terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ambições & Poderes

Ambições & poderes – duas palavrinhas que, na minha insignificante opinião, resumem uma (enorme e convincente) parte da história humana. Quem não ambiciona algum poder?... Poder não pressupõe só de destaque (“status quo”). Absolutamente. Sem acusação, reconheçamos que até mesmo aquele cara dedicado à etologia, que resolve embrenhar-se na selva, para pesquisar o sibilo dos macacos, durante o sono (dos primatas, obviamente), ambiciona algum poder (o mais absurdo que possa parecer).
Ambição e poder fazem parte do ser humano. É fato. Talvez, o ‘pobrema’ esteja nos níveis e nos meios projetados e concretizados. Volto a repetir que qualquer coisa em excesso pra mim – até coca-cola, chocolate – é, de algum ou de todo jeito, pernicioso. Por isso, acho que ambição em demasia só causa ‘estrago’ mesmo, que nem remendo conserta. O abuso, não o uso, do poder também causa uma ‘merda’ tão grande, que todas as civilizações – futuras e passadas – sofrem as consequências.
O que tenho visto, nesta minha visão estrábica, é que a maioria ‘tá’ se perdendo nos valores. E não constato isso só via televisão, não. É por todo lado mesmo. As pessoas estão afoitas, e, talvez por isso, mais ambiciosas – querem logo o (algum) poder, imediatamente, a qualquer custo. “Vender a alma ao diabo” já virou frase de livrinho infantil. E parece que poucos se apercebem disso. Tem gente vendendo tudo, todo dia, enquanto o diabo corre solto.
‘Tô’ “moralista” hoje?... ‘tô’ nada... impressão sua... sabe por quê?... me falta moral, até pra eu ser “imoralista”...
Na verdade (nada absoluta), ‘tô’ é triste com tantas ambições por poderes, principalmente os meios (inteiros e enviesados) utilizados, nesse processo monstruoso. É “guerra de gigantes” mesmo. Sem focar holofotes em cima das “grandes potências mundiais”, por que não ‘tô’ me referindo a Mahmoud Ahmadinejad, nem Jalal Talabani, ou Barack Obama, Hu Jintao, Dmitry Medvedev, Jigme Khesar Wangchouck, Christian Wulff, José Eduardo dos Santos, ou sei lá mais quem. Não e não.
Todos nós, seres humanos, seguimos o mesmo caminho: ambicionamos hoje, conseguimos amanhã, e depois ambicionamos mais e mais. Com certeza, não há ser humano que tenha conseguido tudo o que ambiciona, por que sempre quer mais e mais. Acredito mesmo que o cemitério é o único lugar do fim das ambições. Se existe “vida além da vida”, haverá também mais ambições...
Lembro que, numa entrevista na televisão, Dercy Gonçalves (a artista dos palavrões) disse que o idioma mundial é o dinheiro. Sobre isso, acho que o dinheiro é uma das maiores representações do poder. Apesar disso, manter este poder ($) demanda preocupações e esforços constantes. No fundo, me parece que o poder mesmo fica com o dinheiro, e não com quem o retém. Imagino que aquele que ostenta muita grana acaba se tornando escravo, deixando de curtir a vida que ambiciona, pra cuidar da fortuna.
Se ambicionar é inevitável, acho que a ambição poderia ser algo positivo, a nosso favor, sem nos deixar cegos por um poder, que, amanhã, será, certamente, superado (por um poder maior). Sensatez – talvez, essa seja a palavrinha mágica (se é que existe). Ou não.
Talvez, nós todos estejamos esquecendo ambições antigas, perdidas no tempo, na história da humanidade. Acho que estamos deixando de resgatar o poder sobre nós mesmos, e acabamos obedecendo, debil e inconscientemente, as “forças externas”, que nos empurram a consumir o que sequer gostamos, a nos vestir diferentes do que somos, a estudar e trabalhar em ambientes que nada têm a ver com a gente, tudo pra sermos aceitos, sem sermos nós mesmos. Por favor, só não me venha discursar sobre “influência, suscetibilidade, ascendência”, etc e tal, por que a última palavra é sempre de cada um – ou aceita, ou recusa. E ninguém pode assumir isso pelo outro.

...Enquanto isso, o poeta Caetano ainda canta: “...Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede são tantas vezes gestos naturais, eu quero aproximar o meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo...”

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Piadas da vida

Confesso que não sou muito de piadas ensaiadas, decoradas. Até me parece que as risadas, durante essas piadas, também são ensaiadas. Na maioria das vezes, quando ouço uma piada dessas – seja na televisão, ou em roda de amigos -, fico atenta às demais testemunhas (quando riem, esboço um sorriso). Admiro os humoristas de improviso – eles, sim, têm a “veia cômica”. Mas o que gosto mesmo é das piadas da vida, as piadas surpreendentes, naturais, acontecidas uma vez só na vida – às vezes, até contadas, passadas adiante, mas sem o ‘clima’ que as gerou. Com essas, sim, até gargalho.
As piadas da vida são mais sutis. Por isso, você precisa ficar esperto, atento, senão, as piadas da vida passam, no teu cotidiano, e você nem as percebe. Vou te dar uma “canjinha”, deixando aqui o registro de algumas dessas (tantas) piadas da vida:

- Acabei o livro que eu estava lendo...
- Gostou da leitura?...
- Gostei, sim... Só não gostei do final, por que a protagonista morre...
- Sobre o que era?...
- Uma biografia...

- Eu não acho o mesmo que eles acham. Eles é que acham que são contra mim. Aí, já viu, né?...

- Li teu blog. Até que você escreve bem. ‘Tô’ pra lançar mais um livro de minha autoria. Se você quiser me vender tuas poesias, pago dez reais cada uma...

- (...) Por isso que a primeira impressão é que fica mesmo, por que a primeira impressão não acontece duas vezes...

- Uau, que vista maravilhosa daqui!... Deve mostrar cada pôr-de-sol, hein?...
- Que nada!... Só quando tem sol mesmo...

- Não posso ir agora, tenho compromisso com a democracia – do riso. ‘Tô” assistindo horário eleitoral.

- Minha vó finge que ‘tá’ mortinha, ‘mais’ eu sei que ela ‘tá’ fingindo que ‘tá’ dormindo...

- Que filme você foi assistir?
- Corpúsculo!...

- Que biscoito é esse aí que você pegou no armário, e ‘tá’ comendo?...
- É S.P.V. – Sem Prazo de Validade. Uma delícia!... Quer?...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Uns & Outros

Entre uns & outros seres humanos, às vezes somos uns, outras vezes, tornamo-nos outros, e até voltamos a ser uns. Não importa. Somos.
Gosto de nos observar – a mim, e aos outros. Tudo depende da minha visão estrábica de plantão no dia, ou na noite. Cada observação é única, mesmo quando enxergo a mesmice humana. Senão nas minhas próprias atitudes, as manifestações dos outros me remetem a outros, e mais outros, e outros, ou uns, e mais uns...
‘Num tô’ escrevendo coisa com coisa?... Que bom!... Esse é o meu objetivo, no momento: descansar nas palavras e frases sem destino...
Aleatoriamente, penso agora que há muitas pessoas (pelo menos, no mundinho da minha vidinha medíocre) que mantêm uma empáfia de “sabedoras” de verdades absolutas, que falam com tamanha eloquência, para justamente convencerem os outros (ou os uns) de que detêm alguma razão eterna. Aliás, acho até que já me confundiram com essa ‘turma’. Mas, cá entre nós, não levo o menor jeito ao ‘título’, por que eu sou a primeira a me esculhambar, e a rir de mim mesma.
Essas criaturas que mantêm a imagem firme e forte de segurança e certeza absolutas demonstram sisudez permanente (voz empostada, gestos sempre graves) – talvez, pra transmitirem seriedade aos uns & outros. Sei lá. O que (acho) sei é que seriedade passa longe de careta feia. Seriedade é manter tua vidinha, do jeito que você deseja, reconhecendo que você, como todos os seres humanos, é falho, falível, e ainda morre - sem esperar que uns & outros compreendam e perdoem isso em você...
Dia desses, lembro agora, me deparei com uma criatura dessas – gestual soberbo, olhar voltado para o alto (e eu - baixinha), voz empostada até o teto. Não demorou muito, e a pessoa citou, com orgulho, o nome de uma outra criatura, admirada por ela (pessoa), que, verdadeiramente, cursou tudo e mais um pouco, colecionando títulos. Só que essa criatura (com doutorado e o escambau) é minha amiga – ser humano simples, sem frescuras. Diante da soberba personificada, eu fiz questão de contar como é a nossa amizade. Imediatamente, eu vi a soberba despencar – talvez, decepcionada com as palhaçadas que relatei. De repente, minha amiga (cheia de títulos), acho, perdeu a imagem que a soberba fazia dela. Provavelmente, minha amiga nem saiba dessa imagem distante dela.
Sei lá. Mas essa coisa de querer transmitir empáfia deve dar trabalho pra caramba. Eu prefiro uma vidinha mais simples. Até o conhecimento adquirido deve ser por prazer, não somente por orgulho, ou vaidade. É o que penso – eu, que quero pensar pouco hoje...

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sexta-feira 13

A sexta-feira 13 (de agosto, desta vez) não me aterroriza. Talvez, por que muitas outras coisas me apavoram terrivelmente, com ou sem sexta-feira, com ou sem dia 13, com ou sem o mês de agosto.
Sexta-feira 13, pra mim, não é filme que a gente arrepia antes da cena. Sexta-feira 13 (de agosto) é o que vejo pelo mundo em que transito, e pelo mundo que transita longe de mim. Sexta-feira 13 mesmo é a banalização da vida – que pode ser interrompida nas guerras entre nações, ou nas guerras particulares, numa briga de bar, num shopping, no trânsito cotidiano, numa esquina qualquer, ou em casa de família mesmo. Sexta-feira 13, pra mim, é gente (ainda) sofrendo fome, frio, e até morrendo, por falta de alimentação e agasalho, em vergonhoso estado de desamparo, diante dos olhares indiferentes. Sexta-feira 13, pra mim, são os sentimentos negativos que nós todos, seres humanos, nutrimos: desrespeito, orgulho, inveja, ciúme, vingança, ingratidão, raiva beirando ao ódio. Também, pra mim, sexta-feira 13 é má interpretação, fofoca, manipulação de seres humanos, irresponsabilidade, inconsequência, abuso de poder, ou assumir compromissos, para depois nem tentar cumpri-los.E por aí segue uma lista infindável do que me causa espanto, indignação e revolta.
Mas hoje é dia 13 de agosto, e, para evitar essa lista aí de cima, não há remédio, nem simpatia. Já dizem que “se ferradura desse sorte, cavalo não puxava carroça”. Por isso, sempre vale manter alguma superstição, por que, afinal, faz parte da história humana. Eu, por exemplo, não passo debaixo de escada, pra evitar a possibilidade de levar um banho de alguma lata de tinta, na calçada.
Consultando a ‘mestra’ internet, percebo que superstição não é ‘coisa’ só de brasileiro, não. Os chineses, por exemplo, não varrem a casa, no ano novo deles, pra evitarem varrer a sorte junto. Em Ibiza, não se vê padre em barcos de pesca, em respeito aos “deuses do mar”. Os holandeses também batem na madeira, pra afugentarem a má sorte – a diferença é que batem a mão fechada na madeira não pintada.
Superstições é o que não faltam, pelo mundo. Quer mais?... Os escoceses não carregam pá (ferramenta) dentro de casa, pra evitarem a possibilidade de algum sepultamento próximo. Na Islândia, mulher grávida não toma coisa alguma, em xícara trincada, pra não ter filho com lábio leporino. Os japoneses são mais radicais que nós, por exemplo, que desconfiamos dos gatos pretos. No outro lado do mundo, qualquer gato, seja da raça ou da cor que for, dá azar do mesmo jeito.
Quem dera todos os meus temores e pavores estivessem centrados em possibilidades supersticiosas... até por que sexta-feira 13 de agosto não é todo dia...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Carta sem pedra

Sakineh Mohammadi Ashtiani,

Não escrevo com a intenção de julgar, muito menos condenar teus atos. Esta é uma carta sem pedra. Escrevo de mulher para mulher – mulher que sente, não só os sofrimentos de outra mulher, mas tenta compreender o ser humano (tentar não é conseguir, mas insistir). Sei que você está condenada à morte por apedrejamento, e só isso já me motiva a escrever para você, mulher iraniana, que sobrevive numa realidade que desconheço, por que nunca vivi – nem pretendo-, mas isso não faz eu me omitir.
Confesso que o Código Penal de um país que (ainda) prevê tamanha barbárie (morte por apedrejamento, ou enforcamento – a pena de morte, enfim,) afasta qualquer interesse, de minha parte, em conhecer tal cultura. Sei pouco do Irã – e o pouco que sei está manchado de sangue, fanatismo, homens e mulheres-bombas, crianças, velhos, adultos dizimados. Miséria absoluta – sem qualquer esperança. É só.
Você, Ashtiani, me fez voltar o olhar (amedrontado) para o teu país. De você, Ashtiani, não restará mais que isso: a notícia que “(mais) uma mulher iraniana, 43 anos, encara a morte, após ser torturada por um suposto adultério. Em 2006, a viúva Ashtiani foi condenada, por que teria mantido ‘relações ilícitas’ com dois homens, tendo recebido, na época, 99 chibatadas. Desde então, ela está na prisão, onde se retratou da confissão feita, sob a coerção das chicotadas. Só recentemente é que Ashtiani foi levada ao tribunal, em outro julgamento. Foi novamente condenada, e, desta vez, apesar de já ter sofrido uma punição, foi sentenciada à morte por apedrejamento. Essa prática desumana envolve enrolar firmemente a mulher, da cabeça aos pés, com lençóis brancos, enterrá-la na areia até os ombros, e golpeá-la à morte, com pedras grandes”.
Não tem como eu não pensar nos teus filhos, Sakine Mohammadie Ashtiani - Fasride e Sajjad Mohammadie Ashtiani. Você morrerá, e eles morrerão contigo – na crucificação do medo e do desamparo. E, mais uma vez, previsivelmente, a história iraniana será marcada de sangue e crueldade, em nome de uma crença que, sem conhecer, abomino, com o simples direito de mulher mãe cidadã.
Já fiquei sabendo que você, mulher encarcerada, torturada e ameaçada diariamente, no sofrimento da ausência dos filhos e de alguém que, neste campo minado, ainda seja capaz de sentir amor e compaixão, é apenas mais uma vítima – não a única. Segundo ativistas dos direitos humanos pelo mundo, o teu país, Ashtiani, mantém, além de você, outras 24 pessoas, entre mulheres e homossexuais, no corredor da morte, a serem apedrejados até a morte. Por favor, se sabe, não se console com isso – chore por todos eles (as centenas humanas apedrejadas, e as próximas 24).
Não sei se você tem fé, Ashtiani – se tem, nem imagino teu ‘deus’ (Maomé, ou tenha o nome humano que tiver). Nem pediria pra você continuar acreditando, orando, com resignação. Se você me perguntasse por que o ‘teu deus’ (ainda) permite tamanha tirania, eu silenciaria, Ashtiani, por que nasci num Brasil, que, mesmo durante a ditadura, teve a maioria cantando amores e sonhos, em prantos que ninguém até hoje esqueceu. Esta é a nossa fé, Ashtiani, que você vai morrer, sem conhecer, simplesmente por que você nasceu numa terra onde brotam leis que desconheço, e bombas que matam amores e sonhos. Até abrigo no Brasil te foi negado, alma milhões de vezes apedrejada por seres humanos, como você, que falam o teu idioma, e colocam fim ao teu destino.

Acabei de saber que você não será mais assassinada por apedrejamento. Você será enforcada, Ashtiani. Isso muda tanto, né?... muda tudo (quanta ironia!)... o único detalhe é que a sentença continua a mesma: você será morta (em nome de quê mesmo?)...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Não me batam!

Aí, pessoal, a partir de agora, não pode mais matar os filhos, viu?... Sem espancamento até a morte!... Os pais não vão mais poder matar, esquartejar e jogar os filhos aos pit bulls (ops! acho que ‘cão-fundi’ com alguma historinha que li no jornal). Na prática, ‘tão’ dizendo que até os pais não podem mais dar “aquela palmadinha” nos filhos (sabe qual é, né? todo mundo – mais velho – já levou). Não me batam!...

Vamos conversar sério, agora. O que posso dizer do Projeto de Lei 2.654/03? Que estabelece o direito da criança e do adolescente a não serem submetidos a qualquer forma de punição corporal. É isso.

A matéria tem causado celeuma, por todo o Brasil. Até os profissionais da mídia nacional resolveram saber o que os brasileiros pensam a respeito. Como ninguém me entrevistou, até agora, deixo aqui minha opinião – se concordar, vale até copiar, e espalhar por aí, sem o risco de levar processo, por plágio. hehehehehehehehehe

O que eu penso a respeito?... Ora, eu penso e dispenso muitas coisas. Primeiro, penso que eu ‘tô’ mesmo me tornando ‘dinossáurica’. Há pouco tempo (pouco mesmo), não era preciso lei para os pais, que assumiam seus filhos, em família, serem ameaçados pela lei, para não espancarem os filhos. Aí, fico imaginando se haverá grau de punição – uma palmada terá ‘o quê’, como punição (e se forem duas, três, ou até chineladas na bunda)?...
Sei lá, gente, mas acho que esse projeto de lei aí pode abrir um precedente sem limites. Imagine: Uma criança de oito, nove anos toma conhecimento, na escola, sobre a referida lei. Quando a mãe levanta a mão, depois que o filho resolve fazer birra, se joga no chão do shopping (por que quer e quer o game de guerra recém lançado), a criança grita: “Experimenta me bater, que eu chamo a polícia, e você vai presa!”... São situações inesperadas que as famílias vivem e convivem diariamente. E, com certeza, a deputada federal Maria do Rosário (autora do projeto de lei) não vai participar, nem poderá dar “pitaco”, ou, mais ainda, nem vai saber desses fatos.
Vou mais longe. Se a ‘coisa’ continuar assim, daqui a pouco, haverá lei punindo os filhos (menores de idade) que maltratam os pais – por que também isso faz parte da realidade humana. Já ‘tá’ entrando lei, aqui mesmo, no Brasil, protegendo a integridade física dos pais idosos, mas não chega defender os pais que ainda não envelheceram, e já apanham dos filhos – porrada mesmo.
O Estatuto da Criança e do Adolescente já completou vinte anos. Muita coisa mudou, e continua mudando, com o embasamento do ECA, que assegura proteção às crianças e aos adolescentes. Por isso mesmo, acho que a questão – “punição corporal contra crianças e adolescentes” – poderia receber algum adendo, no próprio Estatuto, já que o Artigo 129, incisos I, III, IV e VI, trata sobre isso. É lei, do mesmo jeito – ou não?...
Pra mim, que não estou nascendo agora (terceiro milênio, com a evolução célere, em todos os setores), notícias como essa – que estão criando lei para coibir atos dos pais contra os filhos – já é um espancamento. Sinto estar levando uma “puta porrada”, quanto mais ouço gente falando: tem que punir mesmo, por que as famílias atuais, blá blá blá blá...
Sei lá, mas acho que a punição “legal” ‘tá’ servindo pra encobrir um problema muito mais sério, chamado – talvez – desajuste, não só familiar, mas da sociedade, como um todo mesmo: à “porrada”, eu respondo com uma “porrada” maior ainda – ameaçadora, amedrontadora, punidora. Juridicamente, existe a expressão “poder familiar”, que, antes, era “pátrio poder”, que trata diretamente sobre direitos e deveres, nessas relações entre pais e filhos. Pelo menos, até que os filhos não atinjam a maioridade. Na minha visão estrábica, o projeto de lei em questão ‘derruba’ esse “poder”, por que, prevalecendo o projeto de lei, o que antes representava “poder” fica sem poder algum, inócuo. Ah, todo mundo deve saber que, quando se trata de “dar porrada”, não é poder – é covardia mesmo. Poder é aquele que pode, mas deve também. Senão, vira bagunça... (ainda continuarei essa ‘merda’ – ou não)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Entre tantos

Aviso aos navegantes dessas águas: ‘Ela’ pode ser ‘ele’ também. ‘Ela’, por que somos nós – ‘elas’, as mulheres -, que mais demonstramos preocupação (na minha opinião, claro). Nada além disso. O resto fica por sua conta e risco.

Ela sentiu uma “dorzinha de cabeça” – não deu importância, por parecer trivial. Mas a dorzinha tornou-se uma dor quase insuportável. Ela procurou remédio que tinha em casa, encontrou uma aspirina, e tomou sem pensar. A cefaléia amenizou. Pouco tempo depois, ela sentiu enjôos, falou à amiga com quem estava no telefone. A amiga ponderou que a aspirina provocava, às vezes, tal sintoma, e aconselhou que ela tomasse um medicamento digestivo. Ela não tinha em casa, foi à farmácia, pediu o digestivo mais usual, e voltou para casa, tomando-o em seguida. A “dorzinha de cabeça” voltou, ela não conseguiu dormir, e, pela manhã, saiu, acompanhada pelas olheiras da madrugada insone. Em vez de ir ao trabalho, ela procurou um consultório clínico geral, relatou ao médico o que acontecera, saindo de lá com uma receita com os nomes de dois medicamentos recém lançados no mercado. Foi à outra farmácia, comprou os caros remédios, voltou para casa, e ligou para o trabalho, informando estar doente. Tão logo começou o tratamento indicado pelo clínico geral, ela percebeu que os intestinos trabalhavam sem parar, até que ela não conseguiu levantar-se mais do vaso sanitário. Defecando fezes cada vez mais líquidas, ela correu à lista telefônica, buscando um gastroenterologista para salvar-lhe. Marcou a consulta, que seria no final da tarde. Voltou ao vaso sanitário, de onde saiu, para tomar banho, improvisar uma fralda, camuflada numa calça larga, e foi à consulta. O gastro explicou à ela que tratava-se de uma síndrome intestinal, e receitou-lhe mais dois medicamentos, orientando-a que evitasse a maioria dos alimentos. Quase sem forças, ela recorreu a um taxi, pedindo ao motorista que comprasse os medicamentos na farmácia, cobrando-lhe o valor, no carro mesmo, já que ela não tinha condições físicas de sair dali. Assim foi feito. Voltou para casa, medicou-se. Uma vizinha foi visitá-la, e preparou-lhe um chá, que ela nem ficou sabendo de quê. Bebeu, em estado letárgico. Adormeceu. De madrugada, acordou suando frio. Buscou um dos medicamentos, engoliu com a boca seca, na penumbra do quarto. Desmaiou. Pela manhã, a faxineira, que ia limpar o apartamento, duas vezes por semana, a encontrou desacordada, pálida, ainda suando frio. A faxineira não sabia de qualquer doença que ela pudesse ter. Chamou a empregada do apartamento ao lado, que sugeriu que ligasse para o pronto socorro mais próximo. Assim fizeram, e ela foi parar numa enfermaria, com soro glicosado – justamente ela, em permanente tratamento de “diabetes mellitus”. Tão logo despertou, ela informou o detalhe à atendente de enfermagem. No final da balbúrdia, com a chegada do médico de plantão, ela recebeu alta dosagem de insulina, e foi liberada, sem exames. Sozinha na calçada, com o roupão de banho escondendo o pijama, atravessou a rua, cambaleando, à procura de mais um médico. Entrou na clínica mais próxima, em busca de um médico que lhe atendesse naquele instante. O clínico geral tinha agenda vaga. Atendendo pedido dela, ofereceu-lhe um copo d’água. Hidratada, com a insulina agindo, ela foi relatando ao médico, silencioso, o que acontecera. “Pelos sintomas que a senhora relata – disse ele, calmamente -, vamos precisar fazer um check-up”. Sem olhar para ela, pegou o bloco, na mesa, e começou preencher as solicitações de exames complementares, como hemograma, exames de fezes (parasitológico), creatinina, colesterol total e fração, triglicérides, ácido úrico, glicemia, urina rotina, eletrocardiograma, ergométrico e raios-X do tórax, entre outros. Depois, o médico carimbou todas as folhas, rubricando em seguida. Ela só poderia começar o encaminhamento dos exames, no dia seguinte. Obedeceu. Foi para casa, mas não quis atender a vizinha, que insistiu, por algum tempo, na porta. Ela fingiu-se morta, pensando que poderia estar mesmo. Tomou um banho, não quis saber que horas eram, e foi deitar. No dia seguinte, acordou sem despertador, tomou outro banho, e, em jejum, saiu para providenciar todos os exames do check-up. Gastou o pobre dinheiro que tinha na conta bancária, e o que não tinha também. Durante dias, enquanto os resultados dos exames não eram entregues, ela sobreviveu como pôde: basicamente, a pãozinho francês e água mineral sem gás – nada de chás, nem medicamentos. Sobreviveu. Mais uma vez, estava diante daquele médico silencioso, que não a olhava nos olhos. Após ler meticulosamente os resultados de todos os exames, sem qualquer comentário, o médico anunciou o “veredicto”: “A senhora terá de operar a vesícula, para retirada de cálculos, pois o seu diagnóstico é litíase biliar”. Dito isso, o medico levantou, entregando à ela, a requisição para “internação imediata, e cirurgia no dia seguinte”. Perplexa, ela fica sem palavras, utilizando-se do emprestado silêncio do médico, que se retira da sala do consultório, deixando-a sozinha, olhando o branco das paredes vazias. No hospital, ela dormiu, a maior parte do tempo em que esteve lá, muito mais em consequência dos sedativos que lhe foram ministrados. Na manhã seguinte, no horário estabelecido, ela foi encaminhada à sala de anestesia, e à cirurgia, finalmente. Quando despertou, ainda zonza, pôde ouvir a discussão entre várias pessoas vestidas de jaleco branco. A voz mais estridente dizia: “O médico dela já foi informado, está a caminho”. Outra voz, masculina e grave, demonstrava preocupação: “Só quero ver no que isso vai dar, por que a imprensa está em cima desses casos”. Lentamente, ela voltou a adormecer, não ouvindo mais nada. Quando acordou, o mesmo médico silencioso estava diante dela, chamando-a pelo nome. “O que aconteceu?” – perguntou ela, sem pensar. E ele, baixando os olhos, esclareceu: “Fique calma, a senhora voltará a dormir, e amanhã poderá ir embora. Houve um pequeno engano, na cirurgia, e, em vez de retirarem os seus cálculos biliares, retiraram seu apêndice. Mas nada grave. Fique tranquila, por que, entre tantos, o seu caso é mais um, sem consequências negativas”. Novamente, ela não escutou mais coisa alguma. Ela só acordou no dia seguinte, já em casa, com a faxineira a oferecer-lhe um comprimido, junto com um copo de água: “O médico, antes de sair daqui, me fez prometer que a senhora tomaria este remédio”. Com a boca seca, um pouco dormente, ela obedeceu, e ainda ouviu a faxineira: “A senhora andava muito impressionada com essas coisas de doença, mas não se preocupe, por que o comprimidinho que a senhora acabou de tomar era uma simples aspirina”. Ela riu, para não chorar. Virou à parede, e lembrou, em silêncio, que, na infância, ficou sabendo de uma lenda que dizia que o nome aspirina provinha do “Santo Aspirinus”, Bispo de Nápoles, padroeiro das dores de cabeça.

De olho