) faço parte dessa mesma humanidade, mas pouco sei lidar com ela. Aliás, eu não compreendo tanta coisa da humanidade, e, talvez, por isso (quem sabe?), sempre digo que não sei ser humana.
Independente da minha incompreensão incompreensível e incompreensiva, vamos vivendo e convivendo com essa mesma humanidade, que nos desnorteia, nos arremessa a incompreensões maiores de nós mesmos. Acredito que isso acontece com todo mundo, feito dor de dente, dor de barriga, e tantas outras coisas – humanas, obviamente.
Vou mais longe. Eu até penso que, pra gente chegar ao que chamo “sintonia humana”, necessário é desumanizar-se. Vou tentar não me manifestar em javanês, pra que você me compreenda. Desumanizar-se, pra mim, é soltar-se, desprender-se, desamarrar-se de tudo o que se tem de humano. Nem me venha com a conversinha de que você é um dos tantos que sabe se colocar no lugar do outro – o lugar do outro está sempre ocupado, por ele mesmo, e não há espaço microscópico vazio ali.
Se ficamos atrelados ao que apreendemos e aprendemos nesta vidinha (humana), complicado demais é sintonizar com o outro, seja quem for. O outro apreendeu e aprendeu tudo diferente de nós – o outro poderia ter vivido a tua vida, que seria diferente. Dois estranhos não se entendem mesmo – você fala javanês, e o outro te ouve no dialeto aborígene que conhece. Ambos poderiam arriscar desumanizar-se – aí, talvez, quem sabe...
Mas quem quer desumanizar-se?... Quem vai querer sair da sua “zona de conforto” (que é mais zona mesmo, que confortável), de braços abertos ao desconhecido?... Quem arriscaria jogar tudo fora – o que tem de certo, errado, bonito, feio, divino, profano, seguro -, e entregar-se, render-se à humanidade?... Quem quer deixar de ser quem acha que é, pra ser quem nunca imaginou ser, ou pra simplesmente não ser?...
Definitivamente, eu deveria morar em Java, e aprender javanês com o menor garoto de lá, que conta as estrelas no céu, enquanto os grandes dormem (e até sonham contar estrelas)...

Um comentário:

  1. Como você sabe, eu já estou no javanês advanced... :p

    E desde pequena conto estrelas em javanês, e não erro a conta, visse?

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