quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Fernando Pessoa(s) - Tantos

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Tabacaria

- Fernando Pessoa -

Voz: Helena Antoun

Mais uma vez, começo pelo fim. Durante exaustivo tempo, com dedicação de alma desarmada, reli e estudei tudo o que pude de Fernando Pessoa(s) – escritos dele e sobre ele. Publicarei aqui, em três postagens, o resultado desse trabalho – pouco intelectual, mais emocional.
Se, quando escrevi sobre Clarice Lispector, foi com intenção de desmitificá-la, com Fernando Pessoa(s), o objetivo primeiro foi mesmo aprofundar-me, deixar-me levar por essa alma despedaçada, e, ao mesmo tempo, de uma inteireza profunda e intensamente humana. Se, na volta desse ‘mergulho’, escrevo a respeito, o faço, com ingenuo proposito de ‘ciceronar turistas’, nessa imprevisivel ‘viagem’.
Conheci Pessoa(s), lá pelos meus 10-12 anos, quando, aluna timida, refugiava-me na pequena e inesquecivel biblioteca da escola. Os livros sempre me foram companhia segura e constante – até hoje. Lembro que minha primeira leitura de Pessoa(s) foi um fragmento de Tabacaria, em um livro de língua portuguesa (com exercicios de interpretação):
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Ao ler, minha alma estremeceu no corpo infantil. Entristeci, quando percebi que eu não conseguia responder à “interpretação do texto”. E ainda não sei – mas não entristeço mais por isso. Menina, eu não tinha acesso a muitos livros, até por que a biblioteca da escola priorizava literatura nacional, disponibilizando autores mais conhecidos: Veríssimo, Alencar, Cecília, e, no maximo, um pouco de Clarice, junto com alguns outros. Senão todos, li a maioria, naquela época, já que esquivava-me do convívio com os colegas. Assim, continuei agindo, nas escolas da minha vida. Por diversas vezes, tive emprestadas obras com textos de Fernando Pessoa(s) – devorei-as (inclusive, o poema completo Tabacaria). Como sempre tive dificuldade de decorar leituras, incansavel, copiava Pessoa(s) em folhas retiradas de cadernos, escondidas nos meus maiores segredos.
Muito tempo depois, reencontrei o escritor português, pela janela de uma alma perplexa e inquieta. Nunca antes, aprofundei-me tanto em Pessoa(s). Até hoje, tudo o que leio dele e sobre ele – inclusive, para este trabalho – tem a companhia desta alma.
Sempre digo que não gosto das respostas – prefiro as perguntas, que me dão sensação de infinitude. Por isso, não apresento, aqui, quaisquer respostas, nem uma vaga verdade absoluta. Também, não encerro meu ‘mergulho’ em Pessoa(s), por pressentir (verbo que ele parecia gostar) que, daqui a pouco, Fernando António Nogueira Pessoa me arremessará ao mais desconhecido e inimaginável universo humano.
Não quero copiar biografia, por que Pessoa(s) vai muito além de qualquer vida cronologica. Para justificar, registro o que o proprio Fernando Pessoa(s) deixou escrito: “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença, e a da minha morte. Entre uma e outra, todos os dias são meus”. Atendendo ao pedido, Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em 13 de Junho de 1888, e morreu em 30 de novembro de 1935, vitima de “cirrose hepática”. Eis toda a verdade absoluta de uma vida inteira.
Não ouso tentar defini-lo. Decifrá-lo. Reduzi-lo. Todo ser humano é indefinível. Indecifrável. Inimaginável.
O que iniciar dizendo de Pessoa(s)?... Mais um ser humano – cheio de vidas contraditorias, intensas, tantas vidas que não poderiam ser vividas numa vida só, senão pela literatura. Como qualquer um de nós, Fernando Pessoa(s) carregava todos os sentimentos do mundo humano, na alma que “não é pequena”. Viveu tão intensa e profundamente a vida humana, que encontrou-se e perdeu-se nos proprios textos que escrevia, desaguando a abundancia de uma vida tão fertil, pouco compartilhada entre os seus “patricios” da epoca.
Homem inteligentissimo, Pessoa(s) foi além do conhecimento propriamente dito. Desenvolveu seus proprios mecanismos para ‘misturar’ culturas, de onde garimpava o ‘material’ de textos inacabados, poemas intensos. Mas tudo isso não cabia em Pessoa(s), que, como qualquer ser humano, tinha apenas uma identidade verossimil – a fresta por onde se podia (e ainda se pode) conhecer Pessoa(s).
Foi assim que, desde sempre, Pessoa(s) criou outras identidades – com os minimos detalhes que cabem a todo ser humano. Era o criador, diante de cada criatura, dosando inteligencia, emoção, indole, carater, personalidade, cultura, educação, humanidade, cada qual com seu mapa astral particularizado, e vida social meticulosamente traçada. Aos seis anos de idade, depois de perder o pai e o irmão, Pessoa(s) criou um amigo de sua solidão: Chevallier de Pas. Quantas cartas escritas por ele a ele mesmo. Até o final das tantas vidas numa vida só.
Fernando Pessoa(s), espelho da humanidade que pensa e sente, fez-se cacos, tantos cacos a refletirem o mesmo espelho de 1,73 metro, com fisionomia reconhecida até hoje, pelo sempre bem aparado bigode e o inseparável chapéu, o terno escuro, sombrio até, na companhia de um par de lentes de 12 graus, para atenuar a fatal miopia. E, assim, o universo de Pessoa(s) foi povoado por tantos e incontáveis seres humanizados, dentre eles: Íbis, Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher, Alexander Search, Dr. Pancracio, Maria José, Luís António Congo, Eduardo Lança, A. Francisco de Paula Angard, Pedro da Silva Salles (Pad Zé), José Rodrigues do Valle (Scicio), Pip, Dr. Caloiro, Morris & Theodor, Diabo Azul, Parry, Gallião Pequeno, Accursio Urbano, Cecília, Marvell Kisch, Gabriel Keene, Sableton-Kay, António Gomes, Vicente Guedes, José Rasteiro, Tagus, Adolph Moscow, Dr. Gaudêncio Nabos, Frederico Reis, Nympha Negra, Professor Trochee, Diniz da Silvam, Coelho Pacheco, David Merrick, Lucas Merrick, Willyam Links Esk, Charles Robert Anon, Horace James Faber, Navas, Alexander Search, Charles James Search, Herr Prosit, Rev. Walter Wyatt, Jean Seul de Méluret, Gomes Pipa, Frederick Wyatt, Joaquim Moura Costa, Faustino Antunes (A. Moreira), Gervásio Guedes, Carlos Otto, Miguel Otto, Pero Botelho, Efbeedee Pasha, Thomas Crosse, I.I. Crosse, A.A. Crosse, António de Seabra, Raphael Baldaya, Alfred Wyatt, António Mora, Sher Henay, Barão de Teive, Abílio Quaresma, Claude Pasteur, João Craveiro Pantaleão, Torquato Mendes Fonseca da Cunha Rey, junto com Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, que acompanharam-no à morte.
Alberto Caeiro era o “mestre” dos “discipulos” Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Mas quem mais aproximou-se da alma de Fernando Pessoa(s) foi Bernardo Soares, que, segundo o proprio criador, chegava em madrugadas insones, quando Pessoa(s), em estado letargico, permitia que sua alma comandasse a caneta, rascunhando folhas e folhas, as quais seriam “passadas a limpo”, numa das maquinas de escrever que utilizava, como tradutor, nas lojas de comercio, em Lisboa.

Foi Fernando Pessoa(s) quem escreveu:
“Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se torna morna, de perigos grandes – penetravam em jovens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência... E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...
Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. Ás vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma idéia dele a que possa amar...Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez seja nunca esse o pai da minha alma...
Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para a sua casa e me desse calor e afeição...Ás vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar...Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio...Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis par seu filho adoptivo, nem nehuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci...Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia...” (Bernardo Soares)

“Não sei de quem recordo meu passado
Que outrem fui quando o fui, nem me conheço
Como sentindo com minha alma aquela
Alma que a sentir lembro.
De dia a outro nos desamparamos.
Nada de verdadeiro a nós nos une
Somos quem somos, e quem fomos foi
Coisa vista por dentro.” (Ricardo Reis)

“Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.” (Álvaro de Campos)

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...” (Alberto Caeiro)

Um comentário:

  1. gostei da sua abordagem na alma de clarisse. texto gostoso, sem excessos. querendo me visitar fique à vontade :

    http://letraempo.blogspot.com/

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