quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O preço do ‘não’

Você já deve saber, desde que nasceu (ou até antes) que se paga um preço muito alto (imensurável), quando se diz ‘não’. Por isso, nem todo mundo – a maioria, aliás – se recusa pagar.
Dizer ‘sim’ é, aparentemente, fácil, simples – assim, se é aceito, e isso a gente sabe, de antemão. Pelo menos, foi o que nos provaram os que nos antecederam, nesta ‘guerrinha’ cotidiana, mais conhecida como convivência humana (até rimou!).
Aprendemos tanto dizer ‘sim’, que nem precisamos ensaiar o sorriso de anuência, ou conveniência, ou acomodação, ou sei lá o quê, pra não nos chatearmos com a situação que poderíamos criar, se falássemos (o palavrão temido) ‘não’. Já o ‘não’ nos deixa em polvorosa – nos alteramos visivelmente, e já não há como conter a voz, o gesto.
Diante de qualquer pedido, ou pergunta, alguém que nos chama, é sempre esperado um ‘sim’, de nossa parte. Ninguém espera ‘não’. Acho mesmo que aquele que espera ‘não’, nem ousa nos abordar. Ter o ‘não’ como possibilidade é apenas ampliar o ‘diafragma’ da nossa visão. Nada além disso. Na minha visão estrábica, esperar ‘sim’, só mesmo na hora do casamento, arriscando ouvir um ‘não’ ecoando pela acústica da igreja lotada de convidados.
Estranho, por que, na maioria das vezes, desejamos tanto, e, por isso também, esperamos um ‘sim’, talvez, por dizermos sempre ‘sim’. A verdade (nada absoluta) é que nos habituamos, todos, dizer e querer ouvir ‘sim’, ‘sim’, ‘sim’, a vida inteira. Mas sabemos, diariamente, que não é assim que ‘funciona’, na prática, no dia-a-dia. Cada um de nós, seres humanos, tem, no mais dentro (alma?), tantos ‘sins’ e ‘nãos’ que se alteram e se alternam, diariamente – além de trocarem de lugar, na escadaria das nossas valorações, ainda sofrem alterações, com as vivências que temos.
Por favor, não me diga que você não percebe um ‘não’ subentendido, coberto por um ‘sim’ descolorido. Eu sei. Tantas vezes, você quer ouvir ‘sim’, que até finge não ter percebido (sentido) o ‘não’ escapulindo, pela fresta que o outro deixa. Também eu, aprendiz de ser humano, faço isso. E também eu digo ‘sim’, pra evitar a chatice de sustentar meu ‘não’, que nem sempre tem justificativa – é simplesmente. Mas também digo ‘não’, querendo dizer ‘não’ – mesmo sem justificar.
Pode observar, se você diz ‘sim’, fica tudo bem (até quando?). Mas, se você solta um tremendo ‘não’ (sempre inesperado), você se desgasta, por que precisa argumentar, se contrapor ao tão evidente ‘sim’, que deveria ter sido dito.
Vou mais longe na ‘viagem’. Se quiser me acompanhe – por sua conta e risco.
Não acho que a gente precisa aprender dizer ‘não’. Acho que a gente precisa, antes de tudo e de mais nada, aprender ouvir ‘não’. Mais ainda, acho que a gente precisa aprender esperar ouvir ‘não’. Com isso, penso eu, a situação inverte. Se tomarmos essa iniciativa com quem convivemos, quem convive com a gente pode experimentar isso também, e nos cobrar menos, por que está sendo menos cobrado. Acaba num ciclo, como quase tudo, nas relações humanas: eu espero um ‘não’, que pode ser um ‘sim’; eu digo ‘não’, querendo mesmo dizer ‘não’, e ‘sim’, querendo dizer ‘sim’, ao outro que espera um ‘não’, que pode ser ‘sim’.
De repente, a gente se surpreende – não só com o outro, mas com a gente mesma... ou não. ou sim.

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