segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A leveza dos ‘enta’

Depois que se chega aos ‘enta’ – não tem mais jeito. Os quarenta anos de idade chegam rapidinho – os cinquenta, os oitenta, mais rapido ainda. E não há botox, ou cirurgia plastica, que interrompa, ou retarde, o calendario.
Confesso que não tenho “nóia” em relação à idade – minhas “nóias” são outras (piores, talvez). Acho até que existe uma certa leveza nos ‘enta’. Já não existe tanta cobrança – externa e interna. Não há mais aquela ansiedade toda em querer conhecer, saber, vivenciar, por que já se conhece, já se sabe, já se vivencia, e, por isso mesmo, se guarda alguma coisa de sabor e dissabor, graça e desgraça da vida.
Já faz algum tempo que cheguei nos ‘enta’. Nem lembro como foi a passagem, mas acho que aconteceu como acontece com todo ser humano: De repente, você acorda, e tem quarenta, cinquenta, noventa anos. Deve ser assim mesmo. Naturalmente. E está tudo certo. O sabio tempo, a cada instante, me retira e me presenteia vida.
Talvez, o grande misterio esteja justamente aí: O que fazer com o tempo?... Mas isso podemos perguntar, a partir do instante que nos reconhecemos como seres viventes. Não precisamos esperar chegar nos ‘enta’, para nos questionarmos, ou nos respondermos.
Realmente, não tenho opinião a respeito das pessoas que fazem tudo para manter a fisionomia jovial, gastam fortunas em cirurgias plasticas, e acabam sofrendo períodos dolorosos de recuperação dos tecidos faciais, principalmente. Não sei o que é isso. Acho que a unica diferença é que tem gente velha morrendo com aparencia velha, e gente velha morrendo com aparencia nova. Nada além. O mais importante (e previsivel), nisso tudo, é que a morte chega – maravilha, quando chega bem mais tarde!...
A leveza dos ‘enta’, acho, está no olhar mais calmo, diante da vida que passa. A vida continua igual, manifestando-se de formas cada vez mais diferentes, mas, ainda assim, sempre igual. O que muda – nos ‘enta’ – é o olhar da gente. Não chega ser uma visão comodista, ou desanimada, ou ainda pessimista. Não. Os ‘enta’ nos trazem a leveza de olharmos, com mais profundidade e largueza, talvez, o nosso mundinho particular. Às vezes, dependendo do que enxergamos, nos entristecemos, ou nos revoltamos, e até nos alegramos e nos sentimos plenos, por toda a vida que continuamos vivendo.
Entre perdas e ganhos, erros e acertos, mais ou menos felizes, bem ou mal amados, chegamos nos ‘enta’ – mais leves, menos cobrados, mais seletivos, menos exigentes, mais compreensivos, menos ansiosos. E a vida (ainda) continua – longe, e perto de nós. Enquanto isso, seguimos a estrada dos ‘enta’ – e já não importa mais se omitimos, ou reduzimos, a propria idade, por que vivemos toda a vida que temos em nós, e é só nossa: unica e instransferivel.
De repente, num momento qualquer, lembramos quando tinhamos nossos dez, vinte, trinta anos – sonhos e pesadelos, desejos e medos. E até rimos, ou choramos, pelo que já vivemos. De repente, o cabelo branco que teima em aparecer, enquanto nos penteamos, diante do velho espelho, nos causa nostalgia, e apazigua o coração. Certos ou errados, abrimos e seguimos nosso proprio caminho – e assumimos a vida que é só nossa. E os ‘enta’ já não nos pesam mais, como poderia pesar uma palmatoria, ou até uma guilhotina. Os ‘enta’ nos devolvem a leveza infantil, que, aos poucos, no corre-corre da vida, fomos perdendo, junto com o tempo fugidio...

(...E Mercedes Sosa continua cantando Violeta Parra: “...Gracias a la vida que me ha dado tanto... Me ha dado la risa y me ha dado el llanto...”)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Uma formiga



Saí da sala fechada, em busca de ar fresco. Sentada no meio-fio, enxerguei-a, pela primeira vez. A formiga estava sozinha, e parecia sem direção. Será que formigas sentem calor, transpiram? Não. Não podem suar, mas devem sentir calor e frio intensos. Lembrei que, quando criança, eu ficava observando as formigas – quase sempre em filas indianas, numa disciplina, que eu ficava procurando de onde vinha o comando. Não havia comandante, mas as filas não se dissipavam. Às vezes, uma ou outra formiga parava no meio do caminho, e, em pouco tempo, reuniam-se, para cumprir o destino das formigas, o qual eu-menina nunca soube. Menos ainda agora, depois de tanto tempo sem pensar nas formigas.
Mas a formiga que enxerguei, rente ao meio-fio, estava sozinha – acho que foi isso que me chamou a atenção (a mim, que não queria mais pensar no debate que havia na sala de onde saí). O que faz uma formiga sozinha, quando a natureza das formigas, parece, é seguir em grandes caravanas?...
Ignorando a minha presença cabisbaixa e cada vez mais concentrada, a formiga parecia estar tentando arrancar uma raiz. Não era. Rodopiando em volta de uma metade de folha seca com um fiapo de linha suja enroscado, o inseto parecia fazer calculos matematicos, precisando extensão, peso, e força necessaria para transporte. O exame parecia mesmo minucioso – a formiga parava (atenta?) diante de cada milionesimo milimetro do ‘objeto desejado’, bem maior e mais pesado que ela, com toda certeza. Uma formiga comum – minuscula, sem “pedigree”. Não sou mirmecologa, nem levo jeito, mas reconheço a imponencia - até de um inseto. Naquela formiga, não havia empafia – talvez, eu tenha até identificado, no ser minimo, um cadinho de natureza simploria.
O que fazia uma formiga sozinha, naquele asfalto quente?... Eu não fazia a menor ideia, nem fiquei sabendo. A verdade é que havia, ali, naquele espaço livre, uma formiga tonta, às voltas com um pedaço de folha e um fiapo de linha. Formiga persistente, mesmo sozinha. Minuscula - como o é toda e qualquer formiga -, mas grande na vontade de dar jeito de carregar a ‘carga’ enorme.
Há muito tempo atrás, ouvi dizer que as formigas não têm mais que dois meses de vida. Diante de um tempo tão curto (pra nós, humanos), eu fiquei observando o que o inseto fazia, naqueles minutos, pra mim, e, talvez, meses, pra ele. A formiguinha continuava indo e vindo, sempre em direção do fiapo de linha no pedaço de folha seca esquecida pelo vento.
Foi ali, olhando a formiga, que, pela primeira vez, pensei na minha vida: Nunca quis fazer estudo sobre as milhares de especies de formigas existentes. Sei o que todo mundo sabe sobre o mundinho delas. Nada além, nem aquém. Mas, de repente, me deu uma vontade de saber, de me comunicar com o inseto – até ajudar a formiga, carregando a ‘carga’ por ela. Não havia jeito, nem tempo para estudos aprofundados. Provavelmente, eu precisasse de meses, para saber sobre a especie daquela formiga, que nem existiria mais, quando eu me tornasse mais uma mirmecologa mediana. Sentada no meio-fio, eu só podia mesmo olhar a formiga, admirá-la na pequenez e na grandeza da existencia dela. Também as formigas contribuem com o nosso ecossistema, né?... Também é um ser vivente.
O tempo passou sem eu perceber, as pessoas saíram do debate, se despediram, foram embora. E eu ainda olhei mais uma vez à formiga, que permanecia lá, dando jeito de carregar a sua ‘carga’. Eu sabia que ela conseguiria. Ela não saberia jamais, mesmo carregando todas as ‘cargas’. A formiga não é isso, nem aquilo – ela mesma não se sabe. A formiga é. Simplesmente. E nós nem sabemos a existencia de cada uma delas.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Substituídos insubstituíveis

Somos todos – todos mesmo – substituídos insubstituíveis, a vida inteira. E também nós queremos substituir, mesmo reconhecendo quem nos é insubstituível. Eu sei que tem gente que discorda. Maravilha! Sinal de que tem gente que pensa...
Durante toda a vida – por que da morte não sei -, somos substituídos – senão na escola, no trabalho, ou nas turmas, em todo e qualquer lugar, ou tempo. Sempre substituídos – todos, todos. Mas, também, permanecemos insubstituíveis – em tudo, em todos. Por quê?... Oras carambolas, simplesmente por que ainda não conseguiram fazer replicas de ser humano – intrinsecamente unico, e, também por isso, solitario. Só mesmo se houvesse clones nossos, expostos em prateleiras de liquidação da vida – aí, sim, seríamos substituíveis.
Arrisque pensar comigo: Se somos substituídos, já não somos, por que o ‘objeto’ (seja lá, ou aqui, o que ou quem for) não é a gente. A gente ficou pra trás, esquecida no banco, perto daquela latinha vazia.
Mas, ainda assim, teimamos em querer substituir. Não substituímos. Todas as criaturas nos são insubstituíveis – seja bem ou mal que nos representem. Isso é fato. Não há mal igual, nem bem identico. Isso pode acontecer em todos os ambientes – na familia, entre amigos, na escola, no ambiente de trabalho. Por que, indiferente à vontade, cada um é mesmo cada um – um diferente, um unico, do jeito que é.
Quando paro pra pensar nessas ‘coisas’ tão humanas, tão nossas, fico vendo o tempo que passa, enquanto a gente se perde, se acha, pra se perder novamente. Como se houvesse a necessidade de nos alimentarmos, regurgitarmos, e comermos o mesmo alimento já mastigado – enquanto os intestinos se retorcem e contorcem com o que ainda lhes resta expelir...
Alguém pode justificar que o tempo continua o mesmo – a vida também. Reflexão objetiva – logicamente. Nada além disso. Quando imaginamos estar substituindo alguém, acho que pretendemos, com isso, “tapar buraco” – já não importa com o quê, ou quem. Aparentemente, podemos até conseguir (vitoria!) – aparentemente mesmo, e só. Mas o ‘objeto humano’ (que era pra ser) substituído continua lá - no fundo do fundo do mais fundo –, insubstituível.
Depois de pensar sobre isso, parei de teimar: Não quero o que poderia ser ‘objeto’ de substituição. Se quero – é pelo proprio valor que o ‘objeto’ representa pra mim, independente do que, ou de quem, sinto falta. Acredito mesmo que também eu não me coloco como ‘objeto’ de substituição. Sou quem sou – alma torta -, e não há outra alma torta como eu. E assim carrego meus ‘objetos’ insubstituíveis, que, por nada, são substituídos, por que não há ‘objeto’ igualzinho, pra encaixar no vazio que permanece, e prevalece, à revelia da minha vontade momentanea.
Diante da fatalidade, acho que o que temos de verossimil, dentro de nós (na alma? talvez!), é justamente quem nos é insubstituível. Se nem lembramos de muitos fatos e/ou pessoas – não foram substituídos, foram esquecidos mesmo. Se esquecidos, deixaram de ser importantes. Se deixaram de ser, foram por algum tempo. Nada além disso. Mas há o insubstituível permanente – jamais esquecido, nem sem importancia. É nisso que estamos. É isso que carregamos na alma: o que é verdadeiramente insubstituível. Não há vida que substitua.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Pague e confesse seus pecados

Há pouco tempo, pra rezar, tinha de ajoelhar – mais ainda, se era pra confessar os pecados. Mas isso é passado. Se já havia gente deslumbrada com celulares, iPhones, iPads, agora, todo mundo está entusiasmado demais, com as novidades tecnologicas.
Recentemente, foi lançado aplicativo para iPhone e iPad que permite que você confesse seus pecados. É isso mesmo. Se você é um cara ocupado demais – mas não deixa de pecar -, sem tempo pra ir à igreja, pode acionar o aplicativo iPrayer, e desabafar. Nem precisa ajoelhar, e pode continuar (pecando) fazendo o que ‘tá’ fazendo, sem alterar a rotina.
Você deve estar pensando que o ‘servicinho’ é de graça, né?... Que nada!... Pra quem ‘tá’ habituado a pagar dizimo, pague e confesse seus pecados. Até agora, ninguém reclamou o valor do aplicativo de confissão: 1,99 em dólar (pouco mais que o nosso 1,99 brasileiro).
Ouvi dizer que o confessionario menor do mundo oferece diversos blocos de pecados – ‘tá’ certo que, todo dia, surgem novos, mas os desenvolvedores do ‘objeto de absolvição’ devem adicioná-los, aos poucos, imagino. O negócio é o seguinte: você paga, acessa o aplicativo, e pode deleitar-se na escolha dos pecados (os que você pratica regularmente, e, na falta de, até os que você sonha cometer um dia – por que não?). Desembolsa 1,99 (em torno de 3,33 reaizinhos reais), nem precisa se encher de tanta coragem, e relata ao aplicativo os inimagináveis pecados.
Como acontece sempre na vida, tem o ‘time do contra’, nessa historinha toda. Até o Papa já confessou ser contra o aplicativo. Aqui, no Brasil, as autoridades da igreja catolica têm esclarecido que o ‘confessionario portatil’ não retira a função do padre, que penitencia e perdoa os fiéis que cometem e confessam pecados. A orientação aos confessores da informatica é para que selecionem os pecados cometidos, no dito aparelhinho, e aguardem o recebimento de um texto, enviado pelo iPrayer, para que seja lido a um padre real. Sei lá, gente, mas acho isso muito ‘enrolado’: o pobre pecador paga pelo aplicativo, ainda precisa ficar selecionando os pecados cometidos, depois tem de ler para o padre, na igreja?... Não entendi tudo isso.
Claro, ainda tem a questão da penitencia – pecou, tem de pagar (nada de dólar, ou realzinho, não). Pelo visto, o aplicativo não é tão aplicativo assim, pois não aplica penitencia aos confessores, ou, talvez, os isente dos pecados – sem penitencia alguma (Quem dera!). Mas tudo isso ainda está sendo motivo de interpretação. Os católicos dizem que o ‘inofensivo’ aplicativo serve para lembrar da confissão (real) que deve ser sempre feita (haja pecado!). Os pecadores brasileiros mais afoitos já estão desembolsando três reaizinhos, e descobrindo pecados que nunca imaginaram cometer... hehehehehehehe

... E eu, que já estranhava ouvir aqueles papos de: “as fotos que faço do meu celular”, “o vídeo foi feito com o meu celular”, “jogo sempre no meu celular”, “abro meus emails do meu celular”, “estou sempre atualizando twitter e facebook do celular mesmo”... Diante de tantas utilidades do celular, eu sempre ficava pensando: Será que só eu utilizo o celular como telefone móvel?... Agora, depois dessa do ‘confessionario ambulante’, só me resta mesmo – pecadora inconfessável que sou - o silencio ‘dinossaurico’.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Respeitemo-nos – todos nós, retardados!

Dia desses, numa das tantas filas (da vida) que não andam, ouvi comentarios de pessoas que aguardavam, irritadas, atendimento:
- E essa fila que não anda?...
- O pior é que nem adianta reclamar!...
- Os encarregados dos caixas nem se importam com a gente...
- Não nos respeitam, nos tratam como retardados...

Neste momento, parei pra pensar (já que estava numa fila enorme, à toa): Se nos tratam como retardados, não deveriam ter mais respeito ainda por nós?... Será que retardamento mudou o significado?... Voltei pra casa, fui procurar, no “amansa-burro”, o significado (atual) de retardamento:
“s.m. Ato ou efeito de retardar; retardança, atraso, demora, adiamento, procrastinação. / Estado do indivíduo mentalmente retardado. // Psicologia. Retardamento afetivo, ausência ou retardamento no desenvolvimento dos afetos, dos sentimentos, sem prejuízo do desenvolvimento da inteligência (como entre os psicopatas). // Retardamento mental, insuficiência do desenvolvimento das faculdades intelectuais. (Distinguem-se três graus: debilidade, imbecilidade e idiotia profunda, dos quais apenas o primeiro apresenta possibilidades de recuperação.) // Eletricidade. Linha de retardamento, dispositivo elétrico no qual a ação de um sinal é exercida com certo atraso em relação ao momento de sua aplicação.”

Era o que eu precisava: retardamento continua sendo o retardamento que eu havia aprendido e sabido. De um jeito ou de outro, penso eu, somos todos retardados – apesar disso, e por isso também, merecemos respeito, mais que isso, temos de nos respeitar mutuamente.
Por que somos todos retardados?... Oras carambolas, pelo simples fato de que cada ser humano é unico, e tem suas (dele) particularidades de retardamento, como também temos em nós, os mil e um sentimentos que nos contradizem, fazendo tornarmo-nos tantos, numa vida só.
Cada qual tem o proprio tempo de aprendizagem – não só de ‘coisas’ didaticas, que permanecem nos livros (à espera de uma espiadela). Tem gente que aprende rapidinho o que o outro, na lentidão que lhe é caracteristica, demora, numa agonia sem fim. Somos – mais ou menos - retardados mesmo. Todos. Respeitemo-nos – todos nós, retardados!
Já diz o poeta Caetano que “de perto, ninguém é normal”. Se assim é – sabemos disso -, por que ainda alimentamos estigmas, discriminações e dedo em riste sempre em direção ao outro?... Será que precisamos catalogar nossas ‘falhas tecnicas’, para nos reconhecermos – “na rua, na chuva, na fazenda”, nas filas?...

Eu, que, a cada dia, retardo em tantas coisas – paro, olho, escuto. Na minha lentidão, não compreendo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Vidas por um fio

- Alô?...
- Por favor, a Brigitte!...
- Não tem ninguém que se chame Brigitte, aqui, senhora...
- Ela não está?...
- Acho que nunca esteve...
- Como assim?...
- A senhora deve ter ligado o numero do telefone errado...
- Não!... Impossivel!... Esse telefone é da Brigitte, há muito tempo!...
- Quanto tempo, senhora?...
- Não lembro, mas sei que faz tempo...
- A senhora já conversou com Brigitte, por este numero?...
- Sim, varias vezes...
- Lembra quanto tempo faz que a senhora falou com Brigitte, por este telefone?...
- Não faz muito tempo, não...
- Desculpe, senhora, mas faz algum tempo que tenho esse linha telefonica, e, por aqui, Brigitte não passou, asseguro...
- Isso é impossivel!... Você deve estar brincando, como faz Brigitte... Por favor, chame ela, quero contar-lhe um sonho que tive – Brigitte gosta de saber...
- A senhora costuma conversar com Brigitte pessoalmente?...
- Sim, sempre, mas não posso sair agora...
- Desculpe, mais uma vez, realmente, aqui não mora Brigitte...
- Você só pode estar mentindo...
- Não há necessidade de mentir, senhora, por que a vida, por si só, já é uma grande ilusão...
- Isso que está acontecendo é impossivel, por que Elisabeth sempre atende esse telefone aí...
- A senhora citou outro nome agora: Elisabeth... Não é Brigitte o nome da pessoa que a senhora procura?...
- Às vezes, eu confundo as duas...
...
- Alô?...
- Alô!... Eu estava falando com uma senhora que ligou por engano para minha casa...
- Sim, ela é minha mãe... Ela está sempre tentando falar com Brigitte, minha irmã gemea, por telefone, vai ligando qualquer numero... desculpe...
- Tudo bem, mas me preocupou a insistencia dela...
- É que Brigitte, minha irmã gemea, morreu em acidente, há algum tempo, e mamãe ainda me confunde com ela, apesar de ter ido ao funeral...
- Sinto muito...
- Obrigada, e obrigada também por não desligar o telefone, por que a maioria faz isso... fico sabendo, quando volto para casa, e encontro mamãe chorando, por que mais gente desligou o telefone, enquanto ela falava...
- Deve ser uma situação terrivel mesmo...
- Sim. Obrigada, mais uma vez...
(Voz distante do telefone: “Brigitte, venha cá, quero te contar um sonho que tive contigo!”)
- Preciso desligar... Obrigada!... Já vou, mamãe!...
...

De olho