sexta-feira, 20 de julho de 2012

Telecursos modernos

“Nada será como antes” - canta o poeta Milton Nascimento. Tudo é modificado, a cada instante, e, por isso, impermanente. Dizem que tudo evolui (não acredito muito nisso, nem pouco). A realidade é que estamos sempre descobrindo novos brinquedinhos – na ciência, na tecnologia, em todos os setores. É claro que, diante de um mundo evoluído (?), as aulas precisam ser modernizadas. Quem não vai à escola, tem a oportunidade de instruir-se (?), através da televisão. Acompanhando o ritmo da moda acelerada, os conhecidos telecursos já não são mais os mesmos – nem os interessados nos conteúdos. Hoje, temos aulas, pela televisão, 24 horas por dia, sem precisar de TV a cabo. A televisão pública dá conta de despejar cursos intensivos, práticos e baratinhos (só o custo da energia elétrica), nas horas que temos disponíveis – refeições, cochilo no sofá, insônia no quarto, ou até de pijama, no domingo.
É tanta informação sendo recebida, ao mesmo tempo, que, às vezes, os canais (cerebrais mesmo, não os da televisão) se confundem, são confundidos. E ainda tem o maldito (bendito) controle remoto – que faz confundir mais ainda. Não são só os intervalos que estão cheios de propagandas – os programas também querem vender, e, nessa competição, não há regras, nem limites. São tantas frases (bem) feitas, apontando o caminho do sucesso, do dinheiro fácil, da mordomia, dos sonhos realizados. Tantos comerciais que se repetem, de canal em canal, lavando e enxaguando cérebros cansados de trabalho, rotina, miséria, frustrações, mesmices – todas essas coisas que, também, fazem parte da vida humana.
Por outro lado, se comparados aos programas televisivos, os comerciais representam apenas a entrada do prato principal, com saladas diversas. Os programas, sim, são certeiros. Se os comerciais fazem o telespectador se sentir um fracassado, que pode ter sucesso – se vestir tal marca, comprar tal carro, beber tal cerveja, etc e tal -, os programas são incisivos: não dão escapatória, nem direito ao raciocínio. Os programas televisivos, a qualquer hora do dia, da noite, despejam telecursos modernos, de cômoda aprendizagem – até o cérebro, desabituado de pensar, absorve. Acho que é por isso mesmo que tem tanta gente (eu já vi) fazendo piadas com as aulas (formais), via televisão. Os telecursos modernos são muito mais interessantes, e aplicáveis, de imediato, à vida prática.
Nem vou perder tempo, aqui, comentando sobre os noticiários vampíricos, na televisão (vampiro tá na moda, né?) - sangue pra todo lado. Talvez, você pense que não são divulgadas só notícias de assassinatos. Claro que não. Há reportagens ensinando, passo a passo, como sequestrar, arrombar casas, veículos, e até caixas eletrônicos. O diploma do telecurso moderno é o produto (prêmio) do roubo. Mas as aulas não param por aí, não. Ainda, tem as novelas, que, há alguns anos atrás, serviam somente para entorpecer as desilusões e frustrações humanas. Hoje, não – hoje, as novelas tem função maior: ensinam práticas que a maioria das teorias condena, com direito a reprises, em todos os capítulos. E tem pior (sempre tem pior): os ditos filmes “apresentados, pela primeira vez, na televisão brasileira”. Esses, sim, são de matar, morrer. Nem precisa mostrar tiroteio. E os cujos ditos são anunciados, com imponência, como se fossem grande coisa. Toda vez que vejo esse desrespeito, na televisão, penso: os diretores subestimam o cérebro do telespectador, o qual, provavelmente, sabe que tem um cérebro (com as funções: pensar, escolher).
Diante desse constante ataque televisivo - o que fazer?... Talvez, arriscar parar, por um momento qualquer, na frente de uma televisão (ligada), e pensar sobre o que você vê – cometa essa atitude, rara, muito rara, na vida da maioria dos telespectadores. Tenha a (inimaginável) experiência de enxergar você mesmo (a), na frente da televisão. Depois, me conta – ou não.

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