quinta-feira, 29 de março de 2012

O melhor da vida

Às vezes, chego pensar que o melhor da vida ainda não foi vivido, por que acontecia, enquanto a gente se distraía em olhar para os lados, para baixo, para cima, procurando o melhor da vida. Mas tem gente que espera o melhor da vida, quando não mais usar fraldas, aprender caminhar, ler e escrever. Depois, espera crescer mais, e experimentar a vida. Enquanto isso, a vida vai vivendo... No final da vida, essa mesma gente (ainda) espera o melhor da vida, quando não usar mais fraldas, já que aprendeu caminhar, ler e escrever.
Mas também há gente que deseja o melhor da vida, quando conseguir diploma, quando tirar as merecidas férias, quando terminar o tratamento de saúde, quando saldar as dívidas, quando chegar a aposentadoria, quando acertar na mega sena. Quando não há mais nada a esperar da vida, ainda assim, espera o melhor da vida, depois que os filhos nascerem, crescerem, estudarem, se formarem, tiverem filhos.
No meio disso tudo, tem gente que não espera o melhor, nem o pior, da vida – por que não acredita, ou por que não quer pensar. Vai vivendo. Às vezes, até se dá bem com a vida, com quem passeia de braços dados, por algum tempo. Mas tudo, na vida, é passageiro. E o que parecia ser o melhor da vida simplesmente deixa de ser. Mas ainda existe vida a ser vivida – de um jeito, ou de outro, acreditando, ou não.
Pensando nisso tudo, e em mais que isso, acho que, diante de tanta vida, estamos perdendo vida – talvez até o melhor da vida. Obviamente, a cada instante, perdemos vida, mas, aí, trata-se de vida cronometrada, medida, pesada, avaliada pelo somatório circunstancial do nosso “modus vivendi”. A vida que estamos perdendo, acho, tem a ver com nossas escolhas – tão nossas, de cada um, por isso, tão especiais e únicas.
Há tanta vida fora, que acabamos “exilados de nós mesmos” (acho que a expressão é de Nietzsche). Tudo, lá fora, acontece cada vez mais rápido – o mundo virou on line, e “ficar off line” é deixar de viver (o melhor da vida?). Realmente, eu não compreendo, apesar de pensar tanto a respeito. Mas não penso, buscando respostas, por que seriam meras justificativas da minha própria imaginação, criada pela minha visão estrábica.
E ainda existe o que é o melhor da vida. Não há conceito permanente – a vida não é; a vida está. Não há melhor da vida igualzinho para duas pessoas – uma quer mais, outra se contenta com pouco menos do melhor. Isso, por um instante. Em outro momento, os desejos e as esperanças podem inverter, desabar. Enquanto tudo isso acontece, ou deixa de acontecer, a vida continua vivendo, tornando-se realidade. Nem sempre melhor. Nem tão pior. Vida – simplesmente -, essa amante infiel do tempo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Blog alimentado


Por algum tempo, fiquei sem dar alimento ao blog. Alimento havia. O que não havia era vontade de alimentar - por não saber escolher o alimento, ou por não querer escolher o alimento.
Durante esse tempo, volta e meia, ou meia volta, eu me deparava pensando em como se cria e se alimenta um blog. Nada técnico – a técnica limita, não gosto disso. Acho que, primeiro, precisa haver a vontade, o querer criar um blog. Depois, sim, a organização do pensamento: que alimento dar ao blog.
Tem gente que cria blog, para copiar frases (de efeito) de gente que nem teve ou tem blog, gente que deixou escritos, que, até hoje, são lidos, relidos, pensados, imaginados, bem ou mal interpretados, dissecados, lembrados. Tem gente que condena o que chama “falta de criatividade”, nesses blogs que multiplicam os pensamentos alheios. Na minha visão estrábica, Ctrl C + Ctrl V tem utilidade, desde que respeitada a autoria. Por conta, talvez, de uma ansiedade desmedida, tem muita gente copiando “batatinha quando nasce”, e presenteando a autoria a Chico Xavier, ou Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Mário Quintana – todos mortos, e, por isso mesmo, indefesos. O próprio Luís Fernando Veríssimo, numa entrevista, disse se divertir, quando lê o nome dele, em algum texto que nunca imaginou escrever.
Mas tem gente, também, que ousa ser o que chama “original” - criar e alimentar um blog de autoria própria. Acho que, depois do desejo incontido, precisa ter o que registrar, que pode ser, também, além de escritos, desenhos, charges, instantes fotografados em momentos únicos da vida, etc e tal. Ter o que expressar, seja do jeito que for. A partir daí, penso que o que menos importa é a autocrítica, ou, mais ainda, tentar imaginar o que os outros vão imaginar, se imaginarem alguma coisa. Imaginação, por imaginação – eu continuo preferindo a minha, antes e depois de qualquer outra.
Desde que o “blogueiro” saiba o que quer, acho que não pode haver cerceamento interno. Vai lá, usa, sem abusar, o espaço que abriu, mas ('pelamordedeus'!) diga alguma coisa, qualquer coisa que, senão o revela, aponta o caminho de (mais) um ser humano pensante. Mais que fazer pensar, o blog precisa ser alimentado por alguém que pensa - pensa tanto, que chega transbordar.
Se escolher demais o que escrever, rebuscando as palavras mais simples, tornando o fato de alimentar o blog, trabalho árduo, é quase certo que o blog pode morrer à míngua. Trabalho sem prazer acaba virando escravidão. A vitamina do blog, pra mim, é o prazer, o prazer genuíno – aquele que a gente sente, sem saber, ou querer, explicar.
Se você tem, ou planeja ter, alimentar um blog, não imagine ser lido, ou execrado. Não queira, nem espere, aplausos, ou vaias. Nem manipule o que imagina que os leitores poderiam discordar, ou concordar, gostar, ou desgostar. Não há leitores. Na realidade, há só você e um blog faminto. Nada além, nem aquém. Se você pensa que blog tem a função de fazer pensar, já cumpre: o autor dele pensa, se pensar, ou, então, não pensa. E pronto.

De olho