sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Tira-gosto

Eu sei que todo mundo sabe o que acha que sabe. E sei também que, para algumas pessoas, a vida é dificil, e, para outras, a vida pode ser complicada, ou pode ser um desafio, ou até uma grande farra, ou palhaçada, ou qualquer coisa parecida com isso, ou diferente disso tudo. Mas o que mais sei é que a vida, pra mim, é tudo isso e mais o que não lembro agora, por que estou vivendo. Eu sei também que uma dor – de barriga, de dente, ou existencial – dói, dói muito. E eu sei mais ainda. Eu sei que cometemos o mal, intencionalmente, ou até quando não medimos as consequencias. Mas eu sei que, depois, nos ajoelhamos, diante do altar de alguma igreja, e voltamos perdoados pra casa. Eu sei que o gelo, de tão gelado que é, chega queimar. As queimadas, nas florestas, é pra devastarem o verde, e plantarem outro verde, ou não. O que sei mesmo é que as queimadas queimam tudo. E o que queima vira cinza. E cinza não se refaz. Cinza é soprada e desfeita pelo vento. As nuvens também são sopradas pelo vento – eu sei disso. Mas o que importa mesmo é o que interessa. E o que importa, para alguns, não interessa a outros – e assim vamos vivendo. Ou nem vamos. Ficamos vivendo. E eu sei que choramos, quando somos feridos. Mas eu sei, também, que nem por isso deixamos de ferir o outro. Enquanto isso, eu fico sabendo tanta coisa. Eu sei, por exemplo, que, quando faz frio aqui, faz calor, lá não sei onde. Mas eu sei que é assim. Eu sei que, agora, já, tem gente agradecendo – sei lá a quem – a dor, a doença, a miseria humana. Eu sei que, quando anoitece, o dia vai para outro lugar – ser dia, mais uma vez. Eu sei que, daí, a madrugada toma conta de tudo, até que o dia volte. E eu sei que, no escuro, a gente pode bater a ‘canela’, na mesa de centro da sala. No escuro, eu sei que as pupilas se dilatam – e eu sem enxergar coisa alguma. Eu sei ainda que, neste exato momento, alguém nasce, alguém morre, alguém se sente ninguém, e ninguém se sente alguém, e alguém pensa que eu nada sei. O que sei é que tem alguém fazendo alguma coisa – por todo lugar. Eu sei que posso nem conhecer esse alguém, mas eu sei que esse alguém existe, sem me conhecer também. Eu sei que eu poderia estar fazendo tanta outra coisa. Eu sei que eu poderia ter nascido no Alasca, e amar um beijinho de nariz gelado. Eu sei que eu poderia viver na África, e arrastar a historia humana, descalça, no meu vestido solto e sujo de poeira seca de tanto calor. Eu sei que eu poderia estar meditando no Tibet, ou poderia estar tocando Ektara – ou Doktara -, pelas ruas de Bengala. Mas eu sei que não estou lá – nem aqui. Eu sei mais quem não sou, por que quem sou não é. Ah, mas eu sei também que a chuva molha - às vezes, molha tanto, que chega inundar tudo. As casas ficam alagadas, e as ruas viram rios sem direção ... e pronto. Eu sei também que o banho molha, e que há gente que lava a alma. Eu sei que as relações pessoais – quaisquer que sejam – são alimentadas e movidas por pessoalismos, os quais, muitas vezes, eu desconheço. Mas eu sei que são assim. Eu sei que, uma vez que a gente aprende andar de bicicleta, jamais esquece – equilibrio. E eu sei que não sei equilibrar-me na vida – alma torta que sou. Mas eu sei andar de bicicleta. Eu sei que não carrego certezas, nem verdades absolutas, na minha mochila cheia de nada. Até isso eu sei. E eu sei também que a vida pode parecer, às vezes, bonita, ou feia. Mas eu sei que continua sendo vida – por que (ainda) vivo. E eu sei que você nem precisa pensar sobre tudo isso, por que o que você sabe, você não precisa pensar. E eu sei também que, se você sabe, é por que você já pensou - ou não. E isso é tudo o que eu (acho) sei.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Entre o pedido e a entrega

Tem muita gente comprando e pagando caro “gato por lebre”. O Procon tem registrado cada vez mais ocorrências de reclamações, neste sentido. As conhecidas “lojas virtuais” disparam neste “ranking”.
Mas isso também acontece na “vida real”. Nem sempre envolve o caso de uma compra. Já tem gente considerando o casamento, “investimento de vida”. É justamente aí que surgem (gritantes) diferenças entre o pedido e a entrega. Em vez de “o produto” não funcionar corretamente, a convivência é que acaba não ‘funcionando’ de acordo com o pedido (expectativa) de cada um. E não há troca, nem direito de devolução intacta. Simplesmente, não há como dizer ‘ops’, e desligar o telefone, ou o computador, e procurar, depois, outra “loja virtual”.
O que me parece é que a maioria ‘tá’ querendo atendimento imediato – a realização dos sonhos, num único instante. Tudo é rápido demais, e não há quem queira esperar construir o que sonha, ponderando junto com outro alguém, que também tem sonhos de vida. Por isso é que quem tem condições recorre à internet, e deixa de investir nas convivências ‘reais’. Se o papo teclado com alguém ‘tá’ chato, basta desconectar, bloquear, deletar – isso não acontece no cotidiano pessoal. Atritos existem, e não há como fugir deles sempre.
Entre o pedido e a entrega, o olhar ansioso pode confundir gato por lebre – ou, então, a lebre fugir, e o gato assumir o lugar de prestígio. Brincadeiras à parte, nem sempre o pedido é entregue. Eu faço o pedido, mas esqueço do “pequeno detalhe” que ‘tava’ no pé da página, em letras microscópicas: “o kit completo contém”...
Oras carambolas, a gente não corresponde às expectativas do outro, seja o outro quem for. Até por que nem correspondemos às nossas proprias expectativas. Isso é fato. Ninguém é perfeito (que novidade!) – nem nossos pedidos, tão humanos quanto nós. O pedido é feito, de um jeito, ou de outro, por que, mesmo quando não pedimos, a entrega chega. E não há devolução. Não mesmo. Você pode berrar, espernear, não adianta. Se o pedido é desfeito, outra ‘coisinha’ fica no lugar: consequência. Sabemos disso.
Confesso que tenho cautela, ao fazer um pedido. E só faço mesmo, quando percebo que, se eu não fizer o pedido, alguém o faz, e ainda manda entregar pra mim. Se o pedido é inseguro, incerto, a entrega também (surpresa!). Há duas expectativas em questão: de quem pediu, de quem entregou. (E ainda tem gente, nos tempos atuais, que sonha ter uma mão amiga, no momento da morte!)
Tudo isso é sempre muito complicado, pra mim. Não sei lidar com convivências humanas. Transito por elas – vivencio o que todo mundo vivencia -, sem parar pra pensar se aprendo alguma coisa com isso. Entre o pedido e a entrega, eu fico com a entrega – a minha entrega, que é torta, mas é o melhor de mim. Melhor mesmo é nem pedir pra aprender – pode ser que a lição contenha alguma coisa que já te foi entregue. Ou não.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Por agua abaixo

“Quando ele me agrediu, ele mostrou quem verdadeiramente era”. Essa daí é uma frase comum da frustração personificada. Aí, eu fico pensando: Só se mostra quem a gente verdadeiramente é, quando a gente agride?... Por que não mostramos, também, quem somos, de outra maneira, ou de todas as maneiras?... Eu, pessima aprendiz de ser humano, não consigo entender (mais) isso.
O que vejo é que tudo o que foi construído, na relação (seja de casal, ou entre amigos), vai mesmo por “agua abaixo”, depois que o outro agride, violenta – seja o corpo, ou a alma. Por outro lado, por que a gente não está mostrando quem é, quando manifesta amor, carinho, zelo, afeto?... Não compreendo.
Vou adiante, no pensamento que é meu. Acho que vivemos o apice de um momento “divisor de águas”, na historia humana. Aliás, vou além, achando também que, mais que dividir as aguas, o momento em que (sobre)vivemos está mesmo indo, e levando tudo por agua abaixo.
Tudo é descartável – sem filosofias. A todo instante, descartamos e somos descartados, em todas as conjugações. Do ralo e do esgoto, somente as baratas se salvam, e (ainda) vivem. Mas, também, descartamos as baratas, tantas quantas vezes sejam necessarias. Quando o ralo entope, descartamos a possibilidade de não mais sobrecarregarmos a via de esgoto. Contratamos logo um tecnico desentupidor, e continuamos descartando tudo e todos. E aproveitamos – o “ensejo” – para descartar a unica microscopica hipotese de pensarmos sobre essas coisas tão chatas – descartaveis.
O marido, a esposa, os ‘namorantes’ são descartaveis: “Casamento é instituição falida, e tem muita gente no mundo, pra eu investir tudo num unico relacionamento”.
Os amigos são descartaveis: “Amizade, pra mim, é concordar comigo. Discordou, ou falou coisas que não concordo, eu descarto”.
As musicas são descartaveis: “Pego tudo na internet, ouço, e deleto”.
Os livros são descartaveis: “Livro é coisa chata, mas eu leio emails”.
Os sonhos são descartaveis: “Sonhos não existem – eu descarto logo”.
Os filhos são descartaveis: “Não me prendo a crianças – não gosto -, e, por isso, pago pessoas pra criarem meus filhos”.
A profissão é descartavel: “Vou procurar, pela milionesima vez, uma outra carreira profissional”.
Os funcionarios são descartaveis: “Demito quem não me obedece, por que a fila da ‘boiada’ silenciosa aumenta lá fora”.
As igrejas são descartaveis: “Deixei de ir naquela igreja, por que tudo era pecado, e agora estou em outra mais adequada”.
A gente mesma é descartavel: “Já não quero mais nem saber de mim, e até acho que estou me descartando”.
O desafio é descartavel: “Pra que eu vou insistir, se desistir é que vai me manter na minha zona de conforto?”...
Os eletros são descartaveis: “Pararam de funcionar, joguei fora, comprei outros”.
A vida é descartavel: “Se a vida não é do jeito que eu quero, eu descarto”.
Ah, eu já ia quase esquecendo: junto com tudo isso – papel higienico também é descartavel.
Nessa vida descartavel e descartada, numa verossimilidade sutil, parecemos baratas tontas – as mesmas que sobrevivem no esgoto -, tentando, às vezes, resguardar alguma coisa, que nem sabemos mais o que é. Descartamos tanto, que o exercício de reter verdadeiramente qualquer coisa que seja nos é cansativo, por que demanda esforço, tolerancia, compreensão, e - acima de tudo isso e de mais alguma coisa – vontade, desejo, querer mesmo. Descartamos, por que podemos, mas (sabemos) alguma coisa permanece e prevalece, no fundo de nós, por mais que nos retorçamos e nos contorçamos, na tentativa de descartá-la também: a alma...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O “sexo dos anjos”

Quem nunca participou de uma daquelas reuniões para analisarem, avaliarem e concluirem sobre o “sexo dos anjos”?... Por trás da extensa (e inocua) pauta, não acontecem mais que chatas reuniões, pra marcarem novas chatas reuniões.
Essas reuniões – agendadas, programadas, ou chamadas em “carater urgente urgentissimo” – são feitas, quase sempre, da mesma estrutura. Comumente, a reunião é convocada por um chefe, ou diretor, da empresa. Depois, não faltam os personagens, cada qual ajeitando-se nas cadeiras da grande mesa de reuniões. Além do patrão, no foco principal, participam os diretores de departamentos (sempre há), e aqueles que, além de fazerem numero, representam os coadjuvantes.
Não há reunião que não conte com o puxa-saco de plantão do chefe – concorda com tudo, e até aplaude, entusiasticamente, qualquer citação feita pelo patrão. Também, tem sempre aquele que, mesmo sem ter o que dizer, por ignorar o que deveria estar sendo exposto e debatido, manifesta a frase classica: “Eu acho que temos de fazer um estudo mais aprofundado a respeito”.
Ah, mas reunião mesmo não pode deixar de contar com aquele personagem classico que chama (ou pelo menos tenta chamar) a atenção de todos. Dependendo do humor do dito cujo participante da reunião, ele pode sair com uma dessas: “Nossa empresa merece mais do que está sendo falado aqui”. “Vocês assistiram o jogo de decisão, no final de semana?”
Além do puxa-saco, do metido e do “nada-a-ver”, reunião que se preze conta, ainda, com aquele personagem tipico de filme norte-americano. Ele permanece distraído, enquanto ‘rola’ a reunião, e, quase no final, fala, em tom dramatico: “Devemos marcar outra reunião, pra decidirmos alguma coisa mais concreta”. E ainda tem lugar para quem chamo ‘muralista’ (sempre em cima do muro), afirmando: “Eu não sei. Não sei mesmo. Esta é a minha mais sincera opinião”.
Não podemos esquecer do otimista e do pessimista de plantão, participantes marcantes, em toda reunião. O otimista, quando falta-lhe inspiração, na mesa de debate, aponta à janela, e quase canta: “Olhem, que natureza exuberante da nossa selva de pedra”. O pessimista, por sua vez, na tentativa de mostrar-se interessado, num muxoxo, olhando para baixo, interrompe: “Se querem saber minha opinião, acho que essa empresa pode falir”.
Cá muito entre nós, a maioria dessas reuniões já foi tão programada e ensaiada, que, por isso, já tem até o veredicto. Se for para reduzir salarios, ou aumentar horas de trabalho, ou reduzir/aumentar produtividade – tudo isso será feito, independente até de alguma opinião inedita, lançada durante a dita reunião. Já está tudo pronto. Não há mais o que fazer. Concordar, ou discordar, é o papel de cada participante, que assinará embaixo do que foi dito, ou não dito. Se a reunião tiver ata – aí, danou de vez. Todo mundo – um por um – quer “fazer constar em ata”: blá blá blá blá blá
Em tempo: Alguns livros espiritas (kardecistas) explicam que anjo, dentro do que chamam “hierarquia espiritual”, já não tem mais sexo, pois, segundo os livros, o anjo atingiu a “segunda morte”, rompendo o vinculo com o perispirito (que seria a ligação com a condição humana). Sem mais reencarnações. Nem homem. Nem mulher. Anjo somente. Longe de reuniões. (Acho melhor mesmo, por que já não dá mais para imaginar que os pobres anjos fiquem só tocando harpa – devem ter mais o que fazer -, para todo sempre da vida angelical eterna...)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

À margem de

Vivo o que não é, por que o que é – não é também. Não ser é mais que ser. Não ser é tudo – ser é alguma coisa, ou coisa alguma. Se um dia pensei ser, no outro, deixei de pensar, e já não o era mais. Os que querem e julgam-se ser grandes – não o são, simplesmente por que não sabem ser o mais infimo atomo, ou a mais poderosa bacteria. Não ser é a dimensão exata de tudo – o grande nada estilhaçado em diversos seres que não são. Escravo acorrentado pelo ser – inseguro e impreciso -, tudo o que é deixa de ser, por que não é – está, e, diante do proprio espelho, já não está mais. Sem saber ser, já não é. Pensais que sois quem, quando pensais? Não sois mais do que pensais – nem menos. Sois o que pensais, e que já não pensas mais. Também eu já pensei ser, e também eu tornei-me menor que o nada que sou, por pensar menos, quando ainda pensava que pensava o que pensava – e já não penso, por que já não mais me sou. Nem tampouco serei o que não fui. Somos seres pensantes não pensando que somos seres pensantes não pensando o que não pensamos, por não pensarmos o que poderiamos pensar. Pensar – pra quê? Se o pensamento, volatil e disforme, foge, abandona o pensador, que não quer mais pensar que pensa o que finge ignorar pensar? O pensamento, sim, é inteiro, e não precisa pensar que pensa. É. O pensamento, irreverente, não pensa, nem faz pensar que pensa. O pensamento – inteiro – simplesmente é. Enquanto vós, eu, nós, pensamos que pensamos pensar um unico pensamento. Não é. A inteireza do pensamento – não o sabemos, por que pensamos demais que estamos pensando em pensar o que nem está – não é. E, por isso, não sois vós, não é ele, não sou eu, nem somos nós. Não existe ser a pensar. Enquanto pensamos que pensamos pensar que somos quem pensamos que somos ao pensarmos – não somos, nem pensamos, por que não sabemos pensar quem somos, por que não pensamos quem somos pensando quem somos. Pensar quem somos nos impede de sermos sem pensarmos que pensamos quem somos. Sermos quem pensamos ser nos impede de pensarmos sem sermos quem somos quando pensamos que pensamos quem somos pensando. Por isso, vivo o que não é, por que o que é – não é também. Mesmo quando pensamos sobre o que pensamos que somos quem pensamos ser.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

“Little Fish”

Quem já assistiu o filme “Big Fish” vai compreender melhor o que vou tentar escrever aqui – ou não. Só não me auto-denomino “Big Fish”, por que sou pequena (de corpo, e alma também) – melhor mesmo “Little Fish”.
Constantemente, me apercebo falando de pessoas e fatos, os quais, se eu não tivesse presenciado e vivido, até eu duvidaria que existiram – alguns ainda existem, resistindo os solavancos do tempo. Há tantos personagens que, na minha visão estrabica, escapuliram de livros inacabados, e resolveram (quem sabe?) divertir-se num universo mais amplo.
Talvez, como falou aquele homem, na praça, empostando a voz: “Somos todos personagens de um livro, cujo autor desconhecemos”. Se assim for, acho que o autor da historia humana, há muitos seculos, milenios até, perdeu a meada do fio – não sabe mais aonde foram parar todos os personagens do grande livro da vida. Melhor eu parar por aqui, nas conjecturas, por que minha imaginação pode ir além da imaginação – e surpreender (será?), mais ainda, quem pode intitular-se “autor” dessa historinha toda.
Semelhante a você, também eu conheci e conheço “tanta diferente gente”. Alguns, em especial, ficam guardados, em minha alma torta, como personagens de livros que ainda não li – talvez, livros inacabados, esquecidos no fundo de gavetas esquecidas. A verdade é que todos nós temos peculiaridades que chamam alguma atenção. “De perto, ninguém é normal” – já cantou o poeta Caetano Veloso. Nem questiono “normalidade”, por não dispor (muito menos ser) parametro disso.
Por diversas vezes, já me vi sendo observada como “bicho do mato” – bicho estranho mesmo. Talvez, eu seja isso mesmo – ou nem isso -, mas não estou sozinha, nesta floresta de sombras. Há muitos personagens – mais interessantes, inclusive – cada qual, com jeito unico de conduzir a propria vida, mesmo quando afirma que se deixa conduzir pela vida.
É justamente aí que lembro de “Big Fish” – o “the end” do filme, quando os personagens todos se reúnem, no grande ritual de despedida da vida do protagonista. A “Little Fish” aqui também sonha reencontrar os tantos personagens que a vida fez emergirem de livros inacabados, no “the end” da minha vida também inacabada. E aprender ainda mais com todos eles.
São tantos personagens que surgem, sem qualquer resquicio de memoria do livro que lhes deu vida, diante da minha visão estrabica!... Cenas inusitadas permeiam a memoria da minha alma, e, volta e meia, saltam do passado, fazendo-se, mais uma vez, presentes. Alguém, ao ouvir sobre dor de cabeça, interrompe, dizendo: “Eu sabia que você estava com dor de cabeça, por que acordei com dor de cabeça, hoje, e lembrei de você” (e, assim também, com dor de barriga, vomito, diarreia, etc). Outro personagem, bastante conhecido por todos, analfabeto, sempre dá um jeitinho de acrescentar a tudo o que diz: “Li, no meu livro de ciencias, que um dia descobririam solução para esse mal” (seja o mal que for falado).
Fofoqueiros são os personagens mais comuns – previsiveis até. Em qualquer lugar, a qualquer hora, tem um lá, de plantão: “Você conhece fulano?” (interrompo no ato, e saio da página do livro que não gosto de ler). Mas ainda há aqueles fofoqueiros “experts”, que chegam com outra conversa: “Você foi na casa dos fulanos?... Como é a casa deles?... (antes do “conte-me tudo”, eu já estou olhando outros livros...)
São tantas historias, tantos personagens!... Cada um de nós tem o diferencial e o amalgama humanos. Até que o conteudo das historias pode assemelhar-se, mas sempre há alguma coisa dissonante: o cenario, os personagens em cena, a fala de cada um, o começo, o meio, e até o final da historia. Na visão de cada um, representamos um outro personagem, às vezes, distante até do que nós mesmos nos sabemos.
Ainda que pareça estorias de “Big Fish”, a “Little Fish” aqui acredita: Podemos ser “personagens de um livro, cujo autor desconhecemos” – ainda assim, continuamos existindo, e, à revelia do “andar da carruagem”, escrevemos e reescrevemos nossa propria historia.
“The end”.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

“A vida é tão rara”

É do compositor e cantor Lenine, a frase aí de cima. E a vida é mesmo tão rara – unica, especial. Mais ainda, se paramos pra nos debruçar na soleira da janela da vida do outro, quando enxergamos o que nunca vimos, nem chegamos imaginar: uma vida que jamais se repete.
Alerta: Você pode (ainda) escolher interromper essa leitura. Se prosseguir – por sua conta e risco -, boa viagem a lugar algum...
Há quem acredite e divulgue a ideia de reencarnação. Ainda assim, penso eu que esta vida – esta, que a gente vive agora – continua sendo unica, e por isso rara, pois jamais se repetirá, mesmo que haja mil e uma encarnações. Até por que as outras (supostas) vidas seriam vividas com outras pessoas, não com quem convivemos hoje, na condição em que estamos, todos nós.
A vida é dinamica, e não há como interromper o fluxo. Saber que estamos de passagem nos dá (vaga) ideia do quanto “a vida é tão rara”. Cada momento é unico – o desperdiçado pode ser, no final das contas, o mais bem aproveitado, e aquele instante que queremos aproveitar o maximo pode ter sido desperdicio. Nunca saberemos.
Sem qualquer intenção de verdade absoluta, penso, como tanta gente, que a vida é feita de escolhas – mesmo quando resolvemos não escolher. Se não escolho, não é a vida que escolhe por mim – alguém escolhe. Às vezes, dependemos do outro, nas nossas escolhas. Ainda assim, participamos, ou temos esse direito (participar), da escolha que nos envolve. Se não nos manifestamos, estamos escolhendo que o outro escolha por nós – talvez até com a intenção de responsabilizarmos o outro, no final da historia (se for catastrofica). Mas jamais, quando fazemos nossa propria escolha, estaremos escolhendo pelo outro – o outro tem a escolha dele, que pode ser gritante, ou silenciosa. É escolha também. Direito inalienavel de cada ser humano: escolher (inclusive, não escolher).
Já ouvi tantas pessoas dizerem: “E a vida continua, com, ou sem, minha presença, minha participação”. Nunca repeti isso, por discordar da isenção. Na minha visão estrabica, cada um de nós, justamente por seguir um caminho unico (marcado por todas as escolhas particulares, feitas por nós), faz parte dessa mesma humanidade que vive em contradição, querendo o que não faz, esperando o que não sabe doar ao outro.
Acredito – isso sim – nas historinhas de “causa e efeito”. Acredito nos efeitos que qualquer atitude humana pode causar. Acredito nas consequencias inimaginaveis da perda de uma simples moeda de um real, na calçada. Acredito que isso tudo, sim, representa as maiores revoluções humanas, cotidianamente causadas, testemunhadas e sofridas por toda gente.
Hoje, eu posso até “me dar ao luxo” de nem querer pensar que estou fazendo escolhas, o tempo todo, a vida inteira. Independente disso, até quando escolho não escolher, minha vida – “tão rara” – continua sendo unica, e sendo vivida (por mim), com todos os efeitos causados pelas minhas proprias escolhas, sem que eu possa responsabilizar mais ninguém por isso. Fatalidade.
A minha escolha foi escrever, e postar, isso. A sua escolha foi ler. Estamos quites.
... Lenine ainda canta:
“Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara,
Tão rara…”

E eu repito às paredes: A vida é só isso – e ainda acaba.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Acreditar

Como diz um amigo: “Uma fé não basta; é preciso ter muitas fezes”. Acreditar – acreditar sempre. Quando não houver mais no que acreditar, acreditar em Papai Noel, Chuck Norris, Bicho Papão, Forrest Gump, ou sei lá mais o quê, ou quem. Mas acreditar – sempre.
Tem gente que defende o ideal de “até morrer” pelo que acredita. Não vou tão longe – acho que dá pra viver pelo que se acredita. Acho também que “mais vale um covarde vivo, que um herói morto”. Até por que tudo – bom, ou ruim – acaba, de um jeito ou de outro, acaba do mesmo jeito... O que, pra gente, é eterno é simplesmente eternizado pela gente, e a gente pode ser eternizada por outras gentes – ou não. Acreditar nisso também.
Mas não quero ir tão longe nas filosofias de bolso. Quero estacionar meu pensamento bem aqui mesmo: É preciso acreditar. Só quem sonha, acredita. Não se preocupe, se você, como eu também, não lembra dos sonhos que teve, na noite passada. Não é desses sonhos que me refiro. Nem dos sonhos da padaria – na maioria das vezes, acabam sendo vendidos e devorados, antes de a gente chegar.
Sonhar e acreditar são verbos, na minha insignificante opinião, que vivem juntos, por que se atraem, se distraem, se contraem, e até se esvaem juntos. Sonhar, sem acreditar, acho que seria delirar. Sonhar e acreditar já é – no sentido que entendo mais amplo - realizar. Afinal, alguém precisa acreditar nos proprios sonhos. Cá entre nós, às vezes, é mais simples acreditar no sonho que na mais verossímil realidade, tão distante de todos os sonhos, a exigir esforço maximo (e até reserva) dos sonhadores que (ainda e sempre) acreditam.
Estamos pisando no ano de 2011 – chãozinho limpo e fresco, cheiro de terra molhada, futura árvore em broto. Como vai ser nosso ano?... Ninguém sabe. O que sabemos é que depende de nós, de cada um. Se a gente começa a pensar e agir (sonhar e acreditar), desde o primeiro passo neste novo ano, o ano pode ser novo mesmo. Até o proximo dezembro – é muito tempo, gente, dá pra fazer alguma coisa, ou fazer coisa alguma.
Fico observando algumas pessoas que esperam milagres – levantam as mãos aos céus, e acabam levando mesmo é coco de passarinho na cabeça. Outras aceitam a vida do jeito que vier – sem questionar, sem assumir qualquer atitude de mudança. No meio de todas essas pessoas, ainda há aquelas que sonham, batalham pra caramba, nem sempre realizam os sonhos – mas continuam sonhando, e trabalhando. Cada qual, do seu jeitinho, está vivendo, e tendo a vida que lhe é unica, e por isso tão especial.
O mais importante mesmo é acreditar – acreditar sempre. Não importa em que, em quem. Necessario se faz acreditar, cada vez mais, em alguma coisa que represente o trampolim, o porto seguro, a rede, o colo – a vida, simplesmente. Acreditar nos proprios sonhos – acreditar, por isso também, na vida.
Que a gente receba 2011, de braços e olhos abertos – com toda força de acreditar, com toda fragilidade de ser humano.

De olho