quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sempre o olhar materno

Ao saber de mais um caso em que uma velhinha pede para que autoridades ajudem o filho drogado, eu fico pensando em tanta coisa. Mas o que penso mais é que sempre fica o olhar materno, principalmente nesses casos, quando o filho já não mais dá conta de si mesmo. Todos foram embora, e fica a velhinha, com o olhar sempre materno, protegendo aquele que um dia ela ensinou os primeiros passos da vida.
“Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar,
Já foi nascendo com cara de fome,
E eu não tinha nem nome pra lhe dar.
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando ele a me levar...”
A música de Chico Buarque – “O Meu Guri” - retrata bem o que ‘tô’ tentando escrever. É sempre o olhar materno que resta, quando nem mais o filho quer saber dele mesmo. Às vezes até, o filho já casou, teve muitos filhos, e despenca nas drogas, nos vícios. A esposa dele, sem suportar mais, vai embora, e leva com ela, os filhos, que são dele também. Mais uma vez, a velha mãe acolhe o filho, e o protege, buscando ajuda, como neste caso que há pouco eu soube. É sempre a mãe. A velha mãe. Sempre o olhar materno que acolhe, protege e fortalece, mesmo sem forças.
Quem ainda lembra do jovem Leonardo Pareja, que aprontou tantas, no nordeste e no centro-oeste do Brasil?... Foi preso, por sequestro que cometeu na Bahia, e acabou fazendo reféns, na penitenciária de Goiânia. O que fizeram, na tentativa de conter Pareja?... Chamaram a mãe dele. A velhinha foi até o filho, e pediu que se entregasse. E quantos, ainda hoje, escutam a mãe, e entregam-se à polícia?... Sempre a mãe. Sempre o olhar materno, que compreende e diz tanto. Não há velório mais triste: a mãe, velhinha, acarinhando o rosto do filho morto... (pra mim, já não importa se o filho morto foi assassinado, ou se foi o primeiro a matar)
Lembro de uma mãe que tentava, a todo custo, defender o filho, que era usuário de drogas, e às vezes até batia nela. A mãe mostrava, no quintal da própria casa, um pé de maconha (que ela não conhecia, obviamente), e dizia: “O meu filho mudou tanto, que agora cuida até dessa planta que ele mesmo trouxe para cá”...
Cidade do interior. Madrugada. No alto da única ponte existente por ali, um homem (mais de 30 anos) ameaça jogar-se nas águas profundas. Os vizinhos chamam a polícia, os bombeiros. De repente, alguém lembra de chamar também a mãe dele, a velhinha que o homem deixara em casa, dormindo com o rosário nas mãos. A mãe chega, olha para o alto e grita o quanto pode: “Desça já daí, menino”. Olhando para o bombeiro ao lado, a velhinha ainda diz: “Ele sempre teve essa mania de viver saltando. Mas não tem nenhum problema na cabeça. É um bom menino”. Aos prantos, o homem desce, do alto da ponte, enquanto a velhinha o abraça, e o envolve com o casaco que levara, falando baixinho: “Você tem de parar com essa mania. Desse jeito, acaba resfriando. Vamos para casa. Já é madrugada”.
Conheci uma catadora de papéis que, há algum tempo, estava com o filho mais velho preso, por tráfico. A mãe nem sabia o que era isso, e não podia visitar o filho, que estava cumprindo pena, numa cidade distante. De repente, ela recebeu a notícia de que o filho estava com AIDS, e ela também não sabia que doença era aquela. Meses depois, teve outra notícia: a filha foi assassinada pelo marido, no litoral. O tempo passou, e a polícia começou a fazer ‘visitas’ à casa da catadora de papéis. O filho mais novo dela enterrava embalagens com drogas, por todo quintal, para tráfico. E ela não entendia tudo aquilo, e continuava a abrigar os filhos. Hoje, a mulher tem um “puxadinho” na casa, para acolher o filho ex-detento, o filho mais novo, e a outra filha, junto com os netos todos. “Não adiantaria eu negar, por que essa é a minha família. Pra mim, eles continuam sendo as minhas crianças”, diz ela, com o rosto marcado por rugas que não vieram só com o tempo...
... E a música da vida continua:
“...Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais.
Eu não entendo essa gente, seu moço,
Fazendo alvoroço demais.
O guri no mato, acho que tá rindo,
Acho que tá lindo, de papo pro ar.
Desde o começo, eu não disse, seu moço,
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí,
Olha aí, ai, o meu guri, olha aí,
Olha aí, é o meu guri...”

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