sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sonhos de escola

Foi-se o tempo da concretização de ideais e sonhos na escola. Hoje, nem aluno, nem professor querem mais que o “prato do dia”. Alerta: não é regra, por que (ainda) existem exceções.
Confesso que tive verdadeiros mestres acompanhando meus estudos, dentro e fora da sala de aula. Minha primeira professora era silenciosa – alfabetizava com calma, cuidado, sempre em silencio (e eu, em silencio também, ficava observando o minimo gesto dela, já que meu pai tinha me alfabetizado, antes de eu ingressar na escola). Ficou pouco tempo na sala, pois o marido dela faleceu, e eu nunca mais a vi. A substituta falava mais, com voz empostada, segura, mas tinha algum quê de distanciamento, que eu nunca entendi (na época, não sabia pensar, e hoje não tenho lembranças para pensar sobre).
Ah, depois vieram outras professoras – cada qual de um jeito, num ritmo de aula diferente. Na segunda serie primaria, eu tive uma professora que ficava me observando em sala (eu sabia, mas não entendia também). Houve um tempo que eu ficava de olho mesmo nos colegas que trocavam figurinhas de um álbum que eu sonhava ter – todo colorido, cheio de fotos (não desenhos) de flores, plantas, animais. Eu ficava doidinha, tentando ser discreta, sem perder sequer a imagem de uma figurinha que passava de mão em mão. O que me fascinava eram as (tantas, tantas) figurinhas – não o álbum.
Num recreio qualquer, um coleguinha me propôs a grande troca: ele me daria algumas figurinhas do tão ‘famoso’ álbum, se eu lhe desse a borracha que eu levava à escola. Nem pensei. Aceitei, na maior alegria. Nem lembro quantas (poucas) figurinhas recebi no ‘grande negocio’. O que lembro mesmo foi a surra que levei da minha mãe, a quem eu menti que havia perdido a borracha. Apanhei, por que perdi, não por que menti.
Escondi o quanto pude as figurinhas tão desejadas por mim. Guardava sempre em lugares diferentes, e corria para revê-las, o dia inteiro. Mas ainda eram poucas, e eu nem queria ter o álbum, que, para mim, era graaaaaaaaaande. Em pouco tempo, acho que a ‘notícia’ da troca se espalhou, e outros coleguinhas vieram propor mais ‘negocios’. Eu tinha o mínimo material escolar. Por isso, não podia simplesmente ficar sem. Até porque minha mãe não repunha material escolar – “vocês terão outros, quando me mostrarem os restos desses”, ela dizia a mim e aos meus irmãos. Depois da borracha, acho que cheguei contando em casa que perdi só mais um lápis, e outra borracha, claro. Apanhei pra caramba da minha mãe, por causa disso – mais até que a primeira ‘perda’.
Acabei contando a grande ‘aventura’ para meu pai, que também achou lindas as figurinhas, mas me fez pensar que não dava para eu continuar trocando-as por material escolar. Sem perceber que o obedecia, eu – cabecinha infantil – ‘concluí’, por mim mesma, que aquele tipo de ‘negocio’ não ia dar certo, e resolvi aquietar, consolando-me com as figurinhas que guardava. Foi nesse tempo que a professora (aquela que me observava em sala) falou comigo, no final da aula. Pediu-me se podia propor ao meu pai, que me esperava no portão da escola, para irmos – nós dois - com ela, à casa dela. Claro que aceitei, e lá fomos nós.
Quando chegamos, a professora foi direto à mesinha da sala, pegou aquele álbum graaaaaaaande, e disse algo assim: “Eu coleciono o álbum que você gosta. Quero que você veja, por que já está quase completo”. Guardei a sensação que tive, quando ela colocou o álbum graaaaaaaaande sobre os meus joelhos minusculos. Eu fiquei verdadeiramente em “estado de graça” – é a melhor definição que guardo. Olhei para o meu pai, sentado ao meu lado – ele sorria. E a professora, no outro sofá, a me observar, sorrindo também.
Pra te resumir a historia, a professora me deu dezenas de figurinhas que ela guardava, por que já as tinha coladas no álbum. Antes de sairmos da casa dela, a professora disse que me convidaria a rever o álbum, quando o completasse, mas eu poderia pedir para rever o álbum, na casa dela, para encher meus olhos com tantas maravilhas. A professora cumpriu o que prometeu: o álbum completo ficou lindo, maravilhoso. Ela demorou um pouco para completá-lo. Mas nem me importei com isso, por que ganhei mais figurinhas que um dia eu pudesse sonhar... As figurinhas?... As figurinhas continuam guardadas, em algum canto calido, na minha alma infantil...

Um comentário:

  1. Olá, Nara querida!

    Adorei sua homenagem.... sua lembrança... me emocionei lendo sua história.

    Obrigado pelo seu carinho e amizade.

    Beijos no seu coração

    Odete

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