sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Meias-mentiras. Meias-verdades.


Ouço sempre as pessoas falarem que a mentira tem tantas faces, quanto necessário seja para sustentá-la. Discordo. E ainda faço mais: distorço, inverto. Acho que a verdade – que não existe (talvez, more mais distante da realidade, ainda, que a própria mentira) – é que tem incontáveis e desconhecidas faces.
Se quiser, siga minha loucura ‘pensamental’. Senão, vou continuar pensando, e escrevendo...
Invertendo o conceito, eu enxergo que a mentira, de repente, pode ser muito mais lógica, condizente com a realidade, para qual foi criada, muito mais que a própria “verdade do momento”. Observe que a mentira precisa (parece necessitar) de uma simetria, até chegar à linearidade absoluta: começo, meio, fim. A verdade não é assim. E você, como eu, sabe disso. E sabe mais. Sabe que a verdade não é; a verdade está.
Se a mentira surge maquiada, com o propósito de esconder (já que não pode negar, ou fazer desaparecer) a verdade, essa – a verdade – tem curtos tempo e espaço de validade. Por quê?... Ora, por que simplesmente outra verdade (ou mentira) chega, a qualquer momento, e sobrepõe as (pobres) certezas absolutas antigas.
Você pode até pensar: Ah, mas o passado (fato real) torna-se definitivo, imutável, e, por isso mesmo, verdade absoluta. Discordo novamente. O passado histórico ficou tão lá atrás, que a nossa memória (espertinha!) é muito seletiva, por que mais emocional, guarda e faz lembrar o passado, a seu “bel prazer”, cambaleando sempre na linha tênue dos fatos: acontecidos, vivenciados, sentidos.
Por diversas vezes, tive a oportunidade de reencontrar pessoas que fizeram parte do meu passado. E ainda acontece muito isso. O que percebi, escancaradamente, é que cada uma delas, incluindo eu mesma, guardava uma história diferente sobre o mesmo fato. É aqui que entra a historinha da “visão de cada um”, na prática. Profissionalmente, o que mais gosto de fazer é ouvir (muito mais que entrevistar) o maior número de pessoas, para que falem livremente sobre o mesmo fato. Às vezes, a situação (factual) está ali, diante de todos, e cada um, de olhos bem abertos, relata uma série interminável de histórias, em cima da cena. ‘Tá’ certo que alguns ‘viajam’ mesmo ‘na maionese’, extrapolando a visão de realidade. Mas nem um deles é considerado mentiroso, por que, antes de julgá-los como tais (mentirosos, no caso), os ouvintes olham a cena (real), ou lembram da situação passada, e reconhecem: “É verdade, eu não havia me apercebido disso, até você falar”.
Quanto à mentira, essa não pode sustentar tantas faces, como tem a verdade. A mentira exige coerência, e tantas coisas mais. Assisti um filme (não guardo nomes de filmes, livros, etc), onde um dos protagonistas lembrava que o pai dele havia dito que o maior trabalho da mentira era manter a memória (que não podia desmentir). Olha só a vantagem da verdade, que não tem qualquer compromisso com a memória. Podemos lembrar de todos os fatos, como bem entendemos, por que estivemos lá, naquele tempo, naquele espaço, ou ouvimos falar sobre. Se for justificar com “me contaram”, então, a verdade torna-se “red bull” – que “dá aaaaaasas”. hehehehehehehehehe
Vou mais longe, nesta minha ‘viagem’ sem bússola. Acho que amadurecimento é isso: amadurecer os fatos vivenciados, a partir da recordação deles, com a experiência que temos na bagagem (sempre sobra alguma). Poxa, dá muito trabalho (pelo menos, pra mim), vivenciar o agora, racionalizar sobre, e guardar com lacre todos os detalhes, para que as minhas lembranças não sejam modificadas, principalmente por mim mesma. É loucura demais pra minha cabeça, sinceramente.
Resumindo essa ‘merda’ toda, acho que cada ser humano é feito de meias-mentiras, meias-verdades. Na mentira, há um ‘quê’ de verdade, que é justamente o motivo, a intenção que fez criá-la. Na verdade, há outro ‘quê’, que é justamente o que ainda ignoramos – em nós mesmos, ou nos outros (daí, acho, depende a duração dessa verdade). Confesso que me interesso mais pela ‘utilidade’ da mentira, quanto da verdade do momento, que a própria mentira, ou a verdade em questão. Se não é preciso mentir, pra que então? (o motivo me instiga)... Se dizer a verdade, não mais omiti-la, pode causar danos, até a verdade é dispensável, por que o tempo (outra realidade) a revelará, e depois a substituirá... É tudo o que penso.

O mais fica por conta de Drummond:
“VERDADE
Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim, não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”

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