terça-feira, 13 de maio de 2014

Falência múltipla dos sonhos

Quando a gente menos espera, tem outra gente promovendo a falência múltipla dos nossos sonhos, pelo mundo. Querem decidir por nós, humanidade, quando vão às ruas, quebram tudo, ou realizam linchamento, execução mesmo, maquiando isso como “justiça pelas próprias mãos”. Estamos sendo assaltados, com nossos sonhos mais secretos usurpados, na maioria do tempo, sem nos apercebermos disso, ou nem queremos mesmo saber, pensar a respeito.
O patrão nos paga pouco, retirando, de nós, o direito de sonharmos, organizarmos projetos. A cada final de mês, recebemos o pagamento, em forma de pesadelo, que nos trará insônia, nos impedirá de sonharmos, até dormindo. Sem o patrão, temos o sonho desempregado, quando sonhos e projetos são levados pela enxurrada de desesperos e desesperanças.
Os (ir)responsáveis pelos canais de televisão querem nos roubar os sonhos, quando jorram sangue, pela nossa sala, diante do nosso olhar cansado e passivo, para, no final da carnificina, nos desejarem “boa noite”. Mas sempre tem mais - é quando chega o horário das novelas, com protagonistas jovens, sarados, marombados, sem cravos e espinhas, com muito botox e maquiagem, a grande maioria branca, no máximo, bronzeada. Neste assalto diário, consentido silenciosamente, as novelas nos fazem abandonar nossos próprios sonhos, para embarcarmos numa viagem que oscila sempre entre o surrealismo e o terrorismo, durante meses de catatonia dos telespectadores. Definitivamente, não há espaço para sonhar, diante da televisão. E ainda falam que as novelas estão próximas da realidade - pode até ser alguma realidade causada por elementos estranhos à vida humana, que luta para sobreviver, muito mais que por um pedaço de pão dormido, ou por uma fantasia de carnaval.
O tempo inteiro, estão querendo roubar nossos sonhos, sem que eu ouse tratar, aqui, dos problemas e traumas particulares de cada um. Somos bombardeados, em massa, por comerciais que querem nos impor o que comermos, bebermos, vestirmos, calçarmos, chegando ao cúmulo de nos disputarem, nas inimagináveis ofertas de medicamentos, livros de autoajuda, revistas de fofocas, e até produtos milagrosos de emagrecimento. Distraídos que vivemos (?), ou reprimindo o que sonhamos, acabamos nos rendendo: sonhos e projetos ao lixo, lixo na mesa, lixo nas ruas e praças, lixo na cama, lixo nas escolas e universidades, lixo nos relacionamentos, lixo no trabalho, lixo na vida, lixo por todo lugar onde passamos, ficamos, fingimos viver.
Diante de tudo isso, ainda fico imaginando que, logo, logo, antes mesmo de percebermos, fazermos pesquisas, estudos e relatórios, haverá novo diagnóstico, nos atestados médicos ininteligíveis - causa mortis: falência múltipla dos sonhos. Oxalá, hajam lápides: Aqui jazem sonhos que não foram domados, nem controlados. Voem em paz.

De olho