sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

À margem de

Vivo o que não é, por que o que é – não é também. Não ser é mais que ser. Não ser é tudo – ser é alguma coisa, ou coisa alguma. Se um dia pensei ser, no outro, deixei de pensar, e já não o era mais. Os que querem e julgam-se ser grandes – não o são, simplesmente por que não sabem ser o mais infimo atomo, ou a mais poderosa bacteria. Não ser é a dimensão exata de tudo – o grande nada estilhaçado em diversos seres que não são. Escravo acorrentado pelo ser – inseguro e impreciso -, tudo o que é deixa de ser, por que não é – está, e, diante do proprio espelho, já não está mais. Sem saber ser, já não é. Pensais que sois quem, quando pensais? Não sois mais do que pensais – nem menos. Sois o que pensais, e que já não pensas mais. Também eu já pensei ser, e também eu tornei-me menor que o nada que sou, por pensar menos, quando ainda pensava que pensava o que pensava – e já não penso, por que já não mais me sou. Nem tampouco serei o que não fui. Somos seres pensantes não pensando que somos seres pensantes não pensando o que não pensamos, por não pensarmos o que poderiamos pensar. Pensar – pra quê? Se o pensamento, volatil e disforme, foge, abandona o pensador, que não quer mais pensar que pensa o que finge ignorar pensar? O pensamento, sim, é inteiro, e não precisa pensar que pensa. É. O pensamento, irreverente, não pensa, nem faz pensar que pensa. O pensamento – inteiro – simplesmente é. Enquanto vós, eu, nós, pensamos que pensamos pensar um unico pensamento. Não é. A inteireza do pensamento – não o sabemos, por que pensamos demais que estamos pensando em pensar o que nem está – não é. E, por isso, não sois vós, não é ele, não sou eu, nem somos nós. Não existe ser a pensar. Enquanto pensamos que pensamos pensar que somos quem pensamos que somos ao pensarmos – não somos, nem pensamos, por que não sabemos pensar quem somos, por que não pensamos quem somos pensando quem somos. Pensar quem somos nos impede de sermos sem pensarmos que pensamos quem somos. Sermos quem pensamos ser nos impede de pensarmos sem sermos quem somos quando pensamos que pensamos quem somos pensando. Por isso, vivo o que não é, por que o que é – não é também. Mesmo quando pensamos sobre o que pensamos que somos quem pensamos ser.

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