sábado, 9 de abril de 2011

Caminhos cruzados


Não imagine você que vou escrever aqui palavrinhas romanticas, cheias de fantasias. Se era essa sua expectativa, vá tirando logo o cavalinho da chuva (sei lá o que isso significa). Se você quer acreditar em Papai Noel, a vida inteira, a vida é sua, o problema é seu – ou sorte sua. Caminhos se cruzam, se descruzam, se entrecruzam – cruzes!... E só.
O que tenciono falar, aqui, é sobre os caminhos cruzados no processo comercial, a dita troca de informações de “boa vizinhança”, entre empresarios e empresas. Explico. Se você compra, por exemplo, um eletrodomestico, consequentemente, deixa, na loja, endereço e numero de telefone. Com isso, há possibilidade de você ficar recebendo, na caixa postal de sua residencia, ou em telefonemas “amáveis” e surpreendentes, ofertas inimagináveis. O mesmo acontece, além das compras em lojas, quando você faz um plano de saúde, compra um carro, ou contrata serviços de internet, tv a cabo, telefonia em geral, etc e tal.
Dia desses, aconteceu comigo: Fui a uma grande loja de lingeries, por que havia grande, maior ainda que a fama da loja, liquidação. Maior mesmo foi o momento de preencher a nota, após ter pago a minha (modesta) compra, quando a atendente me ameaçou: “Vou fazer umas perguntinhas à senhora, para que responda, e fique cadastrada na nossa loja”. De imediato, como sempre, eu respondi: Sem perguntas, por favor, por que quem tem de fazer perguntas, longe daqui, sou eu. Sou jornalista, e preciso trabalhar. Desculpa, tenho mais o que fazer, e não quero ter cadastro na loja.
Acho que colocaram uma funcionaria surda para me atender, justamente para continuar insistindo. Talvez, para não me chatear (era inicio de dia), fui respondendo: “nome? endereço? telefone residencial? celular?”... e a lenga-lenga não acabava mais. Até que levantei, e proclamei o veredicto: Preciso ir. Fui.
Não deu outra. Um dia depois do fato consumado pela consumidora aqui, nada além disso, já começaram os telefonemas, por causa da minha dita compra, que nem grande foi. Era só mais uma liquidaçãozinha – tenham dó de mim!...
Primeiro, uma garota ligou, pedindo para falar comigo – distraída, fui dizendo que eu era eu. Azar o meu. A garota se dizia representante da marca da dita loja de franquia, onde eu, inocentemente, no dia anterior, havia comprado umas “roupinhas de baixo” (nunca entendi muito bem essa expressão). Pra te resumir a historia (quem dera ser estoria!), a garota chegou me oferecer até outra franquia, justificando que “o mercado de lingeries vem ampliando tanto, que a senhora ficará rica, em menos de um ano, vendendo calcinhas e sutiãs, de porta em porta”. Foi o unico momento que gargalhei, ao telefone. Depois dessa, só mesmo desligando. E desliguei – da “tomada”, por precaução.
Você achou que acabou?... Que nada!... Os telefonemas continuaram – os telemarketings pareciam se revezar, com uma só intenção: me ‘emputecerem’. Quase conseguiram. Só não me enlouqueceram, por que, acho, eu deixaria louco o aparelho de eletroencefalograma (tadinho!). Por isso, jamais arriscarei um exame desses.
Até que, num belo dia – aliás, estava belo, até que -, o telefone toca, e eu atendo, distraidamente. Do outro lado da linha (telefonica, não de trem), uma voz masculina afeminada me diz, sorridente: “Dona Nara? A senhora acaba de ser sorteada para receber um presente da loja (tal).” E eu, mais que depressa: Eu não acredito! E a voz, “esfuziante”: “Pois acredite, dona Nara. A senhora está recebendo um vale-compras de vinte real, no nosso sex shop, ao lado da loja (tal).” E eu: Vinte ‘real’? (quase gritando) E a voz toda faceira: “Tudo isso, dona Nara, para a senhora gastar como quiser” (ui!). E eu: Eu não mereço isso!... E a voz adocicada: “Ah, merece, sim!” E eu: O que eu vou comprar num sex shop, Jesus?... E a vozinha esgarçada: “Meu nome não é Jesus, é Rosiclei, dona Nara. A senhora vai delirar, ao ver nossos produtos. Tipo assim, nós só temos acima de vinte real. Mas, aí, tipo assim, a senhora acrescenta um dim-dim, e leva umas coisinhas maravilhosas” E eu, ironica: ‘Tipo assim', ainda tenho de acrescentar?... E a voz, cada vez mais fina e feliz: Claro, a senhora merece! E (ainda) eu: Não mereço mesmo! Aliás, ninguém merece!... A voz, cada vez mais animadinha: “Ah, merece, sim. E olha que muitas mulheres queriam estar no seu lugar agora. Pense nisso.” E eu, já implorando às nuvens: Não consigo pensar nisso! Socorro! Juro que fiquei sem fala, no primeiro momento. Depois, o que me veio à cabeça foi bem isso: Como é que alguém recebe vale de “vinte real” pra comprar em sex shop?...
Ah, você quer saber o final da historia, né?... Tente adivinhar aonde eu mandei o viadinho (adoro viadinhos – sempre tenho a companhia de um, na minha vida) enfiar o vale de “vinte real”... Ele riu (parece ter imaginado, e gostado). Dessa vez, eu não ri, e desliguei o telefone da “tomada”, para o resto da semana. (להתוודות על חטא)

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