quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Minha unica arma é a palavra

- Mãe, que barulho todo é esse?...
- Tiroteio, moleque...
- O que é isso?...
- Todo mundo atirando com armas, uns contra os outros, bandidos e policiais...
- Ah, com armas parecidas com a do Luciano, do barraco de baixo?
- Até parece... Só que a arma de madeira do seu coleguinha não mata ninguém...
- Mas ele vive apontando, e fazendo: bang, bang... Às vezes, ele é policia, e, de vez em quando, faz o bandido...
- É assim que começa a violência... Por isso, eu proíbo meu moleque de brincar de guerra...
- Mãe, o Luciano disse que a gente tem de treinar, desde cedo...
- Ah, Luciano é um moleque estupido... Não vai na onda dele, não...
- Mãe, os ruídos aumentaram...
- Agacha, menino, vai pra debaixo da cama...
- Mãe, então, aquilo tudo que falam da violencia no Rio, na televisão, é verdade?...
- Agacha, moleque... Querem que seja verdade, e por isso criam essa confusão nas favelas...
- Por que eles brigam tanto, mãe, até se matam?...
- Fica quietinho aí debaixo da cama, que eu vou trancar a janela...
- Por que eles se matam, mãe?...
- Por que eles acham que podem mandar na gente, brigam pelo poder...
- Foi assim que meu pai foi morto, mãe?... Você contou que ele foi assassinado por um poderoso...
- Foi, moleque, foi... Por isso, fica escondido aí, até que o tiroteio passe... Não quero perder meu unico filho, em briga dos outros... Fica quieto aí, que eu tenho de trancar a janela...
- Mãe, os tiros não param... ‘Tô’ ficando com medo... Vem logo pra cá, mãe!...
...
- Mãe!... Mãe!... Mãe!...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O depois do depois

Imagino que a tataravó da minha bisavó já dizia que “tudo, nesta vida, tem ônus e bônus”. De minha parte, acho que ônus e bônus até podem vir – nem sempre nesta mesma ordem -, mas nunca se sabe quem receberá o bônus, ou quem pagará o ônus. Familia, por exemplo, hoje em dia, é uma palavrinha com inimaginaveis significados, apesar de muita gente insistir na ilusão de familia de comercial de margarina. Provavelmente, hoje, Aurélio Buarque de Hollanda contorceria o cerebro, na busca de tantos sinonimos para familia.
O pior mesmo fica para o depois do depois - depois do casamento, quando chega a separação (se chega). Pior ainda, quando o casal resolve brigar (às vezes, nem resolve – briga mesmo). Os filhos passam ser bolinhas de papel voando pela sala. Ah, mas ainda tem mais depois do depois do depois. Se o cara que passa morar com a mãe manifesta interesse e vontade de querer ser bom para os filhos dela (que não são deles), ele (o cara) ‘tá’ querendo ocupar o lugar do pai dos filhos que não são deles. Se o mesmo cara (que passa morar com a mãe dos filhos que não são dele) demonstra desinteresse e indiferença para os filhos dela (que não são dele), ele (o cara) ‘tá’ querendo dificultar a convivencia familiar. Não tem saída. O mesmo acontece com a mulher que assumir a união com um cara que é pai de filhos que não são dela (a mulher que vai morar com ele).
Quando o fato acontece num filme, todo mundo (que não ‘tá’ cochilando) tem opinião a respeito. Se ocorre numa novela, antes de surgir qualquer pensamento, o que chega primeiro é ansia de vomito(insuportável). Mas familia é ‘coisa real’, muito além do que qualquer filme, ou ‘droga’ de novela. Familia vai além de um comercialzinho de margarina - é junção de personalidades e interesses diferentes, num mesmo teto, que brigam muito, nem sempre se entendem, e raramente se resolvem mutuamente.
Se a convivencia familiar já é complicada, imaginemos a separação desse tumulto todo, que, em diversos momentos, faz tanto barulho, chegando envolver outras familias, além de vizinhos, amigos, e até inimigos. A panela de pressão fica abarrotada de gente, e depois é tampada, exposta ao fogo maximo da separação litigiosa. Mesmo com os acertos que a Justiça Brasileira tem acrescentado no Codigo Civil (“guarda compartilhada” e tantos outros direitos e deveres), na pratica, na hora do “vamos ver”, a coisa fica feia mesmo, e a maioria acaba esquecendo toda a ‘parafernalia’ judicial.
O que tenho sabido, em separações conjugais, é que os filhos (menores, crianças) viram “baratas tontas”, e, a qualquer momento, são utilizados como mísseis - por parte da mãe, ou do pai - contra o maior alvo do momento: o ex, ou a ex – ex mesmo. Não dá pra nem adulto (que ‘tá’ fora da situação, obviamente) entender como duas pessoas que chegaram a casar - decidiram isso, em comum acordo – não consigam mais sequer trocar algumas frases basicas (Como podemos dividir os bens? Como mantemos a alimentação e a escola dos filhos?), dialogos sempre mantidos, durante a “convivencia sob o mesmo teto”. Se a gente (adulta) não compreende, os filhos – menos ainda.
De repente, as dificuldades de um, que eram reconhecidas e compreendidas pelo outro, no casamento, passam representar “provocação”, ou causa de mais revolta. E os filhos permanecem no meio do ‘tiroteio’, e, quando se ausentam, são chamados de volta ao ‘palco’. Pior, quando eles (os filhos) são questionados quem eles preferem: o pai, ou a mãe. É muita pressão, pra quem ainda nem pensa casar, muito menos encarar uma separação.
Ah, mas tem muito mais. Motivos não cessam de aparecer, durante todo o processo da maioria das separações conjugais. Não é lavação de roupa suja, não. É mais, muito mais que isso. É limpeza, sem luvas de borracha, no esgoto da vida conjugal, respingando em toda a familia, principalmente nos filhos, que não foram chamados (por que nem existiam) ao momento da grande decisão de “união do distinto e apaixonado casal”.
Dia desses, conversei com um garoto (oito anos, no maximo), que esforçou-se, mais de meia hora, pra fazer com que eu compreendesse a familia dele: “Eu sou filho do meu pai e da minha mãe. Tenho uma irmã mais velha que não é filha do meu pai, e um irmão mais novo que não é filho da minha mãe. Ah, ainda tenho mais um irmão, pouco mais velho que eu, que não é filho da minha mãe, nem do meu pai, por que ele é filho do pai da minha irmã, que não é meu pai. E a mãe do meu irmão mais novo, que não é filho da minha mãe, só do meu pai, ‘tá’ gravida, e eu vou ter mais uma irmãzinha. Entendeu agora?” – perguntou-me aquele olhar concentrado. Para não desapontá-lo (já havia pedido que ele me repetisse, outras duas vezes), respondi imediatamente: Ah, agora sim, entendi tudo. Ele sorriu, e voltou a brincar com outros meninos - que (ainda) não são irmãos dele, pelo menos, até agora...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Conversa intima

- Olá! Há quanto tempo! Tudo bem com você?
- Tudo! E contigo?
- Tudo bem!
- Nossa! Faz tempo mesmo que não nos encontramos mais, né?...
- Pois é, e aqui estamos nós conversando...
- Você viu que virada de temperatura?
- Pois é, de manhã ‘tava’ frio, e agora à tarde o maior calorão...
- À noite, com certeza, vai voltar a esfriar...
- Isso é certo, por que tem sido assim, nos últimos dias...
- Lá fora está uma torradeira...
- É mesmo! O que nos salva é este ar condicionado...
- E hoje a fila desse banco nem é das piores, né?
- Quem se encoraja a enfrentar fila, num dia quente como hoje?
- Só mesmo quem tem conta a pagar.
- E o calorão judiando da gente...
- É sempre assim...
- Mas tem previsão pra chover, no final de semana...
- Serio mesmo?
- Sim. Assisti na televisão, antes de sair de casa.
- O negocio, então, é suportar esse calor, por mais alguns dias.
- Até o final de semana, vamos ficar nessa...
- Ultimamente, a previsão do tempo tem funcionado...
- É o que tenho observado também...
- E esta fila que não anda...
- Os atendentes dos caixas ficam lá se refrescando...
- É mesmo. Atendem um cliente, e vão tomar água...
- E a gente aqui na seca...
- Parece que nos ouviram...
- É, parece mesmo...
- A fila andou um pouco...
- Mas devagar ainda...
- A sua fila parece mais rapida...
- Pelo visto, chego no caixa primeiro...
- Vamos ver...
...
- Bem, já estou saindo...
- Eu, daqui a pouco, também estou na rua...
- Foi bom demais te encontrar...
- E ainda termos conversado tanto...
- Bom saber das novidades...
- Digo o mesmo...
- Até mais, e boa sorte...
- Pra você também...
- Não esqueça nunca: você é o meu melhor amigo...
- E você é o meu melhor amigo...
- E dizer que somos amigos, desde a infancia, né?...
- Amizade tão intima, que já comemoramos mais de trinta anos...
- Como o tempo passa...
- Pois é...
- Ah, obrigado pelas piadas que você envia por email...
- Eu não aguento de tanto rir, e encaminho pra minha lista toda...
- Eu também me divirto... até mais...
- O seu celular está tocando...
- Sim... Alô?... Já estou indo...
- Até outro dia, meu grande amigo...
...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O bom

O bom mesmo é:
- Espezinhar
- Gritar
- Sujar
- Humilhar
- Machucar
- Violentar
- Trair
- Trapacear
- Hostilizar
- Encenar
- Descartar
- Aproveitar-se
- Invejar
- Ser indiferente
- Matar
- Não pensar no outro
- Enganar
- Não ouvir
- Roubar
- Destruir
- Separar
- Denegrir
- Fofocar
- Arruinar
- Pisotear

Você?... Você se contenta em tentar ser ‘bonzinho’. Eu – não. Você sabe que eu sou ‘o bom’ – o sombrio da tua alma que degenera, enquanto você finge ignorar...

sábado, 13 de novembro de 2010

Habitos que não fazem os monges

Infelizmente, (ainda) vivemos os tempos de habitos que não fazem os monges, que o que mais fazem é meditar. Principalmente no ocidente, quem passa a vida meditando, “vive na vadiagem” – se for homem, é vadio; se for mulher, é vadia (e vadia, por essas ‘bandas’, tem outra conotação, que, nós, brasileiros, sabemos qual).
Por que, ainda, na maioria dos lugares, trabalho mesmo, só é considerado o braçal?... Por que você precisa sempre mostrar ação, ação?... ‘Tá’ certo que o cérebro não transpira, e a alma nem aparece, pra gente ver (quem sabe?) todo o cansaço dela. Mas isso não justifica o estigma que carrega aquele que (sabiamente) medita.
Conheço gente que não pára um só instante, e até justifica que faz isso pra ser valorizada, reconhecida. Sei lá. No minimo, pra mim, a atitude é estranha. Se eu não parasse de executar trabalhos braçais, acho que nem conseguiria ver reconhecimento ou valorização dos outros, por que ficaria muito cansada, exausta mesmo. Tentemos imaginar, então, como é manter uma vida assim: sem o corpo dar uma ‘estacionadinha’ na sombra contemplativa...
Acho que já escrevi e postei algo a respeito, e repito: gosto de fazer um monte de coisas praticas, braçais até – faxina é uma delas -, mas faço isso com prazer, por gostar mesmo. Não faço isso por obrigação, ou quando estou estressada, cansada demais (só quando estou cansada de menos).
Muito cá entre nós, às vezes, quando toca o despertador, já dá um trabaaaalho danado abrir os olhos. E o dia nem começou. Não é assim que acontece, de quando em vez, ou isso só acontece comigo?...
No oriente, os monges budistas vivem a meditar, e são respeitados também por isso. Por lá, os velhos são reconhecidos sabios, não desrespeitados, como acontece no ocidente. A sabedoria deles – os orientais – é milenar. Por isso e apesar disso também, já que nós – os ocidentais – temos o exemplo, por que não segui-lo?... Será que precisamos de milenios, pra aprendermos o que vemos de melhor, que outras culturas já praticam?... Confesso que não compreendo (também) essas coisas.
A verdade é que comecei escrevendo isso aqui, pensando em sair em defesa daqueles que (ainda) sabem e refletem, meditam, contemplam, param. E continuo com o mesmo objetivo. A ‘bandeira de defesa’ é pequena (proporcional a mim), mas cada um poderia cuidar mais da propria vida, né não?...
Por aqui onde transito, tem um catador de papéis que vive perambulando pelas ruas, exibindo musculos, sempre sem camisa. Ele faz inimaginaveis poses acrobaticas (forma de manter a forma?), inclusive do “Rambo”, só desarmado (por sorte!). Aí, fico eu pensando que as academias de (tantas) ginasticas podem ser comparadas a (mais) um altar de adoração – ao físico, ao corpo, que corre, tenso, e depois se exercita ainda mais, com o mínimo repouso.
Lá fora, as pessoas continuam correndo, pisando firme no acelerador, perdendo a paciencia no transito, se estressando, mais e mais, pra voltarem pra casa, e correrem mais ainda, tentando compensar a ausencia. Esquecemos nós que o tempo continua ignorando o nosso tempo, preparado pra nos surpreender, “a qualquer momento, em edição extraordinaria”, com: fim. Daí, depois de corrermos tanto, sem tempo (nem disposição) pra pararmos, ficamos até sem tempo pra pensar sobre essas coisas...Cansei de pensar e escrever sobre isso. Fui atrás de um mantra, em homenagem aos sabios monges, que trabalham mais que nós, por que não precisam refazer o que já fizeram, e continuam a meditar – simplesmente... Esse mantra (orienta a ‘bula’) “se destina a purificar e preparar o recebimento da transmissão de sabedoria”: “Sobre Sharei Shurei Juntei Sowaka”. Quem sabe, um dia, talvez, a gente medite sobre...
(Agora, vou ali meditar um pouco – sobre nada.)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Atendimento boçal

Não é sobre bonsai que quero escrever hoje (quem dera!) – não, nada a ver, mesmo. Lamento. É sobre os ‘merdas’ dos boçais, mais especificamente, sobre aqueles funcionariozinhos publicos que se sentem os “reis da cocada”, num cargo concursado, com estabilidade, na maioria das vezes. Esquecem os boçaizinhos que são pagos pela população (mal) atendida por eles – também, aquela miseravel maioria que eles tanto menosprezam e humilham. Simplesmente, por que todo mundo é obrigado a pagar impostos embutidos em qualquer coisa que compra pra comer, vestir, beber, ou seja lá o que for fazer com.
Como sempre, o que salva são as (cada vez mais raras) exceções. Mas, nos serviços publicos (municipal, estadual, federal), atendimento sem humilhação, ou arrogancia, é ‘coisa antiga’. Sabe o que é pior, nisso tudo?... A maioria das pessoas que recorrem ao atendimento desses boçaizinhos sai falando mal de prefeitura, ou de governos estadual, federal, por que esses ‘merdinhas’ cheios de empafia representam um determinado governo (poder publico). Tudo isso acontece por esse ‘Brasilzão’, mas pouca gente fica sabendo, se compararmos o fato com a audiencia de programas policiais (sangue, sangue, tiroteio, tiroteio).
Volta e meia, por um motivo ou outro (a trabalho, na maioria das vezes), frequento esses ambientes terríveis, com atendimento desses servidores boçais. E o que vejo é o que todo mundo vê: atrás do balcão, eles - os boçais, pagos com nosso dinheiro – abusam do poder que lhes garantem o crachá e a função. E enrolam no atendimento. E humilham. E falam com cada vez maior aspereza, quanto mais miseravel aparentar o atendido.
Sabe o que é pior? Ninguém reclama. A maioria baixa até a cabeça, em sinal de vergonha (às vezes, até com a intenção de fazer o boçalzinho se acalmar, e falar mais baixo). O ambiente muda mesmo, quando chega o “doutor” – aí sim, é tapinha nas costas pra todo lado. É tanto puxa-saquismo dos boçais, que o “doutor” (que, provavelmente, nem tenha doutorado) deve sair todo ‘melado’ do “recinto”.
‘Baralho’! Esses boçaizinhos de ‘merda’ são chamados “servidores” (que servem, a serviço de – né não?). Mas tem pior ainda. Os boçaizinhos atendem serviços publicos essenciais – saúde, segurança, educação (quem nunca precisou de atendimento publico?). Quem mais procura “postinho de saúde”? E delegacia? E quem mais entra em fila pra retirada de documentos (historico escolar, carteira de trabalho, certidões)?... Claro que é, na maioria, a população mais necessitada (de atendimento), por que os “doutores” telefonam, mandam os “serviçais” (que não entram em filas).
Coitados dos prefeitos, governadores e presidentes que foram e (ainda) são sinceros, quando afirmam: “Vamos valorizar os nossos servidores, por que são eles que prestam o melhor serviço à população”. O que esses governantes não sabem é que os “valorosos servidores” só servem mesmo pra exibir empafia, já que a maioria ‘joga’ mesmo no ‘time’ dos boçaizinhos de ‘merda’.

Nem vou me deter aqui em indicar, às (silenciosas) vitimas, “direitos humanos”, “ouvidoria”, “Procon” da vida, ou remedio pra conter vomito - o escambau... não vale a pena. Em qualquer esquina, “parem o mundo, que eu quero descer”...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O que afasta

Claro, o teu lugar é só teu, e não há uma criatura sequer no mundo que possa estar no teu lugar, por que não sente do jeito que você sente, não pensa do jeito que você pensa – medos e desejos são só teus. Também o lugar do outro é unico, intransferível, por que, assim, ele – o outro – construiu o proprio caminho. Mas deve haver um “meio do caminho”, pra que você e o outro se encontrem – cada qual no seu proprio lugar. Não adianta dizer que pensamos no outro, se agimos tão-somente por nós. O outro continua ali – tão proximo, e, ao mesmo tempo, cada vez mais distante -, também agindo tão-somente por ele, sem pensar em nós.
Acho mesmo que o que afasta os seres humanos é cada um reafirmar que fez e faz a sua parte (dele, no caso), esquecendo que o outro também reafirma algo identico – tão vazio, de ambas as partes. Se cada criatura é unica, deve haver alguma maneira de convivermos, já que o mundo em que vivemos é um só. Até aqueles que vivem nas ilhas mais distantes buscam aproximação com quem não vive por lá, e vice-versa. Somos humanidade.
Dizer que eu gostaria de ser diferente é negar quem eu acho que sou. Se quero mudar (crescer, amadurecer – a unica mudança que acredito), eu mudo. Responsabilizar o outro (tão-somente o outro) não é dar-lhe apenas o atestado de culpa. Mais que isso. É dizer, em outras palavras, que não esteve com o outro, enquanto o outro (talvez) imaginasse que estava. Responsabilizar tão-somente o outro é deixá-lo em desamparo, sentimento, talvez, mais genuíno que carregamos na alma.
Mas eu não posso nem pensar em tentar mudar, se é em razão de o outro mandar que eu faça isso, por que o outro deseja. O desejo, o querer, a vontade precisa ser minha, tão minha, tão unica, como é o lugar onde cheguei, onde estou, por onde passo. Pessoalmente, eu só admito e reconheço mudança, a partir da propria essencia de cada um. Não acredito em mudança de essencia – acredito em crescimento, amadurecimento, mudança profunda, essencial.
Mas a gente é ser humano, né?... A gente coloca entraves – como se não bastassem os obstaculos naturais (?) da vida de cada um. Ainda assim, apesar disso, e por isso mesmo também, eu creio na convivencia humana harmoniosa – sem tedio, nem por isso sem diferenças (cada um é cada um, não tem jeito). Eu creio nas relações construídas, com base em afinidades de almas (algo mais sutil do que o nosso mediocre cotidiano de mesmices). Eu creio que, mesmo eu não sendo capaz de colocar-me no lugar do outro, posso enxergar (saber) que o outro existe – tão humano, quanto eu. Eu – ainda – creio que o “meio do caminho” entre um ser humano e outro ser humano pode ser um abraço – de olhos fechados, na maior escuridão, à beira de um abismo, desamparo genuino. Mas isso só é possível, quando ambos os seres humanos já ultrapassaram, juntos, a maior barreira: o impossível. Sem esse ‘encontro’, melhor nem arriscar. É o que penso.
Mas se eu ficar me auto-afirmando (traduzindo: me protegendo), mais e mais me afasto do outro, sem buscá-lo, para reconhecer os meus proprios desacertos, e permitir ao outro que também verbalize os desacertos dele, se quiser. Talvez, o encontro humano aconteça justamente aí: quando ambos (eu e o outro) nos despojamos do que até então parecia nos proteger, e damos um passo (mais leve) à frente, reconhecendo-nos como seres humanos que somos. O resto é balela.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A imitação da vida

Ah, não me venha com a conversinha de que você sabe ser original – não imita, não copia, não plagia, não segue as ditaduras da moda efemera. Só o fato de você ter nascido de outros já retira a sua suposta “originalidade”. Tem gente que vai mais longe, e até diz que “somos resultado de tudo o que vivenciamos”. Não chego pensar tanto, mas acho que somos o que somos, por que somos, do jeito que somos. Não somos “originais” – em nada, nada. Penso que imitamos – melhor ou pior – o que admiramos, ou odiamos, no ser humano. E até esse meu pensar ‘tá’ sendo plagio (não sei de quem, mas que ‘tá’, isso ‘tá mesmo).
Você não segue a moda dos modelos e manequins?... ‘Tá’ bom, então... Mas você pega tudo o que a moda oferece, mistura, e depois sai por aí, fazendo-se “original”. Acertei?...
Você lê um livro, pra fazer um trabalho de sala de aula. Discorda de tudo – ou quase tudo – o que leu, e acha-se “original”. O que você ‘tá’ fazendo é ignorar o que um outro autor já escreveu, contrariando o livro que você acaba de ler – e, às vezes, há muuuuuuuuito tempo atrás.
Você mistura ingredientes, imaginando criar uma receita “original”. Engano seu. Tempos depois, descobre – num livro, ou com amigos – que a receita (aquela sua – “original”) foi experimentada e aprovada por antigos degustadores, antes mesmo da sua “brilhante ideia”.
Você quer ser e se acha diferente do seu pai, ou da sua mãe, ou de ambos, e se diz “original”, por isso. Não é. Poucos, nessa humanidade que se multiplica e se diversifica, a cada instante, querem ser, e passam a vida inteira tentando, o retrato fiel de seus criadores, mas ninguém consegue, querendo ou não.
Você vai além no trabalho de pesquisa que o professor solicitou, além da tarefa que o chefe ordenou, considerando-se “original” em suas atitudes. “Ledo engano”. Outros fizeram o que você faz hoje – também, em nome de uma originalidade inexistente -, inclusive o seu professor e o seu chefe no trabalho.
... e por aí vai - a viagem das possibilidades não acaba...
Muitos outros antepassados nossos – tão humanos, quanto nós – também acertaram e desacertaram. Talvez, por isso, não nos deixaram a chance de sermos “originais”. Mas também eles – os antepassados – não conheceram a originalidade genuína. Não foi por que já nasceram com o planetinha ‘funcionando’ do jeito que era. Simplesmente, seguiram os passos de criaturas que desistiram, no meio do caminho. Logo adiante, no caminho já aberto (por isso, sem originalidade alguma), mais uma descoberta à humanidade.
Sei lá se o que escrevo pode causar consolo, ou desespero. Mas acho que o que cada ser humano sente, ou pensa, um outro ser humano já pensou, já sentiu, ou ainda sente e pensa. Um otimista que leia isso pode pensar: Pelo menos, não estou tão só. O pessimista pode questionar: Pra que viver, se não sou “original”?
Somos diferentes, sim, por que, acho, ‘embaralhamos’ nossas vivencias – dentro da alma, talvez -, e agimos de acordo com. Até que existe uma certa coerencia nisso – pelo menos, pra justificar a nossa existencia unica. Mas nem assim conseguimos ser “originais” – no máximo, somos coerentes conosco mesmos (coerencia com tempo de validade). Nada além. Afinal, somos partes de uma só humanidade, né?...

E a imitação da vida continua - até que, no melhor do baile (de mascaras), morremos...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Morte banal

Tudo ‘tá’ ficando cada vez mais banal e banalizado. A morte, por exemplo, já não causa tanta comoção – o tempo de sofrimento, por causa da morte, ‘tá’ sendo cada vez mais reduzido. Não há mais tempo pra ficar chorando a morte – diz a maioria. Por sorte (dos mortos), algumas criaturas ainda guardam, no fundo da alma, a lembrança daqueles que partiram para o “desconhecido”. Mas a maioria mesmo, quando lembra, chora pelos mortos, somente no dia dois de novembro – talvez, movida até pelo apelo que a data traz (com feriado nacional e tudo). A verdade é que não há mais tempo nem pra viver – imagine, então, pra “curtir” a morte dos outros.
Há pouco tempo atrás (há algumas decadas), o luto era periodo de resguardo, e poderia seguir por anos. Será que alguém ainda lembra disso?... Mas, hoje, não há mais tempo para luto. Se o enterro atrasa, muita gente vai embora antes, justificando que tem “mais o que fazer”.
Hoje, a morte – tão banalizada, coitada! – já não causa o horror antigo. Pelo menos, a morte dos outros. Tem criança (de 9-10 anos) matando colega, “de brincadeirinha”. Tem estudante adolescente levando arma de fogo à escola, causando ameaças. Tem muitos projeteis ‘voando’ nas ruas – não só do Rio de Janeiro. Tem ex-marido matando quem (só ele) imaginava ser propriedade dele. Tem assaltante matando – de susto.
Pior mesmo é assistir noticiarios na televisão, e ouvir o apresentador: “Acidente na rodovia mata mais cinco pessoas”. Nem cita nomes – são numeros apenas (o que mais importa é o indice de mortes em acidentes nas estradas).
Mas tem muito mais. Tem marmanjo ‘brincando’ de medico, nos hospitais brasileiros, e matando pacientes. Tem criança de colo, desamparada, nas mãos de mulheres que se dizem babás, e são ‘especialistas’ em torturas. Tem motorista brigando e matando no transito. Tem tanta, tanta morte provocada, que o menor indice, daqui a pouco, será “morte natural”, ou “parada cardio-respiratoria”.
Talvez, por causa do medo da morte, muita gente desvie o assunto. Tem gente até que nem vai a velorio, enterro – quem sabe, no proprio (?)...... E a vida continua (até quando?)...

De olho