terça-feira, 20 de abril de 2010

Quintaninha

Com toda certeza, foi Mário Quintana o primeiro autor que eu, nos meus cinco anos de idade, aprendi a ler. O Correio do Povo ainda era do tamanho standard (velhos tempos!), e o Caderno H estava sempre lá, todos os domingos, quando meu pai comprava jornal. Anos depois, Quintaninha já me era íntimo, pois eu lia e relia tudo o que havia publicado dele. E continuo relendo, até hoje. Foi aí que surgiu a Jornada Nacional de Literatura, e eu fui convocada pra fazer a cobertura para o jornal em que trabalhava. Tente imaginar minha tristeza! hehehehehehehe
Pra conseguir entrevistas exclusivas com os escritores convidados para o evento, até que me dei bem. Claro que não vou revelar as ‘armas’ que tive de criar, pra conseguir que me atendessem, pois ainda as utilizo (as ‘armas’ jornalísticas). Confesso que, ao ler a lista dos escritores convidados (Josué Guimarães, Moacir Scliar, Sérgio Caparelli, entre outros que não marcaram a minha memória), o nome Mário Quintana (lá estava ele!) me causou emoção. Finalmente, eu encontraria o ‘cara’ que me motivou a aprender a ler. Foram “tantas emoções”, que os meus dias que antecederam ao grande dia (entrevista) foram recheados de ideias malucas – nos encontraríamos, e Quintaninha já saberia da minha existência, e conversaríamos sobre tudo: os livros que ele estava escrevendo e traduzindo, os livros que eu estava lendo, até perdermos a noção do tempo.
Claro que não foi assim o nosso (único) encontro. Suprimindo como consegui a “impossível entrevista”, lá estava eu, no hall de entrada do hotel, de olho na porta do elevador, que não abria, acompanhando o tempo, que também não passava. De repente, eis que surge Quintaninha – passsos envelhecidos e olhar de menino. Olhou pra mim, e sorriu, cumprimentou-me com a mão com veias grossas. Depois do “bom dia, como é seu nome?” – convidou-me a entrar com ele, de volta ao elevador, que, acionado pelo escritor, nos levou ao restaurante vazio, na cobertura do hotel. E eu sem tirar os olhos de Mário Quintana, sem falar coisa alguma – extasiada, estupefata, idiota mesmo.
O escritor deve ter percebido meu nervosismo emocionado, por que tomou a iniciativa de contar que “ainda tenho uma entrevista no programa já, aqui na cidade”. O “já” que ele se referiu era o Jornal do Almoço, programa tradicional, até hoje, nos canais de uma televisão. Expliquei-lhe isso, mas não deu bola, continuou rindo. Rimos juntos, para depois conversarmos sobre literatura, escrita, escritores. Nunca fui “repórter avalanche”, que enche o entrevistado de perguntas. Prefiro ligar o gravador, e deixar fluir – venha o que vier. Só pergunto o que não me foi esclarecido – no máximo, isso. Assim também fiz com Mário Quintana, que me contou “causos” de Alegrete (as lembranças da infância no interior gaúcho – a natureza a perder de vista, sem uma casinha sequer). Depois, me disse que não se enxergava como escritor, poeta, pois escrevia e publicava o que pensava, imaginava - com naturalidade, sem esforço. E ainda fez um comparativo sobre nós dois sermos “operários da imprensa”, que eu devia saber o que ele falava. Eu sabia.
Talvez, o que mais tenha marcado em mim, naquela entrevista única, não foram as palavras de Quintana, mas os mínimos gestos, o sorriso maroto, o olhar irônico e inquieto, e as mãos pousadas suavemente nos joelhos miúdos. Quintaninha tinha estatura pequena. O que denunciava-lhe velhice era o andar lento, meio torto, uma leve curva nas costas, quase desapercebida, por causa do sorriso constante. Ah, a cabeça dele chamava a atenção: poucos cabelos brancos, rugas marcadas pelo tempo – o mesmo tempo que o “guri” continuava negando.
Naquela época, eram poucas as entrevistas publicadas com Quintaninha. O que eu mais conhecia mesmo era a obra dele. Deixá-lo à vontade me deu prazer enorme, pois percebi que ele não parecia preocupado com horário, ou outra coisa qualquer. Pediu cafezinho, fumou uma meia dúzia de cigarros, sempre sorrindo. Falamos sobre o livro infantil mais recente que ele lançara: “Pé de Pilão”, o qual ele presenteou-me, com um exemplar autografado (depois, dei o livro a um garotinho que estava aprendendo a ler). Quintana falou da esperteza das crianças, do alcance de raciocínio às “coisas adultas”, e acrescentou que estava gostando da experiência de transitar novamente pelo universo infantil.
Depois, claro, falou sobre a importância da Jornada de Literatura, elogiando a iniciativa, etc e tal. Não sou muito ligada nessa ‘coisa’ chamada tempo, mas, com toda certeza, conversamos muito mais que uma hora – ele também gostava de olhar bem nos olhos do outro olhar. Acompanhou-me ao hall do hotel, agradeceu-me a companhia, e, com um ‘tiau’, convidou-me pra ir à abertura da Jornada. Claro que eu fui – e lá estava Quintaninha, no centro de uma mesa enorme, de um grande palco, do maior holofote. Falou pouco, mas o pouco que disse fez o público silenciar, em pleno hipnotismo literário...

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