sábado, 27 de março de 2010

Ser inútil


Confesso que sempre gostei de ouvir a frase: “Vamos fazer juntos”. Isso diz tanto, né não?... Além do verbo conjugado no plural, tem a historinha do fazer – construir, concretizar –, no meio de tudo. Legal, né?... Sempre gostei de tentar ser útil, tentar ajudar – quando posso conjugar no plural, melhor ainda.
Lembro quando eu era criança, sempre disposta a ir a mercado, padaria, para atender ao pedido de algum vizinho, que precisava de uma “mãozinha”. Eu nem pensava a respeito, mas sentia que tinha feito algum bem, e isso fazia bem ao coração infantil.
Agora, tão longe da infância, percebo que o bom mesmo é ser inútil. Fazer o que precisa ser feito, sim, e às vezes até o que era pra outro(s) fazer(em), e não faz(em). Fazer, sim. Agir. Tentar ajudar. E seguir em frente, sem olhar pra trás, com os olhos e ouvidos tapados. (Lá adiante, a alma – tão inútil quanto sempre – aquieta, silencia, descansa...)
Continuo sempre tentando ajudar e conjugar no plural. Mas, racionalizando sobre isso, vejo que a gente acaba sendo ‘pesada e medida’, senão pelo que tem, quando tem (bens e males móveis e imóveis), pelo que faz. Admita você também: é comum a gente ouvir elogios, quando faz alguma coisa legal, na visão da maioria... Se a gente não faz (alguma coisa legal), já não é elogiada, reconhecida. Dependendo do grupo, a gente pode até deixar de ser aceita, se não fizer.
Por isso, acho que tem tanta gente que, pra ser aceita, troca de time de futebol, muda o estilo do vestir, começa fumar, beber, frequentar boates, curtir outros estilos musicais, outros livros, não mais os próprios. Deixa os velhos costumes dela, pra assumir os velhos costumes que nunca foram dela. Tem gente que arruma tempo pra exagerar, e até muda as marcas dos produtos que consome. Tudo, pra ser aceita. Daqui a pouco (o tempo passa, as relações também), a turma já é outra, e os já velhos hábitos são, novamente, mais uma vez, de novo, substituídos por outros velhos hábitos de outros.
Parodiando Clarice Lispector, “olhe ao redor”, tente enxergar, nas ‘zilhões’ de pessoas do teu convívio (presente, futuro, passado), quem amou, ama, ou amará tua inutilidade mais secreta. Tô fazendo isso agora, com a minha visão estrábica. Aos poucos, restam poucas pessoas, raríssimas criaturas – algumas já morreram, mas permanecem vivas na minha alma torta...
Amar alguém – não pela imagem, nem pelos títulos, se guarda grana debaixo do colchão, ou por causa do esforço, da dedicação desse alguém. Amar alguém, por nada, por absoluta e completamente nada. Amar alguém que nos é tão inútil, quanto o próprio amor que dedicamos a esse alguém. Amar por amar – sem esperar um olhar, uma palavra, um gesto, uma boa ação, sequer uma gota de suor desse alguém. Simplesmente amar. Amar alguém tão profundamente, que, quando questionada por quê (?), a gente responda naturalmente: por nada. Amar o nada de alguém – por isso, amar o tudo, que também é nada.
... Acho que é por aí – ou não... (que rabisco inútil!)

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