segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Meu velho pai

Sempre digo que meu pai continua sendo Forrest Gump – não o ator (Tom Hanks), mas o personagem mesmo. Ser filha de Forrest Gump enriquece, principalmente, as memorias da infancia, que acaba ficando mais tempo. Quando brinco com meus filhos (já crescidos), e vejo que se alegram, ainda, ao lembrarem a infancia deles, sei exatamente o que é ser filha de Forrest Gump.
Entre tantas historias, lembro, agora, quando morávamos (meus pais, meus irmãos e eu), numa casa à beira dos trilhos de trem, e tínhamos como vizinhos, colegas de trabalho do meu pai. Todos eles trabalhavam na Estação Férrea, e meu pai era muito querido por todos.
Um dia, um dos vizinhos, antes de viajar a passeio com a família, foi à nossa casa, e conversou bastante, pedindo que meu pai desse uma olhadinha na casa deles, já que ninguém ficaria lá. Prontamente, meu pai acatou o pedido, ficando com as chaves da casa do vizinho, que ficaria fora, com a família, durante uma semana.
Meu pai, há pouco tempo, tinha se aposentado. Por isso, cuidou, com mais zelo, da casa do amigo vizinho. Pela manhã, atravessava a rua, e mantinha algumas janelas abertas da casa. Anoitecia, meu pai estava lá, novamente, para fechar as janelas, ligar umas poucas luzes, no intuito de mostrar que havia gente ali. Depois, voltava para casa.
Na segunda noite em que fez o ‘ritual’, tão logo chegou em casa, bateram palmas, no portão, e meu pai foi atender. Eram dois homens que diziam ter sido contratados pelo vizinho em viagem, para fazer a mudança das coisas da família. Pediram ao meu pai se ele tinha as chaves da casa, já que o vizinho (citaram o nome dele) havia dito que era para procurarem ele (meu pai).
Os três conversaram bastante, no portão lá de casa. Depois, meu pai, retirando do bolso, as chaves da casa do amigo, atravessou a rua com os dois. Demorou para voltar, quando nos contou que estava cansado de tanto ajudar na mudança do vizinho.
No dia do retorno marcado, lá estava o vizinho, no portão da nossa casa, desesperado, junto com a família. Meu pai contou-lhe o trabalho que teve, junto com os dois homens, para fazer a mudança: “O caminhão era pequeno”. O casal viajante chorava, enquanto os filhos pequenos não entendiam, feito nós, o que estava acontecendo. Os dois homens, a quem meu pai ajudara, eram ladrões.
Os vizinhos roubados chamaram a polícia, que comunicou que um caminhão havia sido apreendido, há pouco tempo, numa blitz, por trafegar em condições irregulares. Toda a carga do caminhão foi recuperada, intacta, mas nunca mais, pelo que lembro, os vizinhos deixaram a casa vazia, nem aos cuidados do meu pai, que não perdeu a amizade deles, pois continuavam conversando.
Quando recordava o episodio, meu pai ria muito dele mesmo, e dizia: “O vizinho falava sempre que queria e precisava mudar de vida, e eu torcia pelo bem dele. Por isso, achei que a mudança de casa seria coisa dele mesmo”.
Guardei a historinha, por que, eventualmente, era lembrada, em reuniões de família, quando meu pai contava e recontava o fato, sempre rindo muito dele mesmo... Por esses dias, meu pai estaria aniversariando – por certo, se não tivesse feito a ultima viagem de trem, ele ainda lembraria e recontaria a mesma historia. Saudade do meu velho pai...
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