domingo, 22 de maio de 2011

Especial Colóquio sobre Clarice Lispector – Paris – maio/2011

Organizado pelas professoras Maria Graciete Besse e Nadia Setti, foi realizado, nos dias 12, 13 e 14 deste mês, em Paris, o Colóquio Internacional sobre a obra da escritora Clarice Lispector. O grande evento contou com convidados brasileiros e internacionais, todos seguindo o tema do "Colloque": “Gênero não me pega mais” (frase que consta em “Água Viva”, um dos livros mais instigantes de Clarice Lispector).
O “Colloque Clarice Lispector: Gênero não me pega mais” contou com participantes de diversos países, como França, Brasil, Canadá, Portugal, México, Itália, Holanda, Espanha, Estados Unidos, Porto Rico, e outros.
Com a devida permissão da professora Maria Graciete Besse, da Université Paris-Sorbonne, posto, aqui, videos com fotos do evento e entrevistas com alguns dos conferencistas do inesquecível Simposio.
Os videos constam no blog: http://etudeslusophonesparis4.blogspot.com/2011/05/lectures-lispectoriennes-entre-europe.html#more
Fotos do grande evento:
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Nádia Gotlib:
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Claire Varin:
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Eliane Vasconcellos:
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Carlos Mendes Sousa:
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Elena Losada:
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Benjamin Moser:
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domingo, 15 de maio de 2011

Autoajuda que não ajuda

Se você sente prazer, ao ler livrinhos de autoajuda, nem perca tempo aqui, pois, se me ler, estará arriscando gastar grana extra, na compra de mais autoajuda. O ultimo alerta: daqui pra frente (“tudo vai ser diferente” – não resisti, perdão pelo desvio), segue por sua conta e risco.

Mesmo antes dessa ‘febre’ de livrinhos de autoajuda - quando autoajuda era termo quase desconhecido -, eu já não simpatizava com as capas dos ‘cujos ditos’. Foi assim que decidi ler alguns (nem tantos), pra ‘derrubar’ de vez o estigma, e acabei constatando mais (pior) que eu imaginava. A autoajuda é mesmo para os autores, que, hoje, faturam alto, num ‘repeteco’ invejado por qualquer politico. Tem gente que diz até que muitos religiosos se esforçam, decorando livrinhos de autoajuda (que maldade!). Disso, não sei. O que sei é que, em tv a cabo, o que mais ‘rola’ na madrugada é programa religioso (“digrátis’, sem sair de casa), inclusive, com conselhos de religiosos, ao vivo, a muitos desesperados, que, provavelmente, não compram, nem lêem autoajuda, ou perderam o controle (remoto).
Em tempos de globalização, os livrinhos de autoajuda, traduzidos do ‘escambau’, despencam, nas prateleiras brasileiras, sem qualquer discriminação. Os temas são variadissimos, todos formando um grande dicionario basico – sinonimos que vão e vêm, entre frases e paragrafos (quase) rimados, fedendo melodrama de novela de sexta (categoria), filmada na prisão de Guantânamo. ‘Tô” exagerando?... Nada!...
Cá muito entre nós, quando você paga (caro) por um livrinho de autoajuda, o que você ‘tá’ querendo mesmo é que alguém te descrimine, te isente do pecado mortal cometido. Pode observar, esses livrinhos todos têm sempre um consolo, uma justificativa, até despencar no lugar comum: “errar é humano”. Mas, e se você foi desumano – ‘cumé’ que fica?... Pelo menos, você consegue recursos (de linguagem), pra se expressar em tua defesa. Se vai convencer, ou não, depende do livrinho de autoajuda que você estudou (talvez, por não ser leitora assidua de autoajuda, eu não saiba me defender – pode até ser).
Sou tão boazinha (hehehehehehehe), que chego pensar que tudo e todos merecem perdão – não esse “eu te perdôo” da empafia moralista. Não. O perdão de si mesmo, por que o resto é o resto do resto do resto – e nada mais resta mesmo. Agora, se tem de pagar (com juros de correção) – já é outra historinha, né?...

Aproveito para adiantar que já tenho alguns titulos dos livros que pretendo escrever, e concorrer, no crescente mercado ‘autoajudatico’, em ‘prol da minha propria autoajuda’ (aguardo ‘pai-trocinios’):
- “Push” a vida!
- Perca a memoria 4 minutos por semana
- Experimente mais linguas
- Doença não é saúde
- O negocio é igreja
- Sorria mais com botox
- Espelho engorda
- Você pode, e se ‘fode’!
- De prego a martelo
- As doenças mais lembradas pelos hipondriacos
- Diga não ao ultimo biscoito do pacote!
- Um dia, você morre!
- Tecnicas nunca testadas
- O sal da areia
- A vida é Hollywood
- Descansa a tua poupança
- Loira não é Xuxa com farofa
- Aprenda consoantar vogais
- O resto é o que resta
- Faça alambique do limoeiro
- Pague para sair
- Não chore à toa: Corte cebola
- Tire duvidas sem dividas
- O segredo do sucesso está nos programas policiais
- Quando Paulo não é Coelho
- O que nenhum BBB mostrou
- O degrau da educação
- Se você não fosse, você já era
- De salto na praia
-- Coleção Faça Você Mesmo:
- Tire o cisco do seu olho
- Cuspa na sua testa
- Dê um pé na sua propria bunda
- Deixe de trabalhar para você mesmo
- Recicle papel higienico usado
- Aprenda calar em publico
- Teste sua paciencia na fila do SUS
- Sirva seu proprio copo d’agua
- Traia você mesmo
- ‘Cague’ na tua cabeça!
- Como sobreviver sem cartão de credito
- Derrube a cerca e não pule
- Assoe o nariz no pano de prato
- +#@#$%
- Você é Justin Bieber!
- Supere a separação sem mudar o penteado
- Seja o pão da manteiga
- Convença a si mesmo: Você é melhor que o pior!
- Vire para o lado e durma
- Peidou? Assovia!

Depois dessa ‘merda’ toda que você leu aqui, ainda quer seu livrinho de autoajuda?... Então, vá ler seu livrinho de autoajuda, com os pés descalços - claro! -, em cima de um formigueiro (o maior que você encontrar)... e boa leitura!...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Mais sexta-feira 13

Melhor não sair de casa, não cruzar debaixo de escada, nem arriscar enxergar um gato preto pelo caminho. Já estamos na sexta-feira 13, e não há como tirá-la do calendário. É sexta-feira mesmo – e 13. Aproveite bastante – o maximo – a sexta-feira 13 que já chegou, neste mês de maio, pois parece que é a unica deste ano. Coloque pra fora todas as suas superstições – se possivel, sem exagero, sem muito sal grosso (guarde para o churrasquinho do final de semana).
O que importa mesmo é que algum dia desta semana é sexta-feira 13 – dia que tem as mesmas 24 horas, os mesmos 1.440 minutos e aqueles costumeiros 86.400 segundos. Até aí, “nada de novo no front”. O novo fica por conta do dia (13) coincidir com a sexta-feira.
Até na superstição da sexta-feira 13, tem Jesus Cristo, que, dizem, foi crucificado numa sexta-feira santa. Eu não estava lá, para saber (nem você, suponho). E tem gente que ainda conta que o numero 13 (cabalistico e considerado do azar) também tem a ver com Jesus. Na ultima ceia, antes de ser crucificado, Cristo teria se reunido com os 12 apostolos (12 + 1 = 13). Cá entre nós, muita sorte mesmo, hein?... Pelo que dizem, os 13 se despediram numa sexta-feira – e a gente tem conhecimento dessa historia, até hoje.
Mas ainda tem aquela historinha da “Ordem dos Cavaleiros Templarios”, que, segundo consta (sei lá onde), irritou tanto o Rei da França, Filipe IV, que “o belo” mandou os suditos prenderem, excomungarem e queimarem na fogueira todos os templarios que encontrassem. A ordem foi feita numa sexta-feira 13 (alguém duvida?). Com certeza, foi um azar e tanto – para os templarios, que acabaram deixando de existir mesmo. Coisas da historia da humanidade, da qual fazemos (ainda) parte.
São tantos os fatos - contados e recontados -, que nem se tem como relacioná-los todos. E cada vez mais aparecem outros, pra justificarem a crendice, e alimentarem a superstição em relação à sexta-feira 13. Nisso tudo, fica a certeza, mais uma vez e sempre, de que tudo, tudo mesmo, passa – até a sexta-feira 13, que será naturalmente ultrapassada pelo sabado 14, neste mês, neste ano.
Os petistas é que parecem estar de bem com o número 13. Lula saiu da presidencia, com 89% de aprovação popular, e Dilma está com 73% de aceitação dos brasileiros. Isso, sem precisar matar lider terrorista, e ainda provar, depois, com exibição de exame de DNA. Dizem que “Mr. President Obama” teve aumento de 11% de popularidade, depois que conseguiu, finalmente, pôr fim à vida de Osama Bin Laden. E a gente ainda admira a criatividade daqueles caras cineastas hollywoodianos, achando que aquelas estorinhas todas de “mocinho e bandido” são coisas que permanecem só no cinema...

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Clarice Lispector em Paris

A partir de hoje, minha alma está em Paris – minha alma muda de endereço, até sabado que vem, quase sem avisar. Não por que Paris é Paris – a “cidade luz”. Absolutamente. Poderia ser no mais longinquo sertão – minha alma estaria lá. Nesses dias 12, 13 e 14 de maio, Clarice Lispector está em Paris, sendo assunto principal de um Colóquio unico, que reúne escritores, criticos, estudantes, literatos, professores, todos leitores fascinados por ela: Clarice. Por isso, tem muita gente que viajou, nesses dias, a Paris – sem pensar na Torre Eiffel.
Acho que os participantes do Colóquio nem ousam tentar definir – desvendar – Clarice Lispector. Antes e acima de tudo, me parece que vão mesmo soprar as cinzas da memória, reavivar Clarice – escrita e trajetoria de vida. E o tema do Colóquio vem bem a calhar, como alerta: “Gênero não me pega mais”. Essas palavras de Clarice permanecem entranhadas em uma das obras dela – Água Viva: “Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou em um estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal, a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir, pois fui ao fundo dos momentos. É um estado de contato com a energia circundante e estremeço. Uma espécie de doida, doida harmonia”.
Pelo que estou acompanhando, quanto à divulgação, parece que muitos leitores brasileiros de Clarice não têm conhecimento do grande evento. Os dois primeiros dias do Colóquio acontecerão na “Maison du Brésil”, na “Cité Universitaire”, e o último dia será na “Université Paris”. O Colóquio Internacional é organizado por Maria Graciete Besse (Université Paris-Sorbonne) e Nadia Setti (Université Paris VIII), com apoio do Instituto Emilie du Châtelet.
O Colóquio contará com conferencistas renomados. O “primeiro tempo” do evento terá palestras de Maria Graciete Besse (França), Nadia Battella Gotlib (Brasil), Elena Losada (Espanha), Benjamin Moser (Estados Unidos) e Claire Varin (Canadá). Ainda, no final do dia 12, haverá mesa redonda, com a participação de Eliane Vasconcellos (Brasil), Lorette Coen (França), Sévérine Rosset (França), e, por fim, exibição de filme. Na sexta-feira 13, as atividades do Colóquio “Leituras Lispectorianas entre Europa e Américas” prosseguem, com as conferências de Rosi Braidotti (Holanda), Evando Nascimento (Brasil), Maria Graciete Besse (França), Joana Masó (Espanha), Lúcia Cherem (Brasil), Arnaldo Franco Jr. (Brasil), Gabriela Garcia Hubard (México), Carlos Mendes Sousa (Portugal), João Camillo Penna (Brasil), e, para finalizar o dia, espetaculo de leitura de Gabriela Scheer (França).
Para o último dia do evento, sábado (14), o programa prevê conferências com Silvia Ostuzzi (França), Luisa Muraro (Itália), Michéle Ramond (França), Mara Negrón (Puerto Rico), Nadia Setti (França), Fernanda Coutinho e Vera Moraes (Brasil). Após a conclusão do Colóquio, os participantes confraternizarão, em grande almoço.
Diante de tal evento, prefiro silenciar, no aguardo de noticias do lado de lá. Para fazer companhia ao meu silencio e à minha espera, leio e releio Clarice:
“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia”. (do livro “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres" – Clarice Lispector)
...

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ser pensante é perigoso

Cuidado com os seres que não seguem a ‘boiada da vida’. Cuidado com os seres que seguem na contramão. Cuidado, muito cuidado – ser pensante é perigoso.
Cuidado com o ser pensante em casa, na faixa de segurança, na roda de amigos, no cinema, na rua, no banheiro publico, no botequim, na praia, na fabrica, no balcão, no velorio, no metrô, na fila de banco, na palestra, no mercado. Cuidado com o ser pensante na vizinhança, no avião, diante da televisão, no trabalho, na reunião, no estadio de futebol, no baile, na repartição publica, na praça, no navio, na internet, lendo jornal, no restaurante, na esquina, no onibus, na escola, no culto religioso, no cinema, no trem, na cerimonia de casamento, no transito. Cuidado com o ser pensante vendendo pipoca, na farmacia, em viagem turistica, na sala de aula, na padaria, no escritorio, lavando louça, na chacara.
Ser pensante é perigoso – em todo lugar, pra todo mundo, em todos os tempos.
Ser pensante está sempre pensando, mas não distraído. Vive a vida, e ainda pensa. Faz o que todo mundo faz, e ainda pensa. Quando questionado sobre o que está pensando, nem assim, o ser pensante deixa de pensar, e responde: Só pensando. O ser pensante não chega dar nome ao que pensa, por que pensa o que não tem denominação. E ainda pensa.
Ser pensante pode ser gordo, magro – ou nem isso, nem aquilo. Ser pensante pode ter estatura alta, ou baixa, usar óculos, aparelho nos dentes, colostomia, tatuagens, muletas, lentes, cicatrizes, platina nos ossos, livro debaixo do braço, bengalas, coleção de borboletas. O ser pensante usa os mesmos disfarces do ser não-pensante - e segue, incolume, pensando, pensando.
Ser pensante sente medo, fome, alegria, raiva, amor, dor de dente, sede, inveja, saudade, colica, insegurança, emoção, sono, desejo, cansaço, tristeza, ciúme, pavor, enjoo, calma, dor, fobia, insonia, euforia, solidão, revolta, angustia. Ser pensante sente tudo que o ser não-pensante sente – e ainda pensa.
Ser pensante, quando fala, fala por que pensou, ou não quer pensar. Ser pensante dificilmente é identificado por ser não-pensante: Se um pensa, o outro não pensa que um pensa. E já não há mais o que pensar a respeito.
Ser pensante é perigoso – não há motivo evidente, mas é perigoso. Ser pensante não pára de pensar, e não parar de pensar pressupõe pensar mais, pensar além, pensar, pensar ilimitadamente, infinitamente. Para o ser não-pensante, pensar demais, pensar além, pensar é coisa de ser pensante – perigoso.
Alguns seres pensantes sabem ler – outros não, mas agem com tamanha lucidez, como se simplesmente não lessem mais, e continuam pensando. Alguns até escrevem – outros não, mas estão sempre escrevendo historias na vida, pensando.
Identificá-los?... é tão simples, bem mais que identificar os seres não-pensantes. Até por que a maioria foge do ser pensante, e segue a ‘boiada’. Na contramão, eles reaparecem – os seres pensantes -, como nunca, como sempre. Ser pensante é perigoso: cuidado com ele, cuidado com você, se você (também) pensa...

domingo, 8 de maio de 2011

Mãe é mãe

Tanto se escreve, tanto se homenageia as mães, mas nada, nada mesmo do que já foi escrito (ou será), nenhuma homenagem que já foi prestada (ou ainda será), reconhece, de fato, de direito, o “ser mãe”. Não há definição – simplesmente. Mãe é mãe – e pronto. Mãe de todos os filhos. Mãe de todos os dias. Mãe.
Quando julgadas, as mães podem ser boas, ou ruins, como também podem ser julgados os pais, os filhos, e todos os espiritos que não são santos. Mas mãe é sempre mãe. Pai é sempre pai. Filho é sempre filho. Familia nem sempre é familia. E não se fala mais nisso.
Cá (muito) entre nós, a imagem da mãe sempre nos reporta a alguma coisa que emociona. Quando ouvimos, falamos, ou pensamos mãe, dificilmente, lembramos daquelas que engravidaram e abortaram seus fetos, ou deixaram-lhes à propria sorte, em alguma lixeira, ou latrina qualquer. Não. Quando pensamos mãe, o que nos chega é a imagem personificada do amor e do acolhimento – sem julgamentos.
Agora mesmo, pensando a respeito, lembro que, há alguns anos, entrevistei uma garota de 14 anos, que recém havia tido uma filhinha. Extasiada, olhos arregalados, a menina-mãe me relatou o que sentiu, quando viu a filha, pela primeira vez: “Era um pedaço da minha carne se mexendo, com vida, fora de mim, e parecia a boneca mais linda que eu nunca tive”.
Acho que cada ser humano, independente de ser, ou não, mãe, dá o que tem, faz o que pode, o que acredita, o que se sente capaz de fazer. Por isso, pra mim, mãe (seja quem for) não é deusa, nem a onipotencia da perfeição. Para os filhos, pelos filhos, com os filhos, o melhor dela (mulher-mãe), sempre. Mãe é mãe – e pronto. Entre erros e acertos, continua sendo mãe.
A gente não pode pensar que mãe não sofre, achando que mãe sublima tudo, por que não há, para qualquer ser humano, sofrimento sublimado. A gente até sublima sentimentos, mas sofrimento já é demais. Pode haver mãe que discorde de mim, mas é o que realmente penso: Sofre, tá sofrido, é sofrimento. Não importa se sofre por causa dos filhos, ou por outro motivo: Mãe é ser humano (que sofre também). E isso não tem nada de paraíso, não. Acho que as que mais sofrem são as mães dos juízes de futebol – todos eles, com certeza, já foram e são xingados, aos gritos, de “filho-da-puta”, não mais nos estadios (por causa da lei), mas – ainda e sempre - nos bares, nas casas, nos bate-papos de esquina, nas salas de reuniões, nos banheiros publicos, nas praças – por todos os lugares, perto, ou longe, dos estadios de futebol.
Ouço mulheres comentarem que não tiveram tempo de preparo pra serem mães – a gravidez chegou de surpresa. Penso que não há como se preparar pra maternidade. Viver, mesmo sem ser mãe, já é um susto. E cada filho, como a propria vida, é uma surpresa – intrinsecamente inimaginável. Quando me depáro com mães de ‘primeira viagem’, que me consultam se estão agindo certo (como se houvesse cartilha de como ser mãe), vou logo assegurando-lhes: É isso mesmo, continuem fazendo o melhor de vocês, que os filhos, de algum jeito, respondem, ou correspondem – isso é ser mãe.
Que ninguém imagine que já leva o titulo de mãe, por que troca fraldas, dá banho, e amamenta. Que ninguém imagine que ser mãe é profissão protegida por leis, estatutos, com tempo cronometrado de validade. Que ninguém imagine que ser mãe é entrar em cena, somente quando escuta o chamado dos filhos. Que ninguém imagine que ser mãe tem dias ou noites de folga, pagamento de horas extras, remuneração especial em feriados, finais de semana, 13º salario, ferias, aposentadoria, planos de saúde e seguro de vida. Que ninguém imagine mais, nem menos, do que é ser mãe. Mãe é mãe. E não se fala mais nisso, até o proximo Dia das Mães. Ponto final.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Individualismo salvador

No “amansa-burro”, ‘tá’ lá: “Individualismo - s.m. Tendência a não pensar senão em si. Tendência a libertar-se de toda solidariedade com seu grupo social, a desenvolver excessivamente o valor e os direitos do indivíduo”.
Só pra variar, vou na contramão daqueles que enxergam e pensam tão-somente no individualismo “malefico”. Acho que existem beneficios (tantos!), no individualismo. Tudo é uma questão de ‘vista do ponto’. Pelo menos, o individualista pensa em alguém: nele mesmo. E já não estamos mais naquela “Faixa de Gaza” – matar ou morrer, tanto faz. Na minha opiniãozinha mediocre, o individualismo pode nos salvar – uns dos outros.
O individualismo apresenta uma ‘vantagem vantajosa’ para todos nós: O individualista cuida só da propria vida, sem se importar com a vida dos outros. Se continuarmos seguindo o caminho do “individualismo desenfreado”, com o qual tanta gente se preocupa, a fofoca será extinta do nosso planetinha, e já não seremos mais obrigados trocar de canal, quando vierem aqueles programinhas de ‘milionesima categoria’, inventando fofocas, pra ver se algum telespectador incauto acredita nelas. Com o “individualismo dominante”, acabarão os “reality shows”, por que não haverá mais publico pra aplaudir exibicionismos em busca de segundinhos de fama. Sem aplausos, que empresa vai querer patrocinar aquela ‘merda’ toda?...
O individualismo salvador surpreenderá a todos, quando cada um se aperceber fazendo tudo ser melhor que é, concentrando-se em si mesmo. Se cada individuo cuidar de si mesmo, pode estar em paz, e é assim que vai conviver com os demais individuos: que o outro (individuo) seja como for, tenha o que tiver, faça o que fizer, e o outro (individuo) estará pensando/agindo do mesmo jeito.
Se, de fato, o individualismo é primo irmão do egoísmo, estamos (finalmente!) seguindo um caminho correto. Imagine cada governante pensando no proprio país, sem se meter no país vizinho, sem falar mal dos outros países, nem convocar soldados pra sair matando estrangeiros. Imagine um monte (zilhões) de seres individuais e individualistas convivendo – cada qual estará ‘na sua’ (na dele – de cada um), sendo o melhor que pode ser, por saber de si mesmo. Se cada um cuidar de si mesmo, o mundo pode ficar melhor pra todo mundo.
Eu defendo a pratica individualista – egoísta mesmo – de ser e conviver. Pra que manter a hipocrisia de dizer que pensa no outro, se o que, na realidade, faz é invejar o outro, falar mal do outro, inventar fofocas sobre o outro, não suportar a alegria e a felicidade do outro, querer fazer com que o outro seja outro?... Eu sei, eu sei – tudo isso também é pensar no outro. Mas, diante disso, o melhor é nem pensar mais no outro. Deixa que o outro pense nele mesmo. Você pensa em você. Eu penso em mim. E cada um pensa só em si mesmo. Não há eternidade, nesta vidinha humana, pra gente ficar mais de olho na vida dos outros do que na nossa propria vida.
Pensar em si mesmo já é, na minha visão estrabica, uma evolução humana. Se cada um cuida de si – todo mundo está sendo cuidado, amado, respeitado. Por isso, cada ser humano tem vida unica – pra cuidar de si, e crescer, amadurecer, apodrecer até, se quiser. Acho mesmo que isso até justifica por que a primeira pessoa, de toda conjugação verbal, é sempre: EU. Mas, se alguém insistir em pensar nos outros, há tantos lugares onde o poder sobre os outros é exercido (com tantas dominações e denominações), e ainda aceitam “dizimo para ajudar”.

Que fique bem (ou mal) claro: Não quero ter razão alguma – nem no que escrevo, nem no que falo, e, principalmente, no que penso. Razão, pra mim, é uma coisinha chata, que pesa como responsabilidade imposta, que exige coerencia em todos os tempos verbais, por toda vida. Por isso, eu e a razão nunca tivemos, por menor que fosse, uma boa convivencia. Sem razão alguma - viva o individualismo, que nos faz olhar mais para nós mesmos!!!

domingo, 1 de maio de 2011

Trabalho: prazer, ou tortura?

De um jeito ou de outro, crescemos e trabalhamos – às vezes, o trabalho começa na infancia mesmo, quando nem sabemos o que isso e tantas outras coisas significam. Afinal, que relação a gente mantém com o trabalho: prazer, ou tortura?...
Já que pensar não me dá tanto trabalho assim, lá vou eu pensar em trabalho. Não no meu trabalho, pois este eu já penso mais que suficiente, e cumpro. ‘Cada lugar na sua coisa’. Cá entre nós, pensar em trabalho (dependendo do trabalho, obviamente) dá menos trabalho que o trabalho propriamente dito.
Na “wikipédia”, trabalho é “tripalium (do latim tardio "tri" (três) e "palus" (pau) - literalmente, "três paus") é um instrumento romano de tortura, uma espécie de tripé formado por três estacas cravadas no chão na forma de uma pirâmide, no qual eram supliciados os escravos. Daí derivou-se o verbo do latim vulgar tripaliare (ou trepaliare), que significava, inicialmente, torturar alguém no tripalium”. Talvez, por isso, tem tanta gente que procura (e encontra) trabalho que causa infelicidade. Infelizmente, há muita gente que quer justificar a propria vida frustrada, trabalhando e reclamando do trabalho. Esquece que poderia procurar outra oportunidade, para realização profissional. ‘Por que simplificar a vida, se dá pra complicar?’...
Como em tudo, na vida humana, há inimagináveis tipos de trabalhadores. Tem gente que leva ao pé da letra a maxima “dar a vida pelo trabalho” – que o digam os ‘discipulos’ do Osama Bin Laden. Não é o nosso caso, aqui no Brasil (ainda bem!). Não me refiro ao “workaholic”, que é a criatura viciada em trabalho. Não. Onde tem vicio, ainda assim, existe algum prazer.
Tem gente que trabalha de mau humor, como se necessitasse ser assim. Tudo cansa, desde o inicio do dia – que acaba sendo um dia mais cansativo ainda, justamente por causa disso. Há outros que trabalham na maior alegria, esbanjando bom humor. Independente de, todo trabalho dá trabalho mesmo – não tem jeito. Até existe um dito popular falando sobre: “Feliz é a pessoa que faz o que gosta, pois essa não precisa trabalhar”. A autoria, antes que você pense que se trata de Chico Xavier, Clarice Lispector, ou Fernando Pessoa, é desconhecida. O que se deduz é que a frase foi dita por alguém de bem com a vida.
Todo e qualquer trabalho pode representar prazer, ou tortura. Somos nós, como sempre, só pra variar, que ‘vestimos’ e ‘revestimos’ o proprio trabalho. Pode observar que, em qualquer empresa, cada funcionario trabalha de forma diferente. Não é só a função que difere, mas o jeito com que é conduzido o trabalho. Com toda certeza, o bom humor alivia pra caramba qualquer atividade. Gente chata, ranzinza, que trabalha reclamando (“oh, vida! oh, céus!”), deixa qualquer ambiente infeliz – inclusive, no trabalho. Isso, todos nós temos de reconhecer. Quem suporta o mau humor?...
Tem gente que vive repetindo que “o trabalho dignifica o homem”. Numa hora dessas é que penso que ser mulher tem mesmo suas vantagens. Brincadeirinha... Eu penso que dignidade permeia por toda vida – mesmo quando não parecemos estar trabalhando. Pra mim, dignidade é algo abstrato, uma coisinha muito particular de cada um. O trabalho pode até dignificar (“o homem”, que seja), mas respeito, bom humor, gentileza, boas ações (até para com a gente mesma) também dignificam – dependendo do momento, até mais.
Mas hoje é Dia do Trabalhador – um feriado em pleno domingo. Por isso, merecemos homenagens. Nada melhor que aquela musiquinha de 1976, “Soy Latino Americano”, de Livi e Zé Rodrix (alguém lembra?):
“Meu caminho pro trabalho
É um pouco mais comprido
Eu vou sempre pela praia
Que é muito mais divertido
Chego sempre atrasado
Mas eu não corro perigo
Quem devia dar o exemplo
Chega atrasado comigo
E diz:
- Soy Latino Americano
E nunca me engano
E nunca me engano
Soy Latino Americano
E nunca me engano...”

(Escrever isso aqui me deu um trabalho – nem tenha o duplo trabalho de imaginar e acreditar. Vou ali, descansar cadinho. Bom descanso ‘procê’ também.)

De olho