quarta-feira, 26 de maio de 2010

“Deu no que deu”

Se, antes, a expressão era “deu pra quem deu”, agora, a mais usual tem sido mesmo “deu no que deu”. “O que que é isso, senhores ouvintes”?... 'tá' tudo muito doido, e não temos a companhia da loucura de Nietzsche (“do caos nascem as estrelas”). Ultimamente, caos causam mortes (sem renascimento), e as estrelas brilham menos que bombas e projéteis pelos céus... Socorro, Zaratustra!...
Já 'tô' até lembrando Raulzito: “quando acabar, o maluco sou eu”...
Tem cadeirante passeando e ultrapassando caminhões, pelas BRs da vida. Um cara instalou motor de motocicleta na cadeira de rodas, e viajou, literalmente, na estrada (quem sabe até sentindo-se um Senna). Mas foi por pouco tempo – a polícia rodoviária “cortou o barato” dele. O aventureiro foi pescador, tem 45 anos, e não tem as duas pernas e um braço. Imagine, se...
A imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do nosso Brasil, já não significa mais só adoração. Há pouco tempo, uma quadrilha resolveu ‘homenagear’ a Santa, criando mais de 30 imagens (enormes, lindas mesmo) da Senhora Aparecida, recheadinhas de maconha. Se a polícia não tivesse descoberto o crime, numa dessas, haveria algum extravio, “no meio do caminho”, e... “fé demais não cheira bem” (mesmo).
Uma matéria especial, em tv aberta, quase me convenceu, dia desses, a não tomar mais água, nem banho. Sabe o que é pior, nisso?... É que tem muito pobre coitado que acredita nas estorinhas que os “sábios médicos” entrevistados contaram... Se tomar banho tira as ‘coisinhas’ da minha pele, produzidas pelo meu organismo, e isso não é bacana (saudável), não deveriam existir rios, mares, oceanos, até chuva, por que, de um jeito ou de outro, todos nós, animais, tomamos banho, e ainda banhamos as “violetas na janela”. E ainda bem que tomamos banho (já pensou no ‘perfume’, depois de décadas?)...
Tem ‘neguinho’ tirando toda roupa, na dita porta eletrônica de agência bancária, pra poder entrar, o que só consegue de cueca (portinha ‘sacana’ essa, hein?). Pensa que é só homem que sofre, pra sair mais ‘pelado’ ainda da agência, depois de pagar, pagar, e continuar devendo?... Que nada!... Há algum tempo atrás, uma mulher ficou trancada do lado de fora da ‘senhora’ porta de uma agência bancária, enquanto o segurança orientava que ela deixasse chaveiro, celular, e todos os metais. Deixou até o que não tinha, e a porta continuou travando, negando entrada. A mulher desceu, literalmente, do salto, e tirou a blusa. É verdade que despiu-se dentro da agência, e continuou gritando, em total descontrole emocional. Agora, me diz: numa dessas, você também não se irritava?... A “tragédia humana” rendeu 70 mil reais de indenização (por constrangimento) à mulher, com ‘preju’ (bagatela) ao banco... Com tantas circunstâncias vexatórias como essas, os banqueiros deveriam tirar algumas moedinhas do ‘cofrinho’, e contratar ‘adestradores’ de portas eletrônicas (Brasil ‘tá’ cheio de técnicos disso e daquilo)...

Voltem – Raulzito, Jorge Amado, Elis, Mussum, Costinha, Mamonas, Dercy, Golias, Zacarias, Quintana, Chacrinha, Oscarito, Paulo Francis, Bussunda, Simonal, Mazzaropi, Artur da Távola, Nair Belo, Bezerra da Silva, Cazuza, Arnaud Rodrigues, Grande Otelo, Imperial, Carequinha, Tim Maia, e tantos outros irônicos personagens desta vida!... A ‘coisa’, por aqui, vai que vai – e continua indo (e ainda nem chegamos ao horário gratuito de propaganda eleitoral)...

Ah, se pelo menos Nostradamus tivesse previsto...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O que fica

(des)aforismos paradiso vidas medo loucura leitura canções risadas calor conversas sonhos choro silêncios brincadeiras trabalho coca-cola acontecências arroz madrugada beterraba gaguejar chatice gelo tomate sons crianças banheira dores adolescência ronco poesia infância escola família piadas cheiros frio fotografias ouvir olhares sono cócegas informações banho chocolate compreender surpresa emoção falar chuva sentido palco trocas colo velhice segredos gritar perguntas projetos descobertas rede banheiro lembranças livros gratidão nuvens quintal cobra cantar feijão ruídos imagens bolo gravações notícias morte cozinha tempo folhas cochichar viagens encontro ideias força água palavrões unhas estopa arrotos amizade literatura varanda letras mãos cabelos cores remédios nomes pedras assovio árvores doenças saudade receitas espera procura técnicas saladas delírios besteiras memórias caminhadas artes diálogo escuro parede nadas micos aplausos cenas certezas aspas fragilidade personagens pãozinho tamborilar tricô lareira tristezas calçada filmes óculos garoa bastiana preguiça tempero beleza fogão conhecer batata alegrias ninar tabacaria morrer quadro pia fio vadiagem mesa moleza queijo geladeira retrato veias tda vazio sofá ninho jantar pássaro violão existencialista cais caranguejo vírgula códigos borboleta alma sentires vinho cigarra sossego trem cansaço edredon gostos gramado essencialista companhia imaginação castanhas abraço ar mingau letras solidões telefone suco geladeira porto números vozes indigo piano passos calma pensares fuga notas amar...

sábado, 22 de maio de 2010

Papo com o Papa

Antes de tudo e de mais nada, Papa Bento XVI (em latim, “Benedictus PP. XVI”), Sumo Pontífice, quero dizer que protelei o máximo que ‘guentei’, até começar a escrever isso aqui. Não foi fácil segurar, por que, quando menos espero, o Papa apronta mais uma, que supera todas as outras já prontas. Que fique bem dito (e bendito também) que não sou contra, nem a favor – muito antes, pelo contrário – de qualquer religião. O meu papo é diretamente com o Papa (cidadão).
Comecei desconfiar do senhor, Papa, quando visitou a África, e “jogou contra” o pessoal da Organização Mundial da Saúde, que trabalha na conscientização e na prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) e AIDS. Ainda não entendi aquele papo de o Papa dizer que “os africanos não podem usar preservativos, por que a semente que é semeada não pode ser jogada fora”, e blá blá blá.
De lá pra cá, Papa, a ‘coisa’ só piorou. O senhor não me dá oportunidade para admirá-lo. O seu conservadorismo me irrita, mas, antes disso, me preocupa, por que Papa é Papa, né?... (Só de pensar que pode haver um monte de gente contaminada – por AIDS, ou DST, e outras tantas doenças -, orgulhosamente dizendo que “o Papa mandou não usar preservativo”, me causa indignação e revolta.)
A última (penúltima, provavelmente – já ‘tô’ desatualizada) do senhor, Papa Bento XVI, diz que “o aborto e o casamento gay são as maiores ameaças do mundo atual”. À revelia de todo conservadorismo que o senhor possa idealizar, Sumo Pontífice, a humanidade ainda (parece) se sente livre para decidir sobre o próprio corpo. Nunca abortei, nem me passou pela cabeça casar com alguém do mesmo sexo - ultimamente, nem do sexo oposto (casamento – ‘tô’ fora). Apesar disso, como cidadã deste planetinha chamado Terra, me vejo com toda liberdade para manifestar minha indignação, diante do seu conservadorismo ‘papal’.
Tento amenizar minha visão em relação às suas manifestações absurdas, no mínimo, retrógradas, Papa Bento, lembrando o pouco que li sobre a história da criação da igreja católica. Os tempos eram outros (barbárie), e, ao que me parece, era necessário frear a violência, a libertinagem, a animalidade dos seres humanos. Até acho que não evoluímos tanto, de lá pra cá, mas hoje pensamos mais, com a nossa própria cabeça. Aprendemos a raciocinar, Sumo Pontífice. Já não aceitamos o dedo em riste, acompanhado da palavra “pecado”, sem direito à defesa. Descobrimos que somos livres, e mais livres ainda, quando assumimos e respondemos por toda a nossa liberdade, Papa. Eureka!...
‘Tá’ certo que há muitos povos ainda – exemplo, alguns africanos – mais ignorantes que toda a humanidade, que ainda preferem obedecer, sem pensar, pra não precisar assumir ‘porra’ alguma na vida (ops! escapou um palavrão – foi mal, seu Papa!)... Mas, apesar disso, e por isso até, as lideranças, acho, não deveriam reforçar a ignorância. Sei lá. Penso que a conscientização é sempre feita de forma gradual, e passa também pelos líderes da humanidade.
Poxa, Papa Bento, como é que o senhor sai dizendo por aí, por todo lugar, que ‘num’ pode usar preservativo, ‘num’ pode abortar, ‘num’ pode casar com alguém do mesmo sexo?... ‘Num’ pode!... ‘Num’ pode!... ‘Num’ pode... E o que pode, Papa? – pergunto eu, que abomino a palavra “pecado”.
Membros do clero católico que praticam pedofilia – pode, Papa?... Participação de grandes líderes da igreja católica, no holocausto – podia, Papa?... Freiras que aterrorizaram milhares de meninos e meninas em escolas – podia, Papa?... ‘Peraí’, Sumo Pontífice, tem mais uma (lembrei agora): Sentir inveja é “pecado”, Papa Bento?... Mas não foi o senhor mesmo que lembrou os episódios vividos por Francisco, Jacinta e Lucia, e admitiu sentir "inveja por eles terem visto Nossa Senhora"?... ‘Num tendi’!... Dois pesos e duas medidas?... O que mais o senhor pode, que a humana humanidade não pode, com todo respeito, Papa Bento?...
Lembro agora do presidente paraguaio, e ex-bispo católico, Fernando Lugo, que coleciona pedidos de reconhecimento de paternidade. Coitado!... Cá entre nós, Papa Bento XVI, é de conhecimento público que o ‘privilégio’ (padres e bispos católicos com filhos) não é só do Paraguai, né?... (Nem vou manifestar minha opinião sobre o celibato forçado, por que o senhor sairia correndo.)
Não quero crer que o senhor ainda creia, Papa Bento, que “sexo só não é pecado, quando praticado após o matrimônio, para procriação”. Se a relação sexual fosse pra “procriação da espécie”, no mundo em que vivemos, o qual, acredito, também, seja o seu mundo, Papa, faltaria espaço, no planeta, pra tantos nascituros.

Vou além das imaginações – permita-me, Sumo Pontífice:
Conversa entre amigas:
- Depois de dois anos de casamento, a relação sexual de vocês continua ‘quente’?...
- Que nada!... Ainda sou virgem!... Filhos, só mais tarde...

A esposa liga para o marido:
- Vem logo pra casa, amor, que ‘tô’ ovulaaaaaaaaaand...

Na comemoração das Bodas de Marfim do casal, a esposa chora, enquanto o marido a abraça, dizendo:
- Nunca te vi tão emocionada, meu bem...
- Entrei na menopausa, bem... A partir de agora, sem sexo – nem de três em três anos, pra ter filhos... (o marido chora junto)

Pra que o senhor não me leve a mal (nem pra sua casa), Papa Bento, retiro o velho latim do baú: “Iustitia et misericordia coambulant” (A justiça e a misericórdia andam juntas). Só mais uma: “Tempora mutantur et nos in illis” (As circunstâncias mudam, e mudamos com elas).

“Dixi”.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Na boiada da vida

‘Tá’ bom, ‘tá’ bom... Não diga não. Diga sim, sim - pra tudo, pra todos.
- Aceita a vida que te desanima, e sempre diga: “Se Deus quer assim...”
- Não reclama das horas-extras que você é obrigado a fazer, sem qualquer pagamento por isso.
- Sorria e agradeça a todos que te humilham, pisoteiam teus sonhos.
- Obedeça, obedeça, não raciocina, não pensa, nada questiona.
- Não reclama do aumento nos preços do pão, da passagem do ônibus, da roupa, do feijão.
- Não dá importância, se alguém te esquece, no meio do caminho.
- Faça, por que todo mundo faz; diga, por que todo mundo diz; te omita, por que todo mundo se omite mesmo.
- À noite, assista muitas novelas (todas), e realitys shows; e, durante todo dia, fofoca, fofoca muito, fica de olho mais na vida dos outros que na tua vida.
- Busca somente prazeres momentâneos, por que amar dá muito trabalho.
- Faça tua família te odiar, por que você é muito mais você, sem família alguma.
- Não esqueça: em primeiro lugar, você; em segundo lugar, você; em terceiro lugar, você... sempre, você.
- Beba pra esquecer, e depois beba pra lembrar que esqueceu.
- Espezinha os teus íntimos, com indiferença e desrespeito, e trata os teus estranhos, com extremo respeito e atenção.
- Fuja de quem não concorda contigo, e busca só quem te bajula.
- Trabalha muito, pra ganhar mais, endividar-se mais ainda, comprar o que não precisa, exibir quem você não é, pra quem você nem sabe.
- Ama somente os que te odeiam, ou te invejam, e comemora a companhia deles.
- Vota nos candidatos bonitinhos, sedutores, por que os feios e sérios são chatos demais, e ficam horríveis na foto.
- Nega amizade, amor, diga não a tudo que possa te fragilizar e machucar.
- Se algum sonho ainda sobrevive em você, cruza os braços, ou levanta as mãos aos céus, que, quando você menos esperar, chove, ou cai alguma ‘merdinha’ de pássaro.
- Não aceita favores, nem os faça a ninguém, por que tudo tem preço, nesta vida de comércio humano.
-Valoriza as pessoas, pela conta bancária de cada uma delas.
- Lembra que ninguém merece a maravilha que você é, e aceita a solidão como troféu.
- Jamais mostra as tuas lágrimas, por que fará muita gente rir da tua cara.
- Não creia que alguém te ama de graça, por que amor também é produto comercializável.
- Finja, finja tudo, pra todos - o tempo inteiro.
- Joga fora todas essas baboseiras que não dão dinheiro: poesia, música, literatura.
- Aceita e obedeça as mudanças que o mundo quer fazer em você, e te mata, se preciso for, pra atender a todos.

E ainda canta o poeta Gonzaguinha:
“...Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: ‘Muito obrigado’
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado...”

Ah, só não esqueça que, se você agir assim, pode andar de quatro por aí, numa boa – siga a boiada, que vai logo ali adiante...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

“Salve-se quem puder”

Vivemos os tempos de “salve-se quem puder” (e quem não puder, vai ‘sifu’ mesmo). Sobre o que escrevi ali embaixo, no outro post, vou te dar algum combustível, pra que você vá além do que imagino:

Na maternidade, conversa entre atendentes de enfermagem:
- Ah, hoje vou trocar o cinco pelo oito, por que a família não tem louros...
- E eu vou trocar o neguinho mais lindo e sorridente da maternidade por aquele chorão ali, por que ninguém merece, né?...

Na pré-escola:
A professora: - Zézinho, o que você fez nas férias – passeou, viajou com a família?...
Zézinho: - Sim, ‘fessora’, “a gente fomos” pra outro bairro, e minha mãe me deixou lá com a minha mãe, que ‘tava’ com o filho da minha mãe, e devolveu... ah, ‘fessora’, agora não me chama mais Zézinho, não. A minha mãe ‘de agora’ disse que meu nome é Francisco, Chiquinho. Essa mãe queria passear comigo, eu não quis, por que não quero mais saber de mães...

Conversa entre duas amigas, na padaria:
- Nossa, minha amiga! Como tua filha branqueou...
- Não, ela não é a moreninha. A moreninha foi trocada, na maternidade, por essa branquinha. Mas essa é minha filha mesmo – a outra também era...

A ‘aborrecente’ revoltada com a mãe:
- Eu não queria que você fosse minha mãe, mas não pude escolher...
A mãe: - Ah, escolheu, sim, por que, na noite que você nasceu, três crianças foram trocadas, naquela maternidade...

E, pra fechar, ou abrir (a porta da agência bancária):
O segurança da agência bancária para o cliente barrado na porta:
- Senhor, por favor, deposite aqui os objetos de metal que o senhor deve ter nos bolsos...
- Não vou depositar mais nada. Pelo contrário. Só quero que a minha família receba o seguro de vida que fiz... manda ver, seu guarda! Pode atirar!...

Por enquanto – ainda bem! – isso tudo parece piada... que continue, por que, senão, vai faltar ‘merda’ pros humoristas de plantão criarem...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O buraco é mesmo mais embaixo

‘Tô’ começando a pensar que nossos tataravós tinham razão, se falaram mesmo que haveria tempo de perdição total.
Como se não bastasse essa ‘merda’ toda de crianças serem abandonadas pelos pais, agora ‘tá’ tornando-se banal, a troca de bebês, nas maternidades. Por todo o Brasil, não há uma semana que não se tenha notícia dessas trocas irresponsáveis. Será que a diversidade que temos é pouca à próxima geração?...
Do jeito que a coisa ‘tá’ descambando, daqui a pouco, as famílias, que já não se unem, nem se reúnem mais, não terão nem justificativas mesmo, pra continuarem sendo famílias. Até há pouco tempo, ainda se ouvia falar “sangue do meu sangue”, “família a gente suporta”. Daqui a pouco, se continuarem as trocas de bebês, todo mundo vai constatar que o buraco é mesmo mais embaixo – quando você pensa que chegou ao fundo, o fundo fica mais fundo ainda.
E ainda tem gente roubando bebês de maternidade – ou desconhece o triste fato de haver tanta criança abandonada por aí, por aqui, em qualquer lugar, ou ‘tá’ confundindo bebê com mercadoria. Uma adolescente (16 anos) roubou uma garotinha da maternidade, justificando que, há poucos meses, sofreu aborto espontâneo. Do jeito que a coisa ‘tá’ indo, gente, daqui a pouco, haverá justificativa pra tudo mesmo. As rédeas estão nas mãos da Justiça: ou segura com firmeza, seguindo as tantas leis do País, ou abre brecha, com condescendência, na interpretação das justificativas dos (ir)responsáveis pelos “delitos”.
Sabe o que acho pior, nessa ‘merda’ toda?... É o olhar complacente dos telespectadores, diante de uma notícia dessas. ‘Tá’ certo que o caso nem serve mais como manchete sensacionalista, em razão do número crescente de casos de bebês trocados, roubados em maternidades, por todo o Brasil. Quem assiste, comenta: “Mais um?”... e só.
Dia desses, surgiu mais um caso de troca de bebês em maternidade. A troca aconteceu há mais de um ano. Uma das mães ficou sem marido, por que o dito cujo desconfiou que o filho não era dele. Com a separação do casal, a mulher decidiu fazer exame de DNA do bebê, quando foi constatado que, além de o marido não ser o pai da criança, também ela não era a mãe. Imagine a confusão. A polícia entrou no meio - “maior barraco” -, pra depois as mães envolvidas destrocarem os filhotes, aos prantos, claro.
Achou pouco tudo isso?... Então, segura mais essa: Cuidado, se você costuma frequentar agência bancária, lugar comum, nesta época de cartões de débito e crédito. Dia desses, um cidadão foi ao Banco, pra retirar o primeiro saque da tão sonhada aposentadoria. Só que o pobre coitado usava marcapasso, e, obviamente, aquela (conhecida de todos) portinhola chata da agência o deixou plantado do lado de fora. O segurança se aproximou, o cidadão apresentou documento de usuário de marcapasso, e, pelo visto, não convenceu. Ambos discutiram. Final da história: Morte cerebral ao recém aposentado, que foi alvejado à queima-roupa pelo segurança, que justificou, na delegacia, que cometeu o crime, em “legítima defesa” (????).

Se nascer e permanecer na mesma família que concebeu o herdeiro ‘tá’ difícil, viver está mais ainda... Por isso, por precaução, o melhor mesmo é não fazer tantos planos de longo prazo, nem sonhar demais com aposentadoria...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

As “pequenezes” da vida

Como diz uma amiga, “a vida é feita de pequenezes”. É preciso que a gente esteja atenta, senão as “pequenezes” passam, feito nuvens...
Dia desses, fui pra um ‘interiorzão’ desconhecido do meu interior. Desde criança, guardo aquela imagem bucólica, que sempre me acalmou os ânimos. As coisas mudam, né?... ‘Poizé’. O bucólico ficou só nas minhas lembranças, por que a realidade que enxerguei lá, no ‘interiorzão’ daquele interior, foi, pra mim, triste, ácida. Conto já.
No campo, o que mais gosto de fazer, depois de me embrenhar no meio do mato, é sair, “sem lenço, sem documento”, pela primeira estradinha que apareça: este é sempre o meu rumo. Saí. Lá adiante, encontrei uma senhora, baixinha, falante, e com ela segui a caminhada de sombras de grandes árvores.
Eu, ainda embevecida, extasiada, emocionada, respirando natureza, comentei o quanto gosto de mato, sem precisar ser, ser. A senhora me olhava, em silêncio. Talvez, com a minha empolgação, ou pela minha expressão idiota, diante das árvores, ela resolveu falar: “Ah, eu não gosto daqui, não. Aqui, não acontece nada. E a gente, que tem fogo no rabo, sofre pra sair daqui, procurar um bailão, arranjar namorado.” (fiquei sem fala)
Mais adiante, depois de me despedir daquela senhora, talvez, na tentativa de esquecer o incidente, comecei fazer fotos das raras nuvens que brincavam de esconder-se entre os enormes galhos das árvores que brilhavam com o sol. De repente, uma mulher (mais jovem que a aquela senhora), se aproxima e diz, em tom de espanto: “Você está fotografando as nuvens”. E eu, esperançosa (alguém também enxerga toda essa natureza exuberante): Sim, eu coleciono fotos de nuvens. E ela: Isso não te dá sono? (Depois dessa, desisti, resolvi voltar pro meu interior.)

... Outra historinha sobre as “pequenezes” da vida. Toda cidade tem seu louco, ou louca, da praça. Aonde moro, eles (os loucos) se revezam, não só na praça, como também perambulando pelas ruas do centro da cidade.
Tem uma mulher de rua (com seus 35-40 anos) que me chama a atenção. Sempre vestida com enormes casacões (faça frio, ou calor), ela carrega diversas sacolas plásticas cheias, e anda de um lado para o outro, por todo o centro da cidade. Passei observá-la mais atentamente, depois que a vi, num canteiro central de uma rua, fazendo xixi, seguindo todo ritual que se encena num banheiro. Primeiro, ela depositou as sacolas junto à árvore do canteiro. Depois, de cócoras, baixou as diversas calças que usava, e ali urinou. Ainda acocorada, a mulher procurou um pedaço de toalha de papel, numa das sacolas, limpou-se, levantou, suspendendo as calças, retirou uma garrafinha pet de outra sacola, lavou as mãos, e atravessou a rua.
O mais interessante que observei, nesta andarilha, é que ela mantém todo ritual de quem já teve uma casa. Sei que é ousadia minha imaginar isso, mas imagino. Percebi que, em cada sacola plástica, ela carrega roupas e objetos separadamente utilizados. Explico. Ela mexe e remexe aquelas sacolas, como quem vira e revira gavetas e armários, sabendo onde encontrar o que procura. Ela é arredia, não fala com ninguém, e desvia de todo movimento de pessoas, nas ruas. Caminha perdidamente, de um lado para o outro, demonstrando não estar vindo de lugar algum, sem ter pra onde ir. E passa, pelas calçadas da vida, mais desapercebida que as nuvens, que ela nem olha...

Há outro velhinho que está sempre catando lixo, pelas ruas. Ele cata o lixo jogado nas ruas e calçadas, coloca numa sacola plástica que carrega, e depois deposita a sacola (cheia) numa lixeira qualquer que encontra pelo caminho. É assim que perambula, todos os dias, pela cidade. Ninguém vê. Ninguém sabe que, por causa do velhinho, as ruas ficam mais limpas. Talvez, nem ele mesmo pense sobre isso.

São as “pequenezes” da vida que passa, na companhia do tempo...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Morto vale mais

Há pouco, fiquei sabendo que o quadro de Pablo Picasso “Desnudo, hojas verdes y busto” (Nu, folhas verdes e busto), de 1932, foi arrematado por 106,4 milhões de dólares, um recorde para obra de arte, na casa de leilões Christie's, de Nova Iorque. Com toda certeza, Picasso vivo nunca faturou tanto.
A exemplo dele, em piores situações até, outros tantos artistas morreram na miséria absoluta, e hoje têm suas obras supervalorizadas. Isso acontece com Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Beethoven, e tantos e tantos e tantos outros.
Isso me leva pensar que morto vale mais. Vou até mais longe, pensando que morto é mais visto, levado a sério, amado (quem sabe?). E não me refiro somente aos artistas, que, na maioria, têm suas obras reconhecidas e valorizadas, depois da morte deles.
Morto ‘tá’ valendo mais – que os viúvos e órfãos confirmem o que digo.
Não leve uma discussão adiante, quando um morto (ou morta) seja envolvido (a). Nem há elementos comparativos. O morto (morta) é a porteira escancarada de todas as possibilidades, enquanto nós, os “pobres mortais” humanos (ainda vivos), somos limitados, senão por nós mesmos, pelos outros, ou pelas circunstâncias interpretadas, e, como se não bastasse, ainda cometemos erros em cima de erros (morto já não erra mais).
Cá entre nós, eu fujo de conversas em que tentam fazer com que eu faça alguma coisa, justificando com “se fulano (ou fulana) estivesse vivo (a), faria isso, ou aquilo, por mim”. O morto (a morta) sempre faria tudo, diria as palavras mais sábias, e calaria com exemplar inteligência. Tem gente que diz que a morte santifica as pessoas (mortas, é claro!). Eu concordo, e vou adiante, pensando que, além de santificar, a morte causa a valorização do ser humano que não mais existe entre nós. Quantas vezes a gente nem “dá bola” pra uma criatura, que, quando morre, nos faz chorar de saudade?...
Renato Russo, que também já morreu, reproduziu uma frase que leu, num desses livrinhos de bolso, e que, até hoje, faz o maior sucesso, na música “Pais e Filhos”: “É preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã”. ‘Cão-cordo’ plenamente. Mais que cantar, temos de exercitar o amor, não só com palavras, mas gestos, atitudes, coisas que não se fala, por que não há palavras na nossa riquíssima língua portuguesa. Mas é preciso que exercitemos amor, com segurança, sem esperar que saibam reconhecer, que nos interpretem bem. Tudo o que é humano é passível de interpretação, que decorre da vivência particular de cada um. Não há o que exigir, a não ser doar amor, sem esperar compreensão.

... E pensar que eu pensava que eu não chegaria nos tempos em que haveria tamanha inversão de valores, quando os mortos valeriam mais que a maioria dos vivos juntos... Pelo menos, todo mundo morre... Que consolo!...

sábado, 1 de maio de 2010

Dia do trabalho, não do trabalhador

Lamentavelmente, dia primeiro de maio continua sendo Dia do Trabalho, não Dia do Trabalhador. A maioria (dos trabalhadores) trabalha, no dia primeiro. ‘Tá’ discordando?... Pense comigo (ou sem migo, mas pense): primeiro de maio tem festa, ou manifestação de entidades sindicais, movimentos sociais. Quem organiza tudo isso, dias, semanas antes, até chegar a hora?... Quem monta os shows de pagode, sertanejo, funk, ou seja lá o som que for, pra marcar o dito primeiro de maio?... Os artistas que se apresentam estão fazendo o quê?... Se alguma coisa, ou tudo, não dá certo, quem é chamado pra socorrer?... Quem é que lava a louça suja, também neste dia?... Tudo isso sobra para os trabalhadores, certo?...
Cá entre nós, além disso tudo que citei, muitos trabalhadores são obrigados a trabalhar nos feriados, finais de semana. E não ‘tô’ pensando só nos plantonistas, vigilantes, não. Tem muita gente “ralando no trampo”, pra não ser demitida. A fila de desempregados é sempre maior que a dos empregados – tem mais gente esperando na fila, que pouco anda. E ainda inventaram um tal de “banco de horas”, pra justificar mais tempo de trabalho, e menos contratações.
Em 1943, o então presidente Getúlio Vargas, que ainda não havia “saído da vida, pra entrar na história”, sancionou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pra “botar ordem na casa”. Antes disso, qualquer questão trabalhista ia parar na polícia mesmo, por que não havia outro jeito. De lá pra cá, muita coisa mudou, principalmente, a relação no trabalho, que cresceu, em todos os setores: informal, terceirizado, temporário, autônomo, etc e tal. Mas ainda existe muito trabalho escravo, nem sequer reconhecido por aqueles que o exercem.
Mas ainda tem coisa pior que isso tudo, acho. Pra maioria, trabalho é sinônimo de sacrifício, obrigação. Pode observar, sempre tem alguém trabalhando com a gente, de olho em concursos, procurando outro emprego, nas horas de folga. Isso sinaliza insatisfação, que, de um jeito, ou de outro, ‘respinga’ na atividade que exerce.
A gente ‘tá’ sempre em contato com tanta gente que trabalha, né?... Pois então perceba a diferença de alguém que trabalha com prazer e alguém que trabalha com sacrifício. Às vezes, encontramos esses opostos atendendo num só balcão – têm o mesmo salário, as mesmas horas semanais de trabalho, no mesmo ambiente. Bom humor e mau humor são distintos, até indisfarçáveis. Pode ser até que o bem humorado trabalhador seja um idiota, que nem pensa nos próprios direitos de cidadão. Mas, também, pode ser uma pessoa que sente prazer em trabalhar ali, fazendo o que faz, diariamente. Por outro lado, o mau humorado trabalhador pode ser o conhecido “reclamão”, que troca de empregos, ainda na “fase de experiência”, e sai falando mal dos locais onde trabalhou. Neste caso (que parece crônico), o trabalho serve mais como justificativa para o mau humor do pobre coitado.
Com toda certeza, amanhã será outro dia: dois de maio... Agora, chega de escrever e ler besteiras – vamos trabalhar!...

De olho