quarta-feira, 2 de junho de 2010

Tema recorrente

Acho que, enquanto eu estiver viva, vou pensar, e falar, e escrever, sobre um tema recorrente, na minha vida: a morte.
Hoje, parei pra pensar o que penso constantemente: a fluidez da vida. Quando se vê, ou nem se percebe, a morte chega sem avisar. Foi assim com (mais) uma pessoa que conheci. Ela viajava com o marido, para comemorar os 25 anos de casamento. Morreu longe (como se fizesse alguma diferença, se tivesse morrido perto). Morte descabida, como sempre. O casal estava passeando por Fernando de Noronha, e o “buggy” em que estavam ‘virou’ (sem qualquer razão, como se precisasse haver um motivo sequer). Óbito: traumatismo craniano. Só.
Não julgarei se ela era uma criatura boa, ou ruim. Não a conheci tanto. Talvez, nem ela mesma tenha se conhecido o suficiente, pra saber. Ela era – simplesmente. O que falarão dela, a partir de agora, como sempre foi, será pela visão (interpretação) de cada pessoa que a tenha conhecido. Morreu – simplesmente.
Tanto se fala que “a coisa mais certa da vida é a morte”, mas a maioria nem quer pensar nisso. Também eu sou assim, por que morte exala fim, sem ninguém nos pedir licença pra isso. Ontem, convivíamos juntos, e hoje não há mais nós – a vida passa ser, obrigatoriamente, conjugada no singular.
Morte é triste. Mas até a vida – por si só – também é triste. (E ainda há a morte em vida, que devasta mais que a própria morte do corpo humano.)
E se eu morrer amanhã?... Ficarão os projetos, os sonhos, as dívidas, as dúvidas, a vida que eu queria ter vivido. Mas não houve tempo, e eu nem percebia o tempo passar, voar diante da minha janela...
Cá entre nós, eu penso que os sonhos são tão, ou até mais, imprescindíveis que os projetos de vida. Os sonhos nos levam (e elevam) ao impossível. E os projetos são limitados: começo, meio, fim. Você pode até ficar, por algum tempo, sem projeto, mas não vive sem sonhos – pelo menos um sonho, acalentado no fundinho da alma, às vezes carregada de sombras.
Os meus caminhos e descaminhos são o sentido de tudo isso que chamo vida. O exercício de caminhar sempre, pra mim, tem o mesmo valor, ou até mais, do que a chegada – se é que existe a plena satisfação. Por isso (verdadeiro é), eu vivo cada dia como se fosse o último. Não gosto de deixar qualquer coisa para amanhã, por que o amanhã pode não chegar a tempo, e eu nem ter como lamentar a minha morte. Você pode até pensar que estou repetindo velho bordão, mas não é só isso.
Se hoje eu soubesse que iria morrer amanhã, provavelmente, eu tentasse 'esticar' o tempo, as horas, fazer coisas que nunca pensei fazer, e até coisas que pensei, e não fiz. Mas o tempo seria o mesmo cronometrado no planeta, enquanto, em mim, esse mesmo tempo seria intenso, profundo, como se, de fato, fosse mais vivido. Mas não sei se morrerei amanhã, nem tenho a garantia de que continuarei viva. Por isso, não quero me ocupar com isso agora. Não há tempo.
Particularmente, eu vivo o meu tempo.
Alguns querem viver tudo o que a vida oferece; outros são comedidos na vida, e por isso vivem concentrados numa única vida. De minha parte, nem penso que vivo, mas acho que participo de vidas que não são minhas. Nesta “colcha de retalhos”, algum alinhavo meu denuncia que estou viva.
E se eu morrer amanhã?... Ficarão alguns rabiscos, na minha opinião, ininteligíveis, e alguma história inacabada, e com isso, e por isso, e apesar disso, mal contada. Morrerei soterrada por tentativas vãs – inclusive, a de viver. E não restará nada mais além disso – o que permanecerá somente por algum tempo, que já não será mais meu. Mas isso não chega ser triste, por que caminhei. Nunca cheguei a lugar algum. O sonho faz sentido à vida minha.

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