sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Nosso presente para o futuro

Em meio a brinquedos atrativos e barulhentos, presentes variados, pacotes brilhantes e laços coloridos, fico eu pensando nas crianças. Meus filhos cresceram – tempo célere. Não tenho (ainda) netos, tataranetos, bisnetos. Mas continuo fascinada pela infância – toda infância humana, e a minha infância, também.
Lembro do meu espanto, quando percebi que, sem planejar, sem maquiavelismo algum, eduquei meus filhos. Até então, eu ainda imaginava que educar fosse aquilo que me impingiram, quando eu era criança: educação rimava com obrigação. E eu nunca levei jeito pra impor, obrigar, ou até mesmo brigar. Do meu jeito sem jeito, eduquei, e, até hoje, meus filhos lembram nossas aventuras, na infância deles, que também foi minha, e continua sendo, por que continuamos brincando, nos aventurando, compartilhando vida.
Enquanto a maioria, que tem crianças por perto, se preocupa em comprar e dar presentes, nesse dia, eu fico pensando no que pode ser nosso presente para o futuro. Até por que, acho eu, de nada adiantaria superlotarmos as crianças de brinquedos e doces, esquecendo que o que fica mesmo é o exemplo de ser humano. A minha preocupação maior, no que se refere à infância, reside justamente aí: e se esquecermos que, todo o tempo da vida inteira, somos exemplos, principalmente às crianças?...
É certo que, entre 8 e 80, há outras 72 possibilidades. Por isso, o ato de cercear completamente, ou liberar geral, gera desequilíbrios inimagináveis. Isso, a gente (chamada adulta) sabe, por que vivencia. Mas cadê balança, régua, pra precisarem como cuidar de uma criança?... Por favor, não me venham com manuais que determinam como educar crianças!... Só mesmo no 'olhômetro' do sentimento – penso eu, que penso tanto, sem nada concluir. Se são nossos filhos, torna-se mais simples, o ato de observar, conhecer, respeitar, por que existe o amor genuíno – ainda acredito nisso. Se não são nossos filhos, existe vínculo – ou por que somos babás, ou por que damos aulas, enfim, convivemos. Mas ainda nos deparamos com outras crianças – os filhos de ninguém, rostos invisíveis pedindo “um trocado, tia”. São todas crianças – sonhos e desejos semelhantes.
Sei que estou 'viajando', enquanto escrevo. Mas é isso que quero, por que, quando se trata de crianças, viajo mesmo, me permito a isso, e o passaporte é a minha preocupação: qual será nosso presente para o futuro?... Hoje, Dia das Crianças (de Nossa Senhora Aparecida, e de Oxum, também), qualquer presente faz brilhar o olhar infantil – e no futuro?... Presente é bom – todo mundo (até adulto) gosta. Mas há presente que estraga, quebra, enferruja, desmancha, desgasta, fere, até mata, e não tem mais conserto.
Em qualquer tempo da humanidade, família sempre representa convivência de conflitos, por que todo mundo é diferente (ainda bem). Aos pais, dizem que cabe prover, através do trabalho – dentro e fora do lar, nem sempre doce -, as condições de subsistência, sobrevivência e existência dos filhos. Sabemos que nem sempre é assim. Há notícias de que tem muitos pais esquecendo os filhos dentro de veículos trancados, jogando os filhos na lixeira, ou pela sacada, espancando os filhos, e outros pais que estupram os filhos. Nem me interessam as justificativas. Mas cuidado e proteção aos filhos continuam sendo lei.
Na correria em que os pais vivem hoje, tendo condições financeiras, contratam empregada doméstica, para cuidar da manutenção do lar e dos filhos. Com mais dinheiro disponível (traduzindo: trabalhando mais, com menos tempo em família), os pais pagam os serviços de uma babá, para cuidar dos filhos. No Brasil, isso é mais comum que na maioria dos países, principalmente, na europa, onde os serviços domésticos estão sempre em alta cotação, pelo que estou informada. Pois bem. Na maioria das famílias com melhores condições financeiras, os filhos estão sendo educados por empregadas, que, às vezes, foram alfabetizadas e deixaram os estudos, para começarem trabalhar cedo, depois tiveram filhos, e não retornaram à escola. Eis outra palavra salvadora: escola. É notório que muitas famílias são dependentes da escola dos filhos, “local seguro” (hoje, nem tanto), onde as crianças ficam, por algumas horas. Para compensarem a ausência, os pais enchem os filhos, com presentes atrativos. Se os filhos vão mal na escola, trocam de escola. Pronto. Tudo resolvido. Resolvido?... sei não.
Do lado de fora da família estruturada(?), crescem as crianças que nem sempre vão à escola, nem sempre conhecem pai e mãe, nem sempre tem café da manhã, jantar, almoço, lanche, roupas, calçados, brinquedos. Ignoradas ou não, as crianças continuam lá – nas ruas, nas periferias -, à espreita, crescendo. Mas a correria dos pais é tanta, que essas crianças tornam-se invisíveis, até que cometem um delito, dois delitos, ou vinte delitos, como assisti, dia desses, numa reportagem, quando um garoto de doze anos foi apreendido pela polícia (20ª vez). Já não são mais invisíveis, nem crianças – aos olhares humanos(?), marginais. Mas, no fundo, continuam crianças – bem além de uma certidão de nascimento, embalada num saco plástico retirado do lixo.
Alguém pode perguntar (perguntam sempre): “O que eu tenho a ver com isso?”... Gosto de responder com outra pergunta: O que nós todos não temos a ver com isso?...
Ah, já ia esquecendo (imagina!): tenha um feriado feliz!...

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