sexta-feira, 9 de abril de 2010

Rosário do Rio

Rosário do Rio – Rio de Janeiro. Mais uma criatura que nasceu na rua, se criou nas ruelas da favela. Quando adolescente, insistiam para que ela providenciasse certidão de nascimento. “Pra que, se não sei ler mesmo, e já sei que tô viva?” – repetia, e dava às costas, carregando sempre alguma bacia de roupa por lavar, ou um saco de recicláveis. Rosário não tinha sobrenome, e o nome foi-lhe emprestado por algum morador da favela, mas ninguém mais lembrava quem era. Ouvia o nome “Rosário”, saía correndo, sempre disposta a socorrer.
Desde menina, Rosário tinha um sonho só: queria ser destaque na Escola de Samba do coração – a sempre amada Mangueira. Quando pensava nisso, a garota sambava no morro, ao som de tambores, cuícas, agogôs, e tantos instrumentos de percussão que só ela ouvia, e dançava livremente, às vezes até cantarolando um dos sambas-enredos que mais gostava.
Rosário cresceu sem lar, sem família, aqui e acolá, de barraco em barraco, a vida inteira na mesma favela esquecida. Para retribuir os favores que a mantinham viva, Rosário limpava barracos, cuidava de crianças, catava papelão, latinhas, plásticos. Tinha o hábito de tomar incontáveis banhos diários, por que, desde pequena, acreditava que, lavando a pele negra, um dia seria branca, e a vida iria melhorar. Vida melhor, para Rosário, seria ter o próprio barraco, e até o luxo de uma cama limpinha. Nunca teve.
À noite, quando o cansaço trazia o sono, Rosário procurava um cantinho silencioso, atrás de algum barraco apinhado de gente, e ali encostava o corpo, que adormecia sem sonho algum. No outro dia, levantava antes do sol chegar na favela. E lá ia Rosário varrer o chão da padaria, para comer um pãozinho mais adormecido que ela.
Logo agora, que todo mundo está levando doações (comida, móveis, roupas, até eletrodomésticos) à favela, Rosário não pode receber, e agradecer com o sorriso branco e tímido. Homens públicos, dentro de ternos importados, que Rosário nunca ouviu falar, conjecturam, em gabinetes com ar condicionado, culpam-se mutuamente, enquanto lá fora a lama continua tomando conta das ruas, dos morros, até chegar à última esperança. Rosário não sabe disso – jamais saberá. Rosário está morta, e não há um só alguém que chore a morte dela, por que Rosário é só mais um número, entre tantos seres humanos que trabalhavam e se alimentavam de sonhos de vida melhor. Simplesmente.

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