segunda-feira, 24 de novembro de 2014

(Des)encontro

- Você por aq...
- Olá, querida!... Há quanto tempo!... Vamos entrar nesse restaurante, aqui, pra colocarmos as fofocas em dia... Arrume uma mesa pra gente, enquanto eu me despeço de um amigo, no whatsapp...
...
- Pronto!... Mas, antes de sentar, vamos fazer uma selfie...
- Sou tímida, e além do ma...
- Que nada! É rapidinho... Feito!
- Por onde você tem andado, que não te vej...
- Só um pouco... Quero postar nossa selfie...
...
- Você tinha perguntado alguma coisa?...
- Nem lembro ma...
- Mais um instante, por que tenho de responder um comentário da selfie...
- O garçom está vind...
- O que você pedir, eu aceito... Tem mais gente comentando a foto...
- Eu só quero um copo d'ág...
- Vamos fazer assim, então: pedimos água de griffe, e fazemos outra selfie...
- Desde que seja água líquid...
- Você é muito engraçada, nem assim sorri...
- Não conheço griffes de ág...
- Deixa que eu peço... Garçom, traga água importada pra nós... Quantos comentários sobre o meu cabelo... Preciso ir ao cabeleireiro, ainda hoje...
- Chegou a nossa ág...
- Vamos fazer uma selfie, mas sorria, pra não ficar feia... Aproxima a sua garrafa, e mostra o rótulo, pra todo mundo morrer de inveja...
- Foi o melhor que pude faz...
- Não ficou das piores... Você, sempre desajeitada... Só vou atender uma ligação... Não demoro... Olá, querido!...
- Cuidado para não tocar no...
- Garçom, caiu o copo... Limpe essa sujeira...
...
- Mais um pouco, tenho de falar com a prima de uma vizinha da encarregada do buffet que contratei... Só mesmo o face, para salvar a minha vida...
- Eu ainda tenho alguns minutos, antes de voltar ao traba...
- Você, sempre tão calada... Deixou o seu smart no carro?...
- Não tenho carro, nem smartpho...
- Nossa!... Li no whatsapp que você não estava bem, financeiramente, mas não pensei que tivesse chegado a tanto... Se eu soubesse, teria trazido um smartphone antigo, do ano passado, que as crianças brincam, lá em casa...
- Não é preciso, obrig...
- Não seja orgulhosa... Olha a foto que a cunhada de uma amiga postou... A nordestina é babá dos filhos dela... hahahahahaha
- Isso é assédio mor...
- Sei lá o que você está falando, mas a foto ficou ridícula... Essa não arruma mais emprego... hahahahaha
...
- Pelo menos, você tem facebook, né?...
- Não, por que...
- Eu não acredito... Você não muda, continua esquisita... Preciso responder agora um convite, no email...
...
- Os comentários das fotos não param... Estão perguntando se você existe...
- Responda que...
- Pronto!... Tenho mesmo de dar um jeito no meu cabelo...
- Eu preciso ir...
- Nem tomou sua água... Fica quieta aí, que eu vou pedir a conta, pra fazer uma selfie, por que tem gente perguntando quanto custa...
- Tenho mesmo de ir...
- Então, tá!... Amei ver você, minha amiga, amei nosso papo, amei tudo... Beijo e me liga!...
...

domingo, 16 de novembro de 2014

De mão com a contramão

Sempre repito que a primeira lição que aprendi foi não ser. Foram e continuam sendo tantas lições pra eu não ser, que, às vezes, me restam ínfimas escolhas. Confesso que, de quando em vez, tilinta, bem no fundo de mim, um prazer intraduzível: não sou. De mão com a contramão, continuo não sendo, e aprendendo ser quem (acho que) sou. E não há solidão maior - pra mim, pelo menos -, enquanto a maioria segue quem segue a maioria.
Acredito mesmo que o maior desafio, nos tempos atuais, é não ser. Até parece que a maioria ignora mesmo os assaltos constantes do consumismo, com campanhas devoradoras de qualquer vontade: carro, cerveja, comida, roupa, produto de alta tecnologia, adereço, joia para animal de estimação, oferta de medicamento, calçado, acessório, maquiagem, vitamina, roteiro de viagem, curso que ensina trocar fraldas, batatinha com sabor de churrasco, emagrecedor milagroso, livro de autoajuda, etc etc etc. Somos assaltados, diariamente, mas ninguém quer saber - o que todo mundo deseja mesmo é consumir, estar na moda, pra se ver sendo parte do que, na maioria das vezes, nem sabe. Eufórica, a maioria segue, obediente.
Que todo mundo quer ser diferente, todo mundo sabe - todo mundo quer. Mas, na mesma proporção, todo mundo quer pertencer, fazer parte, ser igual. Os modelos de heróis que temos hoje são frágeis, efêmeros, não duram mais que uma manchete on line. Por isso, me parece, a mesma via, que ainda mantém a placa antiga de mão dupla, acaba se tornando mão única, onde a boiada passa, sem pensar, na mesma direção, oscilando entre a euforia e a tristeza causada por falta de euforia.
Seres humanos que somos, queremos ser aceitos, mas, na maior parte do tempo, pra sermos aceitos, não podemos ser quem somos. Por isso, talvez, a maioria, pra não ficar sozinha, não ser descartada, deixa de ser quem é, ou até se distancia de si mesma, sem saber quem é, ou quem pode ser. Ignorando a sinalização de mão dupla, a maioria segue a mão única, feito espectro, massa que se modela ao exemplo da maioria que segue.
Eu ainda não sei qual a maior solidão: quando não somos quem os outros são, ou quando somos quem os outros não são. Talvez, eu ainda descubra que a solidão, em ambos os casos, seja a mesma - única, fatal. No fundo, penso eu, independente de quem realmente somos, ou até mesmo quando escolhemos seguir a boiada de olhos fechados, a solidão continua fazendo parte de cada ser humano.
Parece que o ato de seguir pressupõe segurança - se alguém foi por aquele caminho, e se deu bem, os demais terão o mesmo resultado. Quem dera, mas nem sempre é assim. De repente, no meio do caminho e da boiada, alguém resolve pensar: dana tudo, por que não há como voltar, nem sair do meio da maioria, que não olha para baixo, para ver em quem pisa. O que a boiada sabe fazer é passar - passar por cima de tudo que a remeta à individualidade(solidão), ao pensar(mais solidão), para continuar devorando o cardápio principal, que tem tempo de validade cada vez mais reduzido. Não há tempo a ser perdido - a ordem é seguir a mão única do consumismo que consome a maioria. Antes, lentamente. Agora, com fome cega e voraz. E a boiada segue.
Por isso, se você ousa equilibrar-se na contramão, aja com precauções. Não se desespere com a solidão(companheira inseparável), nem pense, por um momento sequer, que a via é mesmo de mão única, como grita a boiada. A placa antiga continua sinalizando via dupla - atitude depende de escolhas. Não se deixe levar pela boiada. Procure enxergar você - a boiada não quer ser identificada individualmente, o que mais deseja é parecer igual. Jamais feche os olhos, diante da boiada que passa. Deixa passar. Feito no trânsito, cada vez mais caótico, você não vai querer perder a vida, que é só sua, seguindo na contramão, indo para o meio de uma boiada que nem sabe pra onde vai, né?... A placa continua à beira dos trilhos: Pare Olhe Escute (ainda não sei se esse é um conselho, mas eu continuo tentando aprender).

sábado, 1 de novembro de 2014

O incrível “livro de caras”

Na minha insignificante opinião, a atualidade dos tempos é marcada pelo incrível “livro de caras”, tradução literal de facebook. Tudo mais é crível - acredite -, além, ou aquém, desse "livro de caras", motivo de rebuliço na vida de zilhões de pessoas, pelo planeta inteiro. Além de cuidar da própria vida, cada 'facebookiano' (o termo saiu agorinha do forno dessa cabecinha medíocre aqui) se sente na obrigação de cuidar da vida dos incontáveis “amigos” (palavrinha que já teve, sim - acredite, não faz tanto tempo -, significado especial).
Confesso que tenho resistido bravamente, para não criar meu perfil no facebook. Nem sei relatar como eu vivo, sem ficar “curtindo” frases sem sentido, o dia inteiro, e fuçando fotos de gente que nem conheço. Reconheço, a minha maior tentação tem sido eu criar meu perfil, para postar fotos minhas comendo, bebendo, nem ligando. Isso tudo é irrestível, pra mim também, que sou humana mortal.
Sem perfil no “livro de caras”, fui obrigada mesmo a recorrer ao 'mestre google', pra bisbilhotar as postagens mais curtidas e compartilhadas. São tantas - emoções. Percebi, nesse trabalho sério e investigativo, que o que o povo gosta mesmo de curtir é luto - o que têm de curtidas e compartilhamentos, nos avisos fúnebres de familiares, colegas de trabalho e aula, e alguns amigos (amigos sem aspas)... Os 'facebookeanos' curtem bastante, também, tragédias, desastres e miséria de vida, ou morte - as curtidas e os compartilhamentos aumentam, quando a vítima é dona do perfil. Lendo tudo isso, enquanto vadiava nas ondas do meu tempo, que é só meu, cheguei pensar que eu não faria esse sucesso todo, no “livro de caras”. Afinal, minha vidinha é tão comum, sem grandes tragédias (gregas, ou venezuelanas), nada, nada mesmo, comparado ao que pude ver, pelo binóculo do google. Ainda assim, não perco a esperança de ter vítimas (sei lá de quê) ao meu redor, para, pelo menos, ter a sensação de quem posta no facebook: “meu pai acabou de falecer”, “fui assaltado, na rua, há pouco”, “meu noivo se suicidou hoje”, “levei tiro dentro de casa”, “fiquei preso na DP”, etc etc etc. Quanta emoção os 'facebookeanos' demonstram, quando, no “olho do furacão”, lembram justamente de conectar o perfil, para registrarem as maiores mazelas do mundo. A disputa parece acirrada. E - o mais incrível: - todo mundo curte, e até compartilha. Todo mundo mesmo, um montão de gentes - e eu (ainda) me incluo fora dessa lista.
Preciso admitir que meus dedos coçam, toda vez que me imagino sem precisar sequer escrever “bjs”, “tks”, ou 't+”. Eu poderia viver, até morrer, no facebook, só curtindo e compartilhando, compartilhando e curtindo, e até curtindo e compartilhando a mesma coisa, sem me preocupar com o que é, ou possa vir a ser. Depois de tudo isso, ainda ficar “famosa”, com zilhões de “amigos”, em todo esse trabalho de clicar curtir e compartilhar, sem precisar assistir qualquer viral, ou perder tempo com mensagens de autoajuda, no meio de incontáveis figuras brilhantes. Isso tudo realmente é irresistível, incrível.
Acabo me emocionando tanto, toda vez que tento imaginar o que estou perdendo de curtir no facebook, que esqueço o dobro da metade. Mas o que todo mundo lembra mesmo foi a incrível comoção nacional (e até internacional) da inveja, depois da postagem de uma selfie, senão histórica, pelo menos única - não tem como ser repetida. A fama, geradora de diversas piadas, ficou por conta da mulher que encarou a fila interminável, no velório de Eduardo Campos, para fazer selfie, com o caixão como pano de fundo. Não há limites - eu que continuo limitada, sem facebook.
Gente, o “livro de caras” é mesmo incrível, e eu continuo sem participar, por que meu celular é tão antigo, que só funciona com fita isolante, sem qualquer furo de câmera. Pra ter perfil no “face” (para os íntimos), eu queria mesmo um iPhone 5 Black Diamond Edition, da Apple, que custa a bagatela de um pouco mais de R$ 36 milhões. Aí, sim, eu iria até para o facebook, e colecionaria autógrafos dos funkeiros da ostentação, que criariam filas, pra fazerem selfie comigo...

De olho