sábado, 17 de abril de 2010

Pulseirinhas poderosas

Quem diria que, um dia, umas simples pulseirinhas de silicone seriam tão poderosas, ao ponto de “induzirem” ao ato sexual, hein?... É o que – dizem - está acontecendo entre grupos adolescentes de todo o mundo, desde que surgiu esse “código”, na Inglaterra, espalhando-se pelo universo internauta, e vindo parar no Brasil. Apelidados de “pulseiras do sexo”, os adereços coloridos têm “códigos” (desde um abraço, até a relação sexual).

Final do ano passado, eu presenciei a cena:
Diante da vitrine, uma garotinha com menos de dez anos à mãe:
- Olha, mãe, olha. São essas as pulseiras que eu quero. Quero de todas as cores!...
A mãe, desconfiada:
- Ah, não!... Essas são feias...
- São bonitas, e a fulana (não guardei o nome da garota ‘maiorzinha’, provavelmente irmã, que olhava outra vitrine próxima) tem. Eu quero! Eu quero!
- O quê? (gritou, desesperada, a mãe, puxando o braço da filha mais velha – nem tanto) Você tem essas pulseiras?...
A garota permanece calada, enquanto a “maninha” não deixa por menos:
- Ela tem sim, mãe, e vive comprando mais. Até parece que perde...
A mãe, com olhar estupefato à filha com 13-14 anos, não mais que isso:
- Como você compra essas porcarias?... Com que dinheiro?...
É a “maninha” quem responde animada, talvez, na tentativa de ganhar o que tanto queria:
- Custa baratinho, mãe!...
Ali mesmo, na calçada, a mãe começa bater na ‘mocinha’ que ela mesma pariu. E eu me mando, obviamente.
Depois, voltei à vitrine, pra observar as pulseirinhas siliconadas, coloridas, aparentemente inofensivas.

‘Porra! Baralho’!!!! Que mulher nunca usou uma bijouteria?... Hoje, até os homens (nem todos metrossexuais) usam bijouterias, até jóias de altos quilates. Lembro a minha fase “aborrecente”, quando eu me deliciava com feira hippie... Se houvesse situação semelhante, naquela época, entre as minhas perguntas idiotas (hein? o quê? sério mesmo?), eu já seria a próxima a ‘embarcar’ nesta ‘roubada’. Alguém aí pode pensar que os adolescentes de hoje são mais espertos, ‘antenados’, sacam tudo, distantes da minha ingenuidade, quando tinha a idade deles, etc e tal. Pode até ser. Cá entre nós, mais que atrativas, as pulseirinhas fazem parte da “moda do momento” (quem vai querer ficar de fora?).
Educar?... Ah, senhores sonhadores e idealistas, não há mais tempo, pois as pulseiras estão causando, a cada dia, ou noite, mais violência, estupro, assassinato de meninas que só queriam viver a moda. Pra piorar a situação, tem muito marmanjo aproveitando a ‘onda’, pra violentar mais crianças, matando-as, e deixando, ao lado dos corpos, as “pulseiras do sexo” arrebentadas (o grande trunfo do “consegui”).
As proibições já começaram. No Rio de Janeiro, a equipe da Secretaria Municipal da Educação proibiu o uso das tais pulseiras, em todas as escolas públicas, onde está havendo ‘varredura’ geral. Em Santa Catarina, os deputados aprovaram projeto proibindo a venda das pulseirinhas. Se o comerciante catarinense teimar em vender, leva multa de cinco mil reais.
Se não fosse a “pulseira do sexo” (expressão que combina mais com sex shop), já teriam inventado outro sinal, com toda certeza, por que os adolescentes crescem querendo romper barreiras, atraídos pelo proibido. Sei que muitas “festas semáforo” são realizadas por todo lugar, com a participação de “menores de idade”. A festa ‘funciona’ da mesma forma das pulseiras, utilizando as cores verde, amarelo e vermelho, que identificam as intenções dos jovens – verde: tá a fim de ficar; amarelo: tá pensando, não decidiu ainda; vermelho: cai fora.
Não sei se você lembra o tempo em que foi lançada a educação sexual nas escolas. Muitas pessoas manifestaram-se contra, alegando que as aulas despertariam “a curiosidade” dos adolescentes. Oras carambolas, educação sexual, em casa e na escola – diálogo, “triálogo” -, ainda continua sendo a melhor vacina. Só precisa suprimir algumas palavrinhas: pecado, culpa, medo e similares.
O que penso a respeito é que essas garotas (a maioria brinca de bonecas, escondida) não são retardadas, nem os garotos que ficam de olho nas ditas pulseiras. Isso a gente sabe. Garotos e garotas querem reproduzir o “jogo adulto da sedução”. É inocente (acredite!), sem me referir a julgamento (inocente ou culpado). Falo da inocência genuína, aquela que nos move, na primeira infância ainda, à masturbação, na descoberta do próprio corpo que habitamos (tem pesquisador bisbilhoteiro espiando feto se masturbar, no morno líquido amniótico). Por isso, repito, é inocente, mesmo quando a menina e o menino dizem: “não se metam na minha vida”. Por já termos vivido a adolescência, sabemos dos medos e dos desejos, nem sempre contidos. No meu tempo, não havia tanta moda. Por sorte, ou azar, eu ainda resolvi ser uma adolescente rebelde – não convivia com meus contemporâneos, queria buscar meu próprio caminho, que até hoje não achei...
Tá bom. Apreendem os adereços de silicone. Retiram tudo do mercado e dos pulsos das crianças e dos adolescentes. Acham que, assim, tudo fica resolvido?... Perdem o acesso às ditas pulseiras, perdem o desejo de seduzirem, de serem seduzidos, não querem mais saber do “proibido”?... ‘Porra’! Só aceito uma opinião dessas, se a última argumentação for: Papai Noel existe. E se os adolescentes e crianças resolverem criar “códigos de apelo sexual”, usando materiais escolares – como fica?...
Ah, por favor, senhoras e senhores puritanos, moralistas, não venham com a conversa de celibato, etc e tal. ‘Prestenção’ nas manchetes diárias sobre casos de pedofilia cometidos por religiosos – considerados, até há pouco, “celibatários exemplares” -, em todo o planeta.
Ninguém nasce adulto e maduro (depois, alguns se perdem no caminho). Mas cada criatura precisa (merece) saber que pode fazer o que quiser com uma roupa, um adereço, uma revista, e o próprio corpo – há tempo de cada coisa... Mas precisa aprender a assumir tudo isso – e muito mais... “Liberdade, liberdade”, sim, com responsabilidade, sempre – isso precisa ser ensinado, aprendido, esclarecido, compreendido.
Imagine: num sex shop, o que fariam uma criança de um aninho de idade (fase da dentição), uma senhora evangélica (fase da crença), uma mulher bem resolvida (fase da maturidade) e uma drag queen (fase da purpurina). Imaginou?... ‘Poizé’, com as ditas pulseirinhas, a situação é a mesma – “cada qual, cada um”. É o que acho – eu, que já li Cassandra Rios, pra constatar isso...

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