quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

No balanço de final de ano

Todo final de ano é a mesma coisa: bate aquela depressão sazonal, que resolve ficar de papo com o ‘grilo falante’(consciência) da gente. Tem coisas que, não adianta, você precisa, tanto quanto possível, esquecer, ou, pelo menos, não lembrar. No desesperado balanço de final de ano, você pode até cortar os pulsos, mas isso só causaria dívidas (médica, ambulatorial, hospitalar), além do sentimento de culpa, pelos transtornos à família, justamente quando todo mundo prepara festas e festas.
De soslaio, você dá uma olhada no extrato (vermelho de vergonha) do seu cartão de crédito, e logo vê que vai demorar muito para zerar de vez aqueles números cada vez mais aterrorizantes. Você até tentou fazer aquela dieta de abobrinhas, mas não foi longe, por que esqueceu tudo, no rodízio de pizza, regado a chopp.
Você prometeu ao seu ‘grilo falante’ que, este ano, sim, pediria demissão do seu trabalho medíocre, e venderia suco na praia, tempo em que pensaria o que fazer da vida, depois do verão acabar. Você queria tanto, no início do ano, fazer “pé de meia”, e hoje culpa a crise econômica mundial, por ter ficado até sem a meia.
Em vez de ficar no pedido de perdão, mostre, pra você mesmo, que sabe crescer, e não repita a causa das dores, nos outros. São tantos os erros humanos – pra que repeti-los?… Mas nada de armas letais, por favor. O mundo, que está cheio de psicopatas, fascistas e terroristas, agradece, por continuar existindo – antes e depois de você.
Às vésperas de ano novo, não dá pra encarar análise da própria vida, muito menos discussão de relação, né?… É demais, pra cabeça de qualquer um – até de quem não está habituado a pensar, por não querer. Mas o mais importante é que você chegou até aqui – e tem um novo ano pela frente. O que passou, passou (mesmo!), já foi – ficou você, e tudo o que você pode fazer e ser (de melhor). Sem segredos. Sem mistérios. Sem revelações. Simples assim.
Outros anos virão e virarão, como este – com, ou sem, o seu balanço, independente das suas escolhas. Enquanto tantos morrem – e nascem -, você continua vivo, colocando, sempre fora do seu alcance, o que chama projeto de vida. A princípio, pode até ser projeto de vida mesmo, por que você projeta em vida – nada além disso, por que continua balançando entre as suas escolhas, como se o projeto de vida fosse independente, agisse por conta própria (quem dera!). Faça novos projetos (entusiastas), aqueles que você sabe, de antemão, que, além da capacidade, você tem o forte desejo de.
Se você resistir ao final de mais esse ano, e não cortar os pulsos, nem se jogar de cima da mesa, você sobrevive. Vai ficar tudo bem. Um novo ano chega, com sabor e cheiro de ano novo – faça sua parte (poxa!), renove os sonhos, limpe as gavetas da alma. Se puder, faça mais: tome um porre, ou dois, dance “na rua, na chuva, na fazenda”, faça declaração de amor ao poste sem luz, durma no gramado – na praça mais próxima. E nunca esqueça que nem tudo é como a gente quer que seja – nem fatos, nem pessoas, nem nós mesmos. A vida flui – colorida (até preto e branco são cores) -, em todos os matizes, idiomas, olhares e gestos, por todos os cantos. Compreenda que essa realidade, com tantas semelhanças e diferenças, é o jeito de a própria vida se sonhar. E sonha, também, você – sonha com sonhos que você jamais sonhou que pudesse sonhar. Pense: serão mais 8.784 horas, até você pensar em voltar a pensar no que fez, deixou de fazer. Ano novo é pra isso: Carpe diem!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Faíscas de liberdade

Definitivamente, liberdade não é para todos, desde os tempos da escravatura, no Brasil. Naquela época, os escravos, na ânsia natural pela sobrevivência, criaram pratos culinários, valorizados, até hoje: feijoada, farofa, angu, etc. Quando foram libertados, além de não terem emprego, nem auxílio-desemprego, os pobres negros africanos tiveram de enfrentar a fome e a falta de comida, sem teto que os abrigasse. Isso não foi dar-lhes liberdade – foi o preço que os escravos pagaram, para sentirem o gosto do que poderia ser liberdade. Quem sabe até, tenham se sentido, por algum tempo, livres, distantes do trabalho escravo, das chibatadas, das humilhações. Mas, logo depois, devem ter percebido que ficaram longe da senzala e da comida que preparavam, com os restos da cozinha dos senhores.
Por todos os lados, falam em liberdade – liberdade de expressão, liberdade nas relações em família, na escola, no trabalho, nas vias públicas, etc e tal. Por todos os lugares, há liberdade – tão, ou até mais, cerceada do que a exercida nas prisões. Quando os outros não nos cerceiam, nos limitam, nos aprisionam em estereótipos, somos nós mesmos que fazemos isso. E ainda tem gente que infla o peito, para dizer que “não obedeço, por que sou livre”. Outros, em nome da 'liberdade', desrespeitam, violam, invadem, até violentam. Definitivamente, liberdade sequer passeia por esses caminhos.
Hoje em dia, prevalecem tantas faíscas de liberdade, em completo desuso: liberdade de pensar, liberdade de vestir, liberdade de se alimentar, liberdade de fazer moda, liberdade de viajar, liberdade de aprender, liberdade de navegar na internet e no controle remoto, liberdade de viver, etc etc etc. (Ainda) podemos nos libertar, mas a poltrona da zona de conforto nos protege – tão aconchegante.
Numa completa demonstração de imaturidade, tem gente que implora o que considera liberdade, feito adolescente (“Eu quero! Eu quero!”), enquanto espera a mesada. Liberdade paradoxal de existir. O que a maioria usa e abusa mesmo é o que enxerga como liberdade, quando deseja ter o que o outro tem, fazer o que o outro faz, comer o que o outro come, ir aonde o outro vai, vestir-se como o outro se veste, viver a vida do outro. Quantas vezes (sempre), o outro segue essa mesma linha de desejo, doido para trocar de vida com outro. Definitivamente, desejo não é caminho à liberdade. Desejo (realizado, ou não) pode causar mal à saúde: frustração, decepção, corte de pulsos, e até assassinato. Desejo é escolha. Liberdade é outra coisa – vai além. 
Até hoje, liberdade é sempre tema de longos e inócuos discursos – sempre políticos, nem sempre partidários, nem sempre em palanques. Enquanto isso, eu fico pensando que a liberdade não é para todos. Definitivamente.
Viver a liberdade pressupõe romper laços e nós com o que está colocado, socialmente – explícita ou implicitamente imposto. Nem todos resistem aos apelos sociais – vida em grupo (família, escola, trabalho, amigos, etc). Contrário a isso, a maioria quer mesmo participar. Para ser participante, necessário se faz, de antemão, que a liberdade seja afastada, para dar lugar ao comum, ponto de convergência nos convívios sociais. Somente os que se assemelham é que se aproximam – eis o “óbvio ululante”. Para sermos aceitos, abandonamos a liberdade de manifestar quem somos. Deixamos de lado o que consideramos nossa personalidade, nossos princípios, nosso caráter até. Quantas vezes, nos distanciamos, ainda mais, do caminho da própria liberdade, para seguirmos a boiada, que também não é livre – sem saber. E a boiada se contenta com (tão) pouco, sempre.
Enquanto tudo isso acontece, o que seria a nossa liberdade cambaleia pelas redes sociais, na superficialidade de todas as relações que mantemos, diariamente, até ser desenganada, por falência múltipla de sonhos e pelas nossas escolhas, numa vida que não é nossa, nem de ninguém. Assim, penso eu, nos aproximamos dos outros, e nos afastamos de nós mesmos, esquecendo a liberdade que nunca ousamos sonhar.
Liberdade é, essencialmente, solidão. E quem deseja solidão?… A maioria confunde tanto, que, no máximo, pensa que liberdade é fazer o que quer, no momento que bem entender, com quem quiser – caprichos, caprichos. Longe disso, a liberdade (mesmo!) caminha, solitária, sem qualquer tristeza, ou desânimo, ou frustração. Melancolia? Talvez. A liberdade é – simplesmente. Não necessita de traduções, explicações, ou justificativas – sem legenda. A liberdade (em si mesma) não se permite fazer companhia a medos atávicos, ou servir de muleta emocional. Até por que a liberdade voa (alto, muito alto) – tem asas (enormes) invisíveis, para que não sejam cortadas.
Ao contrário da vida social, que nos torna objetos de espelhos desconhecidos, a liberdade nos faz sujeitos de uma vida única, história escrita de maneira solitária e consciente. Não há perda, ou ganho, nisso – se existe, o resultado é sempre empate. Fazemos escolhas – vivemos as consequências das nossas escolhas, temos de assinar embaixo. E isso é (quase) tudo.
… E, no meio do caminho, por onde segue a boiada, ainda escolhemos ficar presos ao passado – enquanto o presente e o futuro nos acenam liberdade… liberdade!...

terça-feira, 17 de novembro de 2015

“O rei está nu!”

“A roupa nova do rei”, de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen, nunca foi tão contemporâneo como nos dias atuais. Saindo da classificação de conto de fadas, a obra, escrita para crianças, encaixa em atitudes que deveriam ser consideradas adultas, principalmente, aquela cena reveladora(inesquecível): “Um menino, que estava na multidão, achou aquilo tudo muito estranho, e gritou: - O rei está nu!”
Recentemente, o jornalista Sidney Rezende foi demitido pela direção da rede globo, que afirmou, em nota, que só tem “elogios à conduta profissional de Sidney, um jornalista completo''. Foi justamente isso que fez com que alguns colegas de Sidney Rezende, que também pensam, questionassem o fato: Se é tão bom, por que demitir?... Admitir e demitir até rimam, mas são verbos contraditórios.
O jornalista demitido mantém blog e página em rede social, onde se acha no direito de escrever e publicar o que pensa – direito real, obviamente. Mas, entre as aparições de Sidney, na televisão, e a liberdade expressa nos textos que assina, houve um distanciamento imensurável(abismal) e insustentável(como tinha de ser). Desde janeiro, o jornalista, nos intervalos das apresentações na tevê, escrevia(demais) sobre o que pensava, para qualquer um ler. Até que, no dia 12 de novembro, Sidney Rezende resolveu “pegar pesado”, e publicou, no blog dele e em rede social, (quase)tudo o que pensava sobre o que já sabemos: “Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo. (...) É hora de mudar. O povo já percebeu que esta ‘nossa vibe’ é só nossa e das forças que ganham dinheiro e querem mais poder no Brasil”. Foi a última gota, para romper a barragem globista, que mandou ver o clássico “pé na bunda”, mais uma vez, como tem feito com todos os ‘globais’ que resolvem manifestar o que pensam(“o rei está nu!”).
O fato, que podia ser mais um, na areia movediça televisiva, me fez pensar(mais). Como nunca trabalhei na globo(nem pretendo, esconjuro!), meu direito de manifestar o que penso não foi amordaçado, nem entorpecido. Caro Sidney Rezende, lembro que, quando foquei meus sonhos e ideais na profissão, o jornalismo me recebeu com alguns profissionais exemplares e inesquecíveis, hoje, cada vez mais raros. O meu primeiro estranhamento foi justamente a importância que esses jornalistas especiais davam aos processos judiciais em que eram os protagonistas. Quando levei meu primeiro processo judicial, compreendi o valor do meu trabalho, e a recompensa que vinha, por eu não me omitir, não aceitar o passaporte de viajar na primeira classe, com o conforto e a proteção da boiada, que segue obedecendo o que nem sabe. A partir dali, sempre que nos reuníamos, em algum momento, surgia a pergunta inevitável: Quantos?... Cada um sabia que se tratava do número de processos ajuizados, a partir do trabalho sério e compromissado com a realidade, já que a verdade se dobra e se desdobra, a cada depoimento sobre o mesmo fato.
Por conhecer alguns porões abarrotados de ratazanas, Sidney, reconheço a dimensão da sua atitude, ao manifestar que pensa, e o que pensa. A escolha é dolorida(e solitária) – o adversário se acha um globo(‘não é pouca bosta’). Mas o salto – você já deve saber – não é impossível. Impossível mesmo é acreditar que todos os funcionários globais não pensam. Oxalá, em algum momento, como tem sido, mais um profissional, aparentemente inofensivo, servil(e mudo), escolhe gritar: “O rei está nu!”

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O seu melhor. O meu melhor.

“Nada lhe posso dar, que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.” (Hermann Hesse)

Se existe em mim, alguma obstinação, é justamente buscar, cada vez mais, coerência entre o que penso e as minhas atitudes, que inclui o que Hermann Hesse deixou registrada em “O Lobo da Estepe”. Posso até não conquistar esse meu objetivo, mas continuarei exercitando. Esse é o meu alvo: o seu melhor, seja você quem for – o meu melhor, seja eu quem for. Pode ser até que nem cheguemos a nos conhecer, mas, certamente, continuarei desejando que você seja o seu melhor, e seguirei tentando ser o meu melhor.
Sei que tem um monte de psicopatas, sem a menor empatia, por todo lugar, querendo só o melhor dos outros, para usufruir-lhes prazer, status e poder. Mas existe algo melhor – acredito nisso -, em cada um de nós, que vai muito além do que alguém possa querer ‘vampirizar’. Penso mesmo que o melhor de cada criatura pode, num momento da vida, apresentar-se visível e inquestionável, e ser tão surpreendente, que nem ela mesma acredita. Mas o melhor jamais se torna ‘moeda de troca’ – o melhor permanece dentro, tendo como vizinho, o pior, até que a gente faça a escolha que considera mais acertada.
Obstinadamente, também eu busco o meu melhor. Quanto me faz bem, quando encontro alguém que também quer que eu seja o meu melhor. O outro pode ser até psicopata. Mesmo que eu o identifique (são tantos), ainda assim, continuarei tentando fazer e ser o meu melhor. Afinal, não posso tornar-me líquida, de repente, diluir-me à forma do recipiente mais próximo, para satisfazer essa ou aquela exigência externa. Se continuo tentando ser o melhor que reconheço em mim, não é por causa de alguém, ou de alguma circunstância. É por mim mesma, e pelo que acredito, neste mundinho que me fascina tanto.
Mas nem todo mundo quer o melhor da gente – a maioria nem quer saber dessas coisas. Independente do que as criaturas desejam (o melhor ou o pior de mim), minhas expectativas em relação aos outros têm sido reduzidas – menos frustrações, mais surpresas boas (simples equação). Honestamente, já me sinto satisfeita, quando o outro, seja quem for, me sinaliza respeito – com gentileza, melhor ainda. Pode ser que o outro não me compreenda, às vezes sempre, nem queira me compreender. Mas, havendo respeito e um pingo de gentileza, já demonstra que está sendo o melhor que pode, ou se acha capaz de ser.
Eu costumo dizer que pouco adianta eu me preocupar somente com as luzes da minha casa, se a rua precisa de mais luz, da luminosidade das outras casas. A gente pode observar isso, em época natalina, quando quilômetros de fios com pisca-pisca enfeitam as ruas, as praças, as cidades. Volta e meia, a revolta dos pisca-pisca (sempre existem os revoltados mesmo, em qualquer situação) causa apagão, até apagões, pelo trajeto, o que acaba chamando mais a atenção dos transeuntes. Talvez, por isso, tem tanta gente manifestando o pior de si mesma, como se tivesse lido “O Lobo da Estepe” pelo avesso. Pode até chamar a atenção, mas causa muito mal, fermento instantâneo para o pior do mundo.
Podemos comprovar, no cotidiano, que a violência tem se exacerbado, por falta de coisa melhor. As relações têm ficado cada vez piores – as melhores estão nas redes sociais, onde cada qual desfila com a máscara e a fantasia que escolhe, sem envelhecer, diante dos outros. Na realidade, o que chamamos relações amorosas estão carregadas de desrespeito, desconfiança, más interpretações, indiferenças, e tudo mais que é reclamado, nas sessões de divórcio. Afinal, não é todo mundo que se acha capaz de administrar cenas como essa, sempre tão comum:
- Você atrasou dezenove minutos, hoje. Onde você estava, com quem, fazendo o quê?
Tem alguém que até responde:
- Eu sei que tem gente que vende muita coisa, no sinal, mas eu dei, enquanto o semáforo estava fechado, e desobstruíam a área de mais um acidente.
- Deu pra quem? Eu conheço? Nem responda. Vou ver os detalhes do acidente, na televisão...
... E já não escuta:
- Dei toda a minha paciência, no meio do congestionamento...
Todo mundo quer só o melhor da vida, e, quase sempre, exige isso, da pior maneira. Se existe mesmo algo que me faz mal indescritível é justamente quando eu contribuo para que o pior de alguém ocupe tempo/espaço. Isso me causa mais dor, se comparado ao fato de alguém provocar o meu pior, para que escape da jaula vigiada pelo meu desnutrido equilíbrio. Enquanto há provocação, eu posso defender o que acredito ser meu amadurecimento, minha consciência. Mas, se o meu pior contra-ataca, o meu pobre equilíbrio, minguado de vergonha de si mesmo, sai de cena, e retorna à lição que já pensava ter aprendido.
O pior e o melhor – sempre fazem parte do que denominamos caráter, personalidade. E tudo isso descamba, mais uma vez e sempre, nas escolhas que fazemos, a cada instante da vida inteira. A maior ironia, nisso tudo, está justamente nas consequências das nossas escolhas, nem sempre imaginadas: “Eu não sabia”.
Viver também pode ser transbordar, ir além – de si mesmo. Num dia qualquer, todos morreremos (a fila é longa) – sem sabermos se a vida teria sido melhor, se tivéssemos feito outras escolhas.

P.S.: Só não diga que o que você leu aqui ajudou em alguma coisa, na sua vida. Autoajuda - só aos autores dos livros de autoajuda (livros cada vez mais caros, autores cada vez mais ricos). O que escrevo não é para ajudar. Ao contrário. O que escrevo é para atrapalhar, incomodar mesmo, desarrumar, tirar o sono, inquietar, e (quem sabe até) fazer pensar. A intenção é só essa – realmente. Aí, do outro lado, a escolha é só sua – você lê o que quer ler. E escolhe viver como quer viver. Eu também.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A morte não anunciada

Hoje é dia de chorar a morte – a morte dos nossos entes queridos, e a nossa própria morte. No próximo velório que chamarem você, observe que as pessoas choram, diante do caixão, se entreolham, e choram mais ainda – ninguém sabe quem será o próximo. O que se sabe mesmo é que nem sempre o terminal vai na frente do fulminante, enquanto o inesperado continua sendo o primeiro da fila.
Durante todo o tempo em que estamos nessa condição que chamamos vida, sofremos diversas mortes. Penso que a morte não anunciada vai além da morte por acidente, homicídio, ou suicídio (anunciado sempre, por sinais). Talvez, essa morte que me refiro seja a mais profunda, e menos dolorida, de todas as mortes. Está tão incrustada no fundo mais fundo do ser humano, que nem chega doer, coberta que fica por tudo o que ‘parece’ vida, em total abandono, na vala do desperdício esquecido.
Na minha insignificante opinião, tantas vezes, morremos para os outros (nem todos), mas permanecemos aconchegados (vivos) nos braços de quem nos quer bem, a troco de nada mesmo. No contraponto, quantos permanecem (tão) vivos, por tantas vidas inteiras que seguem, ignorando qualquer lógica do tempo, que (quase) tudo faz esquecer. Mas morrer para os outros não é a pior morte (ainda).
A pior morte, na minha visão estrábica, não é a anunciada. É aquela que causamos em nós mesmos – um só alguém, ou ninguém, fica sabendo. A criatura vai morrendo aos poucos – longe da lógica do tempo das rugas e senilidade. Tem gente que vai abandonando sonhos e projetos, pelo caminho. No início, até percebe o que está fazendo com a própria vida, escolhendo. Não demora muito, essa rendição - em vida, à morte - é transformada em hábito, vício até. E não há morte mais vazia e triste. Morte anestesiada pela ausência de sonhos (vida).
Penso que especialmente hoje não deveria ser dia de refletirmos sobre a morte. A morte já nos chega com tudo pensado – sem direito (mesmo!) de qualquer escolha. Hoje – e sempre – é dia de refletirmos sobre a vida, a nossa vida, de ninguém mais. Até por que temos a vida que temos, por que fazemos escolhas, mesmo quando justificamos que não temos outra escolha (existe, sim). Mais justo seria reconhecermos que não conseguimos enxergar mais escolhas, por que escolhemos – sempre -, independente de.
De repente, a morte (implacável!), quase nunca esperada, nos chega – que haja muita vida, dentro de nós, quando o inevitável acontecer. Que a nossa vida seja tanta, que transborde à vida que fica, e segue...
...E continuemos orando pelos nossos mortos, e pelos sonhos e projetos que morrem, em completo desamparo íntimo, a cada instante...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Notas de rodapé (para Márcia Tiburi)

* Filosofia, você pode exercitar, quando não está linchando alguém na rua, ou ateando fogo em ônibus, ou matando civis e forjando legítima defesa, ou divertindo-se nas práticas de bullying, ou “enchendo a cara” (e todo o resto) e atropelando pessoas, ou deixando de prestar socorro, para fotografar e postar nas redes sociais, ou maltratando animais, crianças e velhinhos caquéticos. Filosofia já foi exercício mais constante, mas hoje acaba, diariamente, sendo substituído por cruéis comentários de apresentadores de programas policialescos de televisão, dividindo tempo com gente que arremessa veredictos, pelas redes sociais, todos a favor da pena de morte. Penso até que filosofar, atualmente, é questionar o inquestionável, refletir sobre qualquer coisa, quando a maioria já nem quer saber de pensar.
** Pensar tem preço - valor muito alto, cada vez mais impagável. Não há dinheiro que pague, realmente, o ato de pensar, por que pensar é ação. Toda atitude demanda esforço, dedicação. De brinde, recebemos a liberdade de pensar certo, ou errado - na mesma proporção. E ainda dói. Mas continuamos com o direito de pensar – às vezes, nem certo, nem errado. Paga-se caro, por pensar, refletir, não imaginar. Por isso, tem tanta gente que não quer saber de pensar. A imaginação é quase gratuita, está sempre em liquidação, a nosso bel prazer. Pensar é que custa caro, muito caro mesmo. Pensar é refletir. Refletir é transbordar. Por isso, o trampolim permanece ao alcance – nem todos desejam ousar.
*** Para conviver bem, na sociedade do espetáculo atual, você precisa conhecer e reconhecer a cartilha: Os outros são os vilões, racistas, homofóbicos, fascistas, egocêntricos, reacionários, machistas, transfóbicos, corruptos, sexistas, psicopatas, xenofóbicos, imperfeitos. Somente os outros, por que você é o máximo da perfeição do centro da pirâmide humana. Ainda há tempo: Você ainda pode ser a (grande) vítima de tudo isso – por enquanto.
**** Friedrich Wilhelm Nietsche está indo além da imaginação (dele mesmo, que não pensava pouca coisa). O ‘caldo’ começou a ‘engrossar’, quando o que chamam livro “Nietzsche Para Estressados - 99 Doses de Filosofia Para Despertar a Mente e Combater As Preocupações” foi lançado. O aproveitador chama-se Allan Percy, um cara que deve usar, na maquiagem, muito, mas muito mesmo, óleo de peroba. Como se não bastasse a dita “obra prima”, tem agora “Funk do Nietzsche”, gravação de Mc Bertas e DJ Leozito. Esses exemplos comprovam que a falta de imaginação e criatividade pode render bom dinheiro, mais, muito mais, do que Nietzsche recebeu.
***** Aviso aos intolerantes impetuosos (kit completo) de plantão: Andem sempre com arma de fogo – até durmam, com um revólver debaixo do travesseiro. Vocês realmente precisam acabar com os motivos que irritam tanto os intolerantes (‘intolerantes unidos jamais serão vencidos’). Vão treinando: quando encontrarem uma manifestação, ou até uma minguada junção de gentes, libertem a impetuosa intolerância, e, literalmente, “mandem bala”. Não esqueçam: Arma ao alcance da mão, sempre, no trânsito (prato cheio – de motivos e justificativas para uma “boa peleia”). Logo, logo, a lei do desarmamento será derrubada pela força dos senhores “representantes da sociedade”, no Congresso. Por enquanto, vão treinando “tiro ao Álvaro”.
****** A campanha que estou lançando é justamente para que os filósofos (mortos e vivos) não se tornem finados. Ainda que a maioria contemporânea prefira ler apenas postagens compartilhadas em redes sociais, os livros (nada silenciosos) continuam a batalha contra o google. Às vezes, até parece que vamos perder – só impressão. De repente, no meio de tantos “fogos cruzados”, alguém larga mão do google, e resolve pesquisar mesmo, e até pensar, refletir. E a filosofia, antes alquebrada, ressuscita, com potência absoluta.
******* Para emagrecer, a receita é seguir todas as receitas, e tomar todos os medicamentos – comece pelos mais caros, até chegar nos baratos. Continue comendo, comendo tudo e mais um pouco de todas as dietas aconselhadas. Acredite em todos os comerciais e receitas emagrecedores. Aproveite, e acredite em papai noel, também. Se, algum dia, você olhar o espelho, e enxergar obesidade mórbida, troque o espelho (para um bem maior) – não é você.
******** Dia desses, assisti à uma entrevista, na televisão. Não tenho certeza se era entrevista. Não lembro. Mas sei que tratava sobre um assunto bastante interessante. Quem falava não era alguém famoso, celebridade. Não. Mas parecia ser alguém com conhecimento de causa – pelo menos, da causa que defendia. Vez ou outra, exasperava-se, falava mais alto, e manifestava discordar de outras opiniões, contrárias àquela que defendia. Eu sempre paro para ouvir, quando alguém não cai na vala comum, ao falar. Gosto de ouvir o que os outros ainda ousam falar, num mundo onde a ordem é “compartilhar” opiniões superficiais e/ou sem sentido, e imagens entorpecentes. Assim é que se preenche páginas e páginas, livros inteiros, sem dizer coisa alguma. Quem imagina que o oco está oco mesmo, esquece de lembrar que o oco não é oco. O oco é e está sempre cheio de ecos – silenciosos. Na maioria desses casos, se traduzidos, os ecos repetem apenas o nada que o escritor tem a dizer, enquanto tantos outros livros continuam transbordando, nas prateleiras. Por isso, também, livros ocos me cansam – eu, que sempre renasço, a cada transbordamento.
A cada dia, só tenho a agradecer a filósofa Márcia Tiburi, e todos que ela traz à minha companhia.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Declaração de amor

Enquanto há tantas separações - por causa de tudo, por causa de nada -, quero deixar, aqui, um manifesto, a minha declaração de amor a um só alguém - único, insubstituível.
Ficamos horas distantes, mas, quando nos encontramos, nem parece que houve algum afastamento.
Você me enche de carinho e agrados, sem interesse algum.
Não importa o que eu fale, você está sempre com esse olhar atento e concentrado em mim.
Pra me fazer graça, você até improvisa alguns passos desengonçados de dança.
Nossos passeios causam inveja nas pessoas, que insistem em manter relacionamentos que nunca existiram, ou acabaram.
Às vezes, você me dá mais trabalho do que jogar uma toalha molhada na cama.
Esqueço o trabalho que você me dá, quando te encontro me esperando, no sofá, para assistirmos juntos, mais uma vez, aquele filme ‘água com açúcar’ que tanto gosto.
Ninguém me emociona, como você, meu querido.
Diante das suas brincadeiras, meu anjo, não resisto, e nos divertimos a valer.
Você, em vez de cobrar de mim, me dá atenção e compreensão silenciosas.
Sei que você não fica imaginando coisas sobre mim, nem me interpreta mal.
Por você, meu amor, que sempre me surpreende, não me importo em manter suas redes sociais atualizadas.
Como não corresponder à sua lealdade canina, meu querido?
Por não haver pessoa alguma que se assemelhe a você, invisto muito em plano de saúde, psicólogo, dentista, trainer, conforto, salão de beleza, roupas, seguro, resorts, terapias, acupuntura, festas, viagens ao exterior, gps, joias, microchip e a melhor alimentação – tudo, tudo, só pra você.
Obrigado, meu fiel mastiff tibetano, que faz minha vida – que, há muito, deixou de ser humana - ter algum sentido. Se todo humano fosse animal...

domingo, 27 de setembro de 2015

Os seus problemas acabaram!

Aqui, você não encontrará “produtos tabajara”, mas, com certeza, os seus problemas acabaram!
Cansado de ser humilhado, mal visto, mal falado, mal tudo?
Agora, você tem um mundo espetacular, onde pode receber só flores e aplausos.
Ninguém, com quem você convive, reconhece seus valores, esforço e dedicação?
No mundo espetacular, você pode receber reconhecimento e atenção, o tempo todo, todos os dias, anos, semanas, meses.
Você não aguenta mais aqueles familiares chatos e amigos fora de moda?
No mundo espetacular, você pode simplesmente mantê-los presentes, em fotos, até o dia que o silêncio deles, nas imagens, causará tédio, e você simplesmente poderá deletar as fotos.
O sexo com o/a parceiro/a anda borocoxô?
No mundo espetacular, você pode encontrar inimagináveis estímulos sexuais, sem o perigo de DSTs, sem até saber com quem você está se relacionando.
Você não gosta de ler, e, por isso, não escreve bem?
No mundo espetacular, você pode dizer que ama ler (todo mundo acredita), e pode copiar e disseminar citações que fazem sucesso – se não souber a autoria, basta colocar ‘Chico Xavier”, que sempre funciona.
Você sempre foi omisso, nunca manifestou opinião?
Agora, no mundo espetacular, você pode seguir e apoiar a opinião da maioria, sem pensar.
Você sempre gostou de fofocas, mas sentia vergonha em compartilhá-las?
No mundo espetacular, o que mais tem é fofoca – sinta-se em casa.
Você gosta de aventuras – sexuais, psicológicas, políticas, etc?
Só mesmo no mundo espetacular, para você aventurar-se sem parar.
Você tem medo da vida, e, por isso, não vive?
O mundo espetacular está cheio de gente semelhante a você – lá, todos vivem a vida que bem desejam, e, melhor ainda, nunca envelhecem.
Você é psicopata (frio, calculista, mentiroso contumaz, egocêntrico, megalômano), em estado leve, moderado, ou grave, mas não admite, nem para si mesmo?
Dizem que o mundo espetacular é terreno fértil da psicopatia, que pode tudo, sem limites, na busca de prazer, status e poder – fique à vontade.
Está sentindo falta de amigos, familiares, pessoas próximas que não conversam mais com você?
Provavelmente, estão todos no mundo espetacular, esperando você, que já é conhecido deles, sem novidades, ou surpresas. O mundo espetacular oferece muito mais, sempre mais.
Você pensa pouco, nem sabe que pensa o pouco que pensa?
No mundo espetacular, você não precisa pensar – nem um pouco. Basta ‘curtir’ o que os outros dizem pensar, e fica tudo bem.
Você está desempregado, não tem o que fazer?
O mundo espetacular sempre tem uma vaguinha para funcionário permanente. Você trabalha de graça, contribui com o grande espetáculo, que lhe dá a doce ilusão de fazer parte de alguma coisa, que, na realidade, ninguém sabe o que é.
Você tem dificuldade de fazer e manter amizades, por não ser empático?
No mundo espetacular, você pode ter milhões de amigos, todos interessados em você, preocupados com você, torcendo por você, admirando você, o tempo todo – seja você quem fingir ser.
Está sem perspectiva de ganhar uma grana fácil e rápida?
O mundo espetacular oferece oportunidade de você criar campanhas de ajuda financeira (para ajudar bichinhos emociona), que sempre arrecadam bom dinheiro. Mas tenha cuidado, pois tem gente que vai atrás do endereço indicado, nessas campanhas “salve o cãozinho”, não encontra sequer a casinha do cachorro, no terreno baldio, e denuncia ao público.
Depois de você conhecer, e passar a viver só no mundo espetacular, não vai mais querer saber de vida humana, com dores e pequenas alegrias. Os seus problemas acabaram mesmo! As redes sociais são as sócias proprietárias do grande espetáculo! Você não quer ficar pra trás, né?... Nem precisa enviar psicografia, do lado de lá...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Psicopatia sem dó

Pensar só em si mesmo. Querer fazer e participar somente do que lhe dá prazer, status e poder. Criar imagens de si mesmo, sem falhas e características de maldade, ou ignorância, para ser amado e idolatrado. Tudo isso parece ser caraterístico do individualismo, que predomina nos tempos atuais. Pode até ser – nem sempre.
Às vezes, a psicopatia se esconde tanto, nessas pessoas egocêntricas, que ninguém identifica – nem elas mesmas. Nascem, são estimuladas pela sociedade, e até morrem assim: sem diagnóstico. Por que psicopatia não é doença – consequentemente, não tem tratamento, nem cura. Psicopatia, dá pra dizer isso, seria um desvio de caráter, de personalidade. Simplesmente, no caso, a criatura não enxerga o outro, não há qualquer empatia nela.
Não havendo patologia, a psicopatia apresenta sintomas sérios, e consequências maiores ainda. Tenho me dedicado, há algum tempo, a estudar a respeito. O que percebi, sem conclusão, até aqui, é que o caso é mais sério do que se possa imaginar. Por isso mesmo, duvido muito que algum ser humano vivente não tenha conhecido, ou convivido, com um psicopata.
Quantas vezes, passamos noites em claro, lembrando e julgando nossos próprios atos, assumindo a responsabilidade que, parece, nos cabe, no que diz respeito a relacionamentos. Nem sempre, a responsabilidade pelos ‘acidentes de percurso’, numa relação, é nossa. O outro, seja quem for, pode até nos imputar o título de causadores da tragédia, o que nos toca, profundamente, quando somos exageradamente autocríticos. Mas não podemos concluir que somos os piores dos piores, só por que alguém resolve acabar com a nossa ‘raça’. Às vezes, nem existe culpa, ou culpado(s). O que sempre existe é escolha – e consequência, claro.
Certamente, nem toda atitude egoísta pressupõe (mais) um caso de psicopatia. Fique tranquilo, se, na maior parte de sua vida, você prioriza você mesmo, por motivos de medo, insegurança, autoproteção, ou seja lá qual for a justificativa que você usa para si mesmo. O psicopata, pelo que já li, não quer nem saber o que pode existir além do próprio umbigo, e, por isso mesmo, não pensa no outro. Sempre repito que não há como colocar-se no lugar do outro, que está completamente ocupado (pelo outro, obviamente). Mas sempre há um jeito de, através de nossas semelhanças humanas, sabermos o que faz bem, o que faz mal, perto de nós, ou na Ilha de Java, ou no Azerbaijão – desde a mais tenra idade, começamos a compreender isso.
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva é, a meu ver, quem mais esclarece sobre psicopatia. Ela é autora de diversos livros, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores sobre manifestações humanas distorcidas e doentias. Um desses livros chama-se “Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado”. Lembrando que o indivíduo carrega, na própria genética, as características de psicopatia, Ana Beatriz esclarece que “a índole da pessoa já vem, geneticamente, com essa tendência à perversidade”. No livro, ela cita casos, onde crianças não manifestam compaixão, quando maltratam animais, fazem brincadeiras perversas com coleguinhas, e sentem prazer de ver o outro cair, se machucar, etc. A psiquiatra alerta que, somente na infância, há condições de minimizar os efeitos da psicopatia, impondo limites.
Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva explica, ainda, que, quando se torna adulto, “todo psicopata é megalomaníaco, gosta de exibir a sua esperteza, e está sempre se vitimizando, contando histórias tristes, e se dizendo vítima da sociedade”. Outra característica dos psicopatas, conforme a psiquiatra, é que “são sempre pessoas simpáticas, gentis, educadas, até você estar fazendo tudo o que elas querem. No momento em que você começa a deixar claro que está percebendo o jogo dele, o psicopata pode até se tornar violento. Então, psicopatas são pessoas que mudam o comportamento, conforme são revelados. Uma outra característica fundamental é a ausência de culpa. Essas pessoas nunca se arrependem do que fazem”. Nem todos os psicopatas são violentos; nem todos os violentos são psicopatas. A psicopatia perpassa pelos níveis leve, moderado e grave.
A psiquiatra destaca, ainda, que “a internet abriu um grande campo, para que a psicopatia pudesse se proliferar. Eu costumo dizer que existe um porão de psicopatas atuando na internet, hoje, existe mesmo, existem comunidades que você não acredita, na internet. E isso se fez muito, por que eles se valiam do anonimato. Um psicopata, no anonimato, pode ser quem ele quer, quem o outro quer que ele seja, e ele – o psicopata – sabe fazer isso, melhor do que ninguém, por que é o verdadeiro grande artista da vida, por que ele se transforma naquilo que as pessoas querem. Você ser camaleão (termo dado ao psicopata, na Espanha), num universo sem leis, sem regras, onde o que vale é o que você diz, onde você pode forjar e fingir, a internet é um prato cheio”.
Ana Beatriz aconselha a gente a não dar tempo de detectar o grau de psicopatia, e manter distância: “Nunca ache que você vai mudar um psicopata. Nunca menospreze o poder de sedução de um psicopata: ele vai te seduzir. A melhor coisa é se afastar”. Explica a psiquiatra: “Os psicopatas nascem com um cérebro diferente. Os seres humanos têm o chamado sistema límbico, a estrutura cerebral responsável por nossas emoções. É uma espécie de central emocional, o coração da mente. Nos psicopatas, o sistema límbico não funciona”. Ana Beatriz chama a nossa atenção: “Há algumas características básicas, entre os psicopatas: falam muito de si mesmos, mentem, e não se constrangem quando descobertos, têm postura arrogante e intimidadora, por um lado, mas são charmosos e sedutores, por outro. Costumam contar histórias tristes, em que são heróis e generosos”.
Essa psicopatia sem dó deve nos fazer pensar, e repensar, não só sobre os relacionamentos que mantemos, mas as nossas próprias atitudes. Afinal, somos todos humanos. Por isso, já que (ainda) não nascemos com dispositivo detector de psicopatia, fiquemos atentos às lábias sedutoras, egoísticas e egóicas. Depois da disparada fuga emergencial, podemos até pensar em participar da Corrida Internacional de São Silvestre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sua história de vida daria um livro

Não conheço você (não conheço nem a mim mesma), mas sei, antes de tudo e de mais nada, que a sua história de vida daria um livro. Ou mais que um livro – uma biblioteca, talvez. Por que sei isso? Por que toda vida humana é única, e - por isso e apesar de - especial. Milhões de pessoas podem ser atingidas pelo mesmo tsunami, mas nem duas terão e guardarão a mesma visão da catástrofe. Cada qual lembrará um tsunami único, que modificará, ou não, a vida que será vivida, a partir de.
Não me refiro, aqui, a genoma. Vou além, ou aquém, disso. Existem peculiaridades, em cada personalidade, que surpreendem até a genética. Como escreveu Sartre, eu sou o resultado do que escolhi fazer com o que sabia ser de mim. Por isso, o tataravô do meu bisavô, e os demais familiares, pouco têm a ver com o que me torno, a cada dia, por escolha minha.
Também, discordo de quem diz que cada dia de vida é uma página em branco, à espera do que desejamos escrever. Na minha visão estrábica, não há como você apagar quem já foi, o que fez, vida bem, ou mal, escrita, simplesmente virando a página. A gente é quem é, sempre a partir do que foi, e escolheu ser. Mesmo que houvesse essa virada (radical) de página, a história de vida jamais seria mesmo um recomeço, pois que somos resultado do que fizemos com o que já fomos. Tem gente que escolhe ser melhor do que já foi, e outros, piores. É escolha de vida, independe de condição social, ou de qualquer outra imagem que se queira manter.
À revelia das postagens nas redes sociais, existe uma história de vida (única) que daria um livro, sem plágio. Depois (quem sabe?), algum cineasta, tomando conhecimento do livro, ousasse fazer um filme, que levaria milhões às salas de cinema, e, aí, sim, causasse comentários nas redes sociais. Não há novidade nisso, pois muitos fizeram, fazem e farão o mesmo, com sucesso garantido. Às vezes, o livro e o filme são tão realistas, que poucos acreditam tratar-se de biografia mesmo. Talvez, a vida real seja insuportavelmente nua, enquanto a imagem dela exiba as cores e flores da moda. E ainda há a singularidade de cada olhar. Por isso, o melhor mesmo é a autobiografia – como o próprio protagonista se vê, já que a mãe dele enxerga-o diferente.
Por mais que alguém tente igualar-se àqueles que considera semelhantes, ainda assim, prevalecerão singularidades. O olhar de cada um é sempre diferente do outro, que processa o que enxerga, a partir das vivências (íntimas) que já teve. Não há como igualar, ou igualar-se. No máximo, nos assemelhamos, por gostos, ou desgostos, características de caráter, personalidade, etc. Nada além disso. Mas, mesmo assim, continuamos sendo diferentes dos demais.
Se não somos iguais, podemos até seguir a moda, vestir o uniforme da maioria, seguir a boiada que nada questiona, mas a nossa história de vida continuará sendo única. Por outro lado, podemos economizar energias, já que não precisamos nos esforçar para sermos diferentes. Como também não poderia ser diferente, teremos, cada um, a morte única, especial. Jamais existiu, ou existirá, alguém igualzinho a cada um de nós. E cada livro, dessa biblioteca infindável chamada vida, será único. A história que cada um conta, de um jeito, ou de outro, e deixa (bem ou mal) registrada, depende de cada escolha que faz, por toda a vida, que ninguém sabe quando acaba, se acaba mesmo.
Em tempo: São essas histórias de vida que eu tento traduzir à minha compreensão, a cada instante em que escrevo a história da minha própria vida – também única, especial. Sem qualquer ironia.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A grande lição

Ela insistia em dizer a ele:
- Tenta. Continue tentando. Abandone as muletas. Não olhe para trás. Sei o quanto é difícil. Mas você consegue. Não, não é por aí. Você tem muito mais que isso. Continue tentando. Você já fez tantas coisas. Impossível você não conseguir isso. Sei que é uma grande lição – talvez, a maior da sua vida. Mas, se eu consegui, outros conseguiram e tantos outros conseguirão, você também consegue. Não desista. Tenha e mantenha foco. Não se distraia. Não permita mais que façam isso por você. Faça você mesmo. Tenha ousadia. Você consegue. Você pode transferir decisões e escolhas da sua vida, aos outros, mas essa escolha – seguir adiante – é intransferível (o resultado disso, também). Tenta um pouco mais. Ainda não é por aí. Prossiga. Continue firme. Não esmoreça. Não se deixe levar por desvios iluminados. Vá em frente. Derrube a resistência dos seus costumes e vícios. Você consegue. Não pare no meio do caminho. Não se acomode. Você ainda vai saber o quanto valeu todo o esforço. Saiba que, quanto mais você seguir, mais sozinho ficará. Vai até encontrar gente voltando do meio do caminho, mas você continuará obstinado. Acredite que você é maior que todas as tentações. Descubra você mesmo. Siga em frente. Você consegue. Transpire, mas não desista. Multiplique seus esforços. Força. Fé em você mesmo. Coragem. Encare essa grande lição. Continue. Continue. Vá em frente. É bem por aí, mas ainda está longe, muito longe. Não ouça o que as pessoas estão gritando – elas nem imaginam o que você está fazendo. Você consegue. Quando necessário, seja até inflexível, dentro do seu equilíbrio. Tente por outro lado. Mas continue tentando. Prossiga. Não tenha medo da escuridão. Seja o melhor de você mesmo, para continuar. Não desista de você. Se esforce, tanto quanto seja necessário. Levante. Chão é para os caídos, e também para os que desejam caminhar. Se falta pouco, ou falta muito – o importante é seguir caminhando. Continue atento para o foco. Mantenha o equilíbrio. Não se deixe tropeçar, por causa dos pedregulhos. Deixe, à beira do caminho, os livros de autoajuda – é muito peso, para pouca bagagem. Não se detenha na paisagem tentadora. Você tem um só alvo. Siga-o. Você consegue. Ignore as setas, que só apontam caminhos, aos que não sabem aonde ir. Você é o seu próprio caminho. Quebre as rochas que entravam a sua passagem. Persevera no objetivo. Não desista. Você alcançará. Vai doer, sim, mas, semelhante a tudo, também vai passar. Não tema o silêncio. Não desperdice cada aprendizado, na sua caminhada solitária. O seu maior desafio é você mesmo. Não desista. Você consegue. Você não faz mais parte da boiada – deixe-a passar, na contramão. Mantenha o foco. Seu objetivo existe – é um só. Prossiga. Sempre em frente. Acostume-se à companhia da solidão – ela é o seu caminho, a sua caminhada. Não desista. Coragem. Seguir adiante – seu foco único. Vai doer, sim, mas bem menos que as pisoteadas da boiada que você abandonou. Siga. Prossiga. Muitos tiveram esse seu objetivo, mas nem um percorreu o seu caminho – que é (e será sempre) só seu. Você consegue. Não questione – não sei onde vai dar esse caminho. Só você saberá – confie. Não se desequilibre... e salto no escuro.

Depois de tanto tempo, ele solta um urro – de dor, de alívio, e, finalmente, êxtase: Conseguiu vencer todos os obstáculos. Pela primeira vez na vida, ele pensou. E aprendeu. Ela? Ela já está bem longe, pensando.

(Etimologicamente, estudante provém do latim studiosus – “aquele que dedica-se ao estudo e deseja aprender sempre”. A todos nós, estudantes da vida, em mais esse dia que pode ser especial: 11 de agosto – Dia do Estudante.)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Assim caminha a desumanidade (in terra brasilis)

Honduras? El Salvador? Costa do Marfim? Afeganistão? Que nada! Esses, até que são países com altos índices de violência, mas falta estímulo, motivação mesmo. Nesse ranking, o Brasil fica em 19º colocação. Mas a desumanidade brasileira, ao que parece, até aceita o 3º lugar, nos Jogos Pan-americanos (ninguém bateu panelas, nas vias públicas), mas não se conforma com o 19º, na violência, e quer maior destaque mundial, neste quesito. Nada de esperar prisão, julgamento. A desumanidade nacional – a mesma que quer, de qualquer jeito, redução da idade penal e pena de morte – faz “justiça com as próprias mãos”, à espera de um minuto e meio de fama, na mídia, nas redes sociais. E acaba recebendo aplausos dos fãs, cada vez mais fervorosos.
Os noticiários já nem mais divulgam, nas manchetes, que a violência se multiplica, por todo o Brasil. Banal demais. Para animar os estádios, volta e meia, a desumanidade apronta a maior quebradeira, só para dar uma treinadinha nos músculos, exercitando socos, chutes e pontapés, ou até assassinato de algum torcedor incauto. E ainda tem linchamento e aprisionamento em postes, que se assemelham aos tempos de escravatura, onde, amarrado no tronco, o escravo levava chibatadas, como exemplo para outros que tivessem a mesma intenção de burlar as leis dos “senhores”. Mas, daí, veio a Princesa Isabel, e estragou a festa branca do ‘pode tudo’.
Depois de tanto tempo sem Princesa Isabel, o passatempo, agora, é sair espancando mulheres, ladrões, assaltantes, afrodescendentes, pessoas em condição de rua e homossexuais. A moda é queimar ônibus, quebrar vitrines, saquear estabelecimentos comerciais e cargas de caminhões, nada diferente das explosões de caixas eletrônicos, nas agências bancárias. Alguns policiais militares são chamados, para atendimento dessas ocorrências, mas não podem ir, pois estão muito ocupados em alvejar, com ‘balas perdidas’, crianças e adolescentes negros favelados, e recolhendo propinas, ou, então, espancando professores, e brincando com ‘bombas de efeito (i)moral’, em praça pública. Enquanto tudo isso acontece, a desumanidade segue, pelas ruas, com faixas e cartazes exigindo a volta da ditadura (como exigir a volta do que nunca deixou de existir?).
Com cada vez mais força (bruta), a desumanidade é exemplo para os estudantes, que se engalfinham, se arrebentam, dentro e fora das escolas. E a desumanidade toma conta das redes sociais, onde escracha racismo, homofobia e tantos outros inimagináveis preconceitos. Às vezes, quase sempre, a mesma desumanidade violenta, que espanca, tortura e mata, em vias públicas, é aquela que também falsifica gasolina e/ou leite, compra produtos pirateados, ou de receptação. Às vezes, também, sem questionar, a desumanidade julga ser verdade absoluta, qualquer boato criado e compartilhado em rede social. E isso basta para a desumanidade ir à forra, e matar, a pontapés e pauladas, o/a protagonista do dito boato. Nesse caso, não há tempo para sequer pensar em processo judicial – a desumanidade parte logo à aplicação da pena de morte.
Ironicamente, grande parte dessa desumanidade toda sai em defesa dos animais, pela mídia, e até em denúncias formais, em delegacias policiais. Parece que a desumanidade enxerga esses locais (no caso em questão, as delegacias policiais), para atender só denúncias de violência contra animais mesmo. E ainda tem desumanidade que vende e desumanidade que compra atestados médicos e documentos falsos, até animais roubados. Tudo acontece nas vias públicas – nada de fazer escondido (e isso, dizem, é liberdade, democracia).
Diante de tanta carnificina, causada pela desumanidade, o que não pode faltar?... A presença de urubus, claro. Aí, entram os “apresentadores” de programas de televisão. Todo final de tarde é a mesma coisa: sangue, de todos os tipos, contaminados por ódio e vingança, escorre pelas salas da desumanidade, que reclama da violência, e tem orgasmos múltiplos, seduzida pela ‘lábia’ dos apresentadores desses ditos programas policialescos. Quanto a isso, fiquei sabendo de uma pesquisa da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), por todo o País, que registra a empolgação desses ‘senhores da mídia’, que incitam os telespectadores à violência, e apoio à pena de morte. O objetivo será denunciar ao Poder Judiciário, para posteriores julgamentos e condenações – sem linchamento.
...E assim caminha a desumanidade – talvez, para trás, ou em voo livre ao abismo. Mas isso não é problema, nem chega ser motivo de preocupação. Qualquer coisa, o presidente (mimado) da Câmara dos Deputados ressuscita a Lei Áurea, e a coloca em votação, “a toque de caixa”, para que seja extinta, de uma vez por todas – se perder, na primeira votação, continua reenviando a proposta, até conseguir vitória. De “lambuja”, o dito extingue logo a Lei do Ventre Livre, também, para garantir o branco mais branco de ‘coxinhas’, que fazem parte da decoração mais requintada do fascismo contemporâneo. Depois disso, só falta a redução da maioridade penal, com mais manobras na votação da Câmara, em agosto. Não demora muito, e a pena de morte também chega à votação, no Congresso – a galope, obviamente, para muito bem representar, nos cascos, seus defensores.
A realidade é que, apesar de muitos linchadores e simpatizantes desejarem mais e mais violência, definitivamente, a lei da força não vai sobrepor à força da lei. Que só pareça repetição do óbvio – é nisso que acredito.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

“Ora pro nobis”

Não. Não estou no corredor da morte. Eu escolhi não viver outros sonhos, nem pesadelos, senão os meus. Não estou nos Estados Unidos, nem no Irã, no Iraque, na Indonésia, ou na Etiópia, no Paquistão, na Coréia do Sul, ou do Norte, onde pena de morte é 'ordem do dia', prática comum. Não. Estou no mais interior do Brasil, onde sonho os meus sonhos. De mais ninguém. Mas continuo na sala de espera. Enquanto espero a morte chegar, enxergo a vida que faz arder a minha visão estrábica.
Ao meu lado, senta uma senhora com uns oitenta e tantos anos - os cabelos prateados revelam o tempo que ela não esconde. “A senhora é cristã?” - me pergunta a velhinha. Nunca havia pensado nisso, mas, para consolar, de imediato, a simpática idosa, respondo que sim. Enquanto, ansiosa, ela remexe o interior da bolsa, fico pensando o que pode ser cristão, neste mundo onde a maioria quer mesmo parecer quem não é. Tem tanta gente, pelo mundo, matando, em nome de Cristo, Alá, ou sei lá mais quem - às vezes, 'autor desconhecido'. Enquanto isso, eu, na minha pequenez de ser humano, continuo tentando não ser.
Retirando um papel da bolsa, a velhinha me fala: “Com esse jornal, a senhora pode falar com Jesus Cristo”. Eu pego o jornal, em gesto incerto, agradeço, abro o papel, e, para alegria da velhinha, começo a ler, silenciosamente, a “palavra de Jesus Cristo”. Não consigo ir além da segunda linha, mas, em respeito à idosa, mantenho o olhar atento no papel. “Converse com Jesus Cristo, que tem todas as respostas”, ainda diz a velhinha, menos formal, mais animada.
Preocupada em manter o olhar focado no papel, mesmo sem lê-lo, fico pensando que respostas seriam essas que a carismática senhora teria encontrado, naquele papel. Eu, que vivo à procura de cada vez mais perguntas. Que conversa eu poderia ter, hoje, depois desse tempo nascida, com Jesus Cristo?... Não, nem quero pensar sobre religiões e fé. A fé de cada um sempre foi inquestionável - merece todo respeito. Quanto às religiões, pra mim, pelo menos, são cada vez mais questionáveis, por que, na história do tempo, são construídas e mantidas por seres humanos - imperfeitos, falíveis, medrosos, oportunistas, também. Não consigo enxergar “caminho, verdade e vida”, por onde desfilam vaidades, orgulhos, egoísmos, e trapaças. Tem lugar pra tudo. Religião, na minha visão estrábica, não deveria servir de palco de encenações e logros. Se realmente tem lugar pra todos os gostos e desgostos, os mal intencionados poderiam evacuar os ambientes de fé - dinheiro fácil pode haver em outro lugar (os canais de televisão ensinam o passo-a-passo, diariamente, nos noticiários sensacionalistas). Há tanta gente dizendo que salvou-se de um acidente, “graças a Deus” – enquanto eu questiono: Será que é, também, por “graça de Deus”, que tantos morrem em acidentes?...
... E ainda ouço a velhinha repetir: “A verdade de Jesus Cristo, vizinha (me torno vizinha dela, por parecer ler o papel que me deu), é que vivemos o final dos tempos, por que o inferno se aproxima”... Lamento dizer-lhe, bondosa senhora, o inferno tem sido escolha diária de cada um, da maioria, e, por isso mesmo, está sendo construído, com requinte, por todo lugar - nas vidas pública e privada. O fim dos tempos se arrasta, senhora, de mãos dadas com o inferno, pelas ruas, linchando a realidade, devorando nossos sonhos e o que ainda sabemos sobre o mundo humano. Ore bastante, “ora pro nobis”, fiel cristã, e mantenha os olhos bem fechados, para, ao contrário de mim, continuar sem perguntas.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Confirmado: o Brasil continua maior que o umbigo


Apesar da campanha aberta, feita pelo próprio presidente da Câmara dos Deputados, o plenário de hoje à noite não teve os 308 votos necessários à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171. Confirmado: o Brasil continua maior que o umbigo. No final da sessão da Câmara, depois de tantos absurdos vingativos, defendidos em plenário, a derrota foi da hipocrisia e da injustiça, e o caminho da pena de morte foi, mais uma vez, obstruído.
Bravamente, deputados federais sensatos, de diversas bancadas, chegaram até a contrapor-se à decisão do próprio Partido, em respeito ao direito à vida dos adolescentes de 16 e 17 anos. Com todas as caras feias, dos que acreditavam destruir, finalmente, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que, este ano, completa 25 anos, a redução da idade penal – de 18 para 16 anos – foi rejeitada pela Câmara dos Deputados. Por falta de cinco votos, os adolescentes brasileiros foram absolvidos da guilhotina imposta pela sociedade imediatista e hipócrita, que, conforme pesquisa, quer o encarceramento dos adolescentes, retirando-lhes qualquer possibilidade de vida digna.
Disso tudo, resta o que a maioria não quer pensar: Se aos governos cabe oportunizar políticas públicas, para o desenvolvimento integral das crianças e dos adolescentes, à sociedade caberia, na mesma proporção de responsabilidade, respeitar os direitos dos cidadãos, principalmente, daqueles em condição de maior vulnerabilidade.
Por favor, não venham com discursos de que somos todos iguais – não somos, e, pior que isso, todos sabemos, mas poucos reconhecemos. Quando se pensa em oportunidades, então, as diferenças aumentam ainda mais. Isso foi comprovado, durante a sessão de hoje, na Câmara dos Deputados, quando discursos infames e separatistas, de discriminação descomunal, foram ao microfone, enquanto umbigos inchavam, inflamados pelo ódio e pela vingança, representando outros tantos umbigos.
Nossas crianças e nossos adolescentes foram salvos da guilhotina da redução da maioridade penal, no Brasil. Desta vez. Daqui a pouco, outras guilhotinas (mais afiadas) serão montadas, no picadeiro. Por quê? Simplesmente, por que alguém tem de pagar a conta do desgoverno, na aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, da hipocrisia social, que se acumula debaixo dos tapetes vermelhos (de sangue?), onde só pisam “homens e mulheres de bem”.

De olho