segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

No ringue da vida

Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um grande passeio. Visita lugares, pessoas, e só permanece, enquanto tudo parece estar bem.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um palco. Vai, da tragédia à comédia, num só ato, e, quando não há holofotes, nem aplausos, chora Shakespeare.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um “Indiana Jones” modernizado. Busca os caminhos mais difíceis, e recusa o que faz bem.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um picadeiro. Torna-se palhaço de pequenos e variados públicos, fazendo piadas de todos, sem nunca ter um só alguém no camarim.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um grande suplício. Acorda, e permanece sem dormir, de mau humor, destilando azedume, por onde passa, com quem convive.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um grande aprendizado. Concentra o olhar em tudo que pode apreender e aprender, chegando irritar as pessoas próximas.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, uma novela. Passa a vida inteira, achando que pode começar, terminar, recomeçar, o que quer, quando quer, independente do outro, dos outros.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um cemitério de “pobres vítimas da natureza”. Por isso, nada faz – não acerta, nem erra -, e ainda reclama da vida que tem (“Ó vida! Ó céus!”).
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, um termo conhecidíssimo: “soy contra”. Não importa contra o quê, ou quem – sente necessidade de discordar, sempre, mesmo sem argumentação.
Eu sei que tem gente que vive, considerando a vida, uma grande fuga de si mesmo. No começo, se embriaga, se droga, e, depois, já não precisa mais de estímulos externos: foge sozinho.
Eu sei que tem gente que vive assim, e de todo jeito. Mas não é sobre essa gente que quero escrever – eu, que me sinto no direito de escrever sobre o que penso, pois também faço parte dessa gente.
O que quero escrever, agora, é que eu sei também que tem gente que vive, considerando a vida, um grande ringue. Feito eu, você também deve conhecer várias pessoas que, “a troco de nada”, saem na porrada – física, ou verbal. Enquanto a criatura 'desabafa', o alvo silencia, tentando descobrir os motivos da violência toda. Motivos - sempre há, para todo tipo de interpretação. E o que, antes, era ambiente de convívio, torna-se um ringue – a casa foi atingida por um raio fulminante, e não há o que salvar, para onde correr.
Como diz um amigo, “nem vou entrar, aqui, no metro da questã”. Já não me importam os motivos que levam alguém a tornar a vida, um constante ringue. O que eu estranho é que nunca vejo quem está habituado a bater lutando com quem está habituado a bater também. O que observo é alguém agredindo – física, ou verbalmente, ou “ambas as duas” coisas – alguém que, quase sempre, não revida (pode ser que, infelizmente, esteja habituado a apanhar). São zonas de conforto diferentes – parece. Se ambos lutassem (espancassem), no ringue da vida, criado de um momento para outro, talvez, “do caos, surgissem as estrelas” (né, Nietzsche?). Realmente, não sei. Tanto quanto posso, fujo desses embates – profissional, e, mais ainda, pessoalmente. Não temo só o outro – temo a mim mesma, que, em momento de desequilíbrio, desconheço o pior de mim.
Mas é preciso que estejamos – todos – preparados para o ringue da vida, “a qualquer momento, em edição extraordinária”. Se não criamos, participamos da luta do ringue (sem recebermos convite prévio), e não há como fugir do olhar fulminado pelo ódio do outro. Fazer o quê? Não sei – realmente, não sei, não sei tanto, que nem sei o que pensar, para saber menos ainda. É bom sabermos, isso sim, que qualquer coisa que dissermos, manifestarmos, será usada, com toda certeza, contra nós – às vezes, o choro causa mais porrada.
Ainda assim, eu não enxergo, no ringue, o cruel torturador e a pobre vítima indefesa. Na minha visão estrábica, são dois seres humanos que fazem, a cada respiração, escolhas de vida. Lembro de frases que li, há muito tempo, sem guardar autoria: “Pessoas feridas ferem pessoas. Cada um dá o que tem. Você faz suas escolhas, e suas escolhas fazem você”. E só.

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