domingo, 27 de junho de 2010

História que não se conta

Durante o dia, era apenas mais uma planta, sem grandes atrativos, e por isso deixada de lado pelos olhares apressados. As flores eram poucas, e murchavam rapidamente, sem sequer serem notadas. À noite, ela reinava, absoluta, perfumando até os recônditos inimagináveis da alma humana. Mas ninguém tinha tempo e disponibilidade para pensar sobre isso. O tempo passava pela planta, desfolhando-a em desamparo.
Num dia qualquer, um ser humano distraído observou a planta, no canteiro da praça, e resolveu levá-la para casa. Na primeira noite, a planta encheu-se de perfume – tanto, tanto, que embriagou não só o ser humano, mas a humanidade inteira.
O ser humano, tão logo despertou para o que conhecia como ciência, tratou de descobrir que planta mágica era aquela. Escarafunchando velhos livros, com páginas esquecidas até pelo tempo, nos porões da biblioteca pública, descobriu tratar-se da “dama-da-noite”, de nome científico “Cestrum nocturnum”. Ávido por mais informações, leu em tantos livros que “a pungente fragrância da dama-da-noite é uma dos mais fortes entre as plantas, e suas flores atraem diversas espécies de abelhas, beija-flores e borboletas”.
Os olhos do ser humano encheram-se de orgulho, vaidade e ambição. Nos dias que se seguiram, o ser humano tratou de trabalhar em um projeto de divulgação da planta perfumada. Depois, o ser humano manteve contato com outros seres humanos (mais importantes), e passou a realizar viagens, pela humanidade inteira, exibindo a então chamada “exótica planta”. Tão logo percebeu que a planta era disforme, desajeitada em sua natureza, tratou de podá-la o quanto pôde, tornando-a um ‘quase’ bonsai. A planta já não era mais ela. Ele é que era - o dono da planta.
O ser humano estava tão ocupado em ganhar dinheiro com as exposições, que esqueceu de olhar a planta, com aquele mesmo olhar que um dia a notou, naquela praça desprovida de sol. Não havia mais tempo para outro olhar, senão o das contas bancárias e dos contratos com seres humanos que pagavam para exibirem a planta em seus palacetes e ambientes de grandes negócios. Em pouco tempo, o ser humano deixou de lembrar de regar a planta, e começou sufocá-la em caixas de viagem. Em muitas madrugadas frias, a planta enrijecia os frágeis galhos, expirando parco perfume, perdendo o viço que um dia teve.
A cada exposição, a planta ia murchando, murchando solidão, e o ser humano nem se apercebia. A humanidade inteira acabou assistindo a exposição da planta, mas, por não conhecê-la, não sabia a dor que a planta sofria. Todo ser humano que pagava para admirá-la, precisava chegar cada vez mais perto, aguçar o olfato, e, por fim, tentar imaginar o perfume almiscarado que, diziam, a planta exalava.
Era noite. Os holofotes da última exposição agendada haviam sido desligados. A planta, exaurida, sem perfume algum, exalou a própria morte, sem chamar a atenção da noite humana. Quando amanheceu, nem um ser humano percebeu que era a planta morta, no vaso esquecido em cima de uma caixa de papelão, na mesma praça onde nascera, cheia de perfume. Há quem ainda cruze aquela praça, e sinta a fragrância almiscarada da alma da planta, que já não existe mais.

P.S.: Qualquer coincidência com alguém que você conheça, é coincidência mesmo – ou não... sei lá

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