quinta-feira, 12 de maio de 2011

Clarice Lispector em Paris

A partir de hoje, minha alma está em Paris – minha alma muda de endereço, até sabado que vem, quase sem avisar. Não por que Paris é Paris – a “cidade luz”. Absolutamente. Poderia ser no mais longinquo sertão – minha alma estaria lá. Nesses dias 12, 13 e 14 de maio, Clarice Lispector está em Paris, sendo assunto principal de um Colóquio unico, que reúne escritores, criticos, estudantes, literatos, professores, todos leitores fascinados por ela: Clarice. Por isso, tem muita gente que viajou, nesses dias, a Paris – sem pensar na Torre Eiffel.
Acho que os participantes do Colóquio nem ousam tentar definir – desvendar – Clarice Lispector. Antes e acima de tudo, me parece que vão mesmo soprar as cinzas da memória, reavivar Clarice – escrita e trajetoria de vida. E o tema do Colóquio vem bem a calhar, como alerta: “Gênero não me pega mais”. Essas palavras de Clarice permanecem entranhadas em uma das obras dela – Água Viva: “Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou em um estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal, a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir, pois fui ao fundo dos momentos. É um estado de contato com a energia circundante e estremeço. Uma espécie de doida, doida harmonia”.
Pelo que estou acompanhando, quanto à divulgação, parece que muitos leitores brasileiros de Clarice não têm conhecimento do grande evento. Os dois primeiros dias do Colóquio acontecerão na “Maison du Brésil”, na “Cité Universitaire”, e o último dia será na “Université Paris”. O Colóquio Internacional é organizado por Maria Graciete Besse (Université Paris-Sorbonne) e Nadia Setti (Université Paris VIII), com apoio do Instituto Emilie du Châtelet.
O Colóquio contará com conferencistas renomados. O “primeiro tempo” do evento terá palestras de Maria Graciete Besse (França), Nadia Battella Gotlib (Brasil), Elena Losada (Espanha), Benjamin Moser (Estados Unidos) e Claire Varin (Canadá). Ainda, no final do dia 12, haverá mesa redonda, com a participação de Eliane Vasconcellos (Brasil), Lorette Coen (França), Sévérine Rosset (França), e, por fim, exibição de filme. Na sexta-feira 13, as atividades do Colóquio “Leituras Lispectorianas entre Europa e Américas” prosseguem, com as conferências de Rosi Braidotti (Holanda), Evando Nascimento (Brasil), Maria Graciete Besse (França), Joana Masó (Espanha), Lúcia Cherem (Brasil), Arnaldo Franco Jr. (Brasil), Gabriela Garcia Hubard (México), Carlos Mendes Sousa (Portugal), João Camillo Penna (Brasil), e, para finalizar o dia, espetaculo de leitura de Gabriela Scheer (França).
Para o último dia do evento, sábado (14), o programa prevê conferências com Silvia Ostuzzi (França), Luisa Muraro (Itália), Michéle Ramond (França), Mara Negrón (Puerto Rico), Nadia Setti (França), Fernanda Coutinho e Vera Moraes (Brasil). Após a conclusão do Colóquio, os participantes confraternizarão, em grande almoço.
Diante de tal evento, prefiro silenciar, no aguardo de noticias do lado de lá. Para fazer companhia ao meu silencio e à minha espera, leio e releio Clarice:
“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia”. (do livro “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres" – Clarice Lispector)
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