sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Tira-gosto

Eu sei que todo mundo sabe o que acha que sabe. E sei também que, para algumas pessoas, a vida é dificil, e, para outras, a vida pode ser complicada, ou pode ser um desafio, ou até uma grande farra, ou palhaçada, ou qualquer coisa parecida com isso, ou diferente disso tudo. Mas o que mais sei é que a vida, pra mim, é tudo isso e mais o que não lembro agora, por que estou vivendo. Eu sei também que uma dor – de barriga, de dente, ou existencial – dói, dói muito. E eu sei mais ainda. Eu sei que cometemos o mal, intencionalmente, ou até quando não medimos as consequencias. Mas eu sei que, depois, nos ajoelhamos, diante do altar de alguma igreja, e voltamos perdoados pra casa. Eu sei que o gelo, de tão gelado que é, chega queimar. As queimadas, nas florestas, é pra devastarem o verde, e plantarem outro verde, ou não. O que sei mesmo é que as queimadas queimam tudo. E o que queima vira cinza. E cinza não se refaz. Cinza é soprada e desfeita pelo vento. As nuvens também são sopradas pelo vento – eu sei disso. Mas o que importa mesmo é o que interessa. E o que importa, para alguns, não interessa a outros – e assim vamos vivendo. Ou nem vamos. Ficamos vivendo. E eu sei que choramos, quando somos feridos. Mas eu sei, também, que nem por isso deixamos de ferir o outro. Enquanto isso, eu fico sabendo tanta coisa. Eu sei, por exemplo, que, quando faz frio aqui, faz calor, lá não sei onde. Mas eu sei que é assim. Eu sei que, agora, já, tem gente agradecendo – sei lá a quem – a dor, a doença, a miseria humana. Eu sei que, quando anoitece, o dia vai para outro lugar – ser dia, mais uma vez. Eu sei que, daí, a madrugada toma conta de tudo, até que o dia volte. E eu sei que, no escuro, a gente pode bater a ‘canela’, na mesa de centro da sala. No escuro, eu sei que as pupilas se dilatam – e eu sem enxergar coisa alguma. Eu sei ainda que, neste exato momento, alguém nasce, alguém morre, alguém se sente ninguém, e ninguém se sente alguém, e alguém pensa que eu nada sei. O que sei é que tem alguém fazendo alguma coisa – por todo lugar. Eu sei que posso nem conhecer esse alguém, mas eu sei que esse alguém existe, sem me conhecer também. Eu sei que eu poderia estar fazendo tanta outra coisa. Eu sei que eu poderia ter nascido no Alasca, e amar um beijinho de nariz gelado. Eu sei que eu poderia viver na África, e arrastar a historia humana, descalça, no meu vestido solto e sujo de poeira seca de tanto calor. Eu sei que eu poderia estar meditando no Tibet, ou poderia estar tocando Ektara – ou Doktara -, pelas ruas de Bengala. Mas eu sei que não estou lá – nem aqui. Eu sei mais quem não sou, por que quem sou não é. Ah, mas eu sei também que a chuva molha - às vezes, molha tanto, que chega inundar tudo. As casas ficam alagadas, e as ruas viram rios sem direção ... e pronto. Eu sei também que o banho molha, e que há gente que lava a alma. Eu sei que as relações pessoais – quaisquer que sejam – são alimentadas e movidas por pessoalismos, os quais, muitas vezes, eu desconheço. Mas eu sei que são assim. Eu sei que, uma vez que a gente aprende andar de bicicleta, jamais esquece – equilibrio. E eu sei que não sei equilibrar-me na vida – alma torta que sou. Mas eu sei andar de bicicleta. Eu sei que não carrego certezas, nem verdades absolutas, na minha mochila cheia de nada. Até isso eu sei. E eu sei também que a vida pode parecer, às vezes, bonita, ou feia. Mas eu sei que continua sendo vida – por que (ainda) vivo. E eu sei que você nem precisa pensar sobre tudo isso, por que o que você sabe, você não precisa pensar. E eu sei também que, se você sabe, é por que você já pensou - ou não. E isso é tudo o que eu (acho) sei.

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