domingo, 16 de novembro de 2014

De mão com a contramão

Sempre repito que a primeira lição que aprendi foi não ser. Foram e continuam sendo tantas lições pra eu não ser, que, às vezes, me restam ínfimas escolhas. Confesso que, de quando em vez, tilinta, bem no fundo de mim, um prazer intraduzível: não sou. De mão com a contramão, continuo não sendo, e aprendendo ser quem (acho que) sou. E não há solidão maior - pra mim, pelo menos -, enquanto a maioria segue quem segue a maioria.
Acredito mesmo que o maior desafio, nos tempos atuais, é não ser. Até parece que a maioria ignora mesmo os assaltos constantes do consumismo, com campanhas devoradoras de qualquer vontade: carro, cerveja, comida, roupa, produto de alta tecnologia, adereço, joia para animal de estimação, oferta de medicamento, calçado, acessório, maquiagem, vitamina, roteiro de viagem, curso que ensina trocar fraldas, batatinha com sabor de churrasco, emagrecedor milagroso, livro de autoajuda, etc etc etc. Somos assaltados, diariamente, mas ninguém quer saber - o que todo mundo deseja mesmo é consumir, estar na moda, pra se ver sendo parte do que, na maioria das vezes, nem sabe. Eufórica, a maioria segue, obediente.
Que todo mundo quer ser diferente, todo mundo sabe - todo mundo quer. Mas, na mesma proporção, todo mundo quer pertencer, fazer parte, ser igual. Os modelos de heróis que temos hoje são frágeis, efêmeros, não duram mais que uma manchete on line. Por isso, me parece, a mesma via, que ainda mantém a placa antiga de mão dupla, acaba se tornando mão única, onde a boiada passa, sem pensar, na mesma direção, oscilando entre a euforia e a tristeza causada por falta de euforia.
Seres humanos que somos, queremos ser aceitos, mas, na maior parte do tempo, pra sermos aceitos, não podemos ser quem somos. Por isso, talvez, a maioria, pra não ficar sozinha, não ser descartada, deixa de ser quem é, ou até se distancia de si mesma, sem saber quem é, ou quem pode ser. Ignorando a sinalização de mão dupla, a maioria segue a mão única, feito espectro, massa que se modela ao exemplo da maioria que segue.
Eu ainda não sei qual a maior solidão: quando não somos quem os outros são, ou quando somos quem os outros não são. Talvez, eu ainda descubra que a solidão, em ambos os casos, seja a mesma - única, fatal. No fundo, penso eu, independente de quem realmente somos, ou até mesmo quando escolhemos seguir a boiada de olhos fechados, a solidão continua fazendo parte de cada ser humano.
Parece que o ato de seguir pressupõe segurança - se alguém foi por aquele caminho, e se deu bem, os demais terão o mesmo resultado. Quem dera, mas nem sempre é assim. De repente, no meio do caminho e da boiada, alguém resolve pensar: dana tudo, por que não há como voltar, nem sair do meio da maioria, que não olha para baixo, para ver em quem pisa. O que a boiada sabe fazer é passar - passar por cima de tudo que a remeta à individualidade(solidão), ao pensar(mais solidão), para continuar devorando o cardápio principal, que tem tempo de validade cada vez mais reduzido. Não há tempo a ser perdido - a ordem é seguir a mão única do consumismo que consome a maioria. Antes, lentamente. Agora, com fome cega e voraz. E a boiada segue.
Por isso, se você ousa equilibrar-se na contramão, aja com precauções. Não se desespere com a solidão(companheira inseparável), nem pense, por um momento sequer, que a via é mesmo de mão única, como grita a boiada. A placa antiga continua sinalizando via dupla - atitude depende de escolhas. Não se deixe levar pela boiada. Procure enxergar você - a boiada não quer ser identificada individualmente, o que mais deseja é parecer igual. Jamais feche os olhos, diante da boiada que passa. Deixa passar. Feito no trânsito, cada vez mais caótico, você não vai querer perder a vida, que é só sua, seguindo na contramão, indo para o meio de uma boiada que nem sabe pra onde vai, né?... A placa continua à beira dos trilhos: Pare Olhe Escute (ainda não sei se esse é um conselho, mas eu continuo tentando aprender).

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