segunda-feira, 10 de maio de 2010

As “pequenezes” da vida

Como diz uma amiga, “a vida é feita de pequenezes”. É preciso que a gente esteja atenta, senão as “pequenezes” passam, feito nuvens...
Dia desses, fui pra um ‘interiorzão’ desconhecido do meu interior. Desde criança, guardo aquela imagem bucólica, que sempre me acalmou os ânimos. As coisas mudam, né?... ‘Poizé’. O bucólico ficou só nas minhas lembranças, por que a realidade que enxerguei lá, no ‘interiorzão’ daquele interior, foi, pra mim, triste, ácida. Conto já.
No campo, o que mais gosto de fazer, depois de me embrenhar no meio do mato, é sair, “sem lenço, sem documento”, pela primeira estradinha que apareça: este é sempre o meu rumo. Saí. Lá adiante, encontrei uma senhora, baixinha, falante, e com ela segui a caminhada de sombras de grandes árvores.
Eu, ainda embevecida, extasiada, emocionada, respirando natureza, comentei o quanto gosto de mato, sem precisar ser, ser. A senhora me olhava, em silêncio. Talvez, com a minha empolgação, ou pela minha expressão idiota, diante das árvores, ela resolveu falar: “Ah, eu não gosto daqui, não. Aqui, não acontece nada. E a gente, que tem fogo no rabo, sofre pra sair daqui, procurar um bailão, arranjar namorado.” (fiquei sem fala)
Mais adiante, depois de me despedir daquela senhora, talvez, na tentativa de esquecer o incidente, comecei fazer fotos das raras nuvens que brincavam de esconder-se entre os enormes galhos das árvores que brilhavam com o sol. De repente, uma mulher (mais jovem que a aquela senhora), se aproxima e diz, em tom de espanto: “Você está fotografando as nuvens”. E eu, esperançosa (alguém também enxerga toda essa natureza exuberante): Sim, eu coleciono fotos de nuvens. E ela: Isso não te dá sono? (Depois dessa, desisti, resolvi voltar pro meu interior.)

... Outra historinha sobre as “pequenezes” da vida. Toda cidade tem seu louco, ou louca, da praça. Aonde moro, eles (os loucos) se revezam, não só na praça, como também perambulando pelas ruas do centro da cidade.
Tem uma mulher de rua (com seus 35-40 anos) que me chama a atenção. Sempre vestida com enormes casacões (faça frio, ou calor), ela carrega diversas sacolas plásticas cheias, e anda de um lado para o outro, por todo o centro da cidade. Passei observá-la mais atentamente, depois que a vi, num canteiro central de uma rua, fazendo xixi, seguindo todo ritual que se encena num banheiro. Primeiro, ela depositou as sacolas junto à árvore do canteiro. Depois, de cócoras, baixou as diversas calças que usava, e ali urinou. Ainda acocorada, a mulher procurou um pedaço de toalha de papel, numa das sacolas, limpou-se, levantou, suspendendo as calças, retirou uma garrafinha pet de outra sacola, lavou as mãos, e atravessou a rua.
O mais interessante que observei, nesta andarilha, é que ela mantém todo ritual de quem já teve uma casa. Sei que é ousadia minha imaginar isso, mas imagino. Percebi que, em cada sacola plástica, ela carrega roupas e objetos separadamente utilizados. Explico. Ela mexe e remexe aquelas sacolas, como quem vira e revira gavetas e armários, sabendo onde encontrar o que procura. Ela é arredia, não fala com ninguém, e desvia de todo movimento de pessoas, nas ruas. Caminha perdidamente, de um lado para o outro, demonstrando não estar vindo de lugar algum, sem ter pra onde ir. E passa, pelas calçadas da vida, mais desapercebida que as nuvens, que ela nem olha...

Há outro velhinho que está sempre catando lixo, pelas ruas. Ele cata o lixo jogado nas ruas e calçadas, coloca numa sacola plástica que carrega, e depois deposita a sacola (cheia) numa lixeira qualquer que encontra pelo caminho. É assim que perambula, todos os dias, pela cidade. Ninguém vê. Ninguém sabe que, por causa do velhinho, as ruas ficam mais limpas. Talvez, nem ele mesmo pense sobre isso.

São as “pequenezes” da vida que passa, na companhia do tempo...

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