quinta-feira, 30 de julho de 2015

Assim caminha a desumanidade (in terra brasilis)

Honduras? El Salvador? Costa do Marfim? Afeganistão? Que nada! Esses, até que são países com altos índices de violência, mas falta estímulo, motivação mesmo. Nesse ranking, o Brasil fica em 19º colocação. Mas a desumanidade brasileira, ao que parece, até aceita o 3º lugar, nos Jogos Pan-americanos (ninguém bateu panelas, nas vias públicas), mas não se conforma com o 19º, na violência, e quer maior destaque mundial, neste quesito. Nada de esperar prisão, julgamento. A desumanidade nacional – a mesma que quer, de qualquer jeito, redução da idade penal e pena de morte – faz “justiça com as próprias mãos”, à espera de um minuto e meio de fama, na mídia, nas redes sociais. E acaba recebendo aplausos dos fãs, cada vez mais fervorosos.
Os noticiários já nem mais divulgam, nas manchetes, que a violência se multiplica, por todo o Brasil. Banal demais. Para animar os estádios, volta e meia, a desumanidade apronta a maior quebradeira, só para dar uma treinadinha nos músculos, exercitando socos, chutes e pontapés, ou até assassinato de algum torcedor incauto. E ainda tem linchamento e aprisionamento em postes, que se assemelham aos tempos de escravatura, onde, amarrado no tronco, o escravo levava chibatadas, como exemplo para outros que tivessem a mesma intenção de burlar as leis dos “senhores”. Mas, daí, veio a Princesa Isabel, e estragou a festa branca do ‘pode tudo’.
Depois de tanto tempo sem Princesa Isabel, o passatempo, agora, é sair espancando mulheres, ladrões, assaltantes, afrodescendentes, pessoas em condição de rua e homossexuais. A moda é queimar ônibus, quebrar vitrines, saquear estabelecimentos comerciais e cargas de caminhões, nada diferente das explosões de caixas eletrônicos, nas agências bancárias. Alguns policiais militares são chamados, para atendimento dessas ocorrências, mas não podem ir, pois estão muito ocupados em alvejar, com ‘balas perdidas’, crianças e adolescentes negros favelados, e recolhendo propinas, ou, então, espancando professores, e brincando com ‘bombas de efeito (i)moral’, em praça pública. Enquanto tudo isso acontece, a desumanidade segue, pelas ruas, com faixas e cartazes exigindo a volta da ditadura (como exigir a volta do que nunca deixou de existir?).
Com cada vez mais força (bruta), a desumanidade é exemplo para os estudantes, que se engalfinham, se arrebentam, dentro e fora das escolas. E a desumanidade toma conta das redes sociais, onde escracha racismo, homofobia e tantos outros inimagináveis preconceitos. Às vezes, quase sempre, a mesma desumanidade violenta, que espanca, tortura e mata, em vias públicas, é aquela que também falsifica gasolina e/ou leite, compra produtos pirateados, ou de receptação. Às vezes, também, sem questionar, a desumanidade julga ser verdade absoluta, qualquer boato criado e compartilhado em rede social. E isso basta para a desumanidade ir à forra, e matar, a pontapés e pauladas, o/a protagonista do dito boato. Nesse caso, não há tempo para sequer pensar em processo judicial – a desumanidade parte logo à aplicação da pena de morte.
Ironicamente, grande parte dessa desumanidade toda sai em defesa dos animais, pela mídia, e até em denúncias formais, em delegacias policiais. Parece que a desumanidade enxerga esses locais (no caso em questão, as delegacias policiais), para atender só denúncias de violência contra animais mesmo. E ainda tem desumanidade que vende e desumanidade que compra atestados médicos e documentos falsos, até animais roubados. Tudo acontece nas vias públicas – nada de fazer escondido (e isso, dizem, é liberdade, democracia).
Diante de tanta carnificina, causada pela desumanidade, o que não pode faltar?... A presença de urubus, claro. Aí, entram os “apresentadores” de programas de televisão. Todo final de tarde é a mesma coisa: sangue, de todos os tipos, contaminados por ódio e vingança, escorre pelas salas da desumanidade, que reclama da violência, e tem orgasmos múltiplos, seduzida pela ‘lábia’ dos apresentadores desses ditos programas policialescos. Quanto a isso, fiquei sabendo de uma pesquisa da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), por todo o País, que registra a empolgação desses ‘senhores da mídia’, que incitam os telespectadores à violência, e apoio à pena de morte. O objetivo será denunciar ao Poder Judiciário, para posteriores julgamentos e condenações – sem linchamento.
...E assim caminha a desumanidade – talvez, para trás, ou em voo livre ao abismo. Mas isso não é problema, nem chega ser motivo de preocupação. Qualquer coisa, o presidente (mimado) da Câmara dos Deputados ressuscita a Lei Áurea, e a coloca em votação, “a toque de caixa”, para que seja extinta, de uma vez por todas – se perder, na primeira votação, continua reenviando a proposta, até conseguir vitória. De “lambuja”, o dito extingue logo a Lei do Ventre Livre, também, para garantir o branco mais branco de ‘coxinhas’, que fazem parte da decoração mais requintada do fascismo contemporâneo. Depois disso, só falta a redução da maioridade penal, com mais manobras na votação da Câmara, em agosto. Não demora muito, e a pena de morte também chega à votação, no Congresso – a galope, obviamente, para muito bem representar, nos cascos, seus defensores.
A realidade é que, apesar de muitos linchadores e simpatizantes desejarem mais e mais violência, definitivamente, a lei da força não vai sobrepor à força da lei. Que só pareça repetição do óbvio – é nisso que acredito.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

“Ora pro nobis”

Não. Não estou no corredor da morte. Eu escolhi não viver outros sonhos, nem pesadelos, senão os meus. Não estou nos Estados Unidos, nem no Irã, no Iraque, na Indonésia, ou na Etiópia, no Paquistão, na Coréia do Sul, ou do Norte, onde pena de morte é 'ordem do dia', prática comum. Não. Estou no mais interior do Brasil, onde sonho os meus sonhos. De mais ninguém. Mas continuo na sala de espera. Enquanto espero a morte chegar, enxergo a vida que faz arder a minha visão estrábica.
Ao meu lado, senta uma senhora com uns oitenta e tantos anos - os cabelos prateados revelam o tempo que ela não esconde. “A senhora é cristã?” - me pergunta a velhinha. Nunca havia pensado nisso, mas, para consolar, de imediato, a simpática idosa, respondo que sim. Enquanto, ansiosa, ela remexe o interior da bolsa, fico pensando o que pode ser cristão, neste mundo onde a maioria quer mesmo parecer quem não é. Tem tanta gente, pelo mundo, matando, em nome de Cristo, Alá, ou sei lá mais quem - às vezes, 'autor desconhecido'. Enquanto isso, eu, na minha pequenez de ser humano, continuo tentando não ser.
Retirando um papel da bolsa, a velhinha me fala: “Com esse jornal, a senhora pode falar com Jesus Cristo”. Eu pego o jornal, em gesto incerto, agradeço, abro o papel, e, para alegria da velhinha, começo a ler, silenciosamente, a “palavra de Jesus Cristo”. Não consigo ir além da segunda linha, mas, em respeito à idosa, mantenho o olhar atento no papel. “Converse com Jesus Cristo, que tem todas as respostas”, ainda diz a velhinha, menos formal, mais animada.
Preocupada em manter o olhar focado no papel, mesmo sem lê-lo, fico pensando que respostas seriam essas que a carismática senhora teria encontrado, naquele papel. Eu, que vivo à procura de cada vez mais perguntas. Que conversa eu poderia ter, hoje, depois desse tempo nascida, com Jesus Cristo?... Não, nem quero pensar sobre religiões e fé. A fé de cada um sempre foi inquestionável - merece todo respeito. Quanto às religiões, pra mim, pelo menos, são cada vez mais questionáveis, por que, na história do tempo, são construídas e mantidas por seres humanos - imperfeitos, falíveis, medrosos, oportunistas, também. Não consigo enxergar “caminho, verdade e vida”, por onde desfilam vaidades, orgulhos, egoísmos, e trapaças. Tem lugar pra tudo. Religião, na minha visão estrábica, não deveria servir de palco de encenações e logros. Se realmente tem lugar pra todos os gostos e desgostos, os mal intencionados poderiam evacuar os ambientes de fé - dinheiro fácil pode haver em outro lugar (os canais de televisão ensinam o passo-a-passo, diariamente, nos noticiários sensacionalistas). Há tanta gente dizendo que salvou-se de um acidente, “graças a Deus” – enquanto eu questiono: Será que é, também, por “graça de Deus”, que tantos morrem em acidentes?...
... E ainda ouço a velhinha repetir: “A verdade de Jesus Cristo, vizinha (me torno vizinha dela, por parecer ler o papel que me deu), é que vivemos o final dos tempos, por que o inferno se aproxima”... Lamento dizer-lhe, bondosa senhora, o inferno tem sido escolha diária de cada um, da maioria, e, por isso mesmo, está sendo construído, com requinte, por todo lugar - nas vidas pública e privada. O fim dos tempos se arrasta, senhora, de mãos dadas com o inferno, pelas ruas, linchando a realidade, devorando nossos sonhos e o que ainda sabemos sobre o mundo humano. Ore bastante, “ora pro nobis”, fiel cristã, e mantenha os olhos bem fechados, para, ao contrário de mim, continuar sem perguntas.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Confirmado: o Brasil continua maior que o umbigo


Apesar da campanha aberta, feita pelo próprio presidente da Câmara dos Deputados, o plenário de hoje à noite não teve os 308 votos necessários à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 171. Confirmado: o Brasil continua maior que o umbigo. No final da sessão da Câmara, depois de tantos absurdos vingativos, defendidos em plenário, a derrota foi da hipocrisia e da injustiça, e o caminho da pena de morte foi, mais uma vez, obstruído.
Bravamente, deputados federais sensatos, de diversas bancadas, chegaram até a contrapor-se à decisão do próprio Partido, em respeito ao direito à vida dos adolescentes de 16 e 17 anos. Com todas as caras feias, dos que acreditavam destruir, finalmente, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que, este ano, completa 25 anos, a redução da idade penal – de 18 para 16 anos – foi rejeitada pela Câmara dos Deputados. Por falta de cinco votos, os adolescentes brasileiros foram absolvidos da guilhotina imposta pela sociedade imediatista e hipócrita, que, conforme pesquisa, quer o encarceramento dos adolescentes, retirando-lhes qualquer possibilidade de vida digna.
Disso tudo, resta o que a maioria não quer pensar: Se aos governos cabe oportunizar políticas públicas, para o desenvolvimento integral das crianças e dos adolescentes, à sociedade caberia, na mesma proporção de responsabilidade, respeitar os direitos dos cidadãos, principalmente, daqueles em condição de maior vulnerabilidade.
Por favor, não venham com discursos de que somos todos iguais – não somos, e, pior que isso, todos sabemos, mas poucos reconhecemos. Quando se pensa em oportunidades, então, as diferenças aumentam ainda mais. Isso foi comprovado, durante a sessão de hoje, na Câmara dos Deputados, quando discursos infames e separatistas, de discriminação descomunal, foram ao microfone, enquanto umbigos inchavam, inflamados pelo ódio e pela vingança, representando outros tantos umbigos.
Nossas crianças e nossos adolescentes foram salvos da guilhotina da redução da maioridade penal, no Brasil. Desta vez. Daqui a pouco, outras guilhotinas (mais afiadas) serão montadas, no picadeiro. Por quê? Simplesmente, por que alguém tem de pagar a conta do desgoverno, na aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, da hipocrisia social, que se acumula debaixo dos tapetes vermelhos (de sangue?), onde só pisam “homens e mulheres de bem”.

De olho