domingo, 27 de setembro de 2015

Os seus problemas acabaram!

Aqui, você não encontrará “produtos tabajara”, mas, com certeza, os seus problemas acabaram!
Cansado de ser humilhado, mal visto, mal falado, mal tudo?
Agora, você tem um mundo espetacular, onde pode receber só flores e aplausos.
Ninguém, com quem você convive, reconhece seus valores, esforço e dedicação?
No mundo espetacular, você pode receber reconhecimento e atenção, o tempo todo, todos os dias, anos, semanas, meses.
Você não aguenta mais aqueles familiares chatos e amigos fora de moda?
No mundo espetacular, você pode simplesmente mantê-los presentes, em fotos, até o dia que o silêncio deles, nas imagens, causará tédio, e você simplesmente poderá deletar as fotos.
O sexo com o/a parceiro/a anda borocoxô?
No mundo espetacular, você pode encontrar inimagináveis estímulos sexuais, sem o perigo de DSTs, sem até saber com quem você está se relacionando.
Você não gosta de ler, e, por isso, não escreve bem?
No mundo espetacular, você pode dizer que ama ler (todo mundo acredita), e pode copiar e disseminar citações que fazem sucesso – se não souber a autoria, basta colocar ‘Chico Xavier”, que sempre funciona.
Você sempre foi omisso, nunca manifestou opinião?
Agora, no mundo espetacular, você pode seguir e apoiar a opinião da maioria, sem pensar.
Você sempre gostou de fofocas, mas sentia vergonha em compartilhá-las?
No mundo espetacular, o que mais tem é fofoca – sinta-se em casa.
Você gosta de aventuras – sexuais, psicológicas, políticas, etc?
Só mesmo no mundo espetacular, para você aventurar-se sem parar.
Você tem medo da vida, e, por isso, não vive?
O mundo espetacular está cheio de gente semelhante a você – lá, todos vivem a vida que bem desejam, e, melhor ainda, nunca envelhecem.
Você é psicopata (frio, calculista, mentiroso contumaz, egocêntrico, megalômano), em estado leve, moderado, ou grave, mas não admite, nem para si mesmo?
Dizem que o mundo espetacular é terreno fértil da psicopatia, que pode tudo, sem limites, na busca de prazer, status e poder – fique à vontade.
Está sentindo falta de amigos, familiares, pessoas próximas que não conversam mais com você?
Provavelmente, estão todos no mundo espetacular, esperando você, que já é conhecido deles, sem novidades, ou surpresas. O mundo espetacular oferece muito mais, sempre mais.
Você pensa pouco, nem sabe que pensa o pouco que pensa?
No mundo espetacular, você não precisa pensar – nem um pouco. Basta ‘curtir’ o que os outros dizem pensar, e fica tudo bem.
Você está desempregado, não tem o que fazer?
O mundo espetacular sempre tem uma vaguinha para funcionário permanente. Você trabalha de graça, contribui com o grande espetáculo, que lhe dá a doce ilusão de fazer parte de alguma coisa, que, na realidade, ninguém sabe o que é.
Você tem dificuldade de fazer e manter amizades, por não ser empático?
No mundo espetacular, você pode ter milhões de amigos, todos interessados em você, preocupados com você, torcendo por você, admirando você, o tempo todo – seja você quem fingir ser.
Está sem perspectiva de ganhar uma grana fácil e rápida?
O mundo espetacular oferece oportunidade de você criar campanhas de ajuda financeira (para ajudar bichinhos emociona), que sempre arrecadam bom dinheiro. Mas tenha cuidado, pois tem gente que vai atrás do endereço indicado, nessas campanhas “salve o cãozinho”, não encontra sequer a casinha do cachorro, no terreno baldio, e denuncia ao público.
Depois de você conhecer, e passar a viver só no mundo espetacular, não vai mais querer saber de vida humana, com dores e pequenas alegrias. Os seus problemas acabaram mesmo! As redes sociais são as sócias proprietárias do grande espetáculo! Você não quer ficar pra trás, né?... Nem precisa enviar psicografia, do lado de lá...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Psicopatia sem dó

Pensar só em si mesmo. Querer fazer e participar somente do que lhe dá prazer, status e poder. Criar imagens de si mesmo, sem falhas e características de maldade, ou ignorância, para ser amado e idolatrado. Tudo isso parece ser caraterístico do individualismo, que predomina nos tempos atuais. Pode até ser – nem sempre.
Às vezes, a psicopatia se esconde tanto, nessas pessoas egocêntricas, que ninguém identifica – nem elas mesmas. Nascem, são estimuladas pela sociedade, e até morrem assim: sem diagnóstico. Por que psicopatia não é doença – consequentemente, não tem tratamento, nem cura. Psicopatia, dá pra dizer isso, seria um desvio de caráter, de personalidade. Simplesmente, no caso, a criatura não enxerga o outro, não há qualquer empatia nela.
Não havendo patologia, a psicopatia apresenta sintomas sérios, e consequências maiores ainda. Tenho me dedicado, há algum tempo, a estudar a respeito. O que percebi, sem conclusão, até aqui, é que o caso é mais sério do que se possa imaginar. Por isso mesmo, duvido muito que algum ser humano vivente não tenha conhecido, ou convivido, com um psicopata.
Quantas vezes, passamos noites em claro, lembrando e julgando nossos próprios atos, assumindo a responsabilidade que, parece, nos cabe, no que diz respeito a relacionamentos. Nem sempre, a responsabilidade pelos ‘acidentes de percurso’, numa relação, é nossa. O outro, seja quem for, pode até nos imputar o título de causadores da tragédia, o que nos toca, profundamente, quando somos exageradamente autocríticos. Mas não podemos concluir que somos os piores dos piores, só por que alguém resolve acabar com a nossa ‘raça’. Às vezes, nem existe culpa, ou culpado(s). O que sempre existe é escolha – e consequência, claro.
Certamente, nem toda atitude egoísta pressupõe (mais) um caso de psicopatia. Fique tranquilo, se, na maior parte de sua vida, você prioriza você mesmo, por motivos de medo, insegurança, autoproteção, ou seja lá qual for a justificativa que você usa para si mesmo. O psicopata, pelo que já li, não quer nem saber o que pode existir além do próprio umbigo, e, por isso mesmo, não pensa no outro. Sempre repito que não há como colocar-se no lugar do outro, que está completamente ocupado (pelo outro, obviamente). Mas sempre há um jeito de, através de nossas semelhanças humanas, sabermos o que faz bem, o que faz mal, perto de nós, ou na Ilha de Java, ou no Azerbaijão – desde a mais tenra idade, começamos a compreender isso.
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva é, a meu ver, quem mais esclarece sobre psicopatia. Ela é autora de diversos livros, com o objetivo de chamar a atenção dos leitores sobre manifestações humanas distorcidas e doentias. Um desses livros chama-se “Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado”. Lembrando que o indivíduo carrega, na própria genética, as características de psicopatia, Ana Beatriz esclarece que “a índole da pessoa já vem, geneticamente, com essa tendência à perversidade”. No livro, ela cita casos, onde crianças não manifestam compaixão, quando maltratam animais, fazem brincadeiras perversas com coleguinhas, e sentem prazer de ver o outro cair, se machucar, etc. A psiquiatra alerta que, somente na infância, há condições de minimizar os efeitos da psicopatia, impondo limites.
Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva explica, ainda, que, quando se torna adulto, “todo psicopata é megalomaníaco, gosta de exibir a sua esperteza, e está sempre se vitimizando, contando histórias tristes, e se dizendo vítima da sociedade”. Outra característica dos psicopatas, conforme a psiquiatra, é que “são sempre pessoas simpáticas, gentis, educadas, até você estar fazendo tudo o que elas querem. No momento em que você começa a deixar claro que está percebendo o jogo dele, o psicopata pode até se tornar violento. Então, psicopatas são pessoas que mudam o comportamento, conforme são revelados. Uma outra característica fundamental é a ausência de culpa. Essas pessoas nunca se arrependem do que fazem”. Nem todos os psicopatas são violentos; nem todos os violentos são psicopatas. A psicopatia perpassa pelos níveis leve, moderado e grave.
A psiquiatra destaca, ainda, que “a internet abriu um grande campo, para que a psicopatia pudesse se proliferar. Eu costumo dizer que existe um porão de psicopatas atuando na internet, hoje, existe mesmo, existem comunidades que você não acredita, na internet. E isso se fez muito, por que eles se valiam do anonimato. Um psicopata, no anonimato, pode ser quem ele quer, quem o outro quer que ele seja, e ele – o psicopata – sabe fazer isso, melhor do que ninguém, por que é o verdadeiro grande artista da vida, por que ele se transforma naquilo que as pessoas querem. Você ser camaleão (termo dado ao psicopata, na Espanha), num universo sem leis, sem regras, onde o que vale é o que você diz, onde você pode forjar e fingir, a internet é um prato cheio”.
Ana Beatriz aconselha a gente a não dar tempo de detectar o grau de psicopatia, e manter distância: “Nunca ache que você vai mudar um psicopata. Nunca menospreze o poder de sedução de um psicopata: ele vai te seduzir. A melhor coisa é se afastar”. Explica a psiquiatra: “Os psicopatas nascem com um cérebro diferente. Os seres humanos têm o chamado sistema límbico, a estrutura cerebral responsável por nossas emoções. É uma espécie de central emocional, o coração da mente. Nos psicopatas, o sistema límbico não funciona”. Ana Beatriz chama a nossa atenção: “Há algumas características básicas, entre os psicopatas: falam muito de si mesmos, mentem, e não se constrangem quando descobertos, têm postura arrogante e intimidadora, por um lado, mas são charmosos e sedutores, por outro. Costumam contar histórias tristes, em que são heróis e generosos”.
Essa psicopatia sem dó deve nos fazer pensar, e repensar, não só sobre os relacionamentos que mantemos, mas as nossas próprias atitudes. Afinal, somos todos humanos. Por isso, já que (ainda) não nascemos com dispositivo detector de psicopatia, fiquemos atentos às lábias sedutoras, egoísticas e egóicas. Depois da disparada fuga emergencial, podemos até pensar em participar da Corrida Internacional de São Silvestre.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Sua história de vida daria um livro

Não conheço você (não conheço nem a mim mesma), mas sei, antes de tudo e de mais nada, que a sua história de vida daria um livro. Ou mais que um livro – uma biblioteca, talvez. Por que sei isso? Por que toda vida humana é única, e - por isso e apesar de - especial. Milhões de pessoas podem ser atingidas pelo mesmo tsunami, mas nem duas terão e guardarão a mesma visão da catástrofe. Cada qual lembrará um tsunami único, que modificará, ou não, a vida que será vivida, a partir de.
Não me refiro, aqui, a genoma. Vou além, ou aquém, disso. Existem peculiaridades, em cada personalidade, que surpreendem até a genética. Como escreveu Sartre, eu sou o resultado do que escolhi fazer com o que sabia ser de mim. Por isso, o tataravô do meu bisavô, e os demais familiares, pouco têm a ver com o que me torno, a cada dia, por escolha minha.
Também, discordo de quem diz que cada dia de vida é uma página em branco, à espera do que desejamos escrever. Na minha visão estrábica, não há como você apagar quem já foi, o que fez, vida bem, ou mal, escrita, simplesmente virando a página. A gente é quem é, sempre a partir do que foi, e escolheu ser. Mesmo que houvesse essa virada (radical) de página, a história de vida jamais seria mesmo um recomeço, pois que somos resultado do que fizemos com o que já fomos. Tem gente que escolhe ser melhor do que já foi, e outros, piores. É escolha de vida, independe de condição social, ou de qualquer outra imagem que se queira manter.
À revelia das postagens nas redes sociais, existe uma história de vida (única) que daria um livro, sem plágio. Depois (quem sabe?), algum cineasta, tomando conhecimento do livro, ousasse fazer um filme, que levaria milhões às salas de cinema, e, aí, sim, causasse comentários nas redes sociais. Não há novidade nisso, pois muitos fizeram, fazem e farão o mesmo, com sucesso garantido. Às vezes, o livro e o filme são tão realistas, que poucos acreditam tratar-se de biografia mesmo. Talvez, a vida real seja insuportavelmente nua, enquanto a imagem dela exiba as cores e flores da moda. E ainda há a singularidade de cada olhar. Por isso, o melhor mesmo é a autobiografia – como o próprio protagonista se vê, já que a mãe dele enxerga-o diferente.
Por mais que alguém tente igualar-se àqueles que considera semelhantes, ainda assim, prevalecerão singularidades. O olhar de cada um é sempre diferente do outro, que processa o que enxerga, a partir das vivências (íntimas) que já teve. Não há como igualar, ou igualar-se. No máximo, nos assemelhamos, por gostos, ou desgostos, características de caráter, personalidade, etc. Nada além disso. Mas, mesmo assim, continuamos sendo diferentes dos demais.
Se não somos iguais, podemos até seguir a moda, vestir o uniforme da maioria, seguir a boiada que nada questiona, mas a nossa história de vida continuará sendo única. Por outro lado, podemos economizar energias, já que não precisamos nos esforçar para sermos diferentes. Como também não poderia ser diferente, teremos, cada um, a morte única, especial. Jamais existiu, ou existirá, alguém igualzinho a cada um de nós. E cada livro, dessa biblioteca infindável chamada vida, será único. A história que cada um conta, de um jeito, ou de outro, e deixa (bem ou mal) registrada, depende de cada escolha que faz, por toda a vida, que ninguém sabe quando acaba, se acaba mesmo.
Em tempo: São essas histórias de vida que eu tento traduzir à minha compreensão, a cada instante em que escrevo a história da minha própria vida – também única, especial. Sem qualquer ironia.

De olho