segunda-feira, 26 de abril de 2010

Cotidiano irônico

Ainda estou em ‘ritmo’ de Quintaninha...
Mario de Miranda Quintana nasceu na cidade de Alegrete (RS), em 30 de julho de 1906, falecendo, em Porto Alegre, no dia cinco de maio de 1994, próximo de seus 88 anos.O escritor tornou-se imortal, mesmo não tendo sido aceito pelos membros da Academia Brasileira de Letras, por três vezes. Irritava-se com isso, e não gostava quando, mais uma vez, era indicado por algum amigo, à cadeira vaga na ABL. No cotidiano irônico em que conduzia a vida, Quintaninha escreveu, em homenagem àquela Academia:

“Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
(Prosa e Verso, 1978)”

Quintaninha teve uma vida solitária, depois que saiu da casa dos pais, no interior do Rio Grande do Sul, e foi morar na Capital Gaúcha. Em Porto Alegre, até onde sei, ele não teve uma casa sequer. Hospedava-se em pensões, hotéis, lugares até hoje visitados pelo grande público que gosta de conhecer a história do escritor irônico. Inclusive, no prédio onde existe hoje a Casa de Cultura Mário Quintana, bem no centro de Porto Alegre, funcionava, em outros tempos, o Hotel Majestic, que, durante muitos anos, abrigou o escritor. Por ocasião do Fórum Mundial, acabei visitando a Casa de Cultura, onde, na cobertura, assisti a apresentação do escritor Luís Fernando Veríssimo, que, timidamente, tocava saxofone, uma das paixões do renomado cronista.
Voltando a Quintaninha, acabei de reler “Ora bolas – O humor de Mário Quintana (historinhas compiladas e adaptadas por Juarez Fonseca)”. Na minha opinião, o livrinho de bolso tem efeito de uma grande enciclopédia, pois corresponde à imagem que Quintaninha gostaria, provavelmente, de ser lembrado. Penso isso, em razão da ironia que o escritor manteve, por toda a vida. Uma amiga minha, enfermeira profissional, que atendeu Quintana no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, onde o escritor permaneceu internado, até o falecimento, contou que “apesar de debilitado, ele continuava irônico. Cada vez que eu entrava no quarto, o escritor dizia que, se pudesse, ainda escreveria um poema sobre os meus ‘lindos olhos azuis’”, me disse a amiga, com a voz embargada.
Quando perguntavam a Mário Quintana por que ele não havia casado, a resposta estava sempre na “ponta da língua”. Ele justificava, dizendo que a culpa era do ministro da Educação, que havia mudado os horários de trabalho dos funcionários, incluindo uma funcionária pública com quem Quintaninha saía para conversar, e não pôde mais encontrar.
Até hoje, não só no livro de Juarez Fonseca, muito se fala sobre a grande paixão do poeta Quintana por Cecília Meireles. Uma vez, inclusive, contam que Quintaninha estava com um amigo, e resolveu encontrar-se com Cecília, que visitava Porto Alegre. Para “tomar coragem”, a dupla foi beber um pouco. Pelo visto, os dois beberam um pouco a mais, pois nem um dos dois lembrou da visita à Cecília Meireles.
Mário Quintana costumava dizer que só tomou um porre na vida, o qual teve a duração de 25 anos. Nesse tempo, era comum as pessoas encontrá-lo, logo cedo, bebendo em algum bar, pela Rua da Praia. Alguém perguntava: Já bebendo, poeta? – Ele respondia: Ainda.
A ironia fez companhia ao poeta, a vida inteira. Elena, a sobrinha de Quintana, era quem o assessorava em tudo – viagens, divulgação dos livros, etc. Relata Juarez Fonseca: “Nos últimos tempos, Quintana gostava de ficar deitado no escuro, quieto, e queria que sempre alguém ficasse com ele. Um dia, Elena protestou: - Mas tio, o que eu vou ficar fazendo aqui, nesta escuridão? - Senta aí e simplesmente me adora...”
O escritor gostava de jogar – jogo do bicho, loterias, loto, o que fosse. Um dia, foi atropelado, e a primeira coisa que falou foi para que anotassem a placa, para jogar na loto. Do acidente, resultou o femur quebrado, o qual teve de receber prótese de platina. “Agora sim, serei um poeta de valor” – disse Quintaninha.
As ironias dele eram lançadas pelo ímpeto, e muitas pessoas riam junto, sem saber que estavam rindo de si mesmas. Uma das cenas mais comuns, na vida do escritor, que trabalhava na redação do Correio do Povo, era gente procurando-o, com um monte de poemas, sonetos, textos, para que eles os lesse. Quando um tímido rapaz apareceu, com mais um ‘calhamaço’ de sonetos, “puxou conversa” com Quintana, dizendo: “Eu gostaria de trocar umas ideias com o senhor”. De imediato, recebeu a resposta: “Melhor não, acho que eu sairia perdendo” (na troca).
Quintaninha tinha sempre uma frase irônica. Quando viajava, sempre era recebido com toda “pompa”, mas tinha gente que exagerava, perguntando até qual marca de carro ele preferia andar pela cidade. “Marca, não, mas a cor. Azul.” – respondeu o grande amigo do casal Érico e Mafalda Veríssimo. Mafalda, aliás, presenteava sempre o poeta, com vários pares de meias de lãs, de todas as cores, as quais ela mesma tricotava. “Mafalda deve pensar que sou uma centopéia” (comentário dele). Diante da placa de advertência “esquina perigosa”, Quintana falou: “Como se a esquina pudesse ser perigosa. Perigosos são os motoristas, ora bolas...”

Quintaninha permanece entre nós – muito mais que nas páginas dos tantos livros que escreveu e dos tantos outros que traduziu. O “guri” poeta ainda inspira ironias ingênuas, quase pueris...

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