quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Entre o pedido e a entrega

Tem muita gente comprando e pagando caro “gato por lebre”. O Procon tem registrado cada vez mais ocorrências de reclamações, neste sentido. As conhecidas “lojas virtuais” disparam neste “ranking”.
Mas isso também acontece na “vida real”. Nem sempre envolve o caso de uma compra. Já tem gente considerando o casamento, “investimento de vida”. É justamente aí que surgem (gritantes) diferenças entre o pedido e a entrega. Em vez de “o produto” não funcionar corretamente, a convivência é que acaba não ‘funcionando’ de acordo com o pedido (expectativa) de cada um. E não há troca, nem direito de devolução intacta. Simplesmente, não há como dizer ‘ops’, e desligar o telefone, ou o computador, e procurar, depois, outra “loja virtual”.
O que me parece é que a maioria ‘tá’ querendo atendimento imediato – a realização dos sonhos, num único instante. Tudo é rápido demais, e não há quem queira esperar construir o que sonha, ponderando junto com outro alguém, que também tem sonhos de vida. Por isso é que quem tem condições recorre à internet, e deixa de investir nas convivências ‘reais’. Se o papo teclado com alguém ‘tá’ chato, basta desconectar, bloquear, deletar – isso não acontece no cotidiano pessoal. Atritos existem, e não há como fugir deles sempre.
Entre o pedido e a entrega, o olhar ansioso pode confundir gato por lebre – ou, então, a lebre fugir, e o gato assumir o lugar de prestígio. Brincadeiras à parte, nem sempre o pedido é entregue. Eu faço o pedido, mas esqueço do “pequeno detalhe” que ‘tava’ no pé da página, em letras microscópicas: “o kit completo contém”...
Oras carambolas, a gente não corresponde às expectativas do outro, seja o outro quem for. Até por que nem correspondemos às nossas proprias expectativas. Isso é fato. Ninguém é perfeito (que novidade!) – nem nossos pedidos, tão humanos quanto nós. O pedido é feito, de um jeito, ou de outro, por que, mesmo quando não pedimos, a entrega chega. E não há devolução. Não mesmo. Você pode berrar, espernear, não adianta. Se o pedido é desfeito, outra ‘coisinha’ fica no lugar: consequência. Sabemos disso.
Confesso que tenho cautela, ao fazer um pedido. E só faço mesmo, quando percebo que, se eu não fizer o pedido, alguém o faz, e ainda manda entregar pra mim. Se o pedido é inseguro, incerto, a entrega também (surpresa!). Há duas expectativas em questão: de quem pediu, de quem entregou. (E ainda tem gente, nos tempos atuais, que sonha ter uma mão amiga, no momento da morte!)
Tudo isso é sempre muito complicado, pra mim. Não sei lidar com convivências humanas. Transito por elas – vivencio o que todo mundo vivencia -, sem parar pra pensar se aprendo alguma coisa com isso. Entre o pedido e a entrega, eu fico com a entrega – a minha entrega, que é torta, mas é o melhor de mim. Melhor mesmo é nem pedir pra aprender – pode ser que a lição contenha alguma coisa que já te foi entregue. Ou não.

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