segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O depois do depois

Imagino que a tataravó da minha bisavó já dizia que “tudo, nesta vida, tem ônus e bônus”. De minha parte, acho que ônus e bônus até podem vir – nem sempre nesta mesma ordem -, mas nunca se sabe quem receberá o bônus, ou quem pagará o ônus. Familia, por exemplo, hoje em dia, é uma palavrinha com inimaginaveis significados, apesar de muita gente insistir na ilusão de familia de comercial de margarina. Provavelmente, hoje, Aurélio Buarque de Hollanda contorceria o cerebro, na busca de tantos sinonimos para familia.
O pior mesmo fica para o depois do depois - depois do casamento, quando chega a separação (se chega). Pior ainda, quando o casal resolve brigar (às vezes, nem resolve – briga mesmo). Os filhos passam ser bolinhas de papel voando pela sala. Ah, mas ainda tem mais depois do depois do depois. Se o cara que passa morar com a mãe manifesta interesse e vontade de querer ser bom para os filhos dela (que não são deles), ele (o cara) ‘tá’ querendo ocupar o lugar do pai dos filhos que não são deles. Se o mesmo cara (que passa morar com a mãe dos filhos que não são dele) demonstra desinteresse e indiferença para os filhos dela (que não são dele), ele (o cara) ‘tá’ querendo dificultar a convivencia familiar. Não tem saída. O mesmo acontece com a mulher que assumir a união com um cara que é pai de filhos que não são dela (a mulher que vai morar com ele).
Quando o fato acontece num filme, todo mundo (que não ‘tá’ cochilando) tem opinião a respeito. Se ocorre numa novela, antes de surgir qualquer pensamento, o que chega primeiro é ansia de vomito(insuportável). Mas familia é ‘coisa real’, muito além do que qualquer filme, ou ‘droga’ de novela. Familia vai além de um comercialzinho de margarina - é junção de personalidades e interesses diferentes, num mesmo teto, que brigam muito, nem sempre se entendem, e raramente se resolvem mutuamente.
Se a convivencia familiar já é complicada, imaginemos a separação desse tumulto todo, que, em diversos momentos, faz tanto barulho, chegando envolver outras familias, além de vizinhos, amigos, e até inimigos. A panela de pressão fica abarrotada de gente, e depois é tampada, exposta ao fogo maximo da separação litigiosa. Mesmo com os acertos que a Justiça Brasileira tem acrescentado no Codigo Civil (“guarda compartilhada” e tantos outros direitos e deveres), na pratica, na hora do “vamos ver”, a coisa fica feia mesmo, e a maioria acaba esquecendo toda a ‘parafernalia’ judicial.
O que tenho sabido, em separações conjugais, é que os filhos (menores, crianças) viram “baratas tontas”, e, a qualquer momento, são utilizados como mísseis - por parte da mãe, ou do pai - contra o maior alvo do momento: o ex, ou a ex – ex mesmo. Não dá pra nem adulto (que ‘tá’ fora da situação, obviamente) entender como duas pessoas que chegaram a casar - decidiram isso, em comum acordo – não consigam mais sequer trocar algumas frases basicas (Como podemos dividir os bens? Como mantemos a alimentação e a escola dos filhos?), dialogos sempre mantidos, durante a “convivencia sob o mesmo teto”. Se a gente (adulta) não compreende, os filhos – menos ainda.
De repente, as dificuldades de um, que eram reconhecidas e compreendidas pelo outro, no casamento, passam representar “provocação”, ou causa de mais revolta. E os filhos permanecem no meio do ‘tiroteio’, e, quando se ausentam, são chamados de volta ao ‘palco’. Pior, quando eles (os filhos) são questionados quem eles preferem: o pai, ou a mãe. É muita pressão, pra quem ainda nem pensa casar, muito menos encarar uma separação.
Ah, mas tem muito mais. Motivos não cessam de aparecer, durante todo o processo da maioria das separações conjugais. Não é lavação de roupa suja, não. É mais, muito mais que isso. É limpeza, sem luvas de borracha, no esgoto da vida conjugal, respingando em toda a familia, principalmente nos filhos, que não foram chamados (por que nem existiam) ao momento da grande decisão de “união do distinto e apaixonado casal”.
Dia desses, conversei com um garoto (oito anos, no maximo), que esforçou-se, mais de meia hora, pra fazer com que eu compreendesse a familia dele: “Eu sou filho do meu pai e da minha mãe. Tenho uma irmã mais velha que não é filha do meu pai, e um irmão mais novo que não é filho da minha mãe. Ah, ainda tenho mais um irmão, pouco mais velho que eu, que não é filho da minha mãe, nem do meu pai, por que ele é filho do pai da minha irmã, que não é meu pai. E a mãe do meu irmão mais novo, que não é filho da minha mãe, só do meu pai, ‘tá’ gravida, e eu vou ter mais uma irmãzinha. Entendeu agora?” – perguntou-me aquele olhar concentrado. Para não desapontá-lo (já havia pedido que ele me repetisse, outras duas vezes), respondi imediatamente: Ah, agora sim, entendi tudo. Ele sorriu, e voltou a brincar com outros meninos - que (ainda) não são irmãos dele, pelo menos, até agora...

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